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μάθημα

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- Eu estou certa.
- Eu estou certo.
Acho incrível como não podemos perceber que a vida não é matemática. Dois resultados diferentes podem estar certos. Se eles estão certos quer dizer que simbolizam, para cada pessoa, o seu resultado particular. E de particularidade em particularidade, vamos somando as diferenças. Lindo, não? Na minha prova real não deu certo. Tentei somar e ficou alguma coisa faltando, alguma coisa sobrando. Uma particularidade ao fundo gritando: espera aí, que eu não fui incluída nessa somatória! Então vem! Não vou, não vou porque não concordo.
Não sou boa em Matemática. Ela é perfeita demais, portanto complexa demais e eu resido numa abstração simplificada. Está tudo ao avesso, hoje te odeio, amanhã te sinto amor, não suporto mais, vem para cá, quero ir embora, acho lindo isso de ficar. Para mim essa roda viva é compreensível. Raciocínio lógico não.
O que é mais absurdo nessa coisa toda é que nesse gira-girar eu compreendi algo. Uma epifania, não tem isso em matemática. Aprendi que não tem certo nem errado, tem a somatória possível e a impossível. Melhor, tem a somatória possível agora, a impossível agora, mas possível logo mais adiante, a impossível sempre e a possibilidade que baila entre o agora e o adiante que a gente vai tentando descobrir se é ou não é a vida inteira, como um objeto de estudo que a gente elege para todas as pós-graduações.
- Par!
- Ímpar!
Somaram os dedos e deu um número. Sempre dá, malandra matemática. Deu ímpar. Não mais um par.
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Paredes

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São Paulo tem 4 paredes
                que abrigam várias chaves de uma mesma casa
                que abrigam gritos e portas batidas
                que abrigam um sofá cama na sala
                que abrigam caixas de pizzas vazias.

São Paulo tem 4 paredes
                que abrigam uma janela bem fechada
                que abrigam um closet lotado
    que abrigam um vendaval de papelada
    que abrigam ares condicionados

São Paulo tem 4 paredes
                que abrigam seres claustrofóbicos
                que abrigam olhares para o lado
                que abrigam toneladas de tóxicos         
                que abrigam um trânsito sufocado

São Paulo tem 4 paredes
                que brigam com filhos aninhados
                que brigam com tenros abraços
                que brigam com machucados curados
                que brigam com favores desinteressados
Uma das paredes costuma ser cinza

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Descoberta

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Descobri que há uma fragilidade em estar gripada que me fortalece. Há alguma coisa na voz fanhosa, nos espirros constantes, na dor no corpo que me faz pequena, carente de colo, de atenção. Há alguma coisa no fato de estar gripada, nariz cheio, olhos inchados e noites mal dormidas, que me lembra da minha pequenez, de que não sou aquela fortaleza que pretendo – ou preciso – ser. Essa provocação do meu corpo comigo me lembra que minha autossuficiência conflita com a menina que pede arrego.
E não há coristina que cure manha, não há amor que resista a tanto dengo.
E quando eu insisto em dizer que estou quente, mesmo não tendo frio, mesmo nunca tendo febre, ele pega o termômetro e no caminho desliga o ventilador, indispensável em suas noites de verão.
E nem pede para que eu me cubra, aguentando o vento.
E se derrete feito vitamina C efervescente me fazendo cafuné.
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É culpa das bugigangas

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Não é minha culpa, doutor. Eu estou ali, quietinha, olhos vagos no infinito e de repente acontece algo assim, pequenininho. Pode ser uma briguinha, uma raivinha, uma provocaçãozinha, uma enganaçãozinha e pronto. Bastou isso para aparecer por um vão daquela cortina uma quinquilharia. Um bibelô antigo, com a pintura meio comida, pode ser num formato de gato com uma orelha quebrada, pode ser um porta-trecos sem um pedaço. Fico olhando aquela bugiganga de relance até ela me incomodar de vez, afinal de contas ela não deveria estar aparecendo, espiando-me por detrás da cortina mofada. Essa tralha enxerida, doutor, não poderia estar aparecendo, porque, oras, eu a escondi bem escondidinha atrás da cortina. E é atrás dela que eu vou tentar esconder de novo, até que me embanano toda e a cortina toda cai, mostrando aquele montão de parafernálias que a gente vai juntando com o tempo. Todas essas coisas que ficam nas gavetinhas da memória, nas estantes da minha experiência, nas prateleiras da minha vivência um quarto de século gasta. Ah, doutor, eu já nem sei se essa cortina do meu consciente é suficiente para tampar essa quinquilharia toda, eu bem deveria era quebrar tudo a marretada, mas esses cacarecos são minha bagagem, fazem parte de mim, o senhor compreende? Ei, doutor, me arruma alguma coisa para eu abrir a cortina devagarinho, espiando de relance minhas coisas gastas até redescobrir tudo com olhos de menina, que descortinar brusco me embrutece. O senhor me entende, doutor?
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Ton soleil, ta braise

