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O velho

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A imaginação sempre me foi companheira fiel. Bem criança eu já havia estado em todos os outros mundos possíveis de serem habitados por meio da fantasia. Era rainha, estrela de cinema. Tinha amiga imaginária. Não sei bem se isso é fruto das combinações astrológicas de meu mapa astral meio barco à deriva, das centenas de livros que meu pai vendia na Livraria Tatiana e eu devorei, de todos os poemas e trechos de músicas que eu lia na apostila da Positivo, ou mesmo de todos os mundos para os quais meus pais me possibilitavam viajar por meio de suas lembranças.
“A imaginação é a louca da casa”, disse Santa Teresa de Jesus, ecoada pela espanhola Rosa Montero em um de meus livros preferidos. “A louca da casa”, seu romance difícil de catalogar, passeia entre o mundo real e o fictício e retrata justamente reminiscências da infância da escritora. Minha infância é, ela mesma, situada num limbo entre o real e o imaginário. Ainda hoje, quando revisito a longínqua São Lourenço do Oeste, sinto-me como que revendo um filme em amadora projeção.
Minha Macondo, ou minha Pasárgada, dependendo do quanto chove ou de quantos desejos me são prontamente atendidos, é feita de reencontros. Com os outros e comigo mesma. Em cada reencontro com amigos, irmãos e pais são suscitadas historietas incrementadas diante das lacunas da memória que já se deixa enganar. Nos reencontros comigo mesma recordo-me das minhas viagens interiores.
Foi numa ensolarada tarde de dia útil de abril, já quase à beira dos trinta, que me lembrei do Velho da Tarde. Andando de mãos dadas com a pacatez e a apatia da cidade serena, diante do sigilo das ruas sempre (e sempre) vazias, naquela sensação enfastiada de sono pós-almoço que no meu povoado é perene, ouvi alguém dizer: “Boa tarde!”. E lembrei-me de quando, menina, minha imaginação abria suas comportas ao ouvir essa expressão.
Como queria escrever o mundo antes de saber as letras, minha mente construía imagens para tudo que eu ouvia. No meu entendimento, ‘boa tarde’ me remetia a um velho, de barba branca e rala e expressão serena. Esse senhor, que vejo hoje em minha memória como naquela época, não era meu avô, nem meu nonno, nem nenhum ator que tinha visto na televisão. O Velho da Tarde era meu, só meu. O meu personagem que não desgrudava de seu cenário. Sentava-se numa cadeira de balanço, na varanda de uma casa de madeira velha, como ele. Tinha a expressão plácida diante do céu cor de pôr do sol e, assim, num estado de êxtase ou espanto, meu velho contemplava todo entardecer.
Foi nessa última viagem que em sonho ainda acordada encontrei-me com o velho. Ele não esboçou reação ao me ver sentar-me de mansinho nos degraus que davam para sua varandinha. Acho que os velhos adquirem uma estranha sabedoria de se fingir invisíveis, assim como a ignorar o que não lhes diz muito respeito. Sem saber se ele dormia, ou fingia, lancei-me a pergunta que me levou em pensamento até ali:
- É tarde?
- Sempre é – respondeu-me.
- E o que fazer em relação ao tardio?
- Recordar, recordar sempre.
- Até mesmo o que te faz mal?
- Recorde até sua memória gastar de reviver. Não forçosamente. Deixe a lembrança vir de forma natural, como o fim desta tarde. Não adianta lutar contra isso. Mas de nada adianta querer o entardecer às duas horas. Também deixe a lembrança esvair-se, esmiuçar-se, como deve ser. Deixe-a passar por você. É por não querer aceitar a hora de cada coisa vir, nem antes nem depois, a raiz de todo sofrimento. Cada coisa tem o seu tempo. Até o esquecimento.

O Velho da Tarde nunca havia me dito nada. Mas eu também nunca havia lhe dirigido a palavra. Nessa última viagem, nessa última Páscoa, nesse último renascimento, aprendi muito sobre lembrança, sobre reencontro, sobre esquecimento. Sobre passar. Sei que, assim como a louca de casa, tenho um companheiro fiel, esperando-me sereno, sob um céu alaranjado, em cada entardecer. E nem é preciso revisitar minha cidade para revê-lo. Basta revisitar a fantasia inesgotável da minha infância para reencontrá-lo. Para reencontrar-me.
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Não sei o que há entre mim e o pôr do sol. Deve ser esse quê de morte e renascimento, diários, que volta e meia são tão necessários. Não sei que encanto há nele ir, dia a dia. Talvez é a certeza de ele voltar, a cada manhã. Sei que no dia em que ele morreu, diante de mim, na Lagoa, era eu que renascia. 






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3 anos de vida na selva de pedra lascada

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São Paulo, meu amor.

Ontem mesmo tu me roubou o celular. Há uns dois anos foi a bolsa toda. Tua filha Augusta está cada dia mais malandra. Mesmo assim, mudei-me pra perto dela. Aliás, é mais fácil te amar estando bem localizado. Consigo chegar mais rápido e fácil nos teus desalinhos. Ou nos teus bares chiques, em todos teus respiros.
É por te amar que me lasco tanto. É esse teu trânsito sufocante, não só de carros, mas das tuas gentes de pernas brancas, pretas e amarelas. Todas automáticas rumo ao bonde. É essa sua mania de chover às cinco da tarde, cidade-pranto, de chorar copiosamente em cima do povo fudido e de mim, lascada, quase sempre sem sombrinha. São esses corações duros, emparedamento tamanho que faz chocar qualquer coisa de gentileza.
Mon amour, tu me dá gente de presente e arranca na mesma proporção. Me dá experiências fantásticas, todas com fila. Porque tu pulsas, cidade-coração, é maiúsculo o som de tuas esquinas. É essa barulheira mesquinha, cada qual falando do outro sempre falando de si. É esse maldamento coletivo e tão estranhamente individual. É isso que me cansa, se me permite.
Sempre sonhei encontrar em alguém um lar. E foi em ti, cidade-casa, que me baguncei. Foi nesse tanto de sonho pulando que encaixei o meu. Nesse teu mau-humor matinal abriguei meu acordar. O Marcelino Freire diz que em todas as tuas outras irmãs se desperta. Em ti se acorda. Em Fortaleza, em Recife, em Porto Alegre e até em Curitiba espreguiça-se mesmo que em frações de segundos. Em ti, cidade-despertador, uma buzina entra tão alto na fresta da janela que me arranca as cobertas. Brutalmente.
Todo dia um anjo torto me carrega pela mão e me defende dos teus perigos. De alguns não. De ser viciada em ti, de mendigar tuas trovas, de repousar em tua desordem com sorriso de canto de boca, pós-amor bem feito. Já me vejo enredada, cidade-trama, na teia que você armou chamada neurose coletiva. Há 3 anos tu me lasca e, embora pareça ser canto trágico, vejo-me romanticamente envaidecida por deixar-me ser parte da tua massa cinzenta. De gente, de nuvem.
Perdoo-te por ser louca. Por ser caótica, cidade-dos-infernos. Esquizofrênica. Como aqueles artistas bestialmente gênios que põem pra sofrer a mulher e os filhos. Reconheço, assim como eles, que não dá pra me seres tudo ao mesmo tempo. Tu és o amor de todo mundo e às vezes me emputeço. Mas se fosses só minha, não seria essa tua loucura que me arfa. Que me preenche. Daqui a pouco fico prenha de tanto amor por ti.
Há 3 anos me embrenho nessa selva e tento desfazer o bordado de teu sudário. Mas tu, cidade-penélope, dia e noite continua a tecer. A embaraçar as linhas. A trançar os pontos. A costurar as estações. No final, fica bonito.
Tentei explicar como (e principalmente por quê) continuo nessa. Eu em ti tenho fluidez, tu me és recíproca e confio-te as minhas aspirações. Desses pilares eu acredito que saia uma sólida relação. Tem outra coisa. Eu em ti são só 3 anos dos 28. Tu já tem 460. E eu respeito os mais velhos.

Com amor,

Tatiana 


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A fé que remove berrugas

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Quando pequena, eu, meus pais e irmão rezávamos todas as noites antes de dormir. Era como um ritual. Meu pai, mesmo cansado, a gente, mesmo com sono, nada nos impedia. Antes das preces católicas em voz alta, meu pai se encarregava de fazer o oferecimento. Durante um período, porém, eu tive participação especial.
- ... por tudo isso, pedimos a Deus.
- Pai!!!
- Ah, é. Tatiana. Agora você.
- Eu quero pedir a Deus que caia a berruga do meu dedo.

Minha mãe mal continha o riso. Eu devia ter uns 4 ou 5 anos e uma berruga. Era no dedo médio, não sei em qual mão. Não era grande, mas ficava na lateral, raspava no outro dedo e me incomodava muito. Ao invés de pomadas ou qualquer substância curativa, entreguei-me à oração. Sei lá por quantas noites rezei. Nessa distância atual com minha infância, acredito que foram muitas. Um dia, gritando, anunciei a todos: a berruga havia caído. Com o fim da berruga, o fim do incômodo e o início de uma certeza. Eu tinha a capacidade de ter fé.
Não me acho uma pessoa muito sortuda. Falta conquistar ainda muita coisa e, confesso, por vezes desanimo de tão penoso que se torna meu caminho. Mas em todo esse trajeto, inúmeras vezes tive a prova de que precisei ter fé e, rezando com força, fiz as coisas mudarem. De um jeito tão surpreendente que até me comovia.
Não tenho o intuito de fazer quem desacredita acreditar, não tenho essa pretensão e nem o poder do argumento. É apenas uma reflexão e um pedido. No último dia deste ano, desejo forte para que em 2014 eu tenha cada vez mais fé. Pode ser aquela ingênua, que eu tinha quando criança. Pode ser a grandiosa, que já me levou a outros mundos.
Eu sobrevivo em São Paulo há quase 3 anos. Já vivi momentos bem ruins, é verdade. Violência, medo, ignorância. Prostrei-me algumas vezes de joelhos. Em outras gritei, reação absurda, diante da sombra. Na obstinação ou no mantra, tudo vem dando certo. Senão sozinha, com a ajuda de pessoas colocadas quase que divinamente em meu trajeto.
Tem gente que me acha doida por morar com gente desconhecida. Pode parecer tolo, mas eu acredito na minha intuição. E confio nos estalos que recebo de uma força (que eu acredito) Superior. Eu brinco dizendo que, se tivesse medo, não tinha saído debaixo das cobertas da minha mãe. Não se trata de não ser medrosa. Sou tanto que dá vergonha. Tenho medo nível cagaço. Mas eu teimo em desafiá-lo. Tenho fé de que ando protegida. Não é tão bobo a ponto de pensar que, se eu rezo, nada de mal nunca vai me acontecer. Mas sim, praticando minha fé, tenho chances de atrair muito de bom no meu caminho.
Há 5 anos, tive uma hemorragia séria e quase morri. Meus pais, que me acompanharam no dia ao hospital, lembraram do ocorrido durante a última viagem que fizemos. Naquele dia, os dois seguraram minha mão e gritaram, assim mesmo, quase brigando, para que eu reagisse. Quando voltei do quase coma, o médico, meio nervoso, brincou que eu era teimosa.
Pode ser que com o tempo a berruga iria mesmo cair, sozinha. Pode ser que eu sobreviveria daquela vez no hospital, independente dos gritos. Pode ser que as histórias de violência fossem terminar daquele jeito mesmo, sem problemas. Essa pode até ser sua opinião. Mas, para mim, não. Foi há pouco que tive esse insight. Eu vivo e sobrevivo com muita teimosia. E fé.
Que ela não afrouxe diante dos corações duros e almas vazias que encontro, amém.
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O pote de açúcar

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Morei por cerca de três meses com quatro homens. Dormia na sala, num colchãozinho arranjado, e minhas roupas ficavam dobradas em cima da mala em um canto do cômodo. Algumas pessoas ainda estranham quando eu conto isso e me obrigam a detalhar que os quatro na verdade eram: um grande amigo, o irmão dele e outros dois que dividiam apartamento. Muito generosos, eles me acolheram na república quando eu, depois de ter arrumado um emprego em São Paulo, não tinha casa. Deixaram-me permanecer lá, pelo tempo necessário. Jamais vou me esquecer disso.
E não esqueço ainda os ensinamentos dessa convivência. Uma convivência muito fácil, diga-se de passagem. Com quatro mulheres, não sei se duraria tanto. Salvo alguns percalços aqui e acolá, os homens são mais fáceis de lidar. Não vou reduzi-los a uma mesma personalidade, mas, em geral, eles não oscilam tanto, não se exaltam tanto, não veem tantos problemas onde não existem tantos problemas.
Nada contra o clã feminino, ressalto. Mas tenho pra mim que, mais do que me salvar a vida e me dar um teto por três meses, os meus colegas de apartamento me proporcionaram uma experiência quase antropológica. Entendi muito do mundo dos machos depois dessa. E todo meu aprendizado pode ser resumido a um exemplo concreto: o pote de açúcar.
Na cozinha existia um pote de açúcar grande, capaz de abrigar uns cinco quilos do alimento. Num dos meus primeiros dias de hóspede, em que precisei adoçar algo na xícara, perguntei onde guardavam o açúcar e me apontaram o recipiente na prateleira. Reticente, passei os olhos em volta procurando um açucareiro menor, esses de mesa, mas como a mesa tinha tudo e qualquer outra coisa, exceto um porta-açúcar, retirei o potão do armário, já buscando uma colher na gaveta. “Não”, me disseram. “Aí dentro”.
Sim, o pote tinha uma colher de sopa espetada na montanha de açúcar. A mecânica era muito simples e consistia em levar o açúcar à xícara com essa colher, que também servia para mexer dentro da xícara, sendo devolvida ao pote (dava pra passar uma aguinha na torneira antes, não sei se todo mundo levava à risca essa regra).
Pronto. Quer praticidade maior? Diz-me, ó céus, para que intermediários, quando o caminho pode ser direto e reto? Eis a chave, garotas, do mundo masculino. Tudo é muito simples, tal e qual um pote de açúcar com a colher dentro. Não sejamos tão burocráticas no entendimento. Não exijamos ou utilizemos um açucareiro, uma colher para passar o açúcar do pote para o açucareiro, outra para pegar o açúcar do açucareiro e despejar na xícara e outra colher ainda menor para mexer o líquido na xícara. Percebe o cansaço? Percebe por que muitos homens se enfastiam, enfezam-se, até, com toda a complexidade de emoções que lhes é exigida e que eles, por natureza, não conseguem ter?
Depois do meu estudo de caso, em campo, obrigo-me, às vezes a contragosto, a advogar em favor de alguns homens. Diante de todo o caminho tortuoso cheio de fios, hipóteses, teorias da conspiração, de todas as suposições e conjecturas tecidas, presumidas e induzidas por, e apenas por, uma mulher desesperada e à beira de um ataque de pânico, balanço a cabeça por alguns segundos e penso que aquele homem não conseguiria sobremaneira imaginar que um simples gesto renderia tal conto de realismo fantástico.
Sem menosprezo. Não se trata de subtraí-los a uma capacidade emocional menor. Trata-se apenas de imaginar que, diante da tarefa de guardar açúcar na cozinha, um homem precisa de um pote e uma colher, somente. Já a mulher tende a embaraçar a missão e, como se não bastasse, inclina-se a exigir do homem que raciocine como ela, que mexa o açúcar como ela, e que adivinhe que o caminho mais difícil é, obviamente, o único possível.
Que não se torne regra, mas, minha filha, o homem não liga às vezes porque não deu pra ligar. Disse o que disse porque era o que estava pensando, te juro. Chamou pra sair às 9 da noite porque foi o único horário que deu, ou porque é a hora que ele pensa em fazer alguma coisa. Sumiu porque sumiu, não dava mais. É duro, chicas, mas os homens, em geral, são feitos de poucas surpresas. Claro, também existem os jogadores e, além deles, os melindrosos, os medrosos, os perversos, os mimados, os babacas. Esses pregam umas surpresinhas ruins, mas, se você notar bem, tudo é muito previsível.

A imprevisibilidade dos homens é inversamente proporcional à complexidade feminina e a sua capacidade de surtar. Se não foge à regra, o homem, esse mesmo, aí do seu lado, ou na tela do seu celular, é bem simples. É só um cara mexendo o açúcar com a colher do pote.
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O amor é como a Paulista em véspera de Natal

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SP. Avenida Paulista. Véspera de Natal.
O caos.
O amor paulistano é feito de dois corpos cansados. Dois seres que se desencontram, cada qual de um lado da Avenida. Distantes pela profusão de cores, sons e luzes que se engalfinham, um aqui, outro ali, disputando a atenção de uma multidão. O amor são esses dois humanos tentando se encontrar na aglomeração.
O amor paulistano é ilógico. É esse rapaz baixinho e esquisito tentando beijar a morena alta e bonita na esquina com a Augusta. Ela faz charme, mas nega, é próprio dela negar. Em SP, o amor faz menos sentido que esses bichos gigantes em pelúcia mofada de outros Carnavais (Natais). Tem menos coerência que essa neve da decoração do Santander, que essa tentativa de europeizar o que já é Tropicália.
O amor em São Paulo tem menos nexo que esse frio, esse vento gelado em pleno mês de dezembro, como se o calor tivesse desmarcado encontro com o verão. O final do ano é cheio de encontros furados. Os corpos que adorariam se cruzar se embatem nas obrigações sociais – dos almoços coletivos, trocas de votos vazios, eventos(zzz) de networking, nas festinhas em que sobram os sorrisos amarelos e os presentes nascidos para serem trocados, porque amigo secreto que é amigo secreto já nasceu como roubada.
O amor, em qualquer avenida de São Paulo, é uma roubada. É a mãe desesperada burlando a vez da sua criança na fila, para tirar a foto com o Papai Noel. As duas mães batendo boca enquanto as crianças choram com chupeta e cartinha em punho. Isso é o amor de um paulistano. É a mentirinha, é o furo, é a lama, é a lama. É esse correr esbaforido no shopping, é esse pequeno ato fraudulento em meio ao tumulto.
A Avenida Paulista é esse amor, que começa no Paraíso dos artistas de rua livres e desimpedidos para ganhar uma moeda de consideração e que termina na Consolação do pai desajeitado e recém separado buscando arrancar um sorriso do rebento. Afeto comprado com um sorvete. Ou um Ben-10. O amor, em SP, é essa compensação de presença.
Nessa larga avenida da Pauliceia Desvairada, o amor é esse Merry Christmas desafinado. É esse urso panda dançando funk na mesma calçada que a indiana vendendo lenço turco. É essa falsa pretensão de cidade cosmopolita e high-tech, estampada nas letras dançantes no prédio da FIESP, enquanto a verdade grita rouca em corações analógicos e emparedados pelo medo.
São Paulo é essa confusão, essa desordem, e o amor, em SP, é esse motim.

