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Mostrando postagens de 2008

Voei

"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim." (Ausência, Drummond)Ninguém entende muito a minha família. É um apego que beira ao excesso. Eu e meu irmão somos capazes de deixar uma noite de balada para ficar em casa assistindo a retrospectiva do ano da Globo, um pouco pela falta de dinheiro, mas muito porque isso faz bem ao meu pai.
Meu irmão vive dizendo que meu pai faz questão das crias debaixo das asas e se pudesse, nos teria assim protegidos 365 dias do ano. Mas as crias maiores cresceram e alçaram vôos. Meu irmão saiu de casa há 8 anos e eu há 6. Mesmo assim, há finais de semana que eu largo tudo para viajar para a casa dos meus pais, se meu irmão estiver lá. Mas isso nem sempre é possível.
O …

A casa vazia

"As casas são construídas para serem habitadas e não para serem contempladas" (Francis Bacon)Se eu tivesse que resumir em uma palavra o que significa a ausência, diria que é uma casa vazia. A minha, quer dizer, a dos meus pais, me recebeu assim quando voltei de viagem. Não a lembrava dessa forma. Nunca a encontrei vazia. Na hora que descobri que haveria um desencontro, que minha família estaria viajando quando eu chegasse, não imaginei as múltiplas sensações que a casa vazia me proporcionaria. Logo de cara, penei para abrir a porta principal, que necessita de sacudidelas e muita força de vontade para destravar. Sempre encontrei a casa aberta e alguém me esperando na sacada. Sempre encontrei também a televisão, o aparelho de som e a máquina de lavar ligados, todos ao mesmo tempo. As janelas constantemente abertas, assim como as portas internas. Uma corrente de ar é capaz de atravessar a varanda, a sala principal, a outra sala e atingir o quintal em poucos segundos, porque tudo…

A urgência do fim

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a
funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar que
daqui para frente tudo vai ser diferente."

(Carlos Drummond de Andrade)Noto que nessa época do ano, dos pisca-piscas e das compras esbaforidas, os ponteiros andam um tiquinho, pouca coisa só, mais devagar, pelo menos para mim. Paradoxalmente, o mundo todo parece sentir a ânsia de que tudo se acabe. Em dezembro ninguém começa nada de muito grandioso, mas só espera, quase que fatalmente, o fim chegar.Cada dia a mais é um dia a menos. Cada folha que se arranca do calendário é a certeza de que o fim está iminente. Eu adquiri nos últimos anos a mania de contar nas folhas da agenda, e depois nos dedos, os dias que faltam para terminar o ano. Também me …

No quarto sem papoulas

"Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo"
(Trecho de Motivo, Cecília Meireles) Minha cômoda tem gavetas que caem a toda hora. Conserto-as, vez ou outra, mas elas insistem em cair novamente. As gavetas me vencem. Meu mural tem fotos que voam com o vento. Uma corrente de ar e lá se vão recordações e ímãs, espalhados pelo chão. Ou fica a janela fechada ou tenho mural vazio. Fecho a janela. Uso o computador 10 horas por dia, conectada com as janelas que piscam. Frases entrecortadas, despedidas bruscas, mal entendidos. Fecho as janelas e deleto pessoas. É mais fácil não vê-las. Finjo não ver os projetos de leitura que me espreitam à noite, esperando urgentes que eu os leia. Pilhas de livros, coleção de revistas e até o folheto da igreja que carreguei solene, para ler a mensagem final. Na varredura periódica os projetos só terão três destinos: descartados, devolvidos, empilhados. Sempre sem serem folheados.As roupas que não …

Querido Papai (Noel)