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Tenho amigos inconformados, graças a Deus. Também tenho amigos contraditoriamente conformados (não posso chamá-los apenas de conformados, porque essa palavra não pode estar nunca sozinha. É feia. Ninguém realmente se conforma – nem se conforta – nesse mundo em que vivemos). Então, tenho amigos dos dois tipos. Aqueles que me confortam, por eu não estar sozinha nessa agonia de ter muito mundo no mundo e, por isso, não querer ficar parada por muitos instantes. E há aqueles que me mostram justamente o contrário, a beleza de ficar parado e experimentar a felicidade serena e singela de trabalhar por mil anos no mesmo lugar, morar numa cidade pacata, casar com um bom partido, ter um filho, comprar uma casa, sem por isso precisar morrer para o restante.
Fernando é do primeiro tipo. E na sua inquietude ele me arranca a tapas meu próprio desespero. Fernando, como eu, quando perguntado “como está?” não diz apenas “bem” ou “mal”. Responde: “então...”. E aí seguem suas divagações. A gente nunca está bem ou está mal. A gente tem “entãos”. Da última vez que conversamos, numa longa caminhada entre Leblon e Copacabana, falei a ele de um poema A Casa Branca A Nau Preta, do outro Fernando, o Pessoa, que resume bem esse meu estado de espírito:

Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim, 
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta, 
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta, 
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

Fernando, o Pessoa, fala bem alto dentro de mim. Já chorei muito com seus poemas. Nos meus delírios mais nonsense, quis encontrá-lo no polo Álvaro de Campos para perguntar-lhe: “isso passa? e daqui mil anos, será que isso passa?” Porque é difícil ser assim. Meus amigos do segundo tipo devem me tirar para louca mas na minha frente dizem achar o máximo esses meus rompantes de me largar no mundo. De querer um porto sem fim. Às vezes eu trocaria tudo por ser contraditoriamente conformada, por ter objetivos de vida bem traçados e, principalmente, um facho bem sossegado.
O que mais me intriga na inquietude de Fernando, o amigo, é que ele parece não ter encontrado ainda o que o move, o que o guia, o que o incendeia. Seu sol, sua brasa, como diz a música do Chico Buarque. Também me encontro nesse estágio. Falo isso em relação a profissões, a projetos de meter a cara e tocar com rufar de tambores. Mas já evoluímos muito. Há uns dois anos, nos encontramos fazendo apostinhas, com um riso meio nervoso, tentando empurrar para o outro a derrota de se enraizar na cidade que não nos confortava (nem conformava). Saímos.
Tenho amigos inconformados, graças a Deus. Porque é para eles que concentro meus melhores desejos de felicidade. O desejo de que encontrem seu sol, sua brasa, mesmo que seu sol e sua brasa sejam uma procura sem fim. Porque tem gente que se conforta em não achar nunca. Tenho amigos a quem enviar os melhores desejos, esperando que um dia eles, os desejos, voltem a mim quando eu precisar de uma tocha ardente e um sol guiando meus passos em busca da minha própria evolução.
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Desvairada

