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Os jardins que não amei

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Minha amiga posta uma foto de um de seus jardins de apartamento que não deram certo. A foto me transporta na hora para todas as minhas plantas mortas, jogadas, não sem dó, em sacolas de lixo e despejadas rápido na lixeira mais próxima. Para esquecer.
Dizem que quando a gente não cuida bem de uma planta, fica difícil manter um bom relacionamento amoroso. Falo isso para minha amiga e ela quase morre. Assim como ela, não sou boa com tentativas de jardins. Já matei um sem-fim de plantas, nunca levei adiante o plano da horta e, no frondoso jardim da casa materna, o máximo que contribui foi cortando a grama (nem sempre linear).
Penso que a relação entre jardins e amores tenha a ver com o cultivo. E cultivo, com paciência. Nas minhas bagagens lembro-me sempre de plantas já feitas, já floridas, só devendo ser regadas e contempladas. Mas cuidar parece tão obscuro... Minha tentativa atual é um vaso de pimenteira que nem sempre sei se está morrendo. Às vezes eu fico na sala observando o vaso, esperando que ele me devolva um sinal milagroso – “sim, está bom de água”, “tire-me do deserto dessa janela, por favor!”, “onde você esteve nos últimos dias? quase morri de sede!”. A planta não me devolve nada e, apesar de não ressecar, fico em dúvida se ela está feliz.
Teimo bravamente em não tirar uma foto do vaso e enviar para minha mãe – a melhor jardineira da vida – para perguntar se está tudo certo. Insisto em cultivar a minha percepção, ou meu feeling, que também sabe – ou deveria saber, ou um dia vai aprender – a cuidar.
Lembro-me de outra amiga se queixando que não era boa em fazer bolos e eu devolvendo que essa coisa de ser boa ou não ser não existia. A gente insiste. Foi preciso eu fazer uma porrada de bolos, a maioria pior que sola de sapato, para eu acertar. Para eu ganhar confiança, ganhar uns truquezinhos que só vêm com a experiência, ganhar elogios. Cozinhar, assim como cultivar, também tem a ver com paciência. E não só com os bolos, mas com o arroz e feijão, ou com a carne de panela, foi preciso estar sozinha. Foi preciso estar faminta.
Não sei se minha amiga aprendeu a fazer bolos, mas na arte de cozinhar eu ainda insisto na prática. Hoje sei o meu tanto de salgar, sei os temperos que gosto, os que dão certo. No começo lembro que suava frio quando via na receita a linha quase tão sombria quanto uma sentença: “misture até dar o ponto”. Que ponto é esse, Jesus? Que ponto é esse que é tão subjetivo e tão impreciso para não ser mais detalhado decentemente na receita? Como é que eu vou saber que eu cheguei na porra do ponto, me diz?
Em se plantar também cavo uma prática. Coloco meu vaso de pimenteira na janela onde bate sol e o tiro em momentos aleatórios, quase que como instinto. Despejo água em doses diferenciadas, a depender do humor do dia, o meu ou o da pimenteira. Eu cuido dela mesmo sem receita. Eu inventei um ponto.
Assim como não existia resposta para o ponto da receita, assim como a planta não me diz nada, acho que diante do cozinhar e do cultivar o relacionamento amoroso tem sempre um agravante. Existe um outro. Capaz de esbravejar quando falta água, capaz de assinalar quando se passou do ponto. E é aí que considero os bolos embatumados e as plantas ressequidas nos sacos plásticos o grande estágio.
Ao não amar os jardins, ao não se lançar nos experimentos gastronômicos, mesmo com o prenúncio do desastre, perco, ou perdemos, a enorme oportunidade de viver uma experiência única e no singular. De paciência, de cultivo, de cuidado. De transformação mágica, sensorial, libertadora.
Cozinhamos quase sempre solitários, damos água e amor a uma plantinha recebendo quase que só como recompensa vê-la crescendo saudável. Podemos ganhar elogios com os pratos ou receber corações na foto da plantinha. Mas o ato, assim como escrever, continua solitário. E a surpresa que quase sempre vem com as duas experiências, as intempéries, o aguçamento dos sentidos, o doar-se, mesmo que cozinhando somente para si, são atos de amor. E um grande passo para o cultivo e a sabedoria tão necessários para o se relacionar.
Meu próximo passo é cultivar um novo amor. Já comprei um vaso, dois quilos de terra e algumas sementes. Pedi conselhos para minha melhor jardineira e devo me lançar no desafio. Quero semear para ter a paciência de aguardar meu novo amor nascer e crescer. Para então regá-lo, percebê-lo, vê-lo sempre a se renovar. Se tudo der certo, se meu jardim vingar e florescer, prometo fazer um jantar para comemorar.

Foto da @cristalhui

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Confraria das mulheres incríveis

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Andava pela rua de casa esses dias, rodando minhas chaves entre os dedos. Nesse pequeno movimento, dei-me conta do quanto me é importante carregar essas chaves. Sei que em qualquer casa que se preze cada integrante tem o seu próprio chaveiro, mas, para mim, as chaves em mãos representam o controle da minha vida. Minha autonomia como mulher, independente, que paga as contas da casa e tem de resolver tudo, de um jeito ou de outro.
Minha família mora há quase 1.000 quilômetros de distância. Eu os vejo duas vezes por ano, com sorte uma vez a mais que isso. Tenho aqui em São Paulo uma lista gigante de amigos, de todas as tribos e religiões, de modo que nunca me sinto sozinha na cidade tão grande como a lista de amigos. Na cidade que escolhi para mim. Tenho um emprego, uma rotina. Tenho problemas que escapam a essa rotina. Da geladeira que quebra, dos serviços que contrato e descontrato, das roupas que estendo no varal, no varal que cai, dos produtos que preciso repor nos armários. É mais fácil administrar tudo isso numa casa de duas pessoas que mal param em casa, mas, lembrando das chaves rodando nos dedos, se não resolvemos (eu e a roommate) essas pequenas pendências do cotidiano, a casa não funciona, a engrenagem da rotina se rompe.
Soma-se aí o trabalho, que sempre traz consigo problemas de toda ordem, probleminhas e problemões, mais o fato de se habitar numa cidade de dimensões intergaláticas, o que torna viver um desgastante diário. Ah, se não fosse aquela cerveja no final da semana, dividida com a amiga que está nesse mesmo barco que você. O barco que incrivelmente nunca afunda, independente das intempéries.
Foi numa mesa de bar com uma amiga que notei o quanto ela era incrível. E o quanto eu possuía amigas e mais amigas incríveis. Claro que tenho amigos e mais amigos também estupendos, mas me detenho às mulheres que, como eu, vivem nessa angustiante rotina de ter que resolver tudo com os picos de humor que lhes são peculiar. A maioria, como eu, rodando as chaves das suas vidas entre os dedos, resolvendo tudo aquilo que teima em dar errado, quebrando as cabeças em seus empregos, engolindo seus sapos diários e dando a cara a sopapos em relacionamentos muitas vezes furados.
Na mesa de bar, ouvindo minha amiga desfiar a longa lista de reclamações, que incluía o fato de não ser respeitada em sua posição no trabalho por ser mulher, lembrei que outra amiga chorava a sem fim ilusão de um amor que passou e não cansava de passar, pisando fundo como que com salto agulha o que restava dela tentando se reerguer das derrotas passadas. E me veio à cabeça que outra amiga, por telefone, ressaltava para mim seus defeitos, tantos, que me restava balançar a cabeça para escapar-me daquela sua imagem torta e lembrá-la das suas incontáveis qualidades, que me fazem admirá-la, sempre e tanto.
Todas mulheres incríveis. Junto com elas vou reunindo na minha lista de amigas outras tantas. Professoras, empresárias, estudantes, jornalistas, advogadas, psicólogas, fotógrafas, bancárias, vendedoras, publicitárias, naturólogas, as que trabalham no negócio da família. Profissionais de sucesso ou ainda juntando trocados para pagar as contas no fim do mês. Mas todas mulheres incríveis. Esposas, namoradas, solteiras, tendo suas crises de relacionamento ou procurando o amor de suas vidas, mesmo que nunca admitam em público acreditar nessas baboseiras. Com espaço vago ou não em seu coração, mulheres incríveis. Lutadoras, grevistas, aquelas que se dedicam a uma causa, a um ideal, aquelas que não conseguem pertencer a grupo nenhum, as que não se engajam, as que veem a passeata de longe, as que erguem cartazes em punho, aquelas que abrem uma ONG, aquelas que têm um objeto de estudo para a vida inteira e são aplaudidas pela dedicação em vida. As que passam a vida inteira buscando o que as move. As que vivem longe da família, as que constroem a própria. As que encontraram o emprego dos sonhos, as que montaram a própria empresa, aquelas que não sabem o que querem e sabem que isso não é vergonha alguma aos 30. Talvez não vão saber a vida toda.
O que há de comum entre as minhas mulheres incríveis? Elas não se dão conta do quanto são incríveis. Do quanto se desdobram pelos dias, do quanto seus insights e sua sensibilidade transformam a vida de quem está perto delas. Do quanto o seu abraço ou a opinião daquele filme que acabou de sair e ela baixou pirata pode fazer outras mulheres incríveis se esquecerem dos seus problemas, mesmo que por umas horas. Não sabem o quanto suas chaves rodando entre os dedos despertam a ira de mulheres que talvez nunca saibam o que é essa autonomia, por terem escolhido caminhos mais fáceis, mas nem por isso passíveis de julgamento. Do quando sua coragem em enfrentar o mundo, ou a rua de casa, seja ela de uma megalópole ou de uma cidadezinha do interior, inspira outras mulheres a rodarem também suas chaves entre os dedos. Do quanto homens que passaram pelas suas vidas, com dor ou não, talvez nunca saberão o que é ter uma delas ao seu lado, transformando a vida deles, como elas transformam as minhas.
Por isso, proponho a Confraria das Mulheres Incríveis. Nessa irmandade se reunirão todas as mulheres que não sabem que são tão estupendas, mas tem o coração maduro e a intuição aflorada para reconhecerem outra mulher exuberante e para fazê-la saber o quanto é grande. Isso porque percebi que as minhas mulheres incríveis são muito boas em reconhecer nas outras as qualidades que não percebem nelas mesmas. Então, nessa Confraria, além de comermos muito chocolate, tomarmos café, gargalharmos um sem fim de barbaridades e desfiarmos todos os assuntos corriqueiros e proibidos em qualquer roda, diremos umas às outras o quanto são especiais. Ao invés de balançar a cabeça negando o elogio, cada uma das mulheres incríveis receberá com deferência o adjetivo que lhe é conferido e se apoderará de suas qualidades. Para sair de cada encontro mais fortes. Mais gratas. Mais incríveis.

