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Voei

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"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."

(Ausência, Drummond)

Ninguém entende muito a minha família. É um apego que beira ao excesso. Eu e meu irmão somos capazes de deixar uma noite de balada para ficar em casa assistindo a retrospectiva do ano da Globo, um pouco pela falta de dinheiro, mas muito porque isso faz bem ao meu pai.
Meu irmão vive dizendo que meu pai faz questão das crias debaixo das asas e se pudesse, nos teria assim protegidos 365 dias do ano. Mas as crias maiores cresceram e alçaram vôos. Meu irmão saiu de casa há 8 anos e eu há 6. Mesmo assim, há finais de semana que eu largo tudo para viajar para a casa dos meus pais, se meu irmão estiver lá. Mas isso nem sempre é possível.
O que é regra, desde que me entendo por gente, é que Natal e Ano Novo todos devem passar juntos. E desde 1993, quando a mais nova nasceu, é assim. Meu irmão teve várias namoradas, é baladeiro de plantão, mas mesmo assim, as duas datas são sagradas. Ele já chegou a chamar uns dez amigos para passar a virada com a gente, só para não ter q deixar a família para trás.
Sei que todo mundo fala que Natal é com a família, Ano Novo com os amigos. Mas na minha casa, entenda, não é assim. Aqui todo mundo veste a mesma cor de calcinha e cueca, tamanha a união. Na minha casa todo mundo come lentilha para ter fartura o ano inteiro, põe o pé direito na frente e come doze uvas, uma para cada mês do ano, gritando o nome de cada mês e se vai ser doce ou amargo.
Superstições que só fazem sentido para a gente, eu sei. Mas não me recordo de um Ano Novo que não tenhamos feito exatamente assim.
Esse ano será a primeira vez que faltará alguém. Embarco hoje com meus amigos de faculdade para uma viagem de reencontro. E o reveillon está no meio da viagem.
Desde o princípio, eu sabia do transtorno que essa viagem me causaria. Choro e ranger de dentes por parte do meu pai. É, eu sei, todo mundo passa o Ano Novo fora, incluindo os dez amigos que vão dividir a casa comigo. Mas entenda, por favor, isso é coisa da minha família.
Contei a minha mãe, que fez cara feia, mas entendeu. Contei ao meu irmão, que balançou a cabeça e disse: Eu, que sou eu, nunca passei fora. Minha irmã deu risada da minha cara e esperou comigo o dia fatídico.
Há uns dois meses planejo como contar ao meu pai. Ensaiei mil vezes, pensei na melhor data, no melhor momento. Dividi a angústia com os amigos e até pedi conselhos. Pensei até em sair fugida e deixar um bilhete de despedida. Hoje, o grande dia, chegou. Como meus amigos vêm me buscar à tarde, decidi que contaria na hora do almoço, de preferência com as malas na mão.
Sofri à toa. Saí de casa para ir ao mercado e quando voltei minha mãe anunciou:"Já contei". Tá certo que minhas malas arrumadas no meio da sala, o fato de eu ter levantado às oito da manhã, tomado banho e ido ao mercado, já davam a entender que algo estava errado. "Ele perguntou e eu respondi", disse minha mãe. Tremi dos pés à cabeça. "E ele, meu Deus do céu? Bateu a cabeça na parede, chorou, teve um ataque?" Não, nada disso. Ele simplesmente disse: "Se ela quer ir, que vá".
Por um instante, meu pai parece ter se dado conta que crescemos, que seguimos nosso caminho e que ele também, de alguma forma, criou os seus filhos para o mundo. Eu sei que no dia 31 ainda vai faltar alguém aqui com eles e também vai faltar gente comigo lá. Mas ausência é, como diz, Drummond, um estar em mim.
E cada vez mais eu percebo que há muito de minha família em cada pedaço de mim.



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A casa vazia

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"As casas são construídas para serem habitadas e não para serem contempladas" (Francis Bacon)

Se eu tivesse que resumir em uma palavra o que significa a ausência, diria que é uma casa vazia. A minha, quer dizer, a dos meus pais, me recebeu assim quando voltei de viagem. Não a lembrava dessa forma. Nunca a encontrei vazia. Na hora que descobri que haveria um desencontro, que minha família estaria viajando quando eu chegasse, não imaginei as múltiplas sensações que a casa vazia me proporcionaria.

Logo de cara, penei para abrir a porta principal, que necessita de sacudidelas e muita força de vontade para destravar. Sempre encontrei a casa aberta e alguém me esperando na sacada. Sempre encontrei também a televisão, o aparelho de som e a máquina de lavar ligados, todos ao mesmo tempo. As janelas constantemente abertas, assim como as portas internas. Uma corrente de ar é capaz de atravessar a varanda, a sala principal, a outra sala e atingir o quintal em poucos segundos, porque tudo está sempre aberto e receptivo à brisa que chega.

Não sei se é coisa de mães, mas a presença da minha está sempre em todos os cômodos possíveis, além do jardim, que, embora esteja impecavelmente cuidado, parece-me abandonado sem ela por perto.

Mas eu encontrei a casa, a casa do final da minha infância e da minha adolescência, sozinha e hermeticamente fechada. Em um bilhete, encontrei recomendações de não abrir as janelas, senão poderia dar trabalho para fechá-las antes de ir embora. Segui as instruções, mesmo derretendo com o calor insuportável que faz nessa cidade.

A casa, como é comum nessa época do ano, está respirando Natal. Há luzes, guirlandas e enfeites por todos os lados. Ao abrir a porta da sala, a primeira visão é de um pinheirinho majestoso. Há ainda toucas de Papai Noel cobrindo a ponta das cadeiras em volta da mesa, que está cheia de candelabros com velas de Natal. Perfeitamente condizente, se não fosse o fato de a casa estar completamente vazia.

Desde o momento em que abri a porta, dei-me conta de que seria penoso estar ali, mesmo que por poucos dias. A casa foi limpa e arrumada, como que o vazio esperasse uma visita importante. É próprio da minha mãe fazer a faxina da despedida, deixando tudo em perfeito estado, para não haver trabalho na volta, mas esse excesso de cuidado me exasperou. Era como se eu fosse alguém que teve que voltar antes ou alguém que nem tivesse ido. E de repente me senti uma estranha, sujando uma louça e a lavando em seguida, varrendo os lugares por onde passei, tudo para não deixar marcas. Senti-me ainda esquecida, como o personagem do Macaulay Culkin em "Esqueceram de mim".

Minha casa nunca foi de grandes festas e não é reduto oficial para se reunir os amigos. Mas está sempre cheia de vida, talvez por causa da energia da minha mãe, que passa o maior tempo da sua vida aqui, transformando a casa em um palácio de vida própria, um lugar aconchegante. Por isso é triste para mim encontrá-la vazia. Achei-a um pouco parecida com a casa dos Buendía depois que Úrsula, sempre tão ativa para recepcionar forasteiros com seus banquetes, vai envelhecendo e a casa se perde no hermetismo e arrogância de Fernanda.

Daqui a algumas horas vou embora e levo apenas o que trouxe e alguns pertences que ficaram para trás. Vou, enfim, encontrar os meus. Das sensações da casa vazia, não sei bem quais levo. Talvez nenhuma, porque em todos os momentos não quis me deter em nenhum canto, não quis reparar nos detalhes da casa vazia. Quero levar na lembrança a imagem da casa cheia, da casa aberta, da casa cheia de vida. É assim que quero lembrar da casa onde vivi e da casa que vez ou outra me recebe de passagem.

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A urgência do fim

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"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a
funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar que
daqui para frente tudo vai ser diferente."

(Carlos Drummond de Andrade)

Noto que nessa época do ano, dos pisca-piscas e das compras esbaforidas, os ponteiros andam um tiquinho, pouca coisa só, mais devagar, pelo menos para mim. Paradoxalmente, o mundo todo parece sentir a ânsia de que tudo se acabe. Em dezembro ninguém começa nada de muito grandioso, mas só espera, quase que fatalmente, o fim chegar.

Cada dia a mais é um dia a menos. Cada folha que se arranca do calendário é a certeza de que o fim está iminente. Eu adquiri nos últimos anos a mania de contar nas folhas da agenda, e depois nos dedos, os dias que faltam para terminar o ano. Também me pego contabilizando os dias que faltam para as tão esperadas férias, ou, na pior das hipóteses, para o recesso entre Natal e Ano Novo.

Até agora tive sorte de pegar folga nesse período. Não me imaginaria passando o Natal longe da família e não consigo me ver trabalhando no dia 29 de dezembro, por exemplo, a não ser com uma corda no pescoço.

O fato é que entre todos - os que amam, os que odeiam e os indiferentes às festas de fim de ano - parece reinar o clima de "acabou". Os projetos estão para serem concluídos, não iniciados. Isso, a gente "deixa para o ano que vem".

E o "ano que vem", que a gente quase sempre usa para expressar algo que está realmente longe, está logo ali, batendo a nossa porta. Alguns temem a visita incômoda, mas nada fazem. Talvez porque sabem que é inevitável. O ano novo está chegando, independente da minha, da sua, da nossa vontade. Então, mesmo se você estiver de braços cruzados, no meio da estrada ou em Paris, com champagne ou com cidra, de branco ou de preto, o ano também recomeça para você, meu caro.

Genial foi quem inventou essa idéia de dividir o tempo em anos de doze meses, já disse Drummond. Dessa maneira temos a chance de projetar nossos planos em um curto espaço de tempo, sabendo que no momento em que nos sentirmos cansados para prosseguir e frustrados por não termos cumprido nossas metas, ouviremos a voz de Simone bradando Hiroshima e Nagazaki. É nesse momento que eu me pego ansiando pelo momento mágico que flutua entre 23:59 do dia 31 e 00:00 do dia 1º. E entre o fim e o recomeço, com meu pé direito um passo à frente do esquerdo, olhos no céu para ver as luzes pipocando no céu, acredito que terei fôlego novo para dizer: Vá lá, que venha mais um ano. Mas por favor, que venha urgente.

(Publicado no jornal Diário de Guarapuava)

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No quarto sem papoulas

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"Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo"
(Trecho de Motivo, Cecília Meireles)

Minha cômoda tem gavetas que caem a toda hora. Conserto-as, vez ou outra, mas elas insistem em cair novamente. As gavetas me vencem. Meu mural tem fotos que voam com o vento. Uma corrente de ar e lá se vão recordações e ímãs, espalhados pelo chão. Ou fica a janela fechada ou tenho mural vazio. Fecho a janela. Uso o computador 10 horas por dia, conectada com as janelas que piscam. Frases entrecortadas, despedidas bruscas, mal entendidos. Fecho as janelas e deleto pessoas. É mais fácil não vê-las. Finjo não ver os projetos de leitura que me espreitam à noite, esperando urgentes que eu os leia. Pilhas de livros, coleção de revistas e até o folheto da igreja que carreguei solene, para ler a mensagem final. Na varredura periódica os projetos só terão três destinos: descartados, devolvidos, empilhados. Sempre sem serem folheados.

As roupas que não uso mais poderiam ser doadas. Resolveria o problema das gavetas. As mesmas fotos estão no mural, desde que ele foi pregado ali. Não quero trocar as pessoas da minha vida, talvez só trocar a paisagem do meu mosaico. Ou olhar mais para além da minha janela aberta. E além da janela virtual poderia viver mais minha própria vida. Se eu saísse do meu quarto, deixaria de ser dublada e falaria, caminharia e faria caretas de verdade, não de forma mediada. Carregaria comigo meus projetos e os leria sem pressa, conforme a minha vontade. Fora da pilha e do quarto intimidadores eles não me pressionariam.

O quarto é pequeno, mas fácil de varrer. Varro sempre que posso, para limpar e pôr as coisas em ordem. Mas varrer é paliativo, demasiadamente efêmero e rotineiro, como arrumar a cama. Sei que vou desarrumá-la novamente. Assim, varro para esconder dos meus olhos a sujeira. E o quarto limpo e sem mácula descortina diante de mim a verdade: é quem habita ali que precisa, urgente, de uma varredura.

Sim, tudo verdade...

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Querido Papai (Noel)

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Primeiro de tudo vamos fingir que você é aquele personagem que habita os sonhos das crianças e não o cara que vai cansado me buscar na rodoviária. Vamos ignorar o fato de que conversamos, no mínimo, três vezes por semana, o ano todo, e não apenas um pouco antes do Natal, o que é comum para a grande maioria que só pensa em você nessa época. Vamos esquecer, durante a leitura dessa cartinha, que você é meu pai.

Faremos isso porque o pessoal do trabalho pediu para que escrevessemos uma cartinha para o Papai Noel e se eu escrevesse como sua filha mesmo, poderia levar vantagem.

O intuito dessa carta é contar o que eu fiz nesse ano e por que mereço ganhar presentes. E dizer também o que eu quero para o ano que vem. Então lá vai.

Em 2008 eu comecei em um emprego novo, peguei mais um canudo, mudei de casa, adotei um gato de rua, terminei uma pós, quase morri depois de uma cirurgia, entrei no Movimento de Cursilho, fiz dois cursos de idiomas, viajei muito e escrevi mais um tanto.

Fui poucas vezes ao cinema e ainda menos vezes ao teatro. Li menos livros do que gostaria. Mas nesse meio tempo eu fiz muitos novos amigos, cultivei os antigos e no meu aniversário tinha um monte de gente para comemorar comigo.

Não fiz tatuagem, não engravidei e não entrei em coma alcoólico. Isso faz de mim uma boa menina, né pai? Ops, desculpa, esqueci.

Nesse ano, não disse a você o quanto me orgulho de você e do seu ofício, não disse à mãe o quanto eu sou grata por tudo o que ela faz por mim, ao Rodolfo a sorte que eu tenho por ter um irmão como ele e não dei à Verônica todos os conselhos que eu deveria ter dado. Então, em 2009, eu quero ter mais tempo e coragem para dizer tudo. E nisso estão incluídas muitas outras coisas.

No trabalho eu vivi experiências bem diferentes, como lançar cartão de crédito no Turvo, entrevistar de médicos a agricultores e carregar uma coluna de um lado para o outro. Torço para que ano que vem continue assim, dinâmico, porque às vezes falta disposição para inovar.

Família, amigos e trabalho. Não ando com muitas outras prioridades ultimamente. Que tudo continue assim, mas que ano que vem eu faça um pouco mais. Que eu faça carteira de motorista, arrume um namorado, compre uma estante, controle o gato e aprenda muito e muito mais.

Se alguma coisa for muito difícil para você, eu juro que entendo. Afinal, você sempre se esforça para que tudo seja perfeito para mim. Mas saiba que você e todas as outras pessoas que eu encontro e coleciono já são os meus melhores presentes.

Com carinho, da sua filha, Tatiana

Papai Noel do Brasil, vulgo meu pai!

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As pessoas de 2008

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Sobre quem encontrei ou em quem me esbarrei no ano que passou

O ano de 2008 serviu para me mostrar muitas coisas, mas, principalmente, que amigos vão e vêm. Os que vão permanecem vivos na lembrança e nos reencontros, casuais ou marcados. Os que vêm mostram que novas amizades continuarão vindo e, como o sol, trarão a promessa de dias (e anos!) mais felizes.

Costumo dizer que os anos ímpares me trazem novidades e os anos pares mantêm as coisas nos seus devidos lugares. É sempre assim, talvez com raras exceções. Algumas delas vou listar aqui.

Em ordem mais ou menos cronológica, os indicados na categoria "Amigos Revelação 2008":

Mary Stela

Ela surgiu na minha vida antes de 2008, mas foi nesse ano que nos tornamos cúmplices, tanto na arte de cuidar de um gato, como para guardar segredos sobre utensílios domésticos. Eu nunca pensei que fosse encontrar outra "Cris" e quando a Maristela chegou, quietinha trazendo sua geladeira e seu fogão, eu jamais imaginaria o quanto a ausência dela chegaria a ser um pé no saco. Aprendi com ela a escarafunchar dotes culinários que nem sabia que tinha, que talento musical não é necessário para cantar e que morar com uma pessoa não é "só dividir contas e faxina, mas uma parte da nossa história" (VALÉRIO, 2008)

Pati

Sobre ela eu já escrevi um texto inteiro. Talvez seja a integrante da lista mais complexa de se descrever, mas as experiências divididas não necessitam de qualquer explicação. Por muito tempo eu lembrarei dela quando ler um bom livro, comer um bife, subir em cima de uma bicicleta ou ver uma estátua viva.

Marina

Na nossa primeira conversa, ela perguntou se eu era sua nova vizinha e eu perguntei como ela agüentava aquele galo insuportável da casa ao lado toda a manhã. "Acostuma", ela respondeu. Com ela descobri que ainda existem pessoas que realmente têm o coração puro. Ela mostrou um carinho por mim que desarmou meu coração para as amizades instantâneas. Simplesmente porque é impossível não guardar um carinho imenso pela "loira, alta e bonitona". Além disso, é impossível conhecer alguém tão inesquecível quanto a Susete.

Hartmann

Cena: uma festa com música (ensurdecedoramente) eletrônica. Pensei alto: "É por essas e outras que eu penso... Eu gosto mesmo é dum boteco". Ele escutou. Pronto, viramos amigos. Às vezes eu me pergunto como posso sentir saudade de uma pessoa com quem convivi tão pouco. Mas aí quando ele vem me perguntando: "E aí, meu bem, quando vem pra cá?" o coração aperta e eu vejo que isso se chama saudade mesmo.

Michele Matos

Ela aliou em seu blog duas palavras que também me definem bem: Parafusos e Nostalgias. E ler o que ela escreve me trouxe saudades guardadas no peito e parafusos que até então eu não sabia onde encaixar. Ela também leu o que eu escrevi e depois de um longo diálogo de comentários, acabamos nos conhecendo de uma forma nada comum. A Michele me ensinou que conhecer quem está por trás de um blog é uma coisa muito importante, tanto que pode marejar os olhos. Ela me acolheu como acolhe todos à sua volta. Quando vi que mesmo acabando de chegar eu já merecia sua atenção, percebi como tive sorte.

Pedro

Por um tempo fomos vizinhos invisíveis um ao outro. Depois, vieram os esbarrões e, talvez por influência da Michele, os encontros passaram a ser mais freqüentes, quase diários. Descobri que um acadêmico de Matemática pode perfeitamente ter ao lado da cama livros de aritmética alternados com a poesia de Cesário Verde. Com o Pedro também descobri, entre outras coisas, que o bom gosto não está restrito ao círculo de Humanas, que a sensibilidade não é privilégio das mulheres e que vizinhos podem te alegrar bem mais que um mero empréstimo de um pouco de açúcar. Ainda bem que eu não morri, senão não teria dado tempo de saber disso tudo.

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Dicionarizando

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"O ser humano inventou a linguagem para satisfazer a sua profunda necessidade de se queixar". (Lily Tomlin)

Uma vez, que pode ser entre 1996 e 2000, não sei ao certo, uma professora de Português nos propôs um exercício diferente. Deveríamos dicionarizar uma palavra, ou seja, dar um significado literal para ela como se fosse um verbete de um "pai dos burros" (essa professora odiava que chamassem os "aurélios" assim).

Ela confiou que não copiaríamos nada do dicionário e eu, realmente, não o fiz. Tratei de dicionarizar a palavra tesoura: sf 1. Objeto que serve para cortar coisas, formado por duas partes cortantes, unidas por um mecanismo de abre e fecha, por onde se colocam os dedos indicador e médio. Ou algo parecido.

Lembrei disso hoje e tentei repetir mentalmente o exercício. Confesso que não foi fácil. Os poucos minutos que levei para concluir a tarefinha no Fundamental, arrancou-me momentos de aflição. Cadê o meu raciocínio lógico, que rendeu uma definição tão direta que mereceu até elogios da minha professora?

Admito que os verbetes imaginados não contribuíram muito:

Folha sf 1. Parte da árvore, geralmente verde, que no outono cai e enche de sujeira o quintal. 2. Pedaço de papel que serve para escrever, imprimir ou amassar e jogar no coleguinha de trabalho.

Curso sm 1. Serviço que uma empresa ou pessoa presta a pessoas que sabem menos que ela, cobrando uma certa quantidade de dinheiro e exigindo um tempo de dedicação de ambas as partes. Mais da parte que participa, diga-se de passagem. 2. Trajeto do rio. 3. Decorrer, como em "curso das horas".

Vazio sm 1. O nada. 2. O sem sentido. 3. Aquilo que sente quem sofre depressão. adj. 4. Oco, ausente de matéria. 5. Ф

Alguém se habilita?

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Ah, essas crianças...

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Em uma mesma quadra, no mesmo lado da rua, ao mesmo momento, caminhava eu em direção a minha casa e do lado oposto duas meninas de seus oito anos, indo para sabe-se lá onde. Saltitando, como é comum na sua idade. Ah, não posso esquecer que no meio do caminho em que eu e as duas meninas percorríamos também havia um rapaz parado no ponto de ônibus. As meninas foram vindo e eu indo. O rapaz parado. Nisso, as duas soltam uma estrondosa gargalhada. Foi tão espontânea e de tão longa duração, que arrancou o sossego da minha caminhada. Eu e o rapaz nos olhamos depressa, compartilhando uma dúvida comum: Foi de mim ou de você? Mas eu pensei com meus botões: "Ah, Tatiana, pára. Criança ri por qualquer coisa!" Na dúvida, tratei de conferir se o meu zíper não estava aberto.
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Duas mulheres modernas

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“Eu sou feita de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidos

amores mal resolvidos (....)


(Martha Medeiros)



Ansiosas, eram elas, por amar


Não acreditavam em príncipes


E casamento, nem pensar


Mas buscavam a felicidade


E, acima de tudo, amar.


Eram inteligentes, bom currículo e blá blá blá


O emprego ia bem e com vários amigos podiam contar


Tinham dinheiro, não muito, mas vá lá


Mesmo assim o amor estava latente a faltar


E na busca incessante, batiam a cabeça


Não uma ou duas vezes, mas sem parar


Pensavam como ser possível para os outros


Pois qualquer outra podia encontrar


Mas o amor que queriam


Era estranho e sem forma, impossível de achar


Os fins de semana passavam a conversar


Disputando qual das duas


Tinha a pior história para contar


Não chegavam a nenhuma conclusão


Porque só as próprias dores sabiam enxergar


Depois de cada encontro


Em um Nei Lisboa passavam a se afundar


Admiravam uma a outra


Mas faltavam-lhes a si próprias admirar


Precisariam estar abertas


E para os lados olhar


Mas se fechavam em seus mundinhos


Pois assim era mais fácil reclamar


“Será que o problema é comigo?”