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Sempre imaginei que a felicidade estaria em uma cidade sem fim. Sem tédio, sem rotina. Uma cidade inteira a ser desvendada, um sem fim de descobertas. Não sei ao certo a data que comemoro meu aniversário em São Paulo, sei que foi mais ou menos nessa época, há um ano, que cheguei assim, com a mala mais pesada na mão e a vontade de aprender os mistérios da megalópole mais pungente que poderia sonhar em morar. Daqui a uma semana, talvez por coincidência, São Paulo faz 458 anos e já me deu mais motivos que sua quantidade de velas no bolo para ficar.
Vez ou outra descubro o cheiro de São Paulo, aquele odor que nos faz retomar de imediato alguma coisa. Um cheiro de terra molhada que me anuncia a chuva, o perfume forte e doce de uma prostituta que um dia entrevistei num posto de gasolina e que ora sinto quando uma mulher passa por mim, o sabonete de mel que meu pai trazia do Paraguai. Não. O aroma que me impregna em São Paulo é o do pingado e o do pão na chapa. Das muitas padarias por onde passo, nos bairros pobres e afetados, todas com seus garçons quase sempre muito gentis anotando “seu pedido, dona”.
Aprendi a dizer “obrigada, viu?”, quando agradeço algo. Um costume daqui, acrescentar “viu?” como se agradecimento necessitasse de aceitação. Agradeci mais de centena de vezes gestos despretensiosos e sorrisos de gentileza mesmo quando o mundo teime em professar que a cidade é ranzinza e cinza como o céu. Meu agradecimento mais tenro foi merecido por uma recepcionista morena simpática de um edifício de um bilhão de andares. Sem me ter visto nunca na vida, caçou listas de e-mails para que eu pudesse mandar meu currículo. Ainda tenho vontade de voltar lá e dizer que ela é tão linda por dentro como por fora.
Meus filmes e livros que São Paulo me deu de presente. Um filme raro lado B encontrado ao acaso na rua mais cosmopolita do meu mundo, justo na rua que me tirou tanto, a mesma rua que me devolveu aquela alegria de encontrar algo que você não estava procurando naquele momento. Ainda não inventaram uma palavra no nosso idioma para definir esse sentimento. O livro de Virginia ganhado de presente do meu querido amigo sem data nem motivo, o livro de Cortázar que recebi das mãos do meu mais novo antigo amigo, em comemoração aos meus 26. Os livros e filmes que ganhei dos olhos verdes mais singelos do mundo, que me abriu as portas de São Paulo e as portas de um mundo mais humano e menos coisificado.
Estabeleço com São Paulo uma relação quase humana, sou eu e esse organismo vivo, que se transmuta nos seus sotaques e traços de todos os lugares do universo. Estar em São Paulo é como ter a prova que você nunca conhecerá todo o mundo e se sentir pequeno com essa constatação. É sentir vontade de um teletransporte para sugar tudo o que há de interessante em todos os pontos da cidade e quando você acha que conseguiu ligar os pontos, surgem outros e outros e novas gentes e novos lugares e, pronto, você foi sugado por ela. Sugado e expelido em seguida como esse ar preto, que gruda nos móveis sem ganas de ser removido, sugado pela energia compartilhada com quilômetros de ferro, de trilhos, de vagões. Sugado, expelido, sugado, expelido. E continuar na cidade por ver que ninguém é verdadeiramente dela e nem ela verdadeiramente de ninguém. É como se ao conhecer um lugar novo você perdesse de imediato a memória do antigo e vivesse descobrindo e esquecendo, um jogo de gato e rato impensável com gente, ainda mais com cidade.
Cidade não. São Paulo é gente. Humana, viva. São todos. Sou eu.
Descobrindo aqui quem sou. Esquecendo e conhecendo.
Obrigada, viu? 

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As maçãs, o ponto azul e nossas formas de pensar

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No mundo existem 7.500 variedades de maçã. Aprendi na lâmina da bandeja do McDonald's. Aliás, aprendi hoje que aqueles papéis se chamam lâminas de bandeja. O fato é que eu adoro maçã. A gala e a fuji, bastante. Da argentina eu não gosto. É, aquela mesmo, pela qual o povo paga caro. Para mim a casca tem gosto de papel, artificial.
Pensando nas maçãs eu pensei em tudo que existe aos montes por aí e a gente desconhece. No mundo em que nos inscrevemos, circundamos uma linha em volta e, assim, no que tratamos de conhecer dentro desse espaço. Limitado, claro. Sem negativismo, não somos nômades nem anormais para conhecermos o mundo inteiro, para nos jogarmos numa aventura sem precedentes para devorar tudo. Além do que, quanto mais nos distanciamos em busca do outro, nos privamos de conhecer (ou conhecer mais) o que está bem debaixo do nosso nariz. Cada escolha uma renúncia, esse eterno paradoxo.
Embora seja impossível conhecer o mundo todo, tenho a abafada ânsia de conhecer o máximo que posso e acho que uma das formas mais lindas de conhecer o outro é aprendendo sua língua, apreendendo, enfim, sua identidade. Porque cada língua é uma forma de pensar e ao estudar um idioma isso se torna muito óbvio. Começamos ao traduzir ao pé da letra toda e qualquer coisa, para depois chegarmos à conclusão que só raciocinando naquela língua conseguimos nos expressar através dela de fato. Um dos exemplos mais instigantes aprendi em um curso de redação. Enquanto falamos em “ganhar dinheiro”, como se fosse uma dádiva dos céus, os americanos preferem “to make money”, ou seja, riqueza não se ganha, se conquista.
Alguns outros exemplos aprendi com a Rosana Hermann, aqui:

Rosana Hermann from TEDxPortoAlegre on Vimeo.

Uma língua não é apenas um conjunto de palavras e estruturas gramaticais partilhadas por um grupo de pessoas, mas também uma forma de raciocinar, de verbalizar como agimos e como vemos as coisas. Animador pensar nas infinitas possibilidades que temos ao desvendar o mundo estudando códigos linguísticos de outros povos, desanimador pensar em quantas maçãs eu deixarei de provar. Mas o mais irônico é pensar que a partir dela, de uma maçã, ou pelo menos de uma informação sobre ela, todas essas divagações me surgiram, aumentando minha vontade de conhecer o mundo, mas entendendo minha insignificância, afinal, somos apenas um pálido ponto azul no universo. Engraçado é pensar na maçã como um símbolo capaz mesmo de abrir os olhos para o conhecimento.
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