Circus Horse Rider, Chagall

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Um livro carregado de ausências e silêncios

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Quando eu vi o Valter Hugo Mãe, ao vivo, a poucos metros de mim, não sabia ainda que aquele livro que eu carregava na bolsa era sublime. Quando eu abracei o Valter Hugo Mãe depois da fala, encontrando-o no caminho que ele percorria até a mesa de autógrafos, não tinha noção do quanto o seu livro me abraçaria por noites e noites a fio. o livro que eu ganhei quando chorava.
Eu estava com “O filho de mil homens” na bolsa, mas o livro ainda não estava em mim. Hoje está.
Quero eternizar esse livro na minha memória, no meu caminhar, em todos os meus dias. Quero carregar a certeza desse livro comigo. Porque o que ficou de mais bonito, entre todas as bonitezas das páginas que li, foi a certeza do amor. Com “O filho de mil homens”, aprendi que não é feio se ter esperança. A esperança é para se carregar como se carrega um livro sublime na bolsa. É algo capaz de preencher de felicidade sem razão de ser. Ler esse livro foi como fazer aniversário todo dia. Aquela certeza de que há vida, que há encontro, que há boniteza. Aquele caminhar pela rua de todo dia sabendo-se único e especial. Sim, uma vez por ano me dou esse presente, essa esperança.
Cada página lida foi feita de dezenas de frases grifadas em pensamento. Frases não, versos. O romance é tão poesia que parece ter sido declamado. Em alguns momentos de leitura frenética, eu sentia que ele, ao contrário, tinha sido despejado. Com ardor. Imaginei um Valter Hugo Mãe inteiro de poesia, com bonitezas acumuladas de um jeito tão ofegante, que seria capaz de iluminar um mar inteiro. E aí, incapaz de dar vazão a toda a graça do incapaz de ser dito, metralhava com palavras um sem fim de poesias, de esperança.
Imaginei ainda um Valter desajustado no mundo, sozinho na praia, querendo não ser só. E para não ser sozinho resolveu ser todos e escreveu o livro mais exultante que poderia ter escrito. O livro de todos os homens. O livro que eu queria ter lido sentada na praia, as visíveis e as imagináveis. O livro que me preencheu como mar de um afogado.
Desajustada como sou, conheci na lata todos os perdidos e mal-queridos do mundo imaginário de praia e campo. Brinquei com eles desde criancinha. E entre os estropiados eu me encontrei. Entre aquela lama incapaz de gerar colorido, eu me vi. Naquele bando de gente silenciosa, doente, perdida e sozinha com as profundezas do espírito, eu fui abraçada. Eu sonhei. Eu rezei. Eu sussurrei versos em voz alta. Eu mal contive a minha esperança.
Chorei “O filho de mil homens” por dias. Lia antes de dormir, soluçava abraçada no travesseiro. Lia no horário de almoço, chorava borrando a maquiagem. Lia no metrô, na calçada, na sala de espera. Chorava sem medo. Em cada lágrima brotada, uma esperança ardia.
O livro tem tanta metáfora que explica o mundo em 200 páginas. Poetiza a tristeza, a morte, o preconceito, o desencanto. Mas ele versifica o encontro. O momento em que duas almas se tateiam no escuro e a vida se torna tão devota desse unir-se que parece explodir. Todo encontro é uma esperança. A beleza que carrega aquele que sabe que há de ser. O caminhar frente ao nevoeiro, firme, perdido, mas se sabendo caminhante. Ler esse livro é apostar num caminho. E um caminho de poesia é tão lindo que abriga erva daninha e espinho.
E, imaginem só, um livro de tanta lindeza ainda abarcou o sofrimento. Ainda doída, chorei feito criança quando o pescador – de sonhos, de gente, de esperança – reconheceu que a gente tem que nutrir carinho pelo sofrimento, pelo sofrimento em que a gente construiu uma felicidade. Imagina pensar em sofrimento como terraplanagem? Um sofrimento tão fundamental como um pilar. Pilar de lindeza. Nunca tinha eu bem pensado, mas não é possível desprezar algo que nos fez mudar, ser feliz. Saber-se feliz é ter se reconhecido na dor, algum dia. A dor é a nossa referência. Também está no caminho do final feliz. Ou no feliz de agora, de todo dia. A felicidade também abraça a decadência. Mas nunca a falta de esperança. E quem diria, Valter me fez querer ter um dia saudade do sofrido de hoje. De ter chorado hoje. Da dor de hoje. Porque o livro, como disse, é todo certeza. E no sofrimento também há certeza, confiança. Em um mundo de tanta ausência, de tanta pergunta, confiar já é a resposta.
Eu nunca serei capaz de explicar o que esse livro mexeu em mim. Na mesma janela que o pescador abria para o mar, e o mar nele, esse punhado de beleza me abriu um monte de silêncios e a ausência do não sentir. Porque em cada letra eu senti com força. Pulsou em mim beleza e confiança, que terminavam em ternura, quase sempre. Pelos perdidos, pelos pontos, pelos tropeços, pelos lascados, pelos órfãos, pelos adotados. Por mim.
Há muito amor no mundo. Há delicadeza em ser filha. Sou filha de um milhão de histórias, de um mar de esperança, de um milhão de milagres. Sou capaz de igualmente gerar um infinito de sentidos, de ser mãe de um sem fim de felicidade. Há muita esperança no mundo. E há muito amor em mim.



