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Das esperanças

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Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó.
Vai passar.
E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento.
Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia.
Diria isso mesmo depois de ter perdido um outro amor, que me veio como um rompante e me deixou, lá em janeiro do ano passado.
Te diria isso depois que tomei a decisão de terminar um relacionamento de quase quatro anos, com quem achei que seria pra sempre.
Lembro-me de, logo depois de terminar, sonhar que tinha perdido a bolsa. A sensação era essa mesmo. Perder a bolsa para a gente é perder tudo, os óculos, os remédios, os boletos, a maquiagem. É perder, inclusive, a nossa identidade. E esse é o mais doído. Não ser mais de alguém pode nos fazer se sentir perdidas. Eu me sentia perdida. E depois de colocar a cabeça pra fora daquela piscina de sentimentos confusos e doloridos, tomei fôlego para nadar. Mas não era nada fácil se mover sem saber para onde. Quando eu me reconheci ali, apossada daquele misto de sensações, me senti recomeçando do zero – e, ó, foi foda.
Naquele momento eu não enxergava. Hoje vejo a guinada que minha vida deu, percebo tudo o que mudei ou me fizeram mudar e constato como estou muito melhor. Recomeçar do zero é muito bom.
Pra te falar a verdade, amiga, acredito no amor, sim, mas talvez me escaldei um tanto que hoje não acredite no amor para toda vida. Nem no amor que vem no rosto do outro. Acredito no amor que a gente entrega para o mundo. Sei que é clichê, mas o amor tem várias personas, inclusive o próprio.
Não sei se te expliquei para te confundir, como diria o Tom Zé, mas eu queria mesmo que você acreditasse que é pra valer. Você vai ser feliz. Não vai ser feliz e ‘pá! pronto!’, não vai encontrar a felicidade e nunca mais ter problemas, nunca mais sofrer com términos, mas vai ser feliz. Você já é, mas eu sei que reconhecer isso neste inverno de rejeição e abandono é quase impossível. Saber da felicidade foi uma certeza que me moveu durante um tempo e hoje ela se constitui – também – em estar com alguém, mas mesmo quando eu não tinha eu carregava no peito o atestado de que eu era bem, bem feliz.
Meu amigo me dizia uma frase que acho muito boa. A vida é o que acontece enquanto os problemas acontecem. Sei que é esquisito, mas sempre me trouxe paz pensar assim. A gente tá sempre caindo, em falta, com problemas de toda ordem. Mas em tudo isso há vida e, se a gente achar bem, um pouquinho de felicidade. E de pouquinho em pouquinho a gente se encontra na completude. A gente de repente para e se depara com  a certeza do ‘apesar de’, essa certeza colorida e salteada, essa certeza todinha, sorrindo pra gente.
O amor existe. A felicidade existe. Para todos nós, para mim, para você. Nesse caminho cheio de névoa, eu queria que você prometesse que você não vai parar de caminhar. Porque você sabe o caminho. Dá insegurança, dá incerteza, dá medo do próximo passo ser em falso? Dá.
Mas quando a nuvem dissipa você ainda está caminhando, ainda está no seu rumo.
E pode ser que alguém esteja indo na mesma direção para caminhar lado a lado.
Ou te peça carona no seu carro.
Ou talvez não, a gente vai seguir sozinha.
Bem, bem feliz. Ainda sim.
Acho que não sou muito boa com palavras e teorias de botequim, mas dizem que meu abraço é porreta.


Hoje eu queria te abraçar. 


