quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Das pessoas

O alfaiate aqui da minha rua me cumprimenta todo dia. Nunca conversamos de verdade. Uma vez acho que fui lá, pedir uma costura, mas nem ele e nem a esposa tinham tempo. A mulher também costura. Eles trabalham noite e dia, vez ou outra eu vejo eles de papo com alguém, mas quase sempre estão curvados sobre réguas, lápis, tesouras, linhas e agulhas. No sábado, não. No sétimo dia não se vê as fuças de ninguém, garagem fechada. Deve ser coisa da religião.
A mulher nem sempre me vê, mas o homem sempre me dá bom dia quando eu passo por ele a caminho do trabalho. Às vezes é um oi, outras um meneio com a cabeça. Mas sempre um sorriso no rosto. E eu penso que ele poderia vez ou outra me ignorar, afinal, a gente nem se conhece. Ele nem sabe meu nome. O nome deles eu sei: João e Zélia, está escrito na placa.
Mas o que me intriga é que tem gente que lida com gente todo dia e acha que simpatia não pode ser dada de graça. Pensa que faz mal ser cordial. Não precisa hipócrita, não precisa perguntar pela família, mas um sorriso ameniza o dia. Um dia de frio polar ou de calor do Piauí, tanto faz. A mulher do laboratório que eu fui deve atender umas 40 pessoas por dia, contando por baixo. E ela atende todas com cara de quem tomou a amostra de urina para exames.
Na fila de espera, pessoas e mais pessoas. Gente ansiosa, porque coletar sangue ou entregar potinhos de urina e fezes não é normal, não é normal mesmo. Tem criança, tem criança que chora. Tem velho, tem mulher querendo saber se está grávida. Tem gente como eu, que acorda cedo e vai picotar o braço para ver se está tudo bem.
E a vaca, na sua posesinha detrás do balcão, só sabe apertar o botão das senhas e agir no piloto automático. Atende como se fosse um favor. Desconfio que ela cerra os dentes por dentro da boca fechada enquanto trabalha. Se você é atendente, colega, o mínimo que se espera é que você esteja disposta a ATENDER. No balcão, você querendo ou não, você lida com gente, se não quer, mude de emprego. Porque gente gosta de sorriso.
Eu fui aprendendo a gostar de simpatia gratuita grande já. Quando eu era criança, irritava-me minha mãe fazer amizade com a caixa do supermercado. “Você nem conhece a moça, mãe, para quê puxar papo, me diz? A gente vai se atrasar”. No fundo era ciúme, acho. Queria minha mãe só pra mim. Ainda bem que eu cresci e hoje mesmo estava de papo com a caixa do mercado.
Uma amiga que dividia apartamento confessava que sorria para as pessoas na rua. Eu ria muito disso e ela devolvia tirando sarro dos meus desafetos gratuitos e laços rompidos (sempre tive). Mas aprendi com ela um pouco da arte da leveza. Não só sorrir para as pessoas na rua (sem medo de parecer uma desequilibrada), mas levar a vida assim, com esse ar de que ainda há muito por vir, mas tem o tempo certo, há tem sim. Enquanto isso, a gente vai levando. E vai sorrindo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Desaniversário

- Ah, essa coisa de fazer aniversário é muito chata. A gente envelhece. Melhor seria um desaniversário – disse meu pai, depois de receber meus parabéns.
- Para, pai. Isso não se diz num dia como esse.
- Pensa bem. A gente poderia rejuvenescer a cada ano e voltar a ser jovem. Até terminar na barriga da mãe.
- Não me decepciona, pai. A vida é boa, eu só tenho 24.
- É. Mas tá. Obrigada por ligar.