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Se hace camino al andar

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Meu terapeuta atende numa casinha muito aconchegante, que fica em uma rua cheia de árvores frondosas, flores bem cuidadas e quase nenhum barulho. Para chegar até lá, saio do metrô e entro em uma ruazinha igualmente fofa. Nessa ruazinha está a casa onde funciona uma empresa na qual trabalhei. Meu primeiro emprego em São Paulo, dois antes do atual.
Toda semana, na ida ou na volta da terapia, passo em frente a essa casa, uma construção portuguesa, bem antiga, mas muito bem conservada. É cheia de detalhes, caprichos. Fiquei mais de um ano e meio lá e não me lembro de uma semana sequer sem um pedreiro, um jardineiro, um marceneiro, um decorador, alguém executando alguma transformação naquele espaço, pequeno, até, considerando as tantas reformas ininterruptas.
O jardim é um espetáculo à parte. Mudas de flores escolhidas a dedo, arbustos podados irritantemente retos, pedrinhas bem dispostas, calçadas sempre muito bem varridas, uma fonte, um jardim vertical, água da chuva captada por um sistema artesanal, vasos com espécies raras. Costumava brincar que o jardim era uma versão eternamente beta, pois meu chefe estava sempre pedindo para mudar alguma coisa, acrescentar, jogar fora, de acordo com seus caprichos. Toda segunda-feira era uma nova surpresa. Acho que no fundo tudo na casa era assim, a estabilidade era um incômodo às vistas impulsivas, perfeccionistas e cheias de vontades do gran senhor.
Ainda hoje, quando passo pela casa, vejo que as reformas continuam. Tem uma sala a mais sendo construída, um caminhão sempre descarregando alguma coisa, um grupo de pedreiros trabalhando insistentemente. Como passo no sábado, raramente cruzo com colegas antigos, ou mesmo meus antigos chefes. Mas depois que eu saí, muita coisa mudou. Além das reformas eternas, muita gente da minha época saiu para outros rumos, seguindo mais ou menos essa renovação visual permanente.
O fato é que toda semana eu passo pela casa e ultimamente tenho olhado mais para ela. A casa nunca é a mesma. Nesse esforço contínuo de renovação, para saciar desejos incontroláveis de atingir a perfeição, a casa muda sempre, o tempo todo.  Mas também sou eu que mudo. A cada vez que desço ou subo a rua, sou outra. À medida que o tempo vai passando, minha distância com o período da minha vida em que eu passava mais de um terço do meu dia ali se torna maior. E, consequentemente, em minha vida esse período vai se tornando menor. Embora esteja bem próxima da casa (pelo menos uma vez por semana), estou cada vez mais distante dela.
A casa representa o lugar que abrigava a antiga Tatiana. E, cada vez que meu olhar repousa sobre ela, a casa, é outra Tatiana a olhar. O que enxergo, nessa distância proporcionada pelo tempo e pela proximidade propiciada justamente pela minha terapia, é que tudo que passei ali está situado num ponto fixo do meu caminho. Vivi ali algumas das minhas piores angústias. Dilemas profissionais, crises de identidade, medos, repulsas, raivas controladas, exacerbadas. Derramei muitas lágrimas nesse jardim tão bem cuidado. Algumas tristezas nada tiveram a ver com o trabalho em si, nem com ninguém dali de dentro, mas o fato é que essas consternações marcaram o período em que ali trabalhei.
Mesmo sendo eu que pedi demissão, para ir para outro emprego, poderia ainda sim olhar para a casa com raiva. Com aquela sensação incômoda quando vemos a cicatriz daquilo que nos feriu. Aquele momento em que a gente forçadamente precisa se lembrar de algo doído que tivemos que viver. Poderia, ainda, olhar para a casa com aquele olhar arrogante de quem costuma dizer que agora está muito melhor. A menina que gesticula exageradamente com o novo namorado, esfregando-o na cara do anterior que a deixou.
Mas, sabendo que ali não vivi nem um período ruim nem um período bom, julgado assim, de forma categórica, meu olhar sobre a casa recai sobre a certeza apenas da constatação do caminho. Do meu caminho. Aquele que não é errado, nem certo, é o caminho cheio de erros e acertos e cheio de dramas e silêncios, pausas e perdas, gritos e retomadas, romances e lágrimas, ganhos e palavras. O caminho que eu percorri, cheio de escolhas. Ter trabalhado ali fez parte de um caminho que até hoje sigo, sem saber muito no que vai dar. Cada vez que desço ou subo a rua, não sei bem onde precisamente estarei. A cada visita ao meu autoconhecimento, não sei bem no que vai resultar.
Olhar para a casa nessa perspectiva um pouco mais madura me fez repassar na mente também outros dramas passados. Outros dilemas profissionais, murros em pontas de facas, pessoas por quem sofri, finais, rompimentos, derrotas, casas perdidas, empregos recusados, amigos distantes, coisas que deixei para trás. Sentimentos doídos naqueles momentos. Mas que hoje não se tornam menores pela distância temporal. Tornam-se pequenas partículas, pequenas pelo conjunto que formam com outros fatos e outras pessoas e outras vitórias e ganhos e outros amores, empregos e outros aprendizados. O conjunto que forma esse caminho.
O que procuro saber, no caminho metafórico até a terapia, é quem eu sou. Apesar de que, um pouco como a Alice, eu saiba quem eu sou pela manhã, mas depois mudo muitas vezes desde então, percorro uma busca nesse caminho. Procuro, no caminhar, encontrar meu caminho, muito embora eu me veja envolta muitas vezes em neblina e sem bússola. Resta-me, então, reconhecer que não há um caminho, uma receita. O caminho se faz ao andar. Golpe a golpe, verso a verso. Não é também nenhum Deus dará. O caminho se faz sabendo para onde se está indo. Como um mapa da intuição.
Caminante, no hay camino. Hay dirección.

“- Você poderia me dizer, por gentileza, como é que eu faço para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde você pretende ir – disse o Gato.
- Para mim tanto faz para onde quer que seja... – respondeu Alice.
- Então, pouco importa o caminho que você tome – disse o Gato.
- ... contanto que eu chegue em algum lugar... – acrescentou Alice, explicando-se melhor.
- Ah, então certamente você chegará lá se continuar andando bastante... – respondeu o Gato.”
(Alice no País das Maravilhas, Lewis Carrol)

“Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
‘Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…’
Golpe a golpe, verso a verso…”
(Antonio Machado, Caminante no hay camino)

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Os enlutados de amor

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Os enlutados de amor se cruzam nas esquinas de suas dores e se cumprimentam em silêncio, carregando ossos de seus ancestrais em sacos de estopa. Como quem arrasta pedaços de passado sacolejando em suas costas, enervados pelo barulho provocado pelas suas bagagens. Não aprenderam nada com suas malas remendadas, esqueceram tudo ao vir um novo amor. Os enlutados de amor não aceitam clichês nem menores amores. Que era melhor agora que depois. Que não era para ser, quem atestou isso e reconheceu firma? Que sairão maiores depois dessa. E que vai passar. “Um samba popular”. Os enlutados de amor sabem o quanto é ser cantor impopular nas timelines. Quem sangra a dor em versos doídos e para-choques das fossas por uma semana, ao final da qual escutam: ainda está nessa? Vai passar. É carnaval. É carnaval, é carnaval. Os enlutados de amor são aqueles feridos de guerra que percorrem distâncias absurdas após perderem um de seus membros. Não gritam, não desesperam. Apenas cumprem o expediente, mesmo lhes faltando pedaços. Os enlutados de amor pedem pão na chapa e uma média com dor e para viagem, por favor. Rasgam seus retratos para não continuar vivendo em pensamento. São enlatados, sofrimento em conserva. Congelados e delivery. Vivem suspensos no esgotamento de suas tentativas. Nas horas revisitadas sempre e todo o dia, infinitas e repetidas vezes, diariamente às seis da tarde. A Voz do Brasil. Os enlutados de amor são mais dramáticos que O Guarani. Mais previsíveis que Peri e Ceci. Os enlutados de amor querem morar em jazigos de corpos já exumados, querem respirar ares mofados, querem moléstias não inventadas para justificar. Não acreditam em horóscopos ou cartas de tarô que lhe dizem nada menos que “Ele voltará”. Os enlutados de amor são Peixes, Luas em Câncer, Ascendentes em Escorpião.  Navegam em mares à deriva de peixinhos afogados em medo. Medo de que “Ele nunca voltará”. Os enlutados de amor não são os versos todos terminados em proparoxítonas, não seu Buarque. Nem os matemáticos acordes clássicos. Tampouco os encadeamentos perfeitos de Olavo Bilac. Os enlutados de amor têm um pôster do Vinícius de Moraes, ouvem Fagner, fazem deferência a Waldick Soriano. “Volta, meu amor, fica comigo, não me desprezes, a noite é nossa e o meu amor pertence a ti”. Nas profecias dos loucos da Praça da Sé, às seis da tarde, os enlutados de amor passam e não param, membros mutilados sem pedir socorro. Não dão a mão a quem lhes decifra porque têm medo que o luto se esgote. Os enlutados de amor estendem a mão para os santinhos de promessas, das amarrações definitivas. Os enlutados de amor vestem terno e Bíblia, e gritam essa trilha. “Ele voltará! No terceiro dia, Ele voltará!”
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Instasize

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Se a foto não cabe no quadradinho pré-destinado, merece ser publicada?
Se o instante não cabe na dor de sentir, merece ser vivido?
Se o sentimento não cabe no tempo da espera, merece ser pingado?
Se as perguntas não cabem no possível, merecem ser marteladas?
Se a foto em preto e branco não cabe na moldura, merece ser exposta?
Se a ferida não cabe na cicatriz, merece ser chorada?
Se as letras não cabem no espaço predestinado, merecem ser lidas?
Se as expectativas não cabem no oráculo, merecem ser frustradas?
Se não mereço, não caibo?
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Presságio

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Dez dias antes de perder um amor, comprei duas taças de cristal. Para receber o vinho, para recebê-lo em meus braços. Trouxe as taças com carinho e cuidado. No balanço do caminhar, uma se encostava na outra, mas protegidas estavam pelos seus invólucros. Pelos receios comuns do início do amor. Em casa, em cima da pia, em silêncio, ouvi. O choque. Uma se quebrou. A outra permaneceu intacta. Dez dias antes de perder meu amor, uma parte do par se quebrou. Não foi a bola, foi a taça de cristal que me trouxe o prenúncio. Hoje tenho apenas uma taça. Eu devia bem ter desconfiado.
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Da natureza das coisas que terminam

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"A vida é uma longa despedida de tudo aquilo que a gente ama" (Victor Hugo)


Querida São Paulo,


Hoje o ano recomeçou para mim. Por coincidência, junto com nossos aniversários – o seu e o meu, aqui. Por coincidência, coloquei hoje o mesmo vestido que vesti da última vez que o ano começou. Há exatos 25 dias, eram outros sonhos, outras esperanças, outros os sentimentos.
Como é comum no dia em que comemoramos a minha chegada em suas paragens, revejo a minha relação contigo, cidade pulsante-fria, cidade solar-nublada. Meu paradoxo preferido. Por coincidência, meu recomeço de ano foi paradoxal. De tanto esperar vida nova, veio a morte, racional ambivalência. De tanto esperar recomeço, veio fim. Taxativo, calculado, assinalado. De tanto esperar volta, veio corte. Reto, seco, uniforme. Sem volta.
No dia do meu recomeço perdi um amor. Na perda, no fim, na morte, no corte, há sempre um recomeço. Um trem que chega é o mesmo que parte. Um encontro, ainda assim é uma despedida. O não pertencer é, ainda assim, um pertencer à coisa alguma. Perder alguém é de qualquer forma um encontrar-se. Nem que seja com a própria consciência. Com a ciência de que vai parar de doer. Mas até lá, ah, até lá...
Na atual lembrança de um amor que perdi, vejo-me multifacetada nas relações amorosas que você me deu de presente. Pequenas, quebradas, imaturas, incompletas, insensíveis, a maior parte intocáveis. Todas micropedaços de um espelho estilhaçado. Encontrei-me por um tempo tentando me reconhecer nesses cacos, mas minha identidade nunca estava inteira nesses pequenos reflexos. Tudo era um instante fugaz. Era um pedaço meu ali, outro acolá, nenhum caco traduzia minha inteireza. Razão dos cacos? Provavelmente. Mesmo os maiores me cortaram.
Ao achar que meus amores em ti seriam sempre essa falta de alguma coisa, essa entrega de coisa nenhuma, você decidiu me espantar com um novo embrulho. Recebi esse presente como quem espera pela encomenda de outro continente. Abri o pacote com pressa, tal criança em dia de festa, rasguei o papel e a fita, para dar sorte. Tive.
Vi minha imagem inteira e contínua nesse reflexo tão improvável. Reconheci-me na entrega, no amor, na plenitude. Eu não era a menina da tristeza, eu era, bendita epifania, a mulher que desfruta o amor. Carreguei no ventre não uma criança, mas uma nova certeza. A que a vida não é feita de primeirezas, mas de ultimezas. Porque o último não tem o gosto do desconhecido do início, mas tem o sabor inefável do fim da busca, da espera.
Teu paradoxo foi me transformar em cacos ao arrancar o presente como aquela guitarrinha rosa que meu pai decidiu por bem vender para uma cliente importante, depois de tê-la me dado, lá pelos 7 anos. Não é bem tristeza, não é bem raiva, cidade. É restar sem entendimento. É aceitar sem ter aceitado. É respeitar afogando no peito um mar de amor ainda em mim.
No dia do meu recomeço, comecei um novo bordado. Peguei o ponto final e comecei uma nova linha. Aqui, sou eu escrevendo. Mas lá, a menina das letras, a garota das entranhas, aquela do amor sempre tão bem expressado, ficou muda. Miúda, sem argumentos válidos. Calada. Sem bastar. Insuficiência emocional ambivalente, já que a corredeira de amor ainda rumava turbulenta no curso do rio. Desordem lenta no meu peito, turba que se tornou o leito de meu desassossego.
Quando se rompeu o amor, quando se abortou o sentimento, quando arrancadas todas as esperanças, não morri. Continuo, embora a contragosto, bem viva. Minha tristeza, Caeiro disse bem, é um pôr do sol. Esse crepuscular sentimento anoitecendo em mim conflita, sim, com o ensolarado lá fora. Paradoxal morrer quando há vida, seiva, pulsante. Clichê ser tão paradoxal, Dona cidade. Feio nublar corações em dias tão bonitos.