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O reinado dos Castelões

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Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente no mesmo lugar em São Paulo. O vinho cuja propaganda está na placa nem existe mais. Não importa, o esforço parece ser mesmo o de deixar as coisas como outrora.
Ficamos tão encantados pelo clima proporcionado pelas toalhas quadriculadas, as fotos em preto e branco de pessoas ilustres, os recortes de jornal exaltando o lugar, as antigas flâmulas de time nas paredes, em sua maioria em verde e branco, que demoramos a notar as letras em caixa alta no cardápio: NÃO ACEITAMOS CARTÕES DE DÉBITO OU CRÉDITO. Saímos correndo para tirar dinheiro no caixa eletrônico e apreciar as iguarias. A opção pelo dinheiro é questionável, mas perfeitamente compreensível. Castelões resiste num esforço sobrenatural de manter as coisas como no passado. Em um dos recortes emoldurados na parede, li que os fornecedores são os mesmos há pelo menos 50 anos e não se usa extrato de tomate nas receitas. Os tomates, sem pele e sementes, são cozidos por pelo menos 4 horas diariamente para garantir um molho espetacular.
Espetacular é pouco. Em menos de um mês, fomos lá duas vezes. Na primeira ignoramos as (depois descobrimos) tão famosas pizzas para seguir a sugestão do garçom: fusilli com calabresa (“tem quem atravesse São Paulo só por causa desse prato”, diz ele), uma cerveja Paulistânia e uma porção de antepasto com o champignon mais gostoso que comi na vida. O buffet de antepasto tem umas delícias com temperos dignos de rei. A porção completa custa 29 reais, mas o garçom pede para você se servir e depois ele diz quanto custou. Pela balança? Não, no olho mesmo. A nossa custou 15 reais e deu pra lamber os beiços.
Na nossa segunda vez, com um casal de amigos, escolhemos duas pizzas: quatro queijos e castelões (com queijo e calabresa). É incrível o que eles conseguem fazer com uma pseudossimplicidade espantosa. Digo pseudo porque a receita parece ser simples, sem nada a mais de extraordinário. Mas é aí que encontramos a delícia do fazer artesanal. E é aí também que reside a força de manter os fornecedores dos produtos por tanto tempo. A massa é fresquinha, crocante. O queijo é apetitoso. A calabresa é peculiar. Posso dizer, com conhecimento de causa, que não fica devendo às boas pizzas italianas, as legítimas.
Para quem gosta de um bom restaurante italiano, à moda antiga, aconselho uma visitinha à rua Jairo Góis, 126. Não vá esperando luxo, esteja ciente que o ambiente é simples, embora o sabor não tenha nada a ver com isso. Vale a pena ainda tomar um pouco de cuidado, pois a região não é a das mais badaladas à noite (ainda mais com tutu em espécie na carteira). As duas vezes em que estive lá fui bem atendida (por garçons que parecem estar lá desde que a placa foi descerrada – no começo um pouco ranzinzas, mas desarmados após uma puxada de papo). Para quem é descendente de italianos, acredito que o gosto seja ainda maior, porque eu, particularmente, me senti na casa da nonna.


Castelões

Rua Jairo Góis, 126, Brás
http://casteloes.com.br
Só aceita pagamento em dinheiro

* Nota da blogueira 1: este texto foi originalmente escrito para o Site Gastrovia e publicado dia 20/11/2012. Esta é uma versão atualizada e editada.

* Nota da blogueira 2: em 2015, recebi uma mensagem do Fabio Donato, atual dono do Castelões, com um convite para jantar lá. Segundo ele, foi uma forma de retribuir a emoção que ele sentiu ao ler este texto (o qual encontrou ao acaso, na internet. Ele me encontrou no Facebook e me mandou uma mensagem muito gentil com o convite). Foi uma noite muito agradável, em que pude saber bem mais da história e da tradição desta cantina.
O dia do jantar, presente que este texto me rendeu. Com Fabio Donato (à direita), proprietário e anfitrião, e meu amigo Gil, que me acompanhou nesse mergulho na história desse lugar.


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Para o norte pedido, girassóis

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Não sei mais do que sou capaz. Acredito piamente em um esgotamento da fé sobre a raça humana. É possível ter esperança por um período, mas ao final de uma semana, um mês, um ano que seja, sem forças, sem braço, o cansaço toma conta. E não é aquele cansaço físico, nem o mental. Não é aquele cansaço de ter carregado lenha, é o de não saber por que se está procurando o fogo. Parecem esgotadas todas as possibilidades. “Tudo que você podia ser”, sabe quando o Milton canta no som do carro? Tudo aquilo que a gente não é, ainda não foi, é sofrido, mas tudo o que a gente não pode ser mais é arrebatador. É como se ver em um canto da praia, sobre as pedras, e de repente cair a ficha de que aquela imensidão existe, mas não é sua. É inalcançável. Não ser importante, não ser milionário, não gritar a sua voz no mundo. Eu já atendi a todas aquelas obrigações que te ensinam desde cedo. Não pulei nenhuma etapa, estou aqui onde deveria estar, mas não estou. Satisfeita, plena, consciente, bem-sucedida, admirada, no topo, em paz. Você entende que não é só não ter chegado a lugar algum, não é sobre estar sozinha engolindo vinho até o sono chegar, não é sobre não ter concluído o projeto que não tem cara ou corpo. É sobre não ter um caminho, você entende?