Perdiam noites de sono a pensar


Diante de várias receitas milagrosas


Não sabiam em qual acreditar


Chegaram ao fim da vida


Sem suas vidas, de fato, aproveitar


E descobriram afinal a falha que cometeram


Colocar o amor sempre em primeiro lugar



*Protagonistas não reveladas

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A grande questão

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- Provocar emoções nas pessoas!
- Ahn, quê??
- É isso. É por isso que eu escrevo. Para provocar sensações em quem está lendo o que eu escrevo. Percebe como é profundo possibilitar às pessoas sentirem algo através de você?
- São duas da manhã, por que você ainda não foi dormir?
- Estou pensando nisso.
- Nas emoções?
- Nas pessoas. E nos meus textos.
- Tá e por que você não dorme agora?
- Por que você não pode ser um pouquinho mais sensível?
- Você me acordou a essa hora para me falar essas coisas em tom profético e quer que eu seja sensível? Quer que eu te faça um café também para parabenizar pela epifania?
- Eu não te acordei!
- Eu te senti acordada, acho que o inconsciente me alertou que algo poderia estar errado.
- Não há nada de errado.
- Você que pensa...
- O que você está querendo dizer com isso?
- Ah não. Não começa a interpretar o que eu digo. Você disse algo e está despertando uma emoção em mim. Profundo, né? Agora dorme.
- Você pode agir como se eu fosse um pouco mais suportável para você?
- Posso. Boa noite.
- Ah, vo...
-Já sei, amanhã você vai escrever um texto sobre isso.

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A lápis

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Texto inspirado no blog Não enviadas, de Camila Rufine e Graci Polak


Bom, (sempre achei que qualquer conversa séria que eu teria com você começaria com essa palavra) não posso negar que de algum modo você me encanta. Não sei te precisar o porquê, afinal, você não é o meu tipo, passa longe de Don Juan e só volta e meia resolve lembrar que eu existo.


Nosso relacionamento (se é que podemos chamar assim) foi zebra em todos os momentos. Os desencontros se sucederam, um a um, e os encontros pareceram tão certos como uma substância gelatinosa escorregando por entre os dedos.


Talvez você tenha algo que, contra tudo e qualquer outra coisa, puxa minha alma para perto de você. Algo mais forte que uma descrição vocabular. Um assim, sei lá... acorde tocado na hora certa. Uma marca invisível, que foge ao externo e se esconde em algum lugar ainda não descoberto, mas resolve se insinuar quando é hora. Ou vai ver que você me instiga simplesmente pelo fato de eu não ser alguém de grande importância para você. E o que eu quero no fundo, no fundo, é conquistar o inatingível. Em tudo.


Faz parte de mim achar que é preciso desafiar a condição do irreversível. Talvez por isso você me diga, na calada da noite, que eu sou corajosa. Não, o que eu sou é burra. E teimosa.


Não tenho dúvidas que sim, você tentou (ou tenta) gostar de mim. Sinto como se você tentasse listar minhas qualidades para si mesmo, de forma a condicionar seu coração a bater mais forte por mim. Mas não, não adianta. É como diz a música, você pode até estar querendo querer-me sem ter fim, mas esse querer não há em ti. Ou seja, você simplesmente não pode tentar cavar algo que não está escondido embaixo da terra, ou pode, mas será em vão. O fato é que você simplesmente não está a fim de mim e isso eu compreendo (ou tento compreender).


Porque quando eu penso assim eu lido melhor com esses conflitos na minha mente. É por isso que eu obrigo-me a pensar em você, atrás da pose de muralha impossível de se escalar, apenas como um menino. Um menino bobo, que não sabe o que quer, que não sabe se expressar e que não sabe que as oportunidades se esgotam.


Deixei de pensar no que há de errado comigo ou se alguma coisa por mim pode ser despertada em você um dia. Desisti do quebra-cabeça. Não sou eu, não é você. Dei-me conta, simplesmente, que existem peças que não podem ser encaixadas.
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O gato na primeira infância

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"Lutei para escapar da infância o mais cedo possível. E assim que consegui, voltei correndo pra ela". (Orson Welles)

Meu gato deve estar agora com uns nove meses, o que deve equivaler a cerca de três anos na escala humana. Digo isso porque é nessa idade que as crianças começam a querer fugir de casa. O gato cismou de achar que a casa do vizinho é melhor que a nossa. Volta e meia toca a campainha e quando vou atender é a vizinha segurando o bichano no colo. É, de novo. Dou meu sorriso amarelo, brigo com ele, mas de nada adianta. É só deixar a janela do meu quarto aberta que ele escapa para a janela ao lado, do vizinho, que se não tiver aberta ele dá um jeito de abrir com a patinha. Esperto ele é, não dá pra negar.

Contei para meu pai das costumeiras fugas do Polaco e ele rebateu dizendo que eu era igual a ele quando criança.

- Quando você tinha uns três anos, se a gente brigava com você, você pegava umas roupas na gaveta, enfiava numa sacola e saía de casa.

- Hahaha E eu ia para onde?

- Saía dizendo que ia para “patubanco” (Pato Branco, cidade a 30 km da minha casa).

- E ninguém ia atrás de mim?

- Não, você ficava na escada chorando e depois de alguns minutos voltava para casa como se nada tivesse acontecido.

Parei para pensar se eu ando tratando mal o gato para ele querer fugir de casa. E parei para pensar se ele voltaria, assim como eu fazia.

Antes de desligar o telefone, senti que remexer nesse passado acabou mexendo com o meu pai. Depois de dizer tchau, senti nele o silêncio, aquele silêncio conhecido já, da nostalgia. Acho que ele sentiu saudades do tempo em que eu saía de casa, mas acabava voltando. Hoje ele sabe que eu não volto mais.

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Jornalista, 23, procura:

alguém para lhe ajudar com as sacolas do supermercado.

um porto, não seguro, mas infinito.

uma forma de parar de roer unhas.

um telefone que dê para ligar de graça.

um emprego que lhe permita ficar o dia todo de pijama.

um calmante para o gato.

um antídoto para a preguiça.

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Estava vazio...

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Ontem, caminhando na volta para o trabalho, passei na calçada em frente a uma funerária. A poucos passos de cruzar a porta, dois homens saíram segurando um caixão para colocá-lo no carro, que já estava com a porta de trás aberta. Quase que automaticamente, concentrei-me para fazer cara de pêsames. Como acontece em todas as vezes que preciso de uma expressão assim, quase dei risada. “Calma, respira, fundo. Já já você passa por eles”. Não sei se um deles notou meu desespero, pois olhou pra mim e comentou com o outro. “Ihhh, não vamos assustar a moça não!”.

Sim, quer dizer que faço um esforço tremendo e sou enganada por um caixão vazio? Na próxima dou uma gargalhada.

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Se eu pudesse...