Não é um bom dia para comemorar. Talvez haja um dia bom para renascer.

De quem ainda te quer bem,

Tatiana


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Sobre carecer

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Achava feio ser carente. Uma vergonha, quase uma desonra. Costumamos, se notarmos bem, associar carência a tudo que é mimado, aquele querer com birra, batendo o pé. Carente é sinônimo de um ser pegajoso e também é justificativa para as atitudes mais mesquinhas. Fez isso ou aquilo porque é carente. Que carência! Diz-se de uma atitude chata, pedante, indigente.
Aí notei que a gente maculou essa palavra, como faz com tantas outras. E a mancha da carência linguaportuguesticamente falando me fez sentir vergonha de senti-la. Foi meu terapeuta que martelou nisso, quando eu chegava me desculpando: “sei que isso é carência. Ou agi assim por estar carente”.
E ele rebatia essa autoanálise meio capenga com uma pergunta intrigante. “O que há de errado na carência?”.

Carência é carecer. A gente – pelo menos aqui no Sudeste e no Sul – tem mania de usar só o substantivo ou o adjetivo, mas é no verbo que essa palavra se mostra mais bonita e talvez é nela que reside seu real significado.  Carecer é não ter (e principalmente notar que não se tem) o que é preciso. É sentir essa falta, mas como naquele poema do Drummond não focar na falta e sim pensar numa ausência como um estar em mim. Há bastante falta na ausência. Há bastante falta no carecer.
Em grande parte, a gente carece de carícias. Não somente no sentido literal, mas carecemos de algo que nos acaricie. O ego, a alma, a autoestima. Um bom autor faz carícia, cócegas, às vezes as duas coisas juntas. Voltei recentemente de uma viagem e acredito que só consigo resumir a felicidade que senti diante dos novos cenários descortinados com a metáfora da carícia. A experiência me cativou e, cativando-me, preencheu-me, acariciando-me.
“Carece perguntar”, diria alguém lá do Nordeste. “Carece não”. Carece sim. Carecemos, sempre. Estamos sempre faltantes, sempre carecendo. Precisamos nos dar essa resposta. Carecemos do quê? Entender essa ausência assimilada é nos permitir essa “carecência”. Para voltar a passar os olhos ao redor procurando. O que é preciso. O que nos falta para nos sermos completos.
Minha resposta vem, nesse momento, não no que, mas muito em quem. De quem eu careço é, à mesma medida, quem me carece. Tem aquele que passa, finge ficar, mas sabe que não sabe permanecer. Careço daquele que mostra que me precisa. Que não blefa. Não quero faltar para quem me falta. Quero bastar.
Falta não é normal, bom, talvez não devesse ser. Mas carência, ah, essa carência adoecida, enfermada, são também minhas exclamações alegres. E talvez um dia eu brinque, cante e dance com alguém que também traga suas carências próprias. E que não tenha vergonha de ser carente, uma vez que eu saberei estender minhas carícias e entender as suas. E completá-las com minhas carícias acumuladas. E que, mais que tudo, seja digna de carecer das suas carícias.