Primeiro de tudo vamos fingir que você é aquele personagem que habita os sonhos das crianças e não o cara que vai cansado me buscar na rodoviária. Vamos ignorar o fato de que conversamos, no mínimo, três vezes por semana, o ano todo, e não apenas um pouco antes do Natal, o que é comum para a grande maioria que só pensa em você nessa época. Vamos esquecer, durante a leitura dessa cartinha, que você é meu pai. Faremos isso porque o pessoal do trabalho pediu para que escrevessemos uma cartinha para o Papai Noel e se eu escrevesse como sua filha mesmo, poderia levar vantagem.O intuito dessa carta é contar o que eu fiz nesse ano e por que mereço ganhar presentes. E dizer também o que eu quero para o ano que vem. Então lá vai.Em 2008 eu comecei em um emprego novo, peguei mais um canudo, mudei de casa, adotei um gato de rua, terminei uma pós, quase morri depois de uma cirurgia, entrei no Movimento de Cursilho, fiz dois cursos de idiomas, viajei muito e escrevi mais um tanto.Fui poucas vezes …

As pessoas de 2008

Sobre quem encontrei ou em quem me esbarrei no ano que passou O ano de 2008 serviu para me mostrar muitas coisas, mas, principalmente, que amigos vão e vêm. Os que vão permanecem vivos na lembrança e nos reencontros, casuais ou marcados. Os que vêm mostram que novas amizades continuarão vindo e, como o sol, trarão a promessa de dias (e anos!) mais felizes.Costumo dizer que os anos ímpares me trazem novidades e os anos pares mantêm as coisas nos seus devidos lugares. É sempre assim, talvez com raras exceções. Algumas delas vou listar aqui.Em ordem mais ou menos cronológica, os indicados na categoria "Amigos Revelação 2008":Mary StelaEla surgiu na minha vida antes de 2008, mas foi nesse ano que nos tornamos cúmplices, tanto na arte de cuidar de um gato, como para guardar segredos sobre utensílios domésticos. Eu nunca pensei que fosse encontrar outra "Cris" e quando a Maristela chegou, quietinha trazendo sua geladeira e seu fogão, eu jamais imaginaria o quanto a ausên…

Dicionarizando

"O ser humano inventou a linguagem para satisfazer a sua profunda necessidade de se queixar". (Lily Tomlin)Uma vez, que pode ser entre 1996 e 2000, não sei ao certo, uma professora de Português nos propôs um exercício diferente. Deveríamos dicionarizar uma palavra, ou seja, dar um significado literal para ela como se fosse um verbete de um "pai dos burros" (essa professora odiava que chamassem os "aurélios" assim). Ela confiou que não copiaríamos nada do dicionário e eu, realmente, não o fiz. Tratei de dicionarizar a palavra tesoura: sf 1. Objeto que serve para cortar coisas, formado por duas partes cortantes, unidas por um mecanismo de abre e fecha, por onde se colocam os dedos indicador e médio. Ou algo parecido. Lembrei disso hoje e tentei repetir mentalmente o exercício. Confesso que não foi fácil. Os poucos minutos que levei para concluir a tarefinha no Fundamental, arrancou-me momentos de aflição. Cadê o meu raciocínio lógico, que rendeu uma definiçã…

Ah, essas crianças...

Em uma mesma quadra, no mesmo lado da rua, ao mesmo momento, caminhava eu em direção a minha casa e do lado oposto duas meninas de seus oito anos, indo para sabe-se lá onde. Saltitando, como é comum na sua idade. Ah, não posso esquecer que no meio do caminho em que eu e as duas meninas percorríamos também havia um rapaz parado no ponto de ônibus. As meninas foram vindo e eu indo. O rapaz parado. Nisso, as duas soltam uma estrondosa gargalhada. Foi tão espontânea e de tão longa duração, que arrancou o sossego da minha caminhada. Eu e o rapaz nos olhamos depressa, compartilhando uma dúvida comum: Foi de mim ou de você? Mas eu pensei com meus botões: "Ah, Tatiana, pára. Criança ri por qualquer coisa!" Na dúvida, tratei de conferir se o meu zíper não estava aberto.