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“Não há coisa que não esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário” (Jorge Luis Borges)

Se eu pudesse nascer de novo, seria um pedreiro. Muitos divagaram sobre essa possibilidade, mas duvido que alguém tenha se apropriado da tranqüilidade de um pedreiro deitado na grama após o almoço. O sossego pousa ali e ali fica, unindo um bando de barbudos de camisas de time, sem a chave da obra para recomeçar a lida da tarde. Nem com as gostosas que passam na rua eles mexem. Uma pausa merecida, de tudo.

Se eu pudesse voltar no tempo, seria como o casal de adolescentes que vi hoje de manhã. Com agasalho do uniforme, há duas quadras da escola, na certa fugidos, eles não se encaravam. O porquê da briga deles, fiquei tentando imaginar comigo mesma. Olhavam para lados opostos, ela para baixo, ele para o horizonte. Queria voltar a ter essa expressão que só os adolescentes têm, de achar que o seu problema acabará com o mundo de uma vez por todas. Mal sabem que quando a gente é adulto os problemas crescem e podem durar a vida inteira.

Se eu pudesse parar o tempo, congelaria o seu olhar cruzando no meu, assim, sem mais nem por que. Guardaria o seu rubor em um potinho e levaria comigo para onde eu fosse. Pausaria em mim a ânsia de te querer sempre perto, buscando em qualquer gesto tua vontade de ficar também.

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Ensaio sobre o ensaio

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Uma vez eu li um artigo falando que os críticos de cinema deveriam se ater não somente ao que viram na tela, ao filme em si, mas também a situações que vivenciaram ao assisti-lo. Como estava o cinema, cheio ou vazio? Foi sozinho ou acompanhado? A namorada dormiu em alguma parte? Na concepção do articulista, esses e outros detalhes fariam a diferença na sua crítica. Bom, isso aqui está longe de ser uma resenha fílmica, mas roubei a idéia e resolvi contar um pouco do detrás da telona, na minha ida ao cinema para ver Ensaio sobre a Cegueira, da obra homônima do Saramago.

Portanto, não irei contar que os personagens não têm nome e que não há como saber direito em que cidade ou país se passa a história - uma das exigências do Saramago aos diretores para ceder os direitos para adaptação. Não vou divagar sobre essa tentativa de universalizar os personagens e seus sentimentos. Esse tipo de informação a gente descobre rapidinho na internet.

O que queria contar é que cheguei atrasada (poucos minutos só) e ao tentar encontrar um lugar, sem enxergar nada, pisei em falso e quase caí um tombo. Uma baita ironia ficar “cega” ao tentar sentar para ver Ensaio sobre a Cegueira.

Em alguns momentos, eu tive vontade de ser como a Amelie e espiar a expressão das pessoas que estavam no cinema diante de algumas cenas chocantes, especialmente para ver a reação de quem estava ao meu lado. Qual será a expressão do ser humano em frente ao absurdo?

Eu quis chorar, mas tive receio. Senti minha fraqueza, sendo um pouco voyeur diante de cenas tão grotescas e me perguntando o que eu faria naquele lugar, naquelas situações.

Aprendi que alegria e tristeza não são como óleo e água. Elas coexistem. E meu sorriso se abriu um pouco ao ouvir isso. Eu ri em algumas partes, mas fiquei a maior parte do tempo chocada. O choque frente à cegueira do outro resume muito do que senti.

Depois de terminada a sessão eu fiquei em silêncio, por um tempo. Engraçado, uma matraca calada. O que falar sobre o não enxergar, depois de enxergar tanto? Minha visão de mundo mudou depois de assistir ao filme, como anunciava a chamada no cartaz?

Soube que muitas das cenas foram cortadas. Será que meu estômago agüentaria mais, ou eu seria como uma das mulheres que saíram antes de terminar o filme, exibido sem cortes, em uma das pré-estréias?

A primeira coisa que pensei quando vi o nome de Julianne Moore na tela, anunciando que o filme havia terminado, era na reação de Saramago sentado igual a mim, diante dos créditos (?) passando. Não importa a qual versão ele assistiu, se foi a mesma que eu acabava de ver. Qual deve ser a emoção de ver a sua obra adaptada, muitas vezes cortada, reescrita, transformada?

Saí da sessão com a sensação de um vazio, muito grande, dentro de mim. Um vazio por ter estado cega, junto com tanta gente. E banalizar os corpos nus, a condição animal, o estado primitivo do ser humano. E tive uma ânsia absurda de ver, ou melhor, de enxergar, muito, muito além do que está ao alcance dos meus olhos com astigmatismo.

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Mais uma de trajeto

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Morrendo de sono, entrei no ônibus. Poltrona do corredor, um saco, como sempre.
Mas dessa vez quem dividiria comigo algumas horas era um velhinho simpático, um pouco careca, com uns fios grisalhos, de óculos. Praticamente meu avô.
Pensei: Enfim, vou dormir um pouco.
Sentei, cumprimentei e ele já veio me perguntando para onde eu ia e de onde vinha.
Respondi, mas não dei trela. Até porque meu olho começava a fechar.
Nisso, ele passa a mão no celular e liga.
- Alô (uma voz feminina, dava para ouvir tudo claramente)
- Estou saindo daqui agora.
- Ah, que bom. (e mais que depressa) Quem está do seu lado?
- (um grunhido)
- Ahn? Quem? É homem ou mulher?
- (entre os dentes) Mulher.
- Ahhhh, é bom você se cuidar!
- (dentes cerrados) O que, estou com sono, já vou dormir...
- Aham, sei. Te conheço!
- To saindo.
- Te amo.
- Também.

Pensa que dormi?
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Ele trama. Ela? Drama

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“não faz diferença

se você vem amanhã

ou não vem

desisti de esperar

por alguém

cuja ausência

me faz companhia”

(Martha Medeiros)


Ele era bipolar.

Ela era autêntica.

Vez por outra ele trazia rosas.

Ela se derretia.

Noutras ele a ignorava

“Deve ser minha culpa”, ela dizia.

Ela ficava a esperá-lo na praça

Ele nas rodas de cachaça.

Ela comprava um vestido

Esperava vê-lo tirando.

Ele fingia não ver

Quando ela surgia entrando.

Ela lia e relia tudo o que ele lhe escrevia.

Mal sabia que para outras ele também o fazia.

Diante do bem-me-quer e do mal-me-quer.

Não sabia ela o que sentir.

Até que um dia jogou as pétalas fora.

E escreveu em uma carta o seguinte apontamento:

De agora em diante, tal qual o pólo,

Tal qual o sentimento.

No pólo em que tu me gostas,

Serei a coisa amada.

No outro, em que me desprezas,

Serei o seu tormento.
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Receituário

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"No fundo, no fundo,

bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto (...)"

(Paulo Leminski)


Quero felicidade 5 mg para efeito imediato.
Cápsulas em frascos com 30, sem prazo de validade.
Usadas sem contra-indicação, para uso oral, três vezes ao dia.
Indicada para aquela mágoa aparentemente sem remédio,
que pesa fundo no coração.
Para o rancor constatado, indigesto e sobressalente.
Para a alergia ao sol e a vontade de dormir sem parar.
Para o choro compulsivo, que dilacera o peito.
Para a lágrima que rola escondida,
que não tem companhia por causa da gente em volta.
Para a vontade de sumir, diagnosticada urgente.
Para o desespero da falta de amor.
Para o mal-me-quer de todo dia.
Para resolver os problemas, com ou sem família grande.
Para engolir o que aflige, para pôr sorriso na cara.
Para animar dias mortos, para trazer doces dias.
Para ressucitar velhas idéias, que se enterram na tristeza.
Não quero alucinógenos, fluoxetina ou etanol.
Quero apenas felicidade. Nem que seja por efeito placebo.