Meu pai não leu aquele texto na Internet que todo mundo diz que é do Chaplin, de a gente nascer velho e morrer num orgasmo, nem deve se lembrar da história da Alice, dos 364 desaniversários do ano, mas assistiu ao caso do Benjamin. E gostou muito.
Na ligação, eu não disse, mas deveria. Deveria dizer que sim, pai, eu quero que você rejuvenesça, porque talvez seja mais fácil você viver nesse mundo bandido e lidar com esse bando de gente capenga de quem você muitas vezes depende para ganhar o pão. Uma pessoa que faz malabarismos cotidianos todo dia para sobreviver, que consegue fazer todo mundo acreditar na fantasia com a qual você sobrevive, uma pessoa assim não deveria envelhecer mesmo. É um disparate.
Mais lógico seria você ir voltando no tempo, e, enquanto a gente vai embranquecendo os cabelos e sentindo curvar as costas, você ao nosso lado vai inflando o peito cada vez mais forte e jovem. Cuidando sempre da gente.
Deveria ser assim. Porque quando eu vejo você envelhecendo, me dá um certo medo. Medo não, cagaço mesmo. Como daquela vez que você pediu para eu carregar umas coisas pesadas do carro até em casa, porque você não conseguia. Meus ouvidos pareciam me enganar. Fiquei paralisada diante do homem que nunca me deixava carregar peso, que levava minha mochila e mais tarde minhas malas para eu não precisar me esforçar. E agora estava aí, prostrado pela rasteira passada pelo tempo, pela pressão, pela glicemia e pelo coração. Coração que aperta no peito, que pede folga, pede descanso.
Eu quero pai que você rejuvenesça, embora meu querer não queira dizer nada. Eu não queria ir depois de você, embora o meu querer não queira dizer nada. Eu queria te dizer tanta coisa, pai, mas querer não adianta. Talvez nem falar adianta.

Um feliz desaniversário, pai. Porque o aniversário mesmo foi ontem.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Zéu e Laia

Defina em uma palavra Zéu e Laia: desembestados. Desembestam-se a correr com os ponteiros, desembestados a estudar, viver, gozar, tragar, sorver, comer, sair, voltar, andar e nadar. Nadar, nadar, nadar e nadar. Até morrer na praia.
Quem dera fosse praia. É um pedaço de chão que congela e depois ferve, alternadamente, que alguns insistem em chamar de terra. Zéu e Laia não são dali, mas insistem. Porque é mais barato, é cômodo. É fácil, sobretudo.
Laia e Zéu perderam o trem uma vez e agora sabe Deus quando ele passa de novo. Aí eles continuam existir na terra que ninguém mais escolheu voluntariamente como morada. Eles existem não existindo. Não firmam nada, Zéu e Laia têm sonhos de pó e casas desmontáveis. Laia e Zéu não trazem mais nada para casa, porque quanto menos peso mais fácil será pegar o trem, que passa rápido.
Mas o trem não passa. E eles não escrevem ao maquinista. Aí o maquinista nem sabe que eles querem pegar o trem, mas Zéu e Laia, ainda sim, esperam.
Laia e Zéu têm a bagagem certa para ir, nem grande nem pequena demais. Eles têm a roupa certa para viajar, o dinheiro contado, uma caravana de alegorias montada para vestir quando chegarem do lado de lá. Mas o trem desesperadamente não passa.
Desembestadamente, Zéu e Laia correm em círculos, caçando qualquer parte da terra ainda não habitada. É preciso viver enquanto se espera. É preciso esperar, enquanto se vive.

O final de Zéu e Laia você decide. Mas eu sei, não. Eu tenho certeza de que eles não vão seguir seu conselho.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sinais

O gato me esperava pela manhã. Sentado na cadeira, seguindo com o olhar meus gestos, ele miou. Um miado chato, comprido. Olhei para ele e perguntei o quê? Ele continuou miando. Miando e me desafiando por trás dos olhos estrábicos.

Fui lá e olhei. Tinha comida, o pote de água estava cheio, a areia limpa. Perguntei de novo o que foi? Queria dar uma volta, decerto, apesar de nunca sair de casa.

Abri a porta, ele foi, cheirou os cantos, subiu uns degraus, olhou para mim, subiu mais um pouco. Aí, sem eu dizer nada, voltou. Calmamente, cabeça baixa, como se obedecesse uma ordem. Uma ordem tácita: você deve voltar.

Fiquei me perguntando o que queria o gato. Há dias reparo que ele anda triste, melancólico mesmo. Acho que ele tem depressão.

Ou está inconformado, apesar de eu duvidar da capacidade de inconformismo dos irracionais. Sempre achei que ele tivesse espírito de gente [mal dos donos pensar isso dos seus animais, usando expressões como “forte personalidade”, “vontade própria” ou coisas do gênero]. Se ele fosse gente, seria um serial killer, um psicopata, pensei. Mas não. O gato encarnava agora a personificação do gênio depressivo. Sabe que precisa de mais. Tem comida, tem água. Tem o que lhe supre o corpo, mas falta algo. Uma coisa que cutuca e não se sabe ao certo o que é. Às vezes se quer liberdade, mas quando se abre a porta vem o medo de sair. Ou a liberdade possível é pouca, restrita. Melhor seria desbravar o mundo.