Duas mulheres modernas

“Eu sou feita de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidosamores mal resolvidos (....)”
(Martha Medeiros)

Ansiosas, eram elas, por amar
Não acreditavam em príncipes
E casamento, nem pensar
Mas buscavam a felicidade
E, acima de tudo, amar.
Eram inteligentes, bom currículo e blá blá blá
O emprego ia bem e com vários amigos podiam contar
Tinham dinheiro, não muito, mas vá lá
Mesmo assim o amor estava latente a faltar
E na busca incessante, batiam a cabeça
Não uma ou duas vezes, mas sem parar
Pensavam como ser possível para os outros
Pois qualquer outra podia encontrar
Mas o amor que queriam
Era estranho e sem forma, impossível de achar
Os fins de semana passavam a conversar
Disputando qual das duas
Tinha a pior história para contar
Não chegavam a nenhuma conclusão
Porque só as próprias dores sabiam enxergar
Depois de cada encontro
Em um Nei Lisboa passavam a se afundar
Admiravam uma a outra
Mas faltavam-lhes a si próprias admirar
Precisariam estar abertas
E para os lados olhar
Mas se fechavam em seus mundinhos
Pois…

A grande questão

- Provocar emoções nas pessoas!
- Ahn, quê??
- É isso. É por isso que eu escrevo. Para provocar sensações em quem está lendo o que eu escrevo. Percebe como é profundo possibilitar às pessoas sentirem algo através de você?
- São duas da manhã, por que você ainda não foi dormir?
- Estou pensando nisso.
- Nas emoções?
- Nas pessoas. E nos meus textos.
- Tá e por que você não dorme agora?
- Por que você não pode ser um pouquinho mais sensível?
- Você me acordou a essa hora para me falar essas coisas em tom profético e quer que eu seja sensível? Quer que eu te faça um café também para parabenizar pela epifania?
- Eu não te acordei!
- Eu te senti acordada, acho que o inconsciente me alertou que algo poderia estar errado.
- Não há nada de errado.
- Você que pensa...
- O que você está querendo dizer com isso?
- Ah não. Não começa a interpretar o que eu digo. Você disse algo e está despertando uma emoção em mim. Profundo, né? Agora dorme.
- Você pode agir como se eu fosse um pouco mais suportável para você?
- …

A lápis

Texto inspirado no blog Não enviadas, de Camila Rufine e Graci Polak

Bom, (sempre achei que qualquer conversa séria que eu teria com você começaria com essa palavra) não posso negar que de algum modo você me encanta. Não sei te precisar o porquê, afinal, você não é o meu tipo, passa longe de Don Juan e só volta e meia resolve lembrar que eu existo.
Nosso relacionamento (se é que podemos chamar assim) foi zebra em todos os momentos. Os desencontros se sucederam, um a um, e os encontros pareceram tão certos como uma substância gelatinosa escorregando por entre os dedos.
Talvez você tenha algo que, contra tudo e qualquer outra coisa, puxa minha alma para perto de você. Algo mais forte que uma descrição vocabular. Um assim, sei lá... acorde tocado na hora certa. Uma marca invisível, que foge ao externo e se esconde em algum lugar ainda não descoberto, mas resolve se insinuar quando é hora. Ou vai ver que você me instiga simplesmente pelo fato de eu não ser alguém de grande importância para v…

O gato na primeira infância

"Lutei para escapar da infância o mais cedo possível. E assim que consegui, voltei correndo pra ela". (Orson Welles)Meu gato deve estar agora com uns nove meses, o que deve equivaler a cerca de três anos na escala humana. Digo isso porque é nessa idade que as crianças começam a querer fugir de casa. O gato cismou de achar que a casa do vizinho é melhor que a nossa. Volta e meia toca a campainha e quando vou atender é a vizinha segurando o bichano no colo. É, de novo. Dou meu sorriso amarelo, brigo com ele, mas de nada adianta. É só deixar a janela do meu quarto aberta que ele escapa para a janela ao lado, do vizinho, que se não tiver aberta ele dá um jeito de abrir com a patinha. Esperto ele é, não dá pra negar. Contei para meu pai das costumeiras fugas do Polaco e ele rebateu dizendo que eu era igual a ele quando criança. - Quando você tinha uns três anos, se a gente brigava com você, você pegava umas roupas na gaveta, enfiava numa sacola e saía de casa.- Hahaha E eu ia par…

Classificados

Jornalista, 23, procura: alguém para lhe ajudar com as sacolas do supermercado.um porto, não seguro, mas infinito. uma forma de parar de roer unhas. um telefone que dê para ligar de graça. um emprego que lhe permita ficar o dia todo de pijama. um calmante para o gato. um antídoto para a preguiça.

Estava vazio...

Ontem, caminhando na volta para o trabalho, passei na calçada em frente a uma funerária. A poucos passos de cruzar a porta, dois homens saíram segurando um caixão para colocá-lo no carro, que já estava com a porta de trás aberta. Quase que automaticamente, concentrei-me para fazer cara de pêsames. Como acontece em todas as vezes que preciso de uma expressão assim, quase dei risada. “Calma, respira, fundo. Já já você passa por eles”. Não sei se um deles notou meu desespero, pois olhou pra mim e comentou com o outro. “Ihhh, não vamos assustar a moça não!”. Sim, quer dizer que faço um esforço tremendo e sou enganada por um caixão vazio? Na próxima dou uma gargalhada.

Se eu pudesse...

“Não há coisa que não esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário” (Jorge Luis Borges)Se eu pudesse nascer de novo, seria um pedreiro. Muitos divagaram sobre essa possibilidade, mas duvido que alguém tenha se apropriado da tranqüilidade de um pedreiro deitado na grama após o almoço. O sossego pousa ali e ali fica, unindo um bando de barbudos de camisas de time, sem a chave da obra para recomeçar a lida da tarde. Nem com as gostosas que passam na rua eles mexem. Uma pausa merecida, de tudo.Se eu pudesse voltar no tempo, seria como o casal de adolescentes que vi hoje de manhã. Com agasalho do uniforme, há duas quadras da escola, na certa fugidos, eles não se encaravam. O porquê da briga deles, fiquei tentando imaginar comigo mesma. Olhavam para lados opostos, ela para baixo, ele para o horizonte. Queria voltar a ter essa expressão que só os adolescentes têm, de achar que o seu problema acabará com o mundo de umavez por…

Ensaio sobre o ensaio

Uma vez eu li um artigo falando que os críticos de cinema deveriam se ater não somente ao que viram na tela, ao filme em si, mas também a situações que vivenciaram ao assisti-lo. Como estava o cinema, cheio ou vazio? Foi sozinho ou acompanhado? A namorada dormiu em alguma parte? Na concepção do articulista, esses e outros detalhes fariam a diferença na sua crítica. Bom, isso aqui está longe de ser uma resenha fílmica, mas roubei a idéia e resolvi contar um pouco do detrás da telona, na minha ida ao cinema para ver Ensaio sobre a Cegueira, da obra homônima do Saramago. Portanto, não irei contar que os personagens não têm nome e que não há como saber direito em que cidade ou país se passa a história - uma das exigências do Saramago aos diretores para ceder os direitos para adaptação. Não vou divagar sobre essa tentativa de universalizar os personagens e seus sentimentos. Esse tipo de informação a gente descobre rapidinho na internet.O que queria contar é que cheguei atrasada (poucos min…

Mais uma de trajeto

Morrendo de sono, entrei no ônibus. Poltrona do corredor, um saco, como sempre.
Mas dessa vez quem dividiria comigo algumas horas era um velhinho simpático, um pouco careca, com uns fios grisalhos, de óculos. Praticamente meu avô.
Pensei: Enfim, vou dormir um pouco.
Sentei, cumprimentei e ele já veio me perguntando para onde eu ia e de onde vinha.
Respondi, mas não dei trela. Até porque meu olho começava a fechar.
Nisso, ele passa a mão no celular e liga.
- Alô (uma voz feminina, dava para ouvir tudo claramente)
- Estou saindo daqui agora.
- Ah, que bom. (e mais que depressa) Quem está do seu lado?
- (um grunhido)
- Ahn? Quem? É homem ou mulher?
- (entre os dentes) Mulher.
- Ahhhh, é bom você se cuidar!
- (dentes cerrados) O que, estou com sono, já vou dormir...
- Aham, sei. Te conheço!
- To saindo.
- Te amo.
- Também.

