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Mostrando postagens de Novembro, 2008

Duas mulheres modernas

“Eu sou feita de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidosamores mal resolvidos (....)”
(Martha Medeiros)

Ansiosas, eram elas, por amar
Não acreditavam em príncipes
E casamento, nem pensar
Mas buscavam a felicidade
E, acima de tudo, amar.
Eram inteligentes, bom currículo e blá blá blá
O emprego ia bem e com vários amigos podiam contar
Tinham dinheiro, não muito, mas vá lá
Mesmo assim o amor estava latente a faltar
E na busca incessante, batiam a cabeça
Não uma ou duas vezes, mas sem parar
Pensavam como ser possível para os outros
Pois qualquer outra podia encontrar
Mas o amor que queriam
Era estranho e sem forma, impossível de achar
Os fins de semana passavam a conversar
Disputando qual das duas
Tinha a pior história para contar
Não chegavam a nenhuma conclusão
Porque só as próprias dores sabiam enxergar
Depois de cada encontro
Em um Nei Lisboa passavam a se afundar
Admiravam uma a outra
Mas faltavam-lhes a si próprias admirar
Precisariam estar abertas
E para os lados olhar
Mas se fechavam em seus mundinhos
Pois…

A grande questão

- Provocar emoções nas pessoas!
- Ahn, quê??
- É isso. É por isso que eu escrevo. Para provocar sensações em quem está lendo o que eu escrevo. Percebe como é profundo possibilitar às pessoas sentirem algo através de você?
- São duas da manhã, por que você ainda não foi dormir?
- Estou pensando nisso.
- Nas emoções?
- Nas pessoas. E nos meus textos.
- Tá e por que você não dorme agora?
- Por que você não pode ser um pouquinho mais sensível?
- Você me acordou a essa hora para me falar essas coisas em tom profético e quer que eu seja sensível? Quer que eu te faça um café também para parabenizar pela epifania?
- Eu não te acordei!
- Eu te senti acordada, acho que o inconsciente me alertou que algo poderia estar errado.
- Não há nada de errado.
- Você que pensa...
- O que você está querendo dizer com isso?
- Ah não. Não começa a interpretar o que eu digo. Você disse algo e está despertando uma emoção em mim. Profundo, né? Agora dorme.
- Você pode agir como se eu fosse um pouco mais suportável para você?
- …

A lápis

Texto inspirado no blog Não enviadas, de Camila Rufine e Graci Polak

Bom, (sempre achei que qualquer conversa séria que eu teria com você começaria com essa palavra) não posso negar que de algum modo você me encanta. Não sei te precisar o porquê, afinal, você não é o meu tipo, passa longe de Don Juan e só volta e meia resolve lembrar que eu existo.
Nosso relacionamento (se é que podemos chamar assim) foi zebra em todos os momentos. Os desencontros se sucederam, um a um, e os encontros pareceram tão certos como uma substância gelatinosa escorregando por entre os dedos.
Talvez você tenha algo que, contra tudo e qualquer outra coisa, puxa minha alma para perto de você. Algo mais forte que uma descrição vocabular. Um assim, sei lá... acorde tocado na hora certa. Uma marca invisível, que foge ao externo e se esconde em algum lugar ainda não descoberto, mas resolve se insinuar quando é hora. Ou vai ver que você me instiga simplesmente pelo fato de eu não ser alguém de grande importância para v…

O gato na primeira infância

"Lutei para escapar da infância o mais cedo possível. E assim que consegui, voltei correndo pra ela". (Orson Welles)Meu gato deve estar agora com uns nove meses, o que deve equivaler a cerca de três anos na escala humana. Digo isso porque é nessa idade que as crianças começam a querer fugir de casa. O gