segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Zéu e Laia
Quem dera fosse praia. É um pedaço de chão que congela e depois ferve, alternadamente, que alguns insistem em chamar de terra. Zéu e Laia não são dali, mas insistem. Porque é mais barato, é cômodo. É fácil, sobretudo.
Laia e Zéu perderam o trem uma vez e agora sabe Deus quando ele passa de novo. Aí eles continuam existir na terra que ninguém mais escolheu voluntariamente como morada. Eles existem não existindo. Não firmam nada, Zéu e Laia têm sonhos de pó e casas desmontáveis. Laia e Zéu não trazem mais nada para casa, porque quanto menos peso mais fácil será pegar o trem, que passa rápido.
Mas o trem não passa. E eles não escrevem ao maquinista. Aí o maquinista nem sabe que eles querem pegar o trem, mas Zéu e Laia, ainda sim, esperam.
Laia e Zéu têm a bagagem certa para ir, nem grande nem pequena demais. Eles têm a roupa certa para viajar, o dinheiro contado, uma caravana de alegorias montada para vestir quando chegarem do lado de lá. Mas o trem desesperadamente não passa.
Desembestadamente, Zéu e Laia correm em círculos, caçando qualquer parte da terra ainda não habitada. É preciso viver enquanto se espera. É preciso esperar, enquanto se vive.
O final de Zéu e Laia você decide. Mas eu sei, não. Eu tenho certeza de que eles não vão seguir seu conselho.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Sinais
O gato me esperava pela manhã. Sentado na cadeira, seguindo com o olhar meus gestos, ele miou. Um miado chato, comprido. Olhei para ele e perguntei o quê? Ele continuou miando. Miando e me desafiando por trás dos olhos estrábicos.
Fui lá e olhei. Tinha comida, o pote de água estava cheio, a areia limpa. Perguntei de novo o que foi? Queria dar uma volta, decerto, apesar de nunca sair de casa.
Abri a porta, ele foi, cheirou os cantos, subiu uns degraus, olhou para mim, subiu mais um pouco. Aí, sem eu dizer nada, voltou. Calmamente, cabeça baixa, como se obedecesse uma ordem. Uma ordem tácita: você deve voltar.
Fiquei me perguntando o que queria o gato. Há dias reparo que ele anda triste, melancólico mesmo. Acho que ele tem depressão.
Ou está inconformado, apesar de eu duvidar da capacidade de inconformismo dos irracionais. Sempre achei que ele tivesse espírito de gente [mal dos donos pensar isso dos seus animais, usando expressões como “forte personalidade”, “vontade própria” ou coisas do gênero]. Se ele fosse gente, seria um serial killer, um psicopata, pensei. Mas não. O gato encarnava agora a personificação do gênio depressivo. Sabe que precisa de mais. Tem comida, tem água. Tem o que lhe supre o corpo, mas falta algo. Uma coisa que cutuca e não se sabe ao certo o que é. Às vezes se quer liberdade, mas quando se abre a porta vem o medo de sair. Ou a liberdade possível é pouca, restrita. Melhor seria desbravar o mundo.
Às vezes não é nada. Às vezes, simplesmente, o gato cresceu.
domingo, 1 de novembro de 2009
A farinha de mandioca
A farinha de mandioca, por exemplo. Não conheço outra família do Sul do Brasil que come tudo com farinha, branca ou torrada. A influência, com certeza, é da matriarca nordestina. Quando ainda morávamos juntos, nos almoços e jantares, lá estavam os potinhos dispostos pela mesa carregando o produto. Os pratos não precisavam, necessariamente, ter molho para o acompanhamento. Comíamos farinha no seco, mesmo, tal qual aquelas famílias do sertão. Só faltava o calango.
Quando vinha visitas, nos contínhamos. Não era tão fácil entender gente que comia tudo, tudo com farinha. Às vezes eu contava e perguntavam se não servia farofa. Não, não servia. Sem farinha chuviscada nos pratos, faltava algo. Colocar os potinhos na mesa era tão indispensável como talheres e copos.
O fato é que o costume, aos poucos, foi sendo deixado de lado. Como dois integrantes debandaram, nenhuma das três casas tem mais seus potinhos. Por isso, repito, a farinha é um pedaço da nossa biografia coletiva. A farinha nos unia.
Hoje, achei um pacote que sobrou de uma farofa que fiz. Ao almoçar, recolhi-a do armário e, num gesto quase de reflexão, despejei os grãozinhos minúsculos no prato. Uma homenagem silenciosa as minhas quatro pessoas que naquele momento almoçavam unidas, enquanto eu, na solidão, absorvia minhas lembranças.
domingo, 25 de outubro de 2009
Ismália
Percebeu que estava entrando em depressão quando notou que todo mundo, ou todo o mundo, era mais contente que ela. Por que toda a gente, uma vez dividindo o mesmo cenário e as mesmas possibilidades de angústias, sorria? Por que se saber contente se Ismália sofria? Lembrou-se de uma professora de Literatura que dizia que o depressivo era o ser mais egocêntrico, porque achava que o universo girava em torno dele. E Ismália, de repente, se encaixou nessa definição.
