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"Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos" (William Shakespeare)

Tenho frio. Tenho fome. E tenho medo. Mãos geladas, pés enrijecidos. Coração quente, dizem. Tenho fome do mundo, por vezes escondida sob a máscara conformista e abobalhada de quem caiu aqui de pára-quedas. Tenho medo de negar a fome que tenho e ficar sempre com frio. Complexo demais? Pois faz um sentido absurdo para mim. Nessas horas em que tenho vontade de pegar o pára-quedas que caí, arrastá-lo para aquela montanha bem alta e me jogar para ir longe. Simples assim. Se voltarei é assunto a ser decidido algum dia. Difícil para mim, que planejo demais. Penso demais. Espero demais. Exijo demais. Martirizo-me demais. Brinco demais. Sonho demais. Mas também exagero.

Sou o que não pareço ser. Observo, julgo, esqueço e cometo os mesmos erros. Quero ter o que não tenho, quero procurar o além do que já existe, como uma amiga minha. Estamos certas ou erradas? Abrimos os olhos demais e nos ofuscamos com o que não nos pertence ou estamos com os olhos somente semi-abertos, esperando conquistar o além? Estávamos absortas e descobrimos a luz, se a alcançaremos não cabe a nós decidir.

Confesso que esse foi o mais complexo.

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Metaforicamente codificada

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"Cada leitor é o próprio leitor de si mesmo" (Marcel Proust)

Estive pensando... Textos, principalmente os meus textos e discursos costumam começar assim. Nem sempre penso o que falo, por mais indecente que pareça a colocação. Quase nunca falo o que penso, apesar de falar demais. Mas o que estive realmente pensando é que raramente, escrevo o que penso. Você pode julgar este espaço superficial então... Eu diria que é somente fruto da minha imaginação. Claro que todos meus textos estão carregados das minhas impressões sobre o mundo, impregnados de minha bagagem cultural, indissociados das minhas memórias. Eu não seria uma confiante da Análise do Discurso se não pensasse dessa forma. Porém, o que penso, e mais ainda o que escrevo, sendo repleta expressão confusa do meu pensamento, está perdido em códigos sem fim. Será que as mulheres escrevem mesmo metaforicamente para mascarar-se sob códigos, sem mostrar sua face real? Apesar de ser uma posição covarde, está embasada no contexto de marginalização da mulher. Entretanto, aqui não sou marginalizada. Pelo contrário, as linhas tortas são minhas e os leitores, mesmo sendo poucos, não são virtuais, mas sim muito reais. Dessa forma, só me resta acreditar que o lado escritora aqui está "marginalizado" no que concerne a mim mesma, como um todo. O criador censura a criatura. Desacreditada ou medrosa, o fato é que aprendi a escrever o que penso somente assim. Recheada de códigos, charadas, privilegiando por vezes a forma e me dando ao luxo de proferir exageros (o que seriam de mim sem eles?). Mas será que tudo é a transcrição real, ipsis literis dessa mente insana? Não. Até porque, escrever de forma abstrata agrada certos leitores. A metáfora, o jogo de significações etéreas permite prender o leitor por alguma de suas camadas interiores, se ele possuir algum quê de sensibilidade. E ele lê o que lê, como se lesse a si próprio, encontrando no outro um pedaço de si mesmo. Gostei dessa frase de Proust. Ela mostra que cada um pode ler o que quer, e o que pode ler. em qualquer coisa. E como não se deve explicar, tecnicamente, o que se produz, a leitura é um jogo fascinante. Mais ainda é a

escrita, pela viagem enredada do seu exercício. Ficção ou não, acredito no que disse uma vez Lispector: Escrever é muitas vezes lembrar do que nunca existiu.
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