Um mantra.
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Escorpianos

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Quando decidi morar em São Paulo, estabeleci como meta conseguir pelo menos três entrevistas em uma semana para justificar uma viagem de 900 km do Sul para lançar a sorte. Três tentativas para relevar uma viagem com pouco dinheiro e pouca esperança. Quando recebi a ligação da terceira empresa querendo me entrevistar dali a poucos dias, vibrei sozinha na mesa do almoço. Ninguém da minha família, moradora de uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, disfarçava que não queria que eu viesse para São Paulo.
Meu pai era o que menos escondia a torcida ao contrário. Seja pela violência, pelo caos, pela enchente, São Paulo não era o que sonhava para mim. Frustrada sem a ola familiar, tive um chilique. Já era medo demais enfrentar a gigante de pedra sozinha sem um suporte. Então meu pai me chamou na varanda e me falou algo que nunca esqueci. Em 1973, com menos idade que eu, também desafiou a si mesmo para bater de frente com outra metrópole. Abandonou a mesma cidadezinha pacata – bem mais agrícola que a minha – para tentar a vida no Rio. Com uma comunicação mais restrita, sabia da família no Sul por meio de cartas enviadas e trazidas pelo caminhoneiro que transportava feijão para o mercado em que trabalhava. Por tudo isso, ele me disse que não adiantava me proibir (como nunca havia feito, com nenhum dos meus sonhos). Eu iria, de qualquer jeito. Nos olhos do meu pai, naquela varanda, enxerguei a sua entrega.
Meu pai não só entregou seu coração lavado e sua benção naquele momento. Entregou-me a certeza de que éramos iguais. E que sou meu pai quando aprendi que a gente tem que fazer o que tem que ser feito, mesmo sem ninguém aplaudindo. Sou meu pai quando a gente segura as pontas dos sonhos, mesmo com calafrios.
Quando eu era bem pequena, no momento em que ele me punha na frente da janela larga para observar a Lua cheia gigante e diante da qual eu me pelava de medo, meu pai ria e me protegia, mas não fechava as cortinas. E desde aquela Lua estou aprendendo a enfrentar meus cagaços. Sozinha, é verdade, com a solidão da distância que escolhi pra mim. Sou meu pai quando me dei conta que minha vontade de me lançar ao mundo pode ser maior que o tamanho dos meus passos. Quase sempre é. Sou bem menor que a Lua. O que não me impede de olhar para ela. Então, também sou meu pai quando, ignorando o tamanho dos meus passos, eu me lanço. Sem lenço, documento ou plano.
Tive um pai viajante, impossível negar que isso me constituiu como uma pessoa que enxerga a vida tendo graça com trânsito. Sou eu a garota das pairagens. A menina dos portos sem fim. Das partidas, das chegadas, do meio do caminho. Sou eu pequena acordada de madrugada dentro do ônibus com meu pai do lado. E perguntando: onde estamos? E agora, pai, onde estamos? E com a sua metade paciência e metade vontade de dormir ele me ensinando que a maioria das cidades tem comércios que carregam seu nome. Tinha a Mecânica Curitibanos, a Vidraçaria Chapecó, a Expresso Xanxerê. E foi aí que eu aprendi sozinha a desvendar o nome das cidades de todos os meus trajetos. Até hoje me valho disso para descobrir onde estou. Sou meu pai quando descubro formas de me achar quando o mundo teima em fazer eu me perder.
Foi com todas as histórias de um Paraguai meio mágico que meu pai trazia toda a semana que aprendi a conhecer o que nunca vi. Aprendi o valor da batalha, do jogo de cintura, de não entregar os pontos. Era com a chegada do meu pai de Ciudad Del este que vivia o misto da alegria de tê-lo de volta com a tristeza de saber que contaria milhares de mercadorias no dia seguinte. Nada vem de graça, nem o pão, nem a cachaça, nem aquela bonequinha nova que eu queria ter. Sou meu pai quando aprendi que manter as mãos na cintura vai me deixar apenas parecida com um bule.
Desde criança sou sua garotinha, desde criança sou sua séria ferroada. Sou meu pai quando, escorpiana, sou intensa, oito e oitenta. Desde criança sou sua princesinha, desde criança sou sua cria mais ardida. Sou meu pai quando falo as coisas da boca pra fora, esperando que o amor seja maior que as minhas bolas foras, que as cores vivas de até então sirvam para pintar os negros desabafos.
De todos os defeitos que enxergo nele sou eu ali, como que Narciso olhando o reflexo. Sou meu pai quando reconheço que errei, mas não consigo declarar publicamente minhas fraquezas, mesmo não tendo vergonha de chorar em público. Sou meu pai quando contraditória, quando forte, quando teimosa, quando truco com a vida sem cartas.

Sou meu pai quando choro baixinho antes de me deitar pensando se eu o decepciono, mesmo sem coragem para, peito aberto, perguntar isso em alto e bom som. Sou meu pai quando não tenho a mínima do que fazer mas finjo bem. Sou meu pai quando, em cacos, encontro o fim, mas desperto aquela fagulha que reacende a certeza de que posso muito mais. Sou meu pai quando dizem que não dá e, só de raiva, dou, pano pra manga. Sou meu pai quando saudosa, só quero reencontrá-lo. 
Sou eu, pai, ainda uma menininha.


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