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Cansei, hein?

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"cansaço.. este sentimento infinito tomou conta de mim de um tal jeito.. eu procurei definir: é preguiça, e incapacidade de seguir..
cansaço.. de tentar ocupar um novo espaço, este cansaço físico e mental; eu ando tão desanimado que nada nesse mundo me arrasta além de mim (...)". (Música de Zécarlos Ribeiro - Grupo Rumo)


Cansei de dormir mais tarde e acordar mais cedo do que meu corpo aguenta. cansei de trabalhar mais do que minha paciência aguenta. Cansei de ser mais risonha do que minha simpatia suporta. cansei de olhar de dez em dez minutos recados que não vêm. Cansei de olhar inerte para a tela esperando que ela pisque. Cansei de contar os dias para acabar o mês e as semanas para acabar o ano. Cansei de esperar os feriados para pulá-los, trabalhando como se eles não tivessem passado. Cansei de me teletranspos=rtar da cadeira do escritório para a cadeira da faculdade, para a cadeira de casa, sem ver sol, sem ver céu, sem ver árvores, como se o dia não tivesse existido além da minha tela. Cansei de planejar meu dia e desistir diante da primeira enrascada. Cansei de deixar minha cama ao acordar e desejar incessantemente que o dia passe logo para que eu possa voltar para ela ao anoitecer. Cansei de usar tudo como pretexto para válvula de escape. Cansei de procurar fórmulas mágicas para acabar com o que me aflige. Cansei de querer explicações para tudo. Cansei de ouvir que posso mover o mundo quando sei das minha limitações. E elas me fazem parar por aqui.

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Fajuta

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"(...)Não haverá um cansaço
Das coisas.
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir...(...)
(Fernando Pessoa)


Sinto-lhes informar, mas a irmãzinha morreu.
Sabe aquela?
A que está sempre disposta a te ajudar.
- Ai, ela é tão querida...

Aquela que você sabe que sempre pode contar.

- Posso fazer, sim, sem problemas.
- Claro.
- Pode deixar comigo. Preciso fazer várias coisas, mas fica para depois.

Então. Vc sabe do que eu estou falando. Todo mundo tem uma. Se eu sou a sua, sinto muito. Ela acaba de falecer. Não direi que a madrasta má tomou seu lugar, mas pode ser que a irmã mais velha, aquela egocêntrica e rabugenta, seja uma boa opção.
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Sobre o tempo

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(...) Quando se vê, já são seis horas…
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, já é Natal…
Quando se vê, já terminou o ano…(...)
(Mário Quintana)

Sofro da síndrome não do medo do fim, mas do início.
Pânico de começar, medo de decepcionar, teimosia de evitar o inevitável.
Como agora.
Em que o que escrevo aqui agora é apenas um subterfúgio para não fazer aquilo outro.
Porque eu sei que estaria fazendo aquilo outro, se precisasse escrever o que aqui agora escrevo.
E assim, substituindo o que deve ser feito com o que se faz subitamente, as horas e os dias passam.
A chuva cai e vem a estiagem.
O mês acaba e recomeça.
Há começos mais atrativos que outros.
É tão fácil comer um chocolate quando a gente tem que preencher folhas em branco.
É tão fácil descobrir músicas novas quando a gente tem que cumprir as obrigações.
Limpar a casa fica até fácil quando se tem que começar um tratado.
Se tenho tempo, não faço. Se não tenho, lamento.
Vou adiando o começo, sem saber que tudo para existir, começa do começo.
Vivo inconformada com essa falta de tempo e conto os dias no calendário para o dia em que terei todo o tempo do relógio.
E saber que nesse dia, não farei o que planejo, porque não irei começar.
Ignorando que nesse medo, o tempo vai se acabar.

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Matiz

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"Sou como você me vê
Posso ser leve como uma brisa,
ou forte como uma ventania,
depende de quando, e como, você me vê passar"
(Clarice Lispector)


Quando você me beijou
Vestíamos azul
Eu, turquesa
Você, petróleo
Preciosa você me vê
Raro eu te olho

Dois tons, dois mundos
Em frente a casa
Uma cor.

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