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Estrela da vida inteira

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"Eu gosto tanto de você, que até prefiro esconder. Deixo assim ficar subentendido..."

A primeira evidência de que você apareceria na minha vida foi no natal de 92, quando a mãe não conseguiu fechar o zíper do vestido que tinha mandado fazer 15 dias antes. Não lembro do momento exato em que recebi a notícia, só lembro que, com o tempo, as lembranças foram se mesclando. A mãe vomitando dia e noite e no meio tempo atendendo pessoas na loja que mantínhamos na cozinha de casa. O pai me perguntando se eu queria menino ou menina e eu respondendo que menina seria melhor, porque aí eu teria com quem repartir todas as minhas bonecas. Lembro que ele me achou tão generosa naquela colocação que fiquei orgulhosa de mim mesma e a repetia isso com freqüência para toda e qualquer pessoa. É claro que as atenções em breve estariam voltadas para o novo bebê e eu já previa isso.

Quando a mãe engravidou de você, eu, a filha mais nova e detentora do título de princesinha do papai, já tinha sete anos, com um irmão de doze. Ninguém escondeu que você foi uma surpresa, que nada estava planejado. Mas não foi a falta de uma casa maior para cinco pessoas nem do que quer que fosse que haveria de ser problema. Era, afinal, uma nova vida que estava entrando, pela porta da frente.

A alegria do temporãozinho dividiu a família. Eu e meu pai esperávamos uma garota, já minha mãe e o irmão torciam por um menino, que se chamaria Jhonathan (sim, você escapou desse destino). No dia do veredicto, meu pai fez questão de levar todo mundo para ver a ultrassonografia. Os três ansiosos em volta da mãe acompanhavam cada gesto do médico e tentavam distinguir as manchas disformes na tela. Uma menina. Minhas bonecas teriam mais uma dona.

Como Jhonathan não nasceria, era preciso escolher outra alcunha. Rodolfo e eu decidimos por Sthephannie (estrangeiro e com vários encontros consonantais, a exemplo da primeira escolha). Você escapou mais uma vez, mas foi só porque a nossa empregada não conseguia pronunciar nada diferente de Fanê. Optamos ainda por Clara. (Não sei te precisar por que foi recusado, mas escapamos todos de uma grande ironia, já que você nasceu com a cor do verão).

Nessa época morávamos no terceiro andar de um prédio central na cidade. Você não deve lembrar disso, já que saiu de lá com 2 anos, mas a mãe costumava encostar na janela em frente à porta do nosso apartamento e ficar olhando lá fora. Um dia, nos últimos meses de gravidez, eu fiquei do lado dela e perguntei como iria ser seu nome. “Ah, podem ser vários” – ela disse, desfiando uma lista de opções. Lembro que um deles me chamou a atenção. Verônica me soou tão bonito, tão forte, que eu decidi que seria aquele. Sustento essa idéia até hoje, embora todo mundo diga que o nome já estava escolhido antes do episódio da janela.

A partir do momento em que você teve um nome definido, a espera tornava-se mais clara. E urgente. O pai comprava números de rifa e preenchia com o seu nome, da filha que ainda nem nascera. A mãe escolhia estampas de tecidos e mandava a costureira cortar em quadrados e fazer barrados, para que você tivesse várias fraldinhas iguais para cheirar depois que nascesse. Ela fazia isso para não correr o risco de você se apegar a um cobertor ou pano específico e carregar um trapo sujo e desfiado por aí. Um dia eu perguntei a ela o que iria acontecer se você não gostasse dos paninhos que ela havia destinado a esse fim. Lembro que ela parou, olhou pra mim, refletiu um pouco e respondeu brava: “É claro que ela vai gostar. Que coisa, menina!”

Na casa tínhamos dois escorpianos e dois virginianos. Como o médico avisou que você nasceria no final de agosto, eu e o pai vimos que perderíamos a maioridade no quesito nativos de um mesmo signo. Já tínhamos ganhado a aposta do sexo, então era melhor que o signo fosse o mesmo da mãe e do Rodolfo.

Você surpreendeu mais uma vez. Antecipou-se e nasceu dia 22 de agosto, último dia de Leão. E foi incrivelmente leonina, desde o primeiro choro. Ao contrário de mim, recusou todas as saias e vestidos que te pinicavam as pernas. Lacinhos no cabelo, nem pensar. Era uma menina e não uma boneca.

Eu lembro que na maternidade, depois que a enfermeira saía do quarto com você nos braços, eu ia de fininho para o andar de cima e ficava bisbilhotando você na janela do berçário. Achava perigoso alguém te confundir com os outros bebês, todos iguais. Devia imaginar, do alto dos meus oito anos, que como você tinha acabado de entrar na minha vida, eu poderia te perder a qualquer momento.

Quando você tinha quatro meses quase morreu, por incompetência de uma farmacêutica. Mas nada aconteceu, graças ao bom Deus. Com uns quatro anos você se perdeu no meio de um ginásio lotado, durante uma apresentação de patinação, em outra cidade. O Rodolfo era o astro de um dos números, em que cada patinador ia saltando sobre os anteriores e deitando no chão. Ele era o último e deveria saltar por cima de outros dez patinadores. Em um segundo de fôlegos suspensos e olhares atentos da família para o feito, você sumiu. E foi naquele momento que eu senti que você poderia não mais voltar. No silêncio e no desespero da procura, seus dois irmãos mais velhos se tornaram cúmplices, unidos pelo medo de ficarem só os dois. No final de algumas horas você foi encontrada pela minha mãe, que sempre sabia onde você estava, brincando com uma criança da sua idade.

Sua personalidade sempre foi forte, mas depois das primeiras palavras isso se tornou mais aparente. Para você as coisas não tinham os nomes que as pessoas as chamavam. Era por isso que água era ati. No seu primeiro dia de aula, a mãe fez eu aparecer na escola na metade da tarde para saber se você estava bem. “Está ótima” - disse a professora. “Depois que eu descobri o que era ati, tudo ficou ainda mais fácil”. As pessoas ao seu redor também ganharam apelidos. O Rodolfo, por exemplo, era Papo e você se apresentava como Pipi. “Qual é seu nome?” – perguntavam. E você na lata: “Pipi!” “Não! É Verônica, Ve-rô-ni-ca” - a mãe insistia. “Pipi”.

Se eu fosse listar todas as lembranças que eu tenho de você, poderia falar por horas. Coisas boas e ruins. Engraçadas e chatas. Você já teve insolação na praia, porque não gostava de beber água toda hora. Já bateu a cabeça na persiana e ficou com olho roxo, em pleno réveillon. Já foi pega pulando o muro da escola para fugir, com incríveis três anos. Já trocou a chupeta por um teletubbie. Já levou mordida de cachorro e ficou chorando por horas.

Eu confesso que eu não gostava quando a mãe não me deixava sair de casa para cuidar de você. Que eu chorei de raiva quando você riscou minha apostila, meus diários e tudo mais com vários eeeeeeeeeee. Confesso que eu perdia a paciência quando você ficava pulando em frente à televisão, quando conseguia tudo o que queria porque era a mais nova.