Começou a chorar todo dia. Terminava o filme e ela chorava. Assistia à televisão e ela chorava. O debulho das lágrimas era insuportável, porque a angustiava de uma forma inexplicável. Era como se tentase conter com as mãos a água toda querendo sair das comportas de uma hidrelétrica. Sem água falta luz. Mas o choro, inexplicável, não conseguia libertar Ismália das amarras da alma.
A angústia parecia ter dia certo para se tornar mais intensa. No domingo. No domingo à noite. Ela não sabia se era pela programação da tevê, pela iminência da segunda ou pela confusão mental instalada. A tristeza de se sentir só, mesmo acompanhada. Paradoxal. Ismália tinha vontade de sumir, de buscar o porto.
O porto nunca foi bonito, ela sabia, mas o considerava atraente. O porto é a intermediação do passado e do futuro. O presente. No porto só se deixa o que passou e só se busca o que há de vir. Nada mais. Haveria no mundo um porto infinito? Somente um porto absurdamente grande poderia abarcar os sonhos de Ismália.
Seu sonho, naturalmente, era ir. Como era difícil a dor da partida e as despedidas lhe agrediam a alma, Ismália planejava explodir para que suas partículas se reencontrassem longe dali. A mágica do seu sonho a libertava de uma mutação de si. Seu sonho era perfeito, mas Ismália, querendo ir, no fundo era ciente que seu desejo era aquela velha tentativa. Tentativa de fugir.
Deixar o porto, abandonar o presente. Como no porto só é possível um trajeto – é impossível comprar um bilhete em direção ao passado – Ismália concluiu que seu sonho era o futuro. Mas ela chorava porque aonde quer que fosse a mancha do presente a acompanhava. Estava presente, a insígnia, sempre com ela. Encalacrada, a marca do agora encobria Ismália como um véu. Por baixo do véu ela era só saudade e sonho. Por cima, o presente, encobrindo o caminho. Por dentro, a vontade de ser só ela. Ismália quis chorar mais uma vez. Ismália, confusa, dormiu.
domingo, 18 de outubro de 2009
Palhaçada
- Que Beto?
- Aquele que te acertava com machado inflável na minha festinha de 3 anos!
Lembrei na hora. Tudo o mais se tornou irrelevante perto da massacrante lembrança daquela tarde. Inclusive o que minha irmã queria falar sobre o tal Beto, que hoje deve estar gigante. Eles se reencontraram num show esses dias, 12 anos depois do episódio do machado. “Legal”, comentei. “Nossa, tinha uma multidão e a gente se encontrou!”. “Hmm, legal”.
Para comemorar os três anos da caçula, minha mãe retomou sua veia de promotora de eventos perdida depois da minha última grande festa, de 7 anos. Com 8 a caçula nasceu, as vacas emagreceram e fazer festa ficou mais difícil. Entretanto, houve uma sobra e deu para organizar uma festinha em sala de aula para celebrar o terceiro ano da minha irmã. O que era para ser simples, um bolinho com refrigerante, tornou-se um megalomaníaco evento. Com direito a vestido vermelho de veludo para a aniversariante, distribuição de brinquedos infláveis para os convidados, decoração montada com papel crepom, isopor... e um palhaço. Sim, era imprescindível ter um palhaço, para alegrar (?) a festa.
- Mãe, eu não vou.
- Tatiana, por favor. Você coloca a roupa, fica um pouquinho e depois se veste normal. Só para ficar mais divertido.
Ela, como sempre, me convenceu. Diz meu pai que numa festa do meu irmão sobrou para ele ser o palhaço. Como ele não pôde comparecer à festa de 3 anos da caçula, eu não podia alegar que ele tinha mais experiência e deveria encarnar o papel. Meu irmão arrumou uma desculpa para não ir porque imaginou que iria sobrar para ele.
Lembro-me que a parte mais divertida foi se arumar. As professoras se mobilizaram, vieram com maquiagem, prenderam meu cabelo, deram dicas. Prontinha estava eu em sala de aula quando trouxeram a tropinha de pestes.
O primeiro que entrou me viu, começou a chorar copiosamente, agarrou-se na professora e assim permaneceu até o final da festa. E não pensem vocês que era um chorinho. Era um choro de pânico, o mesmo pânico da minha cara olhando para minha mãe. “O que eu faço, mãe?” “Fica longe dele”.