Pensa que dormi?

Ele trama. Ela? Drama

“não faz diferença se você vem amanhãou não vemdesisti de esperarpor alguémcuja ausência me faz companhia”(Martha Medeiros)
Ele era bipolar.Ela era autêntica.Vez por outra ele trazia rosas.Ela se derretia.Noutras ele a ignorava“Deve ser minha culpa”, ela dizia.Ela ficava a esperá-lo na praçaEle nas rodas de cachaça.Ela comprava um vestidoEsperava vê-lo tirando.Ele fingia não verQuando ela surgia entrando.Ela lia e relia tudo o que ele lhe escrevia.Mal sabia que para outras ele também o fazia.Diante do bem-me-quer e do mal-me-quer.Não sabia ela o que sentir.Até que um dia jogou as pétalas fora.E escreveu em uma carta o seguinte apontamento:De agora em diante, tal qual o pólo,Tal qual o sentimento.No pólo em que tu me gostas,Serei a coisa amada.No outro, em que me desprezas,Serei o seu tormento.

Receituário

"No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto (...)"(Paulo Leminski)
Quero felicidade 5 mg para efeito imediato.
Cápsulas em frascos com 30, sem prazo de validade.
Usadas sem contra-indicação, para uso oral, três vezes ao dia.
Indicada para aquela mágoa aparentemente sem remédio,
que pesa fundo no coração.
Para o rancor constatado, indigesto e sobressalente.
Para a alergia ao sol e a vontade de dormir sem parar.
Para o choro compulsivo, que dilacera o peito.
Para a lágrima que rola escondida,
que não tem companhia por causa da gente em volta.
Para a vontade de sumir, diagnosticada urgente.
Para o desespero da falta de amor.
Para o mal-me-quer de todo dia.
Para resolver os problemas, com ou sem família grande.
Para engolir o que aflige, para pôr sorriso na cara.
Para animar dias mortos, para trazer doces dias.
Para ressucitar velhas idéias, que se enterram na tristeza.
Não quero alucinógenos, fluoxetina ou etanol.
Quero apenas felicidade. Nem …

Estrela da vida inteira

"Eu gosto tanto de você, que até prefiro esconder. Deixo assim ficar subentendido..."

A primeira evidência de que você apareceria na minha vida foi no natal de 92, quando a mãe não conseguiu fechar o zíper do vestido que tinha mandado fazer 15 dias antes. Não lembro do momento exato em que recebi a notícia, só lembro que, com o tempo, as lembranças foram se mesclando. A mãe vomitando dia e noite e no meio tempo atendendo pessoas na loja que mantínhamos na cozinha de casa. O pai me perguntando se eu queria menino ou menina e eu respondendo que menina seria melhor, porque aí eu teria com quem repartir todas as minhas bonecas. Lembro que ele me achou tão generosa naquela colocação que fiquei orgulhosa de mim mesma e a repetia isso com freqüência para toda e qualquer pessoa. É claro que as atenções em breve estariam voltadas para o novo bebê e eu já previa isso.Quando a mãe engravidou de você, eu, a filha mais nova e detentora do título de princesinha do papai, já tinha sete anos…

No meu quarto você encontra...

"Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim" (Clarice Lispector).