Mas eu também confesso que sem você, minha vida não estaria completa. Sem as lembranças das vitaminas de abacate, das trocas de fraldas, do “Boa noite”, antes de dormir, acompanhado por “Não vá desligar o abajur ou fechar a porta!”, porque você tem medo de escuro. Confesso que fiquei emocionada quando você disse Tati pela primeira vez. E que ri muito porque você não conseguiu falar Rodolfo. Que quando eu ensinei as letras antes mesmo de você freqüentar a escola e você reconhecia na rua que o E era “a leta do pai” e S “era a leta da mãe”, eu pulava de alegria por dentro. Confesso que eu gosto quando dizem que somos parecidas, porque isso me torna um pouco mais bonita, como você. Confesso que é quando você diz o tão esquecido “eu te amo” lá em casa, é aí que eu lembro mesmo o quanto eu amo, você e a família inteira.

Eu me orgulho. Não só de você ter sido a escolhida para representar o colégio, porque isso eu já imaginava. Eu me orgulho por fazer parte de quem você é hoje. Por você estar crescendo, por estar sempre fazendo as escolhas certas...

E eu te amo justamente por você me amar, mesmo eu indo contra a um monte de coisas que você, com a maturidade inexplicável dos seus quinze anos, sabe que estão certas. Por você estar sempre presente, por mais que ausente. Por ter medo de te perder e, principalmente, por você ter nascido e me mostrado o que é o amor de uma irmã.
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No meu quarto você encontra...

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"Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim" (Clarice Lispector).

Se você foi embora da casa dos seus pais há um tempo, você pode se identificar com esse texto.

No dia em que você pôs o pé pra fora de casa com suas malas, seu quarto deixou de ser propriedade sua. Aliás, se seu quarto não virou para sempre área de serviço, com uma tábua de passar no lugar da sua cama, dê graças aos céus.

A maioria dos casos é menos grave. O cômodo vira depósito de bugigangas ou o quarto de visitas, mas de qualquer forma um pedaço meio morto da casa, o qual ninguém habita.

Claro que você volta algumas vezes de passagem, na tentativa de recuperar seu reino perdido. E o que você encontra não é mais o seu quarto, onde antes reinava soberano. Mas apenas um lugar no qual há uma vaga lembrança de que você esteve por ali. Uma reunião de reminiscências, mortas, esquecidas em um canto. Fotos de pessoas antigas, manchadas e empoeiradas, compõem o mural. Pessoas com que você nunca mais conversou. Um ‘Eu te amo’ escrito por um ex-namorado, que manchou a parede do quarto e que você nunca mais conseguiu apagar e deixou ali mesmo, vencida pelo cansaço de apagar o passado do quarto e da memória.

O passado está à espreita em todos os lugares em um quarto não mais habitado. Nas roupas que não servem mais, mas não são jogadas fora, por apego ou preguiça, e resistem bravamente no fundo do armário. Nos presentes que pessoas te deram, acumulando poeira nas penteadeiras. Enfeites e bibelôs que você não carregou consigo, não porque não tenha gostado, mas porque não fazem mais parte da vida que você agora leva. Então você prefere deixá-los guardados naquele templo de saudades antigas.

Por mais que você tenha outros quartos, o quarto que você deixou na casa dos seus pais será sempre um pedaço seu. Talvez o mais presente, porque ainda é cultuado. Para a mãe talvez é uma parte do filho que respira dentro da casa, mesmo ele estando longe. Uma amiga que foi embora fazer faculdade me contava que a mãe costumava visitar seu quarto, mexer em suas coisas e chorar de saudade. Se ‘a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu’, a saudade sentida no quarto de um filho que vai embora deve ser semelhante.

No meu quarto minha mãe deve sentir pouca saudade, creio eu. Outra filha ficou para preencher o vazio. E, diga-se de passagem, preencheu bem. Ocupou sem dó nem piedade as oito portas do armário, as quatro gavetas da cômoda e as duas gavetas de sapatos. Só me deixou uma prateleira do armário, onde ficam duas calças velhas de moletom e uma blusa de lã, que me acode nos dias frios de visita à casa paterna.

Mesmo com um ser pulsando dentro do meu antigo quarto, para mim ele ainda é como um cemitério, recheado de coisas antigas, que caminham para o esfacelamento total, o destino de todas as memórias palpáveis. É ainda um pedaço amputado meu, que me desperta a saudade de não sei o quê, como um mausoléu que outros construíram e a gente sabe que existe para lembrar de alguém, mas não sabemos quem.

A saudade enterrada no meu antigo quarto costuma vir à mente num final de tarde, quando lembro da luz do sol se pondo entrando por através das cortinas salmão. Ali, onde ora me sinto como uma hóspede, estrangeira no próprio lar, deparo-me com o que fui e sei que sim, um dia já fui feliz.

*Para Vanessa, cujo antigo quarto me despertou a necessidade de escrever esse texto.

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Prosa presa à poesia

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"O passado é uma roupa que não nos serve mais" (Velha roupa colorida, Belchior)

O mundo dos sonhos é confuso, arredio e impenetrável.

Eu mesmo, que tão longe de ti estou,

Sonhei essa noite que aninhava a cabeça no teu peito

E tu me colocavas para dormir.

A cabeça colada ao peito, o ouvido acompanhando o compasso do coração.

E pensar que acordada não sei mais o ritmo que ele bate.

Não sei o que sentes, por mim ou coisa alguma.

Não sei com quem se deitas, se é a mesma da noite anterior.

Ignoro-o porque há muito não aninho minha cabeça no teu peito.

Será que o fiz, algum dia?

Quem sabe foi um dia antes de lançarmos os dados para escolher o vencedor.

A ponta das flechas lançadas penetrou certeira, no meu peito e no teu.

No mundo de Morfeu, teu peito bate compassado e me põe para dormir.

Tampouco o meu coração parece estar ferido, no sonho.

Repousar a cabeça no teu peito é gesto corriqueiro.

Como a conseqüência inevitável de dois corpos vulneráveis à presença e ao toque do outro.

O sonho é o reverso da vida.

Depois de abrir os olhos, o que se vê são dois corpos tensos, impenetráveis.

Distantes, no tempo, no espaço e nas formas de sentir.

Distantes pela escolha das flechas, pela direção do vento ou pelo sonho que não se penetra, enfim.
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Meu reino das palavras

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"Alheias e nossas as palavras voam (...)"

(Cecília Meirelles, Vôo)

Antes mesmo de saber escrever
As palavras já formavam imagens
Em minha mente.
Tarde, por exemplo.
Ao ouvir Boa Tarde,
vinha-me à cabeça um velho
de barba branca e rala
e expressão plácida.
O velho da Tarde,
como o chamo hoje,
ficava na soleira de uma porta
sob um céu alaranjado
contemplando o entardecer.
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Elas sempre têm razão

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(...) E se o mundo em ti principiava,
No teu mistério entre astros absortos,
Suavemente, ó mãe, tudo termina. (Natália Correia)


A gente tenta
No fundo a gente sempre tenta.
Ser diferentona
Parecer moderninha
Dispensar o amor da vida inteira
Pôr o pé para fora de casa
E não voltar antes das seis e meia
A gente não quer limpar
E cozinhar, só se for petit gateau
Mas no fundo, lá no fundo
Sabemos que ainda somos as mesmas
E vivemos
Como nossas mães.


P.S. Salve Dona Suelânia e Dona Maria!

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Quase-morta

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“Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu”. (Álvaro de Campos)


Todo mundo vai morrer um dia. De acidente, do coração, assassinado, afogado, queimado. Tem mortes mais inevitáveis que as outras, mas na verdade, basta estar vivo para morrer. Quando se tem uma filha de 22 anos, formada, sem nenhuma dificuldade aparente, esse conformismo deixa de existir e você caga e anda para a história da morte inevitável. Se puder evitar, faz o que pode!