Os outros agiram normalmente. Ou seja, nem deram bola para a palhacinha que tentava, em vão, chamar-lhes a atenção. A professora ajudava e estimulava brincadeiras. Galinha que põe, cabra cega, roda cotia e o que mais a imaginação lhe ajudava a inventar. O garotinho chorão continuava afastado dos demais.
Uma hora as brincadeiras se esgotaram e Beto, o infernal (foi esse o apelido que lhe dei) teve a ideia de malhar o palhaço. Durante as rodas eu já tinha notado que ele me olhava de soslaio, com um risinho maroto. Mas achei que era a maquiagem. Não. Beto começou a implicar comigo e (lembra dos brinquedos infláveis?) começou a martelar a porcaria de um machado inflável em mim. No começo era de leve, depois começou a ficar pesado. Eu olhava com desespero para minha mãe, que achava bonito, chamava os outros para ver.
Outros pestinhas gostaram da brincadeira. No começo eu gritava “aiai” escandalosamente, a la “Os Trapalhões”. Eles se divertiam. Depois os gemidos eram de verdade, porque eles começaram a apelar para beliscões e tapas. O espaço da sala de aula ficou pequeno. Uma hora me escondi embaixo da mesa da festa, tamanha a insistência. Eles me encurralavam e Beto, o líder, ficava do outro lado me esperando, machado em punho. Muito da minha maquiagem ficou no brinquedo. O cabelo se soltou, a peruca caiu. No final eu parecia mais uma assombração que um palhaço. O garotinho do começo já devia ter desmaiado ao se deparar comigo daquele jeito, não me lembro mais.
Depois que terminou a festa, minha mãe tratou de recolher os restos. Docinhos, refrigerante, o que sobrou do bolo e o que sobrou de mim, que estava só o pó. Acabada, destruída por um bando de endiabrados que mal tinham saído das fraldas. Jurei para mim mesma que minha mãe não me pegaria de novo nessa. E que iria venerar todos os palhaços que cruzariam meu caminho.

sábado, 3 de outubro de 2009
Da arte de não ser estonteante
Daquelas que acordam cedo para dar um empurrão na natureza, mas que precisam de muita sorte para que o cabelo colabore, para que a roupa caia bem justamente naquele dia e para que a impaciência não as faça romper laços defitivamente com o espelho.
É difícil encontrar uma mulher estonteante, mas isso não quer dizer que seja coisa rara, muito menos impossível. Você não irá encontrá-la em qualquer esquina, mas, se reparar bem, em cada turma de amigos há de se ter uma, para desgraça das demais. Mulher estonteante chama a atenção, rouba olhares. É bela por si só, sem esforço. A bicha fica bonita fazendo careta em foto, não há fotogenia que explique. Passa xampu Palmolive e creme de pentear Neutrox, seca o cabelo ao vento e, ao final, parece só faltar uma moldura em volta. As estonteantes, ô racinha, costumam dizer: “o quê? Nem fiz nada, só bati o cabelo e saí”. Fica bela com cabelo preso com caneta Bic. É acordada no susto, lava o rosto e sai correndo e, quando chega, parece adentrar o recinto como um monumento. O âmbar de uma tarde.
O rosto da mulher estonteante de Vinicius parece um templo e as estonteantes que eu conheço não sofrem com espinhas, maquiagem borrada ou imperfeições no sorriso. Elas sabem da sua beleza e, por vezes, até se envergonham da vantagem que possuem. Um presente dos deuses, entregue de bandeja.
Não sou feia que não possa casar, como bradou Adélia Prado. Mas, após terminar de ler a receita de mulher de Vinicius, percebo que sou como um bolo embatumado, um arroz empapado (o parbolizado nunca gruda) ou uma carne tostada nas extremidades. Dá para encarar, mas... Algo deu errado na minha receita e não busco aqui um trocadilho infame com o verbo comer. Muito menos pretendo um tom de autodesprezo flagelante na minha colocação, entenda-se.
As mulheres cuja receita deu certo, cuja fôrma foi devidamente untada e enfarinhada, que o forno não foi aberto antes de 30 minutos e, claro, que o fermento não passou da data de vencimento, sim. Essas são estonteantes. E o pior. As desgraçadas não se esforçam para tal.
Tento imaginar qual é a desvantagem que uma mulher estonteante deve ter em sua vida. Todas as roupas provadas ficarem perfeitas no corpo? Até imagino a indecisão da coitadinha, diante de tantas peças, dentro do provador opressor. Ou ser alvo de intrigas por não-estonteantes invejosas? Um perigo. Quem sabe ser cantada pelos namorados das amigas, ser destino de olhares furtivos dos pais das amigas, dos chefes?