Se você foi embora da casa dos seus pais há um tempo, você pode se identificar com esse texto.No dia em que você pôs o pé pra fora de casa com suas malas, seu quarto deixou de ser propriedade sua. Aliás, se seu quarto não virou para sempre área de serviço, com uma tábua de passar no lugar da sua cama, dê graças aos céus. A maioria dos casos é menos grave. O cômodo vira depósito de bugigangas ou o quarto de visitas, mas de qualquer forma um pedaço meio morto da casa, o qual ninguém habita. Claro que você volta algumas vezes de passagem, na tentativa de recuperar seu reino perdido. E o que você encontra não é mais o seu quarto, onde antes reinava soberano. Mas apenas um lugar no qual há uma vaga lembrança de que você esteve por ali. Uma reunião de reminiscências, mortas, esquecidas em um canto. Fotos de pessoas antigas, manchadas e empoeiradas, compõem o mural. …

Prosa presa à poesia

"O passado é uma roupa que não nos serve mais" (Velha roupa colorida, Belchior)

O mundo dos sonhos é confuso, arredio e impenetrável.Eu mesmo, que tão longe de ti estou,Sonhei essa noite que aninhava a cabeça no teu peitoE tu me colocavas para dormir.A cabeça colada ao peito, o ouvido acompanhando o compasso do coração.E pensar que acordada não sei mais o ritmo que ele bate.Não sei o que sentes, por mim ou coisa alguma.Não sei com quem se deitas, se é a mesma da noite anterior.Ignoro-o porque há muito não aninho minha cabeça no teu peito.Será que o fiz, algum dia?Quem sabe foi um dia antes de lançarmos os dados para escolher o vencedor.A ponta das flechas lançadas penetrou certeira, no meu peito e no teu.No mundo de Morfeu, teu peito bate compassado e me põe para dormir.Tampouco o meu coração parece estar ferido, no sonho.Repousar a cabeça no teu peito é gesto corriqueiro.Como a conseqüência inevitável de dois corpos vulneráveis à presença e ao toque do outro.O sonho é o reve…

Meu reino das palavras

"Alheias e nossas as palavras voam (...)"
(Cecília Meirelles, Vôo) Antes mesmo de saber escrever
As palavras já formavam imagens
Em minha mente.
Tarde, por exemplo.
Ao ouvir Boa Tarde,
vinha-me à cabeça um velho
de barba branca e rala
e expressão plácida.
O velho da Tarde,
como o chamo hoje,
ficava na soleira de uma porta
sob um céu alaranjado
contemplando o entardecer.

Elas sempre têm razão

(...) E se o mundo em ti principiava,
No teu mistério entre astros absortos,
Suavemente, ó mãe, tudo termina. (Natália Correia)
A gente tenta
No fundo a gente sempre tenta.
Ser diferentona
Parecer moderninha
Dispensar o amor da vida inteira
Pôr o pé para fora de casa
E não voltar antes das seis e meia
A gente não quer limpar
E cozinhar, só se for petit gateau
Mas no fundo, lá no fundo
Sabemos que ainda somos as mesmas
E vivemos
Como nossas mães.
P.S. Salve Dona Suelânia e Dona Maria!

Quase-morta

“Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu”.(Álvaro de Campos)
Todo mundo vai morrer um dia. De acidente, do coração, assassinado, afogado, queimado. Tem mortes mais inevitáveis que as outras, mas na verdade, basta estar vivo para morrer. Quando se tem uma filha de 22 anos, formada, sem nenhuma dificuldade aparente, esse conformismo deixa de existir e você caga e anda para a história da morte inevitável. Se puder evitar, faz o que pode!Foi o que aconteceu com meus pais na última semana. Na verdade, foi nessa semana. Mas meu pai briga comigo quando eu digo que a semana começa na segunda e não no domingo. Enfim, foi na última segunda. Tirei as amigdalas, já contei aqui.Seis dias depois da cirurgia tive um sangramento na garganta. Acho que foi pequeno, mas o suficiente para me alarmar. Chorei horrores. Ao me ver desesperada, meus pais ficaram mais nervosos que eu e desa…