O amor em SP é a mensagem visualizada e não respondida.
É a desculpa esfarrapada. É o pisca-pisca queimado.
É o minipanetone egoísta.
É trabalhar na noite do dia 24.
Em SP, o amor são os votos condicionados.
O amor, em SP, é um orgasmo de desencontros.
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Das amarras

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Eu já soltei as minhas amarras e, embora elas estivessem já frouxas, é natural da desamarração doer. Quando soltei o último nó, suspirei. Não de felicidade, porque não é próprio do desatamento ser alegre. São dois cordões que se desenlaçaram e seguirão sós. Sem nós, mas sós. Suspirei por ter ido, por ter doído, por tudo ter sido. Ou não ter sido.
Não penso que seja fácil, nunca é. Mas no meu caso minhas amarras me prendiam à coisa perdida, me atavam à paisagem que eu não enxergava mais no porto. E dessa convicção veio minha paciência, necessária a todo e qualquer desatamento de nó. Do cordão que se embola às linhas de texto que não se concluem. Todo e qualquer nó pronto a ser desmanchado determina um exercício de sabedoria, mas, para além disso, exige a certeza de que esse nó incomoda. Cutuca, arde, séria ferroada.
Porque tive essa certeza, não posso exigir dos outros enozados que se desarticulem fácil. Que desfaçam os laços dos cadarços, que concluam de forma brusca os enredos, feitos para durar, embora duros. Que se desembaracem, simplesmente, como cabelos pela manhã. Não.
É difícil chegar à conclusão de que estamos cheios de nós. De que estamos cheios de nós mesmos. De que é preciso desfazer a trama, desenroscar os vínculos e soltar as amarras. De um jeito doído de ser para sempre, ou para um tempo longo. E, principalmente, de que não teremos mais nós. Mas com isso não teremos mais nós dois.
Estive cheia de nós. Por isso, acredito que posso dizer, com propriedade, que o caminho de desamarração dos laços exige um longo processo de reflexão. Que não acontece de uma hora para outra. É um alívio e ao mesmo tempo um embaraço na garganta. Ainda com propriedade, posso dizer que a partir do desatamento vem aquilo que é ruim, do que é próprio doer. Mas vem também aquilo que é bom, aquilo que é novo, que, sem embaraço, soma, multiplica.

Estou sem nós. Sem nós na garganta. Outros nós virão. Mas por enquanto espero fazer parte do que é bom. Sem nós. Ou para nós. 
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Promoção especial: remoção de tatuagem

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Recebi um e-mail desses sites de compras coletivas: remoção de tatuagem por R$ 49,00. Acabou, meus caros. Vivemos num mundo em que a mágica do perene é desfeita por menos de 50 conto. Foi-se o tempo em que tatuagem era prova de amor, ou demandava noites de sono perdidas nos devaneios do que você deveria gravar para sempre em sua pele, em sua vida, em seu destino.
As bobagens da adolescência, como todo rompante de juventude, que te fazem desenhar um ET na panturrilha com um tatuador nada ortodoxo, numa excursão à praia, verão de 98. Na hora o extraterrestre fazia todo o sentido, mas na volta às aulas ou no verão seguinte você se debruçava choroso sobre sua consciência e se perguntava: por quê? O ET sorrindo de volta. Por quê?!?
Na próxima praia ou na próxima esquina você encontrava a solução: um tribal, fechando a perna, apagando a burrice, o passado, a rebeldia. O tribal era a certeza de que não há crime sem castigo. E que sob aquele desenho feito à força existia a prova real da sua babaquice. Um conserto, meia boca, do seu atrevimento juvenil. Uma tatuagem encobre a outra, assim como um novo amor apaga o anterior.
Acabou. Não há mais bobagens cometidas sem possibilidade de volta. Não existe mais o eterno. O transitório tomou conta de tudo. “Que ousada aquela menina, toda rabiscada”. Duas entrevistas de emprego em que olham feio para suas tatuagens e já era. Ela pode voltar atrás à sua exaltação de personalidade e apagar tudo. Ser mais uma. O brilho eterno de uma mente sem lembranças.
Menos de 50 paus e removo a tatuagem que fiz nas costas. A tatuagem que meu pai quase chorou quando viu. Toda uma angústia familiar resolvida por menos de uma onça. Tudo já é passageiro. A remoção das tatuagens é só o reflexo de nosso tempo. A remoção das tatuagens por um preço quase irrisório é o fim das bodas de prata. Ou dos eletrodomésticos acompanhando gerações inteiras. Os casamentos não duram, nem as máquinas de lavar. Tudo é de plástico, quebrável, removível.
Meus caros, é o fim. Por menos de 50 reais o que você gravou pra sempre ruiu. Todo o símbolo pensado simbolizando um marco de sua identidade. Já era. O que você prometeu no altar, os laços perenes, as fotos amareladas nos álbuns, as cartas guardadas nos armários, a louça de vovó. Nada dura mais pra sempre. Nada.
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Meu outubro, meu braço no mundo