Foi o que aconteceu com meus pais na última semana. Na verdade, foi nessa semana. Mas meu pai briga comigo quando eu digo que a semana começa na segunda e não no domingo. Enfim, foi na última segunda. Tirei as amigdalas, já contei aqui.

Seis dias depois da cirurgia tive um sangramento na garganta. Acho que foi pequeno, mas o suficiente para me alarmar. Chorei horrores. Ao me ver desesperada, meus pais ficaram mais nervosos que eu e desataram a falar para eu ficar calma (no tom mais alto que suas cordas vocais alcançavam). Só sosseguei quando fomos ao pronto-socorro. Cheguei lá, o médico de plantão (que me olhava esperando vim uma luz na sua cabeça para saber o que fazia comigo), disse que era pra ficar engolindo o sangue e esperar passar. Ééé, simples assim. Meu pai ainda brincou: - Podemos ir tranqüilos, então? Ninguém morre disso? Risadinhas de todos. Menos as minhas, envergonhada pelo escândalo “sem propósito”.

Cinco dias depois, portanto, onze dias depois da cirurgia, outro sangramento. Começou mais ou menos no meio horário que o anterior, dez da noite. Nem falei nada pra ninguém. Fiquei lá, esperando a porcaria do sangramento passar. Não passou, nem diminuiu. Estava lívida, mas uma hora tive que avisar minha mãe. Acho que sangrei umas duas horas seguidas e fiquei engolindo o sangue. Aí comecei a vomitar. Primeiro uma coisa indefinível, meio sólida, meio esponjosa, que saiu junto com um jato de sangue. A partir daí minha mãe me proibiu de engolir o sangue e eu comecei o processo de jogá-lo na pia do banheiro.

Decidimos ir ao pronto-socorro. Eu já estava tonta. Primeiro sinal de que as coisas não iam bem. Cheguei lá e fui direto para o soro. Mais um vômito e a certeza de que era preciso fazer algo. Apesar do frio que começava a sentir, ainda estava incrivelmente lívida, ao contrário dos meus pais.

Fui encaminhada ao hospital. No caminho, dentro do carro, ouvi meu pai balbuciar suas orações. Segundo sinal de que as coisas não iam bem.

Estacionamos o carro, erramos a porta de emergência e ficamos em frente a uma porta trancada e com uma campainha que não funcionava. Diante da insistência do meu pai esmurrando a porta, desmaiei. Acordei lá dentro, caída no chão e com um vendaval de enfermeiras ao meu redor. Minha mãe segurava minha mão e meu pai gritava, como que me dando uma bronca, que eu deveria reagir. Terceiro sinal de que as coisas não iam bem.

Colocaram-me em uma cadeira de rodas e o atendimento foi ali mesmo. Ainda ouvi meu pai gritar perguntando pelo médico (que não estava no hospital, mas em casa) e mandando a enfermeira chamá-lo às pressas.

A partir daí lembro-me de muito pouco, ou pelo menos com pouca linearidade. Duas enfermeiras empenhadas em achar uma veia no meu braço esquerdo, outras duas no direito, mais uma colocando-me o oxigênio, minha mãe segurando minha mão, com uma voz longínqua e insistente: - Como você está? E a do meu pai, alta e desesperada, que alternava entre: - Não dorme! e Reage! - quando eu não conseguia responder à pergunta da minha mãe.

Definitivamente, as coisas não iam bem. As veias não apareceram, em nenhuma das tentativas. Não sentia as inúmeras picadas, nem mais a mão da minha mãe, sentia somente um leve desespero. Nessa hora as imagens, que já estavam turvas, começaram a sumir por completo. E além das imagens, eu senti que estava sumindo de mim. Sem a visão, sem a percepção tátil, a última coisa a sumir por completo foi a audição. Ainda ouvia as perguntas da minha mãe (que buscavam saber até que ponto ia minha consciência) e as ordens do meu pai (para não desistir). Num breve instante tudo sumiu. E voltou. Conseguiram enfim, achar duas veias, que não dilataram e ali puderam colocar um soro em cada braço. Minha mãe disse que nessa hora eu gritei, dizendo que não queria morrer. Mas tudo estava se estabilizando. Ainda fui para o quarto meio delirando, com muito frio, com dois assombrados pais ao meu lado.

A primeira providência era a transfusão de sangue. Mas para isso teriam de ser feitos alguns exames. A bioquímica chegou assustada, tirada da cama. Ficou mais assustada ainda quando foi retirar o sangue e não saía nada na seringa. Voou para o laboratório e constatou que meu hematócrito (uma espécie de índice que tem a ver com a quantidade de sangue no corpo) estava em 17. Os níveis normais vão de 38 a 40. Segundo ela, para mim, abaixo de 36 já seria preocupante.

A ficha de tudo o que eu tinha passado foi caindo aos poucos. Quando recebi a primeira bolsa de sangue e de hemogel, já estava voltando a mim por completo. Aí pude ver mesmo o medo dos meus pais (de todas as vezes que eles viram um filho quase morrer, aquela tinha sido a mais assustadora). O médico veio ao quarto umas doze vezes durante a madrugada. Na primeira, respirou aliviado quando sentiu meu pulso. “Quando vi a primeira vez, quando você chegou, não sentia nada”. As enfermeiras vinham e comemoravam minha pressão: 9 por 6. Eu nunca tinha tido pressão tão baixa assim e fiquei me perguntando quanto tinha ao chegar. A temperatura também foi comemorada: 35º. O normal não é 36?

Minha mãe é a pessoa menos dramática para problemas de saúde que eu conheço. É daquelas que acreditam que quase tudo se resolve com uma aspirina, uma pomadinha ou uma mistura natureba. Ela é do tipo que faz uma cirurgia super complicada, chega em casa e já está fazendo faxina. Depois que ela me falou que eu cheguei no hospital cadavérica, com o olho fundo, mais branca que a parede e que ela achou mesmo que eu fosse morrer, eu passei a acreditar que tinha sido sério.

Ela passou comigo todas as três noites que fiquei no hospital. Não teve coragem de deitar na cama do acompanhante. Dormiu em um sofá duro, pronta para pular se me acontecesse algo. Não aconteceu. Durante o dia eu ficava praticamente sozinha, a não ser pelas ligações constantes do meu pai. Também vinha um monte de enfermeiras e até um povo da administração do hospital, curiosos pela história da menina “que fez uma cirurgia na garganta e chegou quase morta no hospital”. Eu sabia que meu pai estava por trás disso. Quando ele foi me buscar para irmos embora, fez eu dar tchau para um monte de gente. Na certa, conhecidos ou mesmo pessoas que ele conheceu nos corredores, para quem ele contou sobre o susto. Pessoas que estavam felizes de me ver bem.

No final de tudo, posso dizer apenas que aquele dia não vi não vi a luz no fim do túnel. E que depois não acordei para a gratuidade da vida, nem a vi com outros olhos, nem percebi que ela é curta e que eu deveria pular de bungee jump, pintar o cabelo de vermelho e fazer uma tatuagem, tudo ao mesmo tempo. Não. Tal qual resultei, o que vi mesmo é que meus pais me amam e que os meus amigos se importam... Ah, também vi que terei que agüentar a Diangela me chamando de quase-morta por um bom tempo.

P.S. A Diangela não só me proporcionou um pouco do humour desse texto. Eu roubei dela o poema que o precede. Digo, “roubei” porque foi através dela que o conheci. Hoje é seu aniversário. E eu desejo que nessa nossa vida quase-manca, a gente ainda tenha muito tempo para dizer a nós mesmas que somos fodas. Parabéns, loca véia.

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