Às vezes não é nada. Às vezes, simplesmente, o gato cresceu.

domingo, 1 de novembro de 2009

A farinha de mandioca

Se um dia eu escrever um livro sobre minha família, cada capítulo terá o nome de algo que nos uniu. A árvore do quintal nos renderá um capítulo, as viagens outro, os aniversários mais um e ganhará espaço tudo o mais que significou a cumplicidade do pai, da mãe e dos três irmãos.
A farinha de mandioca, por exemplo. Não conheço outra família do Sul do Brasil que come tudo com farinha, branca ou torrada. A influência, com certeza, é da matriarca nordestina. Quando ainda morávamos juntos, nos almoços e jantares, lá estavam os potinhos dispostos pela mesa carregando o produto. Os pratos não precisavam, necessariamente, ter molho para o acompanhamento. Comíamos farinha no seco, mesmo, tal qual aquelas famílias do sertão. Só faltava o calango.
Quando vinha visitas, nos contínhamos. Não era tão fácil entender gente que comia tudo, tudo com farinha. Às vezes eu contava e perguntavam se não servia farofa. Não, não servia. Sem farinha chuviscada nos pratos, faltava algo. Colocar os potinhos na mesa era tão indispensável como talheres e copos.
O fato é que o costume, aos poucos, foi sendo deixado de lado. Como dois integrantes debandaram, nenhuma das três casas tem mais seus potinhos. Por isso, repito, a farinha é um pedaço da nossa biografia coletiva. A farinha nos unia.
Hoje, achei um pacote que sobrou de uma farofa que fiz. Ao almoçar, recolhi-a do armário e, num gesto quase de reflexão, despejei os grãozinhos minúsculos no prato. Uma homenagem silenciosa as minhas quatro pessoas que naquele momento almoçavam unidas, enquanto eu, na solidão, absorvia minhas lembranças.

domingo, 25 de outubro de 2009

Ismália

Percebeu que estava entrando em depressão quando notou que todo mundo, ou todo o mundo, era mais contente que ela. Por que toda a gente, uma vez dividindo o mesmo cenário e as mesmas possibilidades de angústias, sorria? Por que se saber contente se Ismália sofria? Lembrou-se de uma professora de Literatura que dizia que o depressivo era o ser mais egocêntrico, porque achava que o universo girava em torno dele. E Ismália, de repente, se encaixou nessa definição.

Começou a chorar todo dia. Terminava o filme e ela chorava. Assistia à televisão e ela chorava. O debulho das lágrimas era insuportável, porque a angustiava de uma forma inexplicável. Era como se tentase conter com as mãos a água toda querendo sair das comportas de uma hidrelétrica. Sem água falta luz. Mas o choro, inexplicável, não conseguia libertar Ismália das amarras da alma.

A angústia parecia ter dia certo para se tornar mais intensa. No domingo. No domingo à noite. Ela não sabia se era pela programação da tevê, pela iminência da segunda ou pela confusão mental instalada. A tristeza de se sentir só, mesmo acompanhada. Paradoxal. Ismália tinha vontade de sumir, de buscar o porto.

O porto nunca foi bonito, ela sabia, mas o considerava atraente. O porto é a intermediação do passado e do futuro. O presente. No porto só se deixa o que passou e só se busca o que há de vir. Nada mais. Haveria no mundo um porto infinito? Somente um porto absurdamente grande poderia abarcar os sonhos de Ismália.

Seu sonho, naturalmente, era ir. Como era difícil a dor da partida e as despedidas lhe agrediam a alma, Ismália planejava explodir para que suas partículas se reencontrassem longe dali. A mágica do seu sonho a libertava de uma mutação de si. Seu sonho era perfeito, mas Ismália, querendo ir, no fundo era ciente que seu desejo era aquela velha tentativa. Tentativa de fugir.

Deixar o porto, abandonar o presente. Como no porto só é possível um trajeto – é impossível comprar um bilhete em direção ao passado – Ismália concluiu que seu sonho era o futuro. Mas ela chorava porque aonde quer que fosse a mancha do presente a acompanhava. Estava presente, a insígnia, sempre com ela. Encalacrada, a marca do agora encobria Ismália como um véu. Por baixo do véu ela era só saudade e sonho. Por cima, o presente, encobrindo o caminho. Por dentro, a vontade de ser só ela. Ismália quis chorar mais uma vez. Ismália, confusa, dormiu.

domingo, 18 de outubro de 2009

Palhaçada

- Tatiana, lembra do Beto?
- Que Beto?
- Aquele que te acertava com machado inflável na minha festinha de 3 anos!

Lembrei na hora. Tudo o mais se tornou irrelevante perto da massacrante lembrança daquela tarde. Inclusive o que minha irmã queria falar sobre o tal Beto, que hoje deve estar gigante. Eles se reencontraram num show esses dias, 12 anos depois do episódio do machado. “Legal”, comentei. “Nossa, tinha uma multidão e a gente se encontrou!”. “Hmm, legal”.
Para comemorar os três anos da caçula, minha mãe retomou sua veia de promotora de eventos perdida depois da minha última grande festa, de 7 anos. Com 8 a caçula nasceu, as vacas emagreceram e fazer festa ficou mais difícil. Entretanto, houve uma sobra e deu para organizar uma festinha em sala de aula para celebrar o terceiro ano da minha irmã. O que era para ser simples, um bolinho com refrigerante, tornou-se um megalomaníaco evento. Com direito a vestido vermelho de veludo para a aniversariante, distribuição de brinquedos infláveis para os convidados, decoração montada com papel crepom, isopor... e um palhaço. Sim, era imprescindível ter um palhaço, para alegrar (?) a festa.

- Mãe, eu não vou.
- Tatiana, por favor. Você coloca a roupa, fica um pouquinho e depois se veste normal. Só para ficar mais divertido.

Ela, como sempre, me convenceu. Diz meu pai que numa festa do meu irmão sobrou para ele ser o palhaço. Como ele não pôde comparecer à festa de 3 anos da caçula, eu não podia alegar que ele tinha mais experiência e deveria encarnar o papel. Meu irmão arrumou uma desculpa para não ir porque imaginou que iria sobrar para ele.
Lembro-me que a parte mais divertida foi se arumar. As professoras se mobilizaram, vieram com maquiagem, prenderam meu cabelo, deram dicas. Prontinha estava eu em sala de aula quando trouxeram a tropinha de pestes.
O primeiro que entrou me viu, começou a chorar copiosamente, agarrou-se na professora e assim permaneceu até o final da festa. E não pensem vocês que era um chorinho. Era um choro de pânico, o mesmo pânico da minha cara olhando para minha mãe. “O que eu faço, mãe?” “Fica longe dele”.
Os outros agiram normalmente. Ou seja, nem deram bola para a palhacinha que tentava, em vão, chamar-lhes a atenção. A professora ajudava e estimulava brincadeiras. Galinha que põe, cabra cega, roda cotia e o que mais a imaginação lhe ajudava a inventar. O garotinho chorão continuava afastado dos demais.
Uma hora as brincadeiras se esgotaram e Beto, o infernal (foi esse o apelido que lhe dei) teve a ideia de malhar o palhaço. Durante as rodas eu já tinha notado que ele me olhava de soslaio, com um risinho maroto. Mas achei que era a maquiagem. Não. Beto começou a implicar comigo e (lembra dos brinquedos infláveis?) começou a martelar a porcaria de um machado inflável em mim. No começo era de leve, depois começou a ficar pesado. Eu olhava com desespero para minha mãe, que achava bonito, chamava os outros para ver.
Outros pestinhas gostaram da brincadeira. No começo eu gritava “aiai” escandalosamente, a la “Os Trapalhões”. Eles se divertiam. Depois os gemidos eram de verdade, porque eles começaram a apelar para beliscões e tapas. O espaço da sala de aula ficou pequeno. Uma hora me escondi embaixo da mesa da festa, tamanha a insistência. Eles me encurralavam e Beto, o líder, ficava do outro lado me esperando, machado em punho. Muito da minha maquiagem ficou no brinquedo. O cabelo se soltou, a peruca caiu. No final eu parecia mais uma assombração que um palhaço. O garotinho do começo já devia ter desmaiado ao se deparar comigo daquele jeito, não me lembro mais.
Depois que terminou a festa, minha mãe tratou de recolher os restos. Docinhos, refrigerante, o que sobrou do bolo e o que sobrou de mim, que estava só o pó. Acabada, destruída por um bando de endiabrados que mal tinham saído das fraldas. Jurei para mim mesma que minha mãe não me pegaria de novo nessa. E que iria venerar todos os palhaços que cruzariam meu caminho.

No começo, sorridente