Ele parou o carro. Ela olhou através do vidro do carro a coreografia dos para-brisas. Enxergou ao longe ele ensopado, caminhando com um vaso na mão.



Olha, não sei muito sobre percursos. Na verdade, nem sei muito sobre você. Mas acho que quando a gente procura um caminho, já está nele. Seu norte não está neste vaso, mas talvez eles ajudem você a encontrar o que está procurando, porque eles sempre sabem para onde ir.



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Sou toda água, mareio nas tuas sem dar pé
Fito o céu me deixando levar, não sei das braçadas
Nesse navegar trajetos são mil, qual futuro
Em meu ventre habitam medos, seis bichos do mar
Um bilhão de peixinhos a me cocegar

O sol a me cegar, custo a ir contra a maré
Prefiro, flutante, desanuviar as borboletas
Pelas mãos carregar as tuas, mas não tenho o rumo
Vou me afastando da terra, parece que ela zomba
Sabe da direção improvável, da tempestade

Não há sentido nessa deriva, torta e flamejante
Até que vejo teu dorso à beira, a me esperar
E me dar a mão, sem entender ou apontar, remar
Os pares, enquanto dupla a caminhada, sabem-se
Mar de amar não tem caminhos, promessa incerta
Vamos lá, amor, se afogar?
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Prece de inverno

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Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão.
Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis.
O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.

Desejei aquele cuidado, a dedicação ao seu bem, aquela sabedoria. Confesso que eu, com uma cama bem maior, bem mais quentinha, com um teto sobre a cabeça e com uma casa inteira em volta dela, não me lembro de arrumar a minha. Quiçá me lembro de agradecer a minha. Desejei fortemente, rezando baixinho, que aquele senhor, de acordo com os ensinamentos da minha mãe, ficasse bem protegido.
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Meu projeto, meu pedido

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São Paulo, meu amor

Completamos cinco anos de namoro. Acho que já te conheço bem. Da mesma forma como você sabe dos meus podres. Já fizemos xixi com o outro junto. Você já me viu dizendo: nunca mais vou beber! Até cruzar com o próximo sábado. Já me viu chorar debaixo dos óculos escuros. E fingir que nada aconteceu.
Quando eu vim, meio bocozona de tudo, sua tática foi me encantar, charmosa, envolvente, sedutora, com seus trocentos museus por quilômetro quadrado. Com suas exposições, shows gratuitos, com seus cafés, seus teatros, seus parques sob duas rodas. Tateando meu prazer em ruas estreitas, permeadas por ipês floridos, que cruzadas outras esquinas se transformavam em abrigos de arranha-céus e largas avenidas.
Eu também era mais vivaz. Cruzava a cidade por um filme iraniano. Era aquela disposta, alegre, que não me importava com qualquer obstáculo. Você era o meu suficiente. E eu declarava o meu amor aos quatro ventos, sempre pronta a uma nova declaração de bem-querer, a um novo cartão postal.
Mas já passamos da fase de cantarolar na Ipiranga com a São João. Você não me impressiona mais, querida.
Porque já me ganhou.
Portanto, não é crise. Nem cansaço. Nem tédio, rotina. Passei a me perguntar por que te amava tanto. O vício pelo trabalho, a falta do mar, as quebradas de cabeça diárias, o individualismo gritante, os pares sempre tão reticentes, rasos, tanta e tanta preguiça.
Pensando e pensando, vi que não é esse o bem que você me traz. Vi que você é bem mais. Recordei o nosso início de namoro, a minha paixão, resistente à chuva de janeiro, que caía todo dia, todo dia, todo dia. Que travava as ruas, que alagava tudo, que desafiava a lógica do Google Maps impresso, bem antes da tela ao alcance das mãos. Aquele janeiro foi foda.
E eu resisti, mansinho, engolindo choro, porque queria ver então a gente, a gente, a gente, igual à música do Milton. Cinco anos depois posso bater no peito e falar feliz da nossa trajetória. Posso pedir replay dos tropeços e rir de tudo que parecia tão devastador e, passada meia década, se torna irrisório. Você me ensinou a conduzir, não um carro, mas meu caminho. Sou muito mais Tatiana em suas calçadas. Sou muito mais eu levando a cabo meu destino.
Te reconheço em suas malcriações, mas ainda sou eu a te chamar de minha. E se com cinco anos repensamos as relações e avaliamos o término do ciclo como um fim ou um recomeço, voto, sem dúvida, na segunda opção. Ainda quero me perder em seus ônibus, com ou sem enchente. Ainda quero me deslumbrar com seus museus, ainda quero caminhar em suas ruas como que em um formigueiro e dizer que não te trocaria. Passado tudo, a eterna aventura em que persiste, ainda somos os mesmos, afinal. Maior amor.
Você ainda faz parte do meu projeto, da minha escolha. É seu nome que respondo se perguntada por um lar. Ainda é seu o meu acordar. Ainda é em ti que projeto meus sonhos, apesar de eles se embaralharem com outras cidades em alguns devaneios loucos. Foi em um deles que sonhei que partia de ti. E chorava, copiosamente, porque ainda não era findo o projeto. Ainda quero ficar, São Paulo.
Ainda quero me perder em ti. Ainda quero que você me baste, mas em ti quero que me perca, me abocanhe, me devore. Me transborde. É chegada a hora de mais um passo, por mais que acabe. Quero a eternidade, por mais que chegue a hora de avançar para outros portos. Quero seu amor sempre em mim. 
Se te amo tanto, talvez um namoro seja muito pouco.
Casa comigo?




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Miga, me ajuda

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Me ajuda, miga. Mexeu com uma, mexeu com todas. Então, miga, não fala que ela precisa de um trato. Não fala que ela é puta, ou que ela “se passou” porque bebeu. Não existem limites de passamento quando se trata de um homem, então, miga, sua loca, pra que riscar uma linha até onde pode ir sua colega?
Empodere-se, miga. Mas ajuda a miga a se empoderar também. Não a diminua, nem que seja pelo gostinho sacana de entortá-la para parecer maior. Miga, isso é loucura. Não diga para a miga que você supervisiona que ela tem que se arrumar mais, porque do jeito que anda vai perder o namorado. Não tem a ver com maquiagem, tem a ver com relacionamento. Se para ele falta maquiagem, miga, é um problema muito sério dele. Não tem que ser seu. Miga, isso não pega bem nem como miga, nem como miga que acha o feminismo o máximo. No facebook.

Facebook. Da Página: Empodere duas mulheres

Não diz que ela merece (o que quer que seja), miga. Não faz isso comigo. Ela não merece, eu não mereço, você não merece, nenhum ser humano merece. Miga, chega de propagar essa culpa. Essa ladainha que a gente recita até de olho fechado. Não combina com a gente, miga. A gente é forte, mas a gente tem que lembrar que somos a gente. Não é ela e você, não é você e eu. Somos várias migas ressurgindo contra tudo aquilo que há milênios nos dizem pra ser. Ou como ser. Ou não ser.

Artista: Owen Gent

Não insinua qualquer coisa de uma miga porque divide a casa com outra mulher. Porque se ela não casou, miga, isso nem seria motivo de chacota. E nem se ela não gostasse de homem, miga, não seria da sua conta. Mas não vem com julgamentozinho torto, não faz a cara das miga ficar no chão. Porque, miga, convenhamos. Você deveria era achar bonito mulher que paga as próprias contas, mesmo rachando com a companheira de apartamento, sem depender de pai, marido ou namorado. Não deveria, miga, usar algo que pra você é ofensa para tentar expor ou avacalhar a vida dela.


Facebook. Da Página: Empodere duas mulheres

Lembra, miga, a gente não diminui a outra. A gente exalta a outra, porque juntas somos mais. Porque, miga, mulher independente é pra ser aplaudida, por mais que você não seja. Somos companheiras de ultraje e de batalha, então, não vá se digladiar com outra do mesmo lado do combate. Miga, não seja louca.
Foto: Fernando Sato/Jornalistas Livres, durante protestos em São Paulo - 2015

Me ajuda, miga. Não é que não pega bem. Não é só porque você compartilha textão no Facebook defendendo as miga, mas na prática reproduz o mesmo discurso machistinha do seu tio-avô. É porque, miga, a gente tá junto nessa. Quando você recrimina a outra, está dando comida para aquilo que também te fere. Te machuca, te humilha, te estupra. Te diminui.
Miga, seja menos. Menos machista, menos contraditória, menos incoerente. Seja mais miga das miga. Me ajuda a ser sã quando eu também escorregar. Quando eu for louca de mesmo em pensamento tentar ferrar a outra. Não é que é mais bonito, miga. É questão de sobrevivência. Minha, sua. De qualquer uma.
Facebook. Da página: Feministas Revolucionárias. 


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Amores antigos não hão de vingar

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Mortos não servem de ressuscitar, assim como amores antigos não hão de vingar. São projetos falhos, plantas de casas desordenadas, inimigos jurados de nascença. Não adianta embranquecer as paredes, trocar os móveis de lugar, deixar de procrastinar. Amores antigos não se leem. Já morrem morridos de matar. Amores antigos nem vão durar.
Amores antigos não dão certo em 2013, nem em 2014, muito menos em 2015. Não sobrevivem nem regados a café, a chá, a cachaça. Amor antigo se rechaça. Amores antigos não são outros nem depois de três maratonas. Não há fôlego, repele-se. Amores antigos não de louça, são madeira de demolição. Quando teima em brotar, feito inço, na teimosia de quaisquer amantes, não há valente que não se pele diante dos que se consomem. Chama bruta do querer, flor lilás de fenecer.
Amores antigos são aquele vestido velho que se a gente não doa para a caridade acaba usando. E se arrependendo. Amores antigos são capazes de rasgar no meio do compromisso. Cedem aos remendos. Mancham o álbum de tanto folhear.
Em amor antigo não se toca, mesmo com lembrança das melhores. Besteira revirar o que já está para lá. Para o que não haverá. Amores antigos não sobem a serra, só baixam o decreto: não hão de vingar. Amores antigos não se enquadram na lei do que será. Amores antigos não serão futuros, nem escarafunchados pelos escafandristas, revirando a cidade submersa. Amores antigos não reanimam nem com cinema, nem com açúcar, nem com filme brasileiro, nem com Chico. Realidade perversa.

René Magritte, Os amantes, 1928 

Amantes antigos não se tocam, não se veem, não se compreendem. Amores que já foram não salgam nem com suor antigo. Nem com nostalgia daquele perfume. Amantes antigos são cruéis no desatino. Artigo fim, inciso não insista alínea acabou. Não se tocarão, não se verão, não se compreenderão. Lei da vida. Nada de bom acontece quando um amor antigo teima em piscar. 
Não há três Natais que resistam a um amor antigo. Não há Cristo que perdure. Não há manjedoura impassível. Não há delicadeza no afogamento das lembranças. Balé trágico, pássaro de fogo, benção e perdição. Dual, o amor antigo mata por liberdade. Vida e destruição. Nascimento e morte. Amores antigos são como a sorte.

E morrendo aleatório sabe-se semente. Por isso antigo amor a gente planta, mesmo por teimosia, para ver se sabe. Só para dizer que conhece o fim de antemão, película repetida, eu avisei. Amores antigos a gente sabe que não vingam, é regravação. Mas de repente se vê amansando a terra. Jogando água e colocando o vaso meio de lado de novo no sol. Só para ver se, teimando a sorte, floresce diferente.
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Dos maiores clichês das minhas consolações

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Sempre soube reconhecer um abraço de amor. E quando as vi abraçadas ali no meio da escadaria, atravancando meu caminho, sabia que era amor. Outros poderiam xingá-las em alta voz ou pensamento. Estavam atrapalhando quem subia à Consolação. Na cidade louca da pressa, no pico da hora, no fluxo dos sentidos. Dos dois lados da escada, qualquer um que subisse ou descesse se depararia com elas. Tropeçaria nelas.
Não tive tempo de me incomodar. Porque era abraço de amor. Elas paralisadas, tão conectadas que me deu vontade de me abraçar. Não era um abraço de quem se atreve a agarrar o ser amado instintivamente e dizer que o ama. Era um enlace de despedida. Provável que uma subisse a Consolação, a consolação onde terminam todos os amores que começam no Paraíso da Pauliceia absurda. A outra decerto desceria ao subsolo, à passagem subterrânea onde se confundem os livros do sebo, as obras de arte, a música clássica, o mendigo acolhido. Uma certeza tive. As duas, qual fosse a direção, desceriam ao inferno.
Frida Kahlo, As Duas Fridas, 1939

Depois do abraço derradeiro, inevitável o suplício de todos os finais. Embora carregado da promessa de novas linhas, a letra depois do ponto final tem essa mácula do trágico e da dor de todos os mortos. Já passei por inúmeros desses ciclos e por mais tantos passe, eu sei. Essa dor é igualmente sofrida. A vontade de afundar a cara no prato de sopa e nunca mais voltar. A certeza de que vai passar, mas até lá... Até lá é essa dor tão amarga e tão presente. Tão palpável que poderíamos dar-lhe um nome.
Passei por elas e voltei meu olhar. A menina de frente para mim apertava os olhinhos atrás dos óculos quadrados. Enxerguei ali pairando a dor que já foi tão minha. Quis dizer para ela, para as duas, que ia passar. Eu sei, por mim, por todos, sempre passa. Só que até passar parece que precisamos cumprir antes o itinerário ao inferno. Ganhamos a passagem pessoal e intransferível. O problema é que a viagem é tão filha da mãe que vai fazer esquecermo-nos dela ao virmos um novo amor. Assim, como se ela nunca tivesse existido.

Eu não sei por que insistimos em novos amores reconhecendo todo esse ciclo. Amores acabam sim. Não sei por que não nos alarma uma luz na cabeça, vermelha e piscante, dizendo: foge. Você logo estará às voltas em um passo de dança triste, coreografando lágrimas com a desolação, com a consolação. Eu não sei por que essa luz não acende nunca. Eu só sei reconhecer um abraço de amor. E eu sei que tem a ver com a esperança do eterno. E se ela, a esperança, não der conta, sei que vai passar. Sempre passa.


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A gente vai porque sabe que tem para onde voltar

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Não estou em Pasárgada, mas sou mesmo amiga do Rei. Ou, melhor, sou filha do Papai Noel. E por mais que essa sentença não faça sentido para quem não saiba a profissão do meu pai, basta saber que aqui passo bem. Passo os dias como num reino.
Um reino do qual debandei há muitos anos e, nos últimos, tenho aparecido só de relance. Venho pingada. Nunca mais desfiz minhas malas. Em cada passagem, uso o que preciso de usar e deixo a mala de canto, esperando ser enchida de novo para partir. Nunca mais fui vivente, somente hóspede.
No entanto, em cada visita me sinto inteira dessa casa, das estantes, dos tacos no chão. Afinal, também são minhas as fotos nas paredes. São meus os livros e trapos que larguei para trás, sou dona até de alguns estragos nas paredes.
Uma amiga me diz que a gente faz as loucuras que faz por aí porque sabe que tem para onde voltar. Essa é a definição mais bonita que tenho para porto seguro. A gente se joga no mundo sabendo que se o mundo não for legal com a gente sempre tem destino certo na passagem. Podemos voltar quando quiser, quando der, sempre tem braços abertos à espera.
Só que quando se tem um porto tão seguro, um lar tão sólido, uma casa tão aconchegante, dentro do coração da gente nenhum lar será lar. Parece que será sempre essa vida pingada, essas casas improvisadas, essas escolhas não tão perenes. Não investimos em nada dentro das nossas próprias casas, como se fôssemos foragidos que podem ter que levantar acampamento a qualquer momento. Dormimos com um olho sempre aberto.
Não há perigo. Há somente o peso de se saber fugida. De ter deixado o lar para trás e não se saber tão digno de fundar outro. No fundo sabemos que, ao sermos donos de outro reino, aqui não seremos mais os escolhidos. Destinados aos agradados, aos pratos feitos para a gente, às opiniões esperadas e ouvidas, à cama pronta com cheiro de alfazema.
Não seremos tanto essa visita importante, que a cada volta leva a mala mais cheia de agrados. Carregamos na mala por quilômetros e quilômetros coisas daqui que poderíamos muito bem encontrar lá. Mas as daqui têm cheiro de mãe, têm recomendação de pai. Têm gosto de herança.

A gente vai porque sabe que tem para onde voltar. E os daqui parecem saber disso. Então, a cada passagem de relance deixam o reino mais acolhedor. Pintam a casa com as cores mais quentes, incensam o lar com a nostalgia da infância, servem os melhores temperos. Dizem sem palavras que aplaudem o voo, mas estão cá embaixo prontos para o retorno. Porque eles sabem que a gente pode voltar. Mas a gente não volta.
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