A mulher estonteante, sendo um conjunto de virtudes, carrega em si não só a beleza do frescor da manhã, mas a elegância, a educação e a doçura. Uma lady.
“O que você prefere, ser chamada de linda ou de inteligente?” “Inteligente”, respondi sem pestanejar. Mas uma parte de mim gritava, sufocada, que linda é o elogio, aquele elogio capaz de preencher sorrisos, mesmo os tímidos, de canto de boca. Gostosa pode ser vulgar, dependendo da hora e do interlocutor. Bonitinha, valha-me Deus, é uma feia gente boa. Estonteante não consegue exprimir tudo o que seu significado expressa. É uma palavra tão grande e desengonçada que parece um origami sendo desmontado. Bela é tão pouco usado na nossa língua que o elogio nem é tão utilizado. Lembra mais nome de cadela poodle ou loja de cosméticos.
Já linda é como se fosse a expressão da beleza mais pura e singela, que diz tudo por si só, como no refrão do Caetano Veloso. Linda desliza por entre os lábios, como se a palavra dita fosse quase uma afronta. É muito pouco para toda a beleza escancarada na sua frente. São apenas cinco letras para definir a, palavras de Vinicius, coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Mas ela deve ter algum defeito, diga que tem. Não há imperfeição incalculável, dear Moraes.
Uma delas:
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Eu sou você ontem
Isso até começarem minhas aulas práticas de direção. No mês que antecedou a primeira, a ansiedade da espera me consumia. “Vai estudando, minha filha”, recomendava meu pai. “Estudar como?” “Sei lá, vai olhando os motoristas, o que eles fazem”. Pobre papai. Mal sabe ele que eu refutei seus conselhos e nem sabia qual era o freio e qual era a embreagem na minha primeira aula.
Mas fiz uma pose tão convincente no começo que a mulher perguntou se eu realmente nunca tinha pegado um carro na vida. Depois do primeiro cruzamento, do primeiro sinal quase avançado (salve os pedais idênticos para o instrutor!), das apagadas seguidas do veículo (foram tantas que perdi as contas) ela retirou o que disse. Tadinha, levou tantos solavancos que, se não fosse o cinto, eu ia ter de aplicar meu aprendizado de primeiros socorros ali mesmo.
Já na primeira aula, voltei ao meu eu interior e refleti se eu estava disposta a continuar. “Tatiana, existem pessoas que não nasceram para dirigir”. Há coisas que nem com treino e prática. Quando eu perguntava para minha mãe como se cozinhava feijão, ela resmungava: duas faculdades e nem isso sabe. Não importa, mãe, tem coisas que não estão nos livros. É preciso dom, instinto. Com o fogão é assim. Acho que com a direção é a mesma coisa. É preciso muito mais que prudência, atenção e perícia.
Sob o volante, eu, muito doida, ficava ligada apenas nas tartaruguinhas e na sinalização horizontal (não fez autoescola? As indicações pintadas no asfalto. Rá) para parar. De repente, meu freio afundou sozinho. O carro brecou, olhei para a instrutora, que me apresentou o semáforo vermelho piscando na minha cara. Puta que pariu.
A pobre teve de avançar para o volante algumas vezes. Muitas, vá lá, porque eu me distrai com umas coisinhas na rua e ela se obrigou a desviar o carro de um cone, da traseira de um caminhão de lixo, de um pedestre, de um vira-latas. Os elementos não estavam muito dispostos a colaborar comigo. Muito diferente dos que apareciam nos videozinhos de simulação das aulas teóricas, que, como atores no teatro, aparecem só no momento certo.
Na segunda aula tive a impressão de ter progredido, porque até conversar com a instrutora eu consegui. E nem foi “o que eu faço agora?”. Ela perguntou onde eu trabalhava e isso foi o suficiente para eu desembestar a falar da minha vida. Conselho. Nunca vire amigo do instrutor. Você está lá para aprender a dirigir e não para ganhar terapia gratuita. Eu ainda me policio para não perguntar como é que funciona o trabalho dela. Outra nota mental: quando dirigir, não ligar o rádio.
Hoje completei cinco aulas. “Pai, não vai perguntar como eu estou indo de autoescola?” “Olha, se você está falando comigo agora, sinal de que está tudo bem. Pelo menos não teve de acionar o seguro”. Minha mãe falou que quando eu quiser comprar um carro é para eu ver se não fica muito caro adicionar um freio e uma embreagem do lado do carona. Como se vê, apoio moral e incentivo vêm de casa.
A instrutora disse hoje que talvez eu não precise de aulas adicionais. Mas não sei se posso confiar, por causa do vínculo emocional e tudo mais. Por isso, se você mora em Guarapuava, melhor redobrar a atenção. Diariamente, e até mesmo aos sábados, entre 9h e 10h, estou por aí. Num carro branco. Destemida.