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Outubro é meu mês de renascer. Aos 24 acaba o ciclo, recomeça. Só do tempo eu não posso me livrar, 28 vezes já foram esse acabar e reiniciar. Quando pequena eu dizia que esse era o mês mais lindo do ano. Sempre gostei de uma festinha. Hoje adulta continua me apetecendo. É o mês do meio. Do meio da primavera, do meio do outro meio do ano. É cheio de aniversários, é cheio de promessas.
Eu adoro meu aniversário. Não sei se é pelas lembranças das superproduções de minha mãe, ou se é pelo me sentir lembrada, especial. Não sei se é pelo Plutão, o signo de Escorpião, o da regeneração, dos renascimentos. Mas o fato é que mesmo hoje mais velha não sinto o peso de fazer (ou ganhar) anos. Sou doida por esse recomeçar.
Especialmente neste inferno astral acredito que esteja renascendo mais do que nunca. E se o que é mais doído, mais difícil, nos faz crescer mais, eu quero é me livrar logo desse casulo. Me livrar e me metamorfosear. Principalmente dessa carapuça de mocinha, ingênua, entregando todos os pontos e recebendo de volta o tricô já feito, a opinião dos outros formada e para mim assinalada. Já não sei viver só. Mas tenho o direito de querer gente de bem aqui comigo.
Do que fui, quero carregar a fé, nuvem no céu e raiz. A fé que me engrandece, quando o cansaço das coisas, de todas as coisas, me deságua. O elo entre mim e os meus, que estão lá longe (de distância e de tempo). Quero a fé e a força do supremo que me fazem enxergar o rio à frente, pronto a navegar, me convidando pela mão, mas prontas pra me empurrar. De muito medo foi feita a minha caminhada. Graças.
Eu fui descobrir só maiorzinha que grandes nomes nasceram no meu mês. O Milton Nascimento vivia falando em outubro, fui procurar e lá! É do 26. O Vinicius, o meu Vinicius, é do dia 19. O Pelé nasceu um dia antes do meu aniversário, 23. Até o Maradona é de outubro, 30. O Cartola, grande, dia 11. Fernanda Montenegro, 16. Até o Wando, minha gente, nasceu dia 2. Mais do que uma lista de celebridades, meu mês tem toada. Tem canto.
Brado forte para que, como diz o próprio Milton, venham muitos e muitos outros outubros, renascendo em mim outra Tatiana. Que venham outras manhãs, plenas (sempre) de sol e de luz. Sol pra queimar, luz pra guiar. Sol pra cobrar, luz pra crescer. Sol pra envelhecer, luz pra enternecer.

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Hoje o sol deu as caras e o bafo ardente e seco tumultua
Toda a gente tira a simpatia do armário e põe no altar
Da minha parte, pus as pernas de fora e o corpo todo pra rua
E nesse dia, quente como o diabo, decidi meu decreto assinar

Fica expressamente proibido chover aos domingos. E nenhum se exclua!


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