125x125 Ads

Um livro carregado de ausências e silêncios

0 comentários

Quando eu vi o Valter Hugo Mãe, ao vivo, a poucos metros de mim, não sabia ainda que aquele livro que eu carregava na bolsa era sublime. Quando eu abracei o Valter Hugo Mãe depois da fala, encontrando-o no caminho que ele percorria até a mesa de autógrafos, não tinha noção do quanto o seu livro me abraçaria por noites e noites a fio. o livro que eu ganhei quando chorava.
Eu estava com “O filho de mil homens” na bolsa, mas o livro ainda não estava em mim. Hoje está.
Quero eternizar esse livro na minha memória, no meu caminhar, em todos os meus dias. Quero carregar a certeza desse livro comigo. Porque o que ficou de mais bonito, entre todas as bonitezas das páginas que li, foi a certeza do amor. Com “O filho de mil homens”, aprendi que não é feio se ter esperança. A esperança é para se carregar como se carrega um livro sublime na bolsa. É algo capaz de preencher de felicidade sem razão de ser. Ler esse livro foi como fazer aniversário todo dia. Aquela certeza de que há vida, que há encontro, que há boniteza. Aquele caminhar pela rua de todo dia sabendo-se único e especial. Sim, uma vez por ano me dou esse presente, essa esperança.
Cada página lida foi feita de dezenas de frases grifadas em pensamento. Frases não, versos. O romance é tão poesia que parece ter sido declamado. Em alguns momentos de leitura frenética, eu sentia que ele, ao contrário, tinha sido despejado. Com ardor. Imaginei um Valter Hugo Mãe inteiro de poesia, com bonitezas acumuladas de um jeito tão ofegante, que seria capaz de iluminar um mar inteiro. E aí, incapaz de dar vazão a toda a graça do incapaz de ser dito, metralhava com palavras um sem fim de poesias, de esperança.
Imaginei ainda um Valter desajustado no mundo, sozinho na praia, querendo não ser só. E para não ser sozinho resolveu ser todos e escreveu o livro mais exultante que poderia ter escrito. O livro de todos os homens. O livro que eu queria ter lido sentada na praia, as visíveis e as imagináveis. O livro que me preencheu como mar de um afogado.
Desajustada como sou, conheci na lata todos os perdidos e mal-queridos do mundo imaginário de praia e campo. Brinquei com eles desde criancinha. E entre os estropiados eu me encontrei. Entre aquela lama incapaz de gerar colorido, eu me vi. Naquele bando de gente silenciosa, doente, perdida e sozinha com as profundezas do espírito, eu fui abraçada. Eu sonhei. Eu rezei. Eu sussurrei versos em voz alta. Eu mal contive a minha esperança.
Chorei “O filho de mil homens” por dias. Lia antes de dormir, soluçava abraçada no travesseiro. Lia no horário de almoço, chorava borrando a maquiagem. Lia no metrô, na calçada, na sala de espera. Chorava sem medo. Em cada lágrima brotada, uma esperança ardia.
O livro tem tanta metáfora que explica o mundo em 200 páginas. Poetiza a tristeza, a morte, o preconceito, o desencanto. Mas ele versifica o encontro. O momento em que duas almas se tateiam no escuro e a vida se torna tão devota desse unir-se que parece explodir. Todo encontro é uma esperança. A beleza que carrega aquele que sabe que há de ser. O caminhar frente ao nevoeiro, firme, perdido, mas se sabendo caminhante. Ler esse livro é apostar num caminho. E um caminho de poesia é tão lindo que abriga erva daninha e espinho.
E, imaginem só, um livro de tanta lindeza ainda abarcou o sofrimento. Ainda doída, chorei feito criança quando o pescador – de sonhos, de gente, de esperança – reconheceu que a gente tem que nutrir carinho pelo sofrimento, pelo sofrimento em que a gente construiu uma felicidade. Imagina pensar em sofrimento como terraplanagem? Um sofrimento tão fundamental como um pilar. Pilar de lindeza. Nunca tinha eu bem pensado, mas não é possível desprezar algo que nos fez mudar, ser feliz. Saber-se feliz é ter se reconhecido na dor, algum dia. A dor é a nossa referência. Também está no caminho do final feliz. Ou no feliz de agora, de todo dia. A felicidade também abraça a decadência. Mas nunca a falta de esperança. E quem diria, Valter me fez querer ter um dia saudade do sofrido de hoje. De ter chorado hoje. Da dor de hoje. Porque o livro, como disse, é todo certeza. E no sofrimento também há certeza, confiança. Em um mundo de tanta ausência, de tanta pergunta, confiar já é a resposta.
Eu nunca serei capaz de explicar o que esse livro mexeu em mim. Na mesma janela que o pescador abria para o mar, e o mar nele, esse punhado de beleza me abriu um monte de silêncios e a ausência do não sentir. Porque em cada letra eu senti com força. Pulsou em mim beleza e confiança, que terminavam em ternura, quase sempre. Pelos perdidos, pelos pontos, pelos tropeços, pelos lascados, pelos órfãos, pelos adotados. Por mim.
Há muito amor no mundo. Há delicadeza em ser filha. Sou filha de um milhão de histórias, de um mar de esperança, de um milhão de milagres. Sou capaz de igualmente gerar um infinito de sentidos, de ser mãe de um sem fim de felicidade. Há muita esperança no mundo. E há muito amor em mim.



Mais informações »

Se hace camino al andar

1 comentários
Meu terapeuta atende numa casinha muito aconchegante, que fica em uma rua cheia de árvores frondosas, flores bem cuidadas e quase nenhum barulho. Para chegar até lá, saio do metrô e entro em uma ruazinha igualmente fofa. Nessa ruazinha está a casa onde funciona uma empresa na qual trabalhei. Meu primeiro emprego em São Paulo, dois antes do atual.
Toda semana, na ida ou na volta da terapia, passo em frente a essa casa, uma construção portuguesa, bem antiga, mas muito bem conservada. É cheia de detalhes, caprichos. Fiquei mais de um ano e meio lá e não me lembro de uma semana sequer sem um pedreiro, um jardineiro, um marceneiro, um decorador, alguém executando alguma transformação naquele espaço, pequeno, até, considerando as tantas reformas ininterruptas.
O jardim é um espetáculo à parte. Mudas de flores escolhidas a dedo, arbustos podados irritantemente retos, pedrinhas bem dispostas, calçadas sempre muito bem varridas, uma fonte, um jardim vertical, água da chuva captada por um sistema artesanal, vasos com espécies raras. Costumava brincar que o jardim era uma versão eternamente beta, pois meu chefe estava sempre pedindo para mudar alguma coisa, acrescentar, jogar fora, de acordo com seus caprichos. Toda segunda-feira era uma nova surpresa. Acho que no fundo tudo na casa era assim, a estabilidade era um incômodo às vistas impulsivas, perfeccionistas e cheias de vontades do gran senhor.
Ainda hoje, quando passo pela casa, vejo que as reformas continuam. Tem uma sala a mais sendo construída, um caminhão sempre descarregando alguma coisa, um grupo de pedreiros trabalhando insistentemente. Como passo no sábado, raramente cruzo com colegas antigos, ou mesmo meus antigos chefes. Mas depois que eu saí, muita coisa mudou. Além das reformas eternas, muita gente da minha época saiu para outros rumos, seguindo mais ou menos essa renovação visual permanente.
O fato é que toda semana eu passo pela casa e ultimamente tenho olhado mais para ela. A casa nunca é a mesma. Nesse esforço contínuo de renovação, para saciar desejos incontroláveis de atingir a perfeição, a casa muda sempre, o tempo todo.  Mas também sou eu que mudo. A cada vez que desço ou subo a rua, sou outra. À medida que o tempo vai passando, minha distância com o período da minha vida em que eu passava mais de um terço do meu dia ali se torna maior. E, consequentemente, em minha vida esse período vai se tornando menor. Embora esteja bem próxima da casa (pelo menos uma vez por semana), estou cada vez mais distante dela.
A casa representa o lugar que abrigava a antiga Tatiana. E, cada vez que meu olhar repousa sobre ela, a casa, é outra Tatiana a olhar. O que enxergo, nessa distância proporcionada pelo tempo e pela proximidade propiciada justamente pela minha terapia, é que tudo que passei ali está situado num ponto fixo do meu caminho. Vivi ali algumas das minhas piores angústias. Dilemas profissionais, crises de identidade, medos, repulsas, raivas controladas, exacerbadas. Derramei muitas lágrimas nesse jardim tão bem cuidado. Algumas tristezas nada tiveram a ver com o trabalho em si, nem com ninguém dali de dentro, mas o fato é que essas consternações marcaram o período em que ali trabalhei.
Mesmo sendo eu que pedi demissão, para ir para outro emprego, poderia ainda sim olhar para a casa com raiva. Com aquela sensação incômoda quando vemos a cicatriz daquilo que nos feriu. Aquele momento em que a gente forçadamente precisa se lembrar de algo doído que tivemos que viver. Poderia, ainda, olhar para a casa com aquele olhar arrogante de quem costuma dizer que agora está muito melhor. A menina que gesticula exageradamente com o novo namorado, esfregando-o na cara do anterior que a deixou.
Mas, sabendo que ali não vivi nem um período ruim nem um período bom, julgado assim, de forma categórica, meu olhar sobre a casa recai sobre a certeza apenas da constatação do caminho. Do meu caminho. Aquele que não é errado, nem certo, é o caminho cheio de erros e acertos e cheio de dramas e silêncios, pausas e perdas, gritos e retomadas, romances e lágrimas, ganhos e palavras. O caminho que eu percorri, cheio de escolhas. Ter trabalhado ali fez parte de um caminho que até hoje sigo, sem saber muito no que vai dar. Cada vez que desço ou subo a rua, não sei bem onde precisamente estarei. A cada visita ao meu autoconhecimento, não sei bem no que vai resultar.
Olhar para a casa nessa perspectiva um pouco mais madura me fez repassar na mente também outros dramas passados. Outros dilemas profissionais, murros em pontas de facas, pessoas por quem sofri, finais, rompimentos, derrotas, casas perdidas, empregos recusados, amigos distantes, coisas que deixei para trás. Sentimentos doídos naqueles momentos. Mas que hoje não se tornam menores pela distância temporal. Tornam-se pequenas partículas, pequenas pelo conjunto que formam com outros fatos e outras pessoas e outras vitórias e ganhos e outros amores, empregos e outros aprendizados. O conjunto que forma esse caminho.
O que procuro saber, no caminho metafórico até a terapia, é quem eu sou. Apesar de que, um pouco como a Alice, eu saiba quem eu sou pela manhã, mas depois mudo muitas vezes desde então, percorro uma busca nesse caminho. Procuro, no caminhar, encontrar meu caminho, muito embora eu me veja envolta muitas vezes em neblina e sem bússola. Resta-me, então, reconhecer que não há um caminho, uma receita. O caminho se faz ao andar. Golpe a golpe, verso a verso. Não é também nenhum Deus dará. O caminho se faz sabendo para onde se está indo. Como um mapa da intuição.
Caminante, no hay camino. Hay dirección.

“- Você poderia me dizer, por gentileza, como é que eu faço para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde você pretende ir – disse o Gato.
- Para mim tanto faz para onde quer que seja... – respondeu Alice.
- Então, pouco importa o caminho que você tome – disse o Gato.
- ... contanto que eu chegue em algum lugar... – acrescentou Alice, explicando-se melhor.
- Ah, então certamente você chegará lá se continuar andando bastante... – respondeu o Gato.”
(Alice no País das Maravilhas, Lewis Carrol)

“Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
‘Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…’
Golpe a golpe, verso a verso…”
(Antonio Machado, Caminante no hay camino)

Mais informações »

Os enlutados de amor

0 comentários
Os enlutados de amor se cruzam nas esquinas de suas dores e se cumprimentam em silêncio, carregando ossos de seus ancestrais em sacos de estopa. Como quem arrasta pedaços de passado sacolejando em suas costas, enervados pelo barulho provocado pelas suas bagagens. Não aprenderam nada com suas malas remendadas, esqueceram tudo ao vir um novo amor. Os enlutados de amor não aceitam clichês nem menores amores. Que era melhor agora que depois. Que não era para ser, quem atestou isso e reconheceu firma? Que sairão maiores depois dessa. E que vai passar. “Um samba popular”. Os enlutados de amor sabem o quanto é ser cantor impopular nas timelines. Quem sangra a dor em versos doídos e para-choques das fossas por uma semana, ao final da qual escutam: ainda está nessa? Vai passar. É carnaval. É carnaval, é carnaval. Os enlutados de amor são aqueles feridos de guerra que percorrem distâncias absurdas após perderem um de seus membros. Não gritam, não desesperam. Apenas cumprem o expediente, mesmo lhes faltando pedaços. Os enlutados de amor pedem pão na chapa e uma média com dor e para viagem, por favor. Rasgam seus retratos para não continuar vivendo em pensamento. São enlatados, sofrimento em conserva. Congelados e delivery. Vivem suspensos no esgotamento de suas tentativas. Nas horas revisitadas sempre e todo o dia, infinitas e repetidas vezes, diariamente às seis da tarde. A Voz do Brasil. Os enlutados de amor são mais dramáticos que O Guarani. Mais previsíveis que Peri e Ceci. Os enlutados de amor querem morar em jazigos de corpos já exumados, querem respirar ares mofados, querem moléstias não inventadas para justificar. Não acreditam em horóscopos ou cartas de tarô que lhe dizem nada menos que “Ele voltará”. Os enlutados de amor são Peixes, Luas em Câncer, Ascendentes em Escorpião.  Navegam em mares à deriva de peixinhos afogados em medo. Medo de que “Ele nunca voltará”. Os enlutados de amor não são os versos todos terminados em proparoxítonas, não seu Buarque. Nem os matemáticos acordes clássicos. Tampouco os encadeamentos perfeitos de Olavo Bilac. Os enlutados de amor têm um pôster do Vinícius de Moraes, ouvem Fagner, fazem deferência a Waldick Soriano. “Volta, meu amor, fica comigo, não me desprezes, a noite é nossa e o meu amor pertence a ti”. Nas profecias dos loucos da Praça da Sé, às seis da tarde, os enlutados de amor passam e não param, membros mutilados sem pedir socorro. Não dão a mão a quem lhes decifra porque têm medo que o luto se esgote. Os enlutados de amor estendem a mão para os santinhos de promessas, das amarrações definitivas. Os enlutados de amor vestem terno e Bíblia, e gritam essa trilha. “Ele voltará! No terceiro dia, Ele voltará!”
Mais informações »

Instasize

0 comentários
Se a foto não cabe no quadradinho pré-destinado, merece ser publicada?
Se o instante não cabe na dor de sentir, merece ser vivido?
Se o sentimento não cabe no tempo da espera, merece ser pingado?
Se as perguntas não cabem no possível, merecem ser marteladas?
Se a foto em preto e branco não cabe na moldura, merece ser exposta?
Se a ferida não cabe na cicatriz, merece ser chorada?
Se as letras não cabem no espaço predestinado, merecem ser lidas?
Se as expectativas não cabem no oráculo, merecem ser frustradas?
Se não mereço, não caibo?
Mais informações »

Presságio

0 comentários
Dez dias antes de perder um amor, comprei duas taças de cristal. Para receber o vinho, para recebê-lo em meus braços. Trouxe as taças com carinho e cuidado. No balanço do caminhar, uma se encostava na outra, mas protegidas estavam pelos seus invólucros. Pelos receios comuns do início do amor. Em casa, em cima da pia, em silêncio, ouvi. O choque. Uma se quebrou. A outra permaneceu intacta. Dez dias antes de perder meu amor, uma parte do par se quebrou. Não foi a bola, foi a taça de cristal que me trouxe o prenúncio. Hoje tenho apenas uma taça. Eu devia bem ter desconfiado.
Mais informações »

Da natureza das coisas que terminam

3 comentários
"A vida é uma longa despedida de tudo aquilo que a gente ama" (Victor Hugo)


Querida São Paulo,


Hoje o ano recomeçou para mim. Por coincidência, junto com nossos aniversários – o seu e o meu, aqui. Por coincidência, coloquei hoje o mesmo vestido que vesti da última vez que o ano começou. Há exatos 25 dias, eram outros sonhos, outras esperanças, outros os sentimentos.
Como é comum no dia em que comemoramos a minha chegada em suas paragens, revejo a minha relação contigo, cidade pulsante-fria, cidade solar-nublada. Meu paradoxo preferido. Por coincidência, meu recomeço de ano foi paradoxal. De tanto esperar vida nova, veio a morte, racional ambivalência. De tanto esperar recomeço, veio fim. Taxativo, calculado, assinalado. De tanto esperar volta, veio corte. Reto, seco, uniforme. Sem volta.
No dia do meu recomeço perdi um amor. Na perda, no fim, na morte, no corte, há sempre um recomeço. Um trem que chega é o mesmo que parte. Um encontro, ainda assim é uma despedida. O não pertencer é, ainda assim, um pertencer à coisa alguma. Perder alguém é de qualquer forma um encontrar-se. Nem que seja com a própria consciência. Com a ciência de que vai parar de doer. Mas até lá, ah, até lá...
Na atual lembrança de um amor que perdi, vejo-me multifacetada nas relações amorosas que você me deu de presente. Pequenas, quebradas, imaturas, incompletas, insensíveis, a maior parte intocáveis. Todas micropedaços de um espelho estilhaçado. Encontrei-me por um tempo tentando me reconhecer nesses cacos, mas minha identidade nunca estava inteira nesses pequenos reflexos. Tudo era um instante fugaz. Era um pedaço meu ali, outro acolá, nenhum caco traduzia minha inteireza. Razão dos cacos? Provavelmente. Mesmo os maiores me cortaram.
Ao achar que meus amores em ti seriam sempre essa falta de alguma coisa, essa entrega de coisa nenhuma, você decidiu me espantar com um novo embrulho. Recebi esse presente como quem espera pela encomenda de outro continente. Abri o pacote com pressa, tal criança em dia de festa, rasguei o papel e a fita, para dar sorte. Tive.
Vi minha imagem inteira e contínua nesse reflexo tão improvável. Reconheci-me na entrega, no amor, na plenitude. Eu não era a menina da tristeza, eu era, bendita epifania, a mulher que desfruta o amor. Carreguei no ventre não uma criança, mas uma nova certeza. A que a vida não é feita de primeirezas, mas de ultimezas. Porque o último não tem o gosto do desconhecido do início, mas tem o sabor inefável do fim da busca, da espera.
Teu paradoxo foi me transformar em cacos ao arrancar o presente como aquela guitarrinha rosa que meu pai decidiu por bem vender para uma cliente importante, depois de tê-la me dado, lá pelos 7 anos. Não é bem tristeza, não é bem raiva, cidade. É restar sem entendimento. É aceitar sem ter aceitado. É respeitar afogando no peito um mar de amor ainda em mim.
No dia do meu recomeço, comecei um novo bordado. Peguei o ponto final e comecei uma nova linha. Aqui, sou eu escrevendo. Mas lá, a menina das letras, a garota das entranhas, aquela do amor sempre tão bem expressado, ficou muda. Miúda, sem argumentos válidos. Calada. Sem bastar. Insuficiência emocional ambivalente, já que a corredeira de amor ainda rumava turbulenta no curso do rio. Desordem lenta no meu peito, turba que se tornou o leito de meu desassossego.
Quando se rompeu o amor, quando se abortou o sentimento, quando arrancadas todas as esperanças, não morri. Continuo, embora a contragosto, bem viva. Minha tristeza, Caeiro disse bem, é um pôr do sol. Esse crepuscular sentimento anoitecendo em mim conflita, sim, com o ensolarado lá fora. Paradoxal morrer quando há vida, seiva, pulsante. Clichê ser tão paradoxal, Dona cidade. Feio nublar corações em dias tão bonitos.

Não é um bom dia para comemorar. Talvez haja um dia bom para renascer.

De quem ainda te quer bem,

Tatiana


Mais informações »

Sobre carecer

0 comentários
Achava feio ser carente. Uma vergonha, quase uma desonra. Costumamos, se notarmos bem, associar carência a tudo que é mimado, aquele querer com birra, batendo o pé. Carente é sinônimo de um ser pegajoso e também é justificativa para as atitudes mais mesquinhas. Fez isso ou aquilo porque é carente. Que carência! Diz-se de uma atitude chata, pedante, indigente.
Aí notei que a gente maculou essa palavra, como faz com tantas outras. E a mancha da carência linguaportuguesticamente falando me fez sentir vergonha de senti-la. Foi meu terapeuta que martelou nisso, quando eu chegava me desculpando: “sei que isso é carência. Ou agi assim por estar carente”.
E ele rebatia essa autoanálise meio capenga com uma pergunta intrigante. “O que há de errado na carência?”.

Carência é carecer. A gente – pelo menos aqui no Sudeste e no Sul – tem mania de usar só o substantivo ou o adjetivo, mas é no verbo que essa palavra se mostra mais bonita e talvez é nela que reside seu real significado.  Carecer é não ter (e principalmente notar que não se tem) o que é preciso. É sentir essa falta, mas como naquele poema do Drummond não focar na falta e sim pensar numa ausência como um estar em mim. Há bastante falta na ausência. Há bastante falta no carecer.
Em grande parte, a gente carece de carícias. Não somente no sentido literal, mas carecemos de algo que nos acaricie. O ego, a alma, a autoestima. Um bom autor faz carícia, cócegas, às vezes as duas coisas juntas. Voltei recentemente de uma viagem e acredito que só consigo resumir a felicidade que senti diante dos novos cenários descortinados com a metáfora da carícia. A experiência me cativou e, cativando-me, preencheu-me, acariciando-me.
“Carece perguntar”, diria alguém lá do Nordeste. “Carece não”. Carece sim. Carecemos, sempre. Estamos sempre faltantes, sempre carecendo. Precisamos nos dar essa resposta. Carecemos do quê? Entender essa ausência assimilada é nos permitir essa “carecência”. Para voltar a passar os olhos ao redor procurando. O que é preciso. O que nos falta para nos sermos completos.
Minha resposta vem, nesse momento, não no que, mas muito em quem. De quem eu careço é, à mesma medida, quem me carece. Tem aquele que passa, finge ficar, mas sabe que não sabe permanecer. Careço daquele que mostra que me precisa. Que não blefa. Não quero faltar para quem me falta. Quero bastar.
Falta não é normal, bom, talvez não devesse ser. Mas carência, ah, essa carência adoecida, enfermada, são também minhas exclamações alegres. E talvez um dia eu brinque, cante e dance com alguém que também traga suas carências próprias. E que não tenha vergonha de ser carente, uma vez que eu saberei estender minhas carícias e entender as suas. E completá-las com minhas carícias acumuladas. E que, mais que tudo, seja digna de carecer das suas carícias.


Um mantra.
Mais informações »

Escorpianos

1 comentários
Quando decidi morar em São Paulo, estabeleci como meta conseguir pelo menos três entrevistas em uma semana para justificar uma viagem de 900 km do Sul para lançar a sorte. Três tentativas para relevar uma viagem com pouco dinheiro e pouca esperança. Quando recebi a ligação da terceira empresa querendo me entrevistar dali a poucos dias, vibrei sozinha na mesa do almoço. Ninguém da minha família, moradora de uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, disfarçava que não queria que eu viesse para São Paulo.
Meu pai era o que menos escondia a torcida ao contrário. Seja pela violência, pelo caos, pela enchente, São Paulo não era o que sonhava para mim. Frustrada sem a ola familiar, tive um chilique. Já era medo demais enfrentar a gigante de pedra sozinha sem um suporte. Então meu pai me chamou na varanda e me falou algo que nunca esqueci. Em 1973, com menos idade que eu, também desafiou a si mesmo para bater de frente com outra metrópole. Abandonou a mesma cidadezinha pacata – bem mais agrícola que a minha – para tentar a vida no Rio. Com uma comunicação mais restrita, sabia da família no Sul por meio de cartas enviadas e trazidas pelo caminhoneiro que transportava feijão para o mercado em que trabalhava. Por tudo isso, ele me disse que não adiantava me proibir (como nunca havia feito, com nenhum dos meus sonhos). Eu iria, de qualquer jeito. Nos olhos do meu pai, naquela varanda, enxerguei a sua entrega.
Meu pai não só entregou seu coração lavado e sua benção naquele momento. Entregou-me a certeza de que éramos iguais. E que sou meu pai quando aprendi que a gente tem que fazer o que tem que ser feito, mesmo sem ninguém aplaudindo. Sou meu pai quando a gente segura as pontas dos sonhos, mesmo com calafrios.
Quando eu era bem pequena, no momento em que ele me punha na frente da janela larga para observar a Lua cheia gigante e diante da qual eu me pelava de medo, meu pai ria e me protegia, mas não fechava as cortinas. E desde aquela Lua estou aprendendo a enfrentar meus cagaços. Sozinha, é verdade, com a solidão da distância que escolhi pra mim. Sou meu pai quando me dei conta que minha vontade de me lançar ao mundo pode ser maior que o tamanho dos meus passos. Quase sempre é. Sou bem menor que a Lua. O que não me impede de olhar para ela. Então, também sou meu pai quando, ignorando o tamanho dos meus passos, eu me lanço. Sem lenço, documento ou plano.
Tive um pai viajante, impossível negar que isso me constituiu como uma pessoa que enxerga a vida tendo graça com trânsito. Sou eu a garota das pairagens. A menina dos portos sem fim. Das partidas, das chegadas, do meio do caminho. Sou eu pequena acordada de madrugada dentro do ônibus com meu pai do lado. E perguntando: onde estamos? E agora, pai, onde estamos? E com a sua metade paciência e metade vontade de dormir ele me ensinando que a maioria das cidades tem comércios que carregam seu nome. Tinha a Mecânica Curitibanos, a Vidraçaria Chapecó, a Expresso Xanxerê. E foi aí que eu aprendi sozinha a desvendar o nome das cidades de todos os meus trajetos. Até hoje me valho disso para descobrir onde estou. Sou meu pai quando descubro formas de me achar quando o mundo teima em fazer eu me perder.
Foi com todas as histórias de um Paraguai meio mágico que meu pai trazia toda a semana que aprendi a conhecer o que nunca vi. Aprendi o valor da batalha, do jogo de cintura, de não entregar os pontos. Era com a chegada do meu pai de Ciudad Del este que vivia o misto da alegria de tê-lo de volta com a tristeza de saber que contaria milhares de mercadorias no dia seguinte. Nada vem de graça, nem o pão, nem a cachaça, nem aquela bonequinha nova que eu queria ter. Sou meu pai quando aprendi que manter as mãos na cintura vai me deixar apenas parecida com um bule.
Desde criança sou sua garotinha, desde criança sou sua séria ferroada. Sou meu pai quando, escorpiana, sou intensa, oito e oitenta. Desde criança sou sua princesinha, desde criança sou sua cria mais ardida. Sou meu pai quando falo as coisas da boca pra fora, esperando que o amor seja maior que as minhas bolas foras, que as cores vivas de até então sirvam para pintar os negros desabafos.
De todos os defeitos que enxergo nele sou eu ali, como que Narciso olhando o reflexo. Sou meu pai quando reconheço que errei, mas não consigo declarar publicamente minhas fraquezas, mesmo não tendo vergonha de chorar em público. Sou meu pai quando contraditória, quando forte, quando teimosa, quando truco com a vida sem cartas.

Sou meu pai quando choro baixinho antes de me deitar pensando se eu o decepciono, mesmo sem coragem para, peito aberto, perguntar isso em alto e bom som. Sou meu pai quando não tenho a mínima do que fazer mas finjo bem. Sou meu pai quando, em cacos, encontro o fim, mas desperto aquela fagulha que reacende a certeza de que posso muito mais. Sou meu pai quando dizem que não dá e, só de raiva, dou, pano pra manga. Sou meu pai quando saudosa, só quero reencontrá-lo. 
Sou eu, pai, ainda uma menininha.


Mais informações »

Meu menino

1 comentários
Por todas as vezes que me carregou nos braços, pegou-me no colo e, principalmente, pelos passos caminhados lado a lado. Pelas nossas viagens interiores, sempre rumo ao desconhecido, não porque necessariamente desconhecíamos o destino, mas porque ao seu lado qualquer rota foi sempre plena de um novo olhar. Por ter sido meus olhos quando não quis enxergar a verdade ou a hora da mudança (contraditoriamente tão ansiada, mas um tiquinho adiada, por medo, quem sabe). Mas principalmente por ter sido meus ouvidos diante de tanto chororô. Por todas as idas e vindas, tão necessárias (mas tão ardidas!) para o nosso crescimento. Por ter me permitido mudar. Por ter carregado comigo minha vida em caixas. Por ter atendido meus apelos, quando achei que não pudesse dar conta. Pelas contas, pelos contos fantásticos escritos – e imaginados – a quatro mãos. Pelos móveis montados e desmontados (mesmo me amaldiçoando baixinho por insistir no mesmo guarda-roupa). Por ter desafiado as câmeras do metrô para transportar o forro do referido guarda-roupa – vulgo móvel highlander. Pela paciência de me explicar centenas de vezes a mesma história, da lógica do Campeonato Brasileiro ao disparate de sirigaitas. Pelo entendimento de todos os silêncios, de todos os soluços guardados nos silêncios das madrugadas. Pelo espírito de mariahelena possuindo meu corpo e minha alma, pelos aprendizados conjuntos, por ter me ninado, quando menina. Por cada migalha compartilhada, pelos tostões gastos, pelos bolos de pesos contados. Por ter sido meu maior trovador. Pelas cartas, e-mails, encartes de DVDs escritos e filmes gravados. Por ter sido meu homem, quando mulher. Por ter escrito mais sobre mim do que eu supunha conhecer. Por ter me descortinado um mundo diferente diante dos olhos. Pelos cachorros, pela gata. Por ter me dado a certeza de que eu não estava sozinha, não nessa vida. Pelas malas carregadas, por aquelas arremessadas. Pelas raivas, pelas birras. Por ter me suportado quando insuportável. Pelos testes, de farmácia, de sangue. Pelos desabafos, pela gastura de não querer esperar a banda passar, pelos filmes iranianos no outro canto da cidade. Pelo suor escorrido, de trabalho, de tesão. Pelas veias furadas, pelos corredores de hospitais ao meu lado. Por entender meu inconformismo gritando, pelo humanismo que me ensinou e que me aprendeu (é tanto quê de humano vivido que não sei mais se é meu ou seu). Pelo barco à deriva que dividimos, não somente pelos nossos mapas astrais tão navegáveis, mas pelos projetos sem rumo nos nossos mares poéticos de possibilidades. Pela minha e sua cabeça-durice, pelos berros nas estações, pelas despedidas e encontros ansiados em plataformas de rodoviárias e aeroportos Brasil afora. Pelas gargalhadas abafadas e aquelas que pudemos soltar. Pelas piadas, pelas histórias mirabolantes, pelos apelidos (tão nossos que mereceram até tradução quando nos embrenhamos pelo estrangeiro). Pelas nossas passagens, as compradas, as não compartilhadas, por todas as viagens, juntos, sozinhos, pelas nossas pairagens. Por ter me permitido ter te transformado. Por ter me transformado, ao seu lado. Por todo o significado de nossa vida juntos. Por todos os trilhos, pela vida trilhada – e com sentido, rumo. Pelas estações. Pela espera, pelos encontros. Pelos finais e reencontros. Por toda a nossa busca ressignificada depois que pela vida do outro passamos. Ou ficamos. Pela certeza de que não estaremos mais juntos, de que acabou e ter a paz dessa certeza transformada no sentimento de gratidão, a gratidão mais ampla e irrestrita que se pode ter por uma pessoa. Pelos aplausos, por ter colocado a mão no meu queixo e levantado minha cabeça, literal ou metaforicamente, para enfrentar esse mundo e essa sãopaulo assim, olhando pra frente. Por ter me ensinado tanto, mas tanto que até chega a doer. Pelos telefones batidos, pelos gestos tão nossos, pelos nossos roteiros tão bem escritos, embasados com nossas trilhas, nossos argumentos, nossa direção de arte. Por ter me ajudado a dirigir meu caminho, mesmo sem carta. Por tudo isso, e por muito mais que não consigo enumerar, de tanto e tanto que se encheu meu caminho em mais de três anos, por esse tanto de tudo, por tudo, você é e sempre será meu menino. Que de longe continuará a fazer parte de quem eu fui. De quem eu sou. Prometa-me ser feliz. Que eu prometo ser a sua maior – e melhor – torcedora. Daquelas que valem por um Maracanã inteiro gritando seu nome. E vibrando – de orgulho – com seu gol.


*Para meu menino, que ontem fez 31, três dos quais me foram permitidos viver ao seu lado.
Mais informações »

O velho

0 comentários
A imaginação sempre me foi companheira fiel. Bem criança eu já havia estado em todos os outros mundos possíveis de serem habitados por meio da fantasia. Era rainha, estrela de cinema. Tinha amiga imaginária. Não sei bem se isso é fruto das combinações astrológicas de meu mapa astral meio barco à deriva, das centenas de livros que meu pai vendia na Livraria Tatiana e eu devorei, de todos os poemas e trechos de músicas que eu lia na apostila da Positivo, ou mesmo de todos os mundos para os quais meus pais me possibilitavam viajar por meio de suas lembranças.
“A imaginação é a louca da casa”, disse Santa Teresa de Jesus, ecoada pela espanhola Rosa Montero em um de meus livros preferidos. “A louca da casa”, seu romance difícil de catalogar, passeia entre o mundo real e o fictício e retrata justamente reminiscências da infância da escritora. Minha infância é, ela mesma, situada num limbo entre o real e o imaginário. Ainda hoje, quando revisito a longínqua São Lourenço do Oeste, sinto-me como que revendo um filme em amadora projeção.
Minha Macondo, ou minha Pasárgada, dependendo do quanto chove ou de quantos desejos me são prontamente atendidos, é feita de reencontros. Com os outros e comigo mesma. Em cada reencontro com amigos, irmãos e pais são suscitadas historietas incrementadas diante das lacunas da memória que já se deixa enganar. Nos reencontros comigo mesma recordo-me das minhas viagens interiores.
Foi numa ensolarada tarde de dia útil de abril, já quase à beira dos trinta, que me lembrei do Velho da Tarde. Andando de mãos dadas com a pacatez e a apatia da cidade serena, diante do sigilo das ruas sempre (e sempre) vazias, naquela sensação enfastiada de sono pós-almoço que no meu povoado é perene, ouvi alguém dizer: “Boa tarde!”. E lembrei-me de quando, menina, minha imaginação abria suas comportas ao ouvir essa expressão.
Como queria escrever o mundo antes de saber as letras, minha mente construía imagens para tudo que eu ouvia. No meu entendimento, ‘boa tarde’ me remetia a um velho, de barba branca e rala e expressão serena. Esse senhor, que vejo hoje em minha memória como naquela época, não era meu avô, nem meu nonno, nem nenhum ator que tinha visto na televisão. O Velho da Tarde era meu, só meu. O meu personagem que não desgrudava de seu cenário. Sentava-se numa cadeira de balanço, na varanda de uma casa de madeira velha, como ele. Tinha a expressão plácida diante do céu cor de pôr do sol e, assim, num estado de êxtase ou espanto, meu velho contemplava todo entardecer.
Foi nessa última viagem que em sonho ainda acordada encontrei-me com o velho. Ele não esboçou reação ao me ver sentar-me de mansinho nos degraus que davam para sua varandinha. Acho que os velhos adquirem uma estranha sabedoria de se fingir invisíveis, assim como a ignorar o que não lhes diz muito respeito. Sem saber se ele dormia, ou fingia, lancei-me a pergunta que me levou em pensamento até ali:
- É tarde?
- Sempre é – respondeu-me.
- E o que fazer em relação ao tardio?
- Recordar, recordar sempre.
- Até mesmo o que te faz mal?
- Recorde até sua memória gastar de reviver. Não forçosamente. Deixe a lembrança vir de forma natural, como o fim desta tarde. Não adianta lutar contra isso. Mas de nada adianta querer o entardecer às duas horas. Também deixe a lembrança esvair-se, esmiuçar-se, como deve ser. Deixe-a passar por você. É por não querer aceitar a hora de cada coisa vir, nem antes nem depois, a raiz de todo sofrimento. Cada coisa tem o seu tempo. Até o esquecimento.

O Velho da Tarde nunca havia me dito nada. Mas eu também nunca havia lhe dirigido a palavra. Nessa última viagem, nessa última Páscoa, nesse último renascimento, aprendi muito sobre lembrança, sobre reencontro, sobre esquecimento. Sobre passar. Sei que, assim como a louca de casa, tenho um companheiro fiel, esperando-me sereno, sob um céu alaranjado, em cada entardecer. E nem é preciso revisitar minha cidade para revê-lo. Basta revisitar a fantasia inesgotável da minha infância para reencontrá-lo. Para reencontrar-me.
Mais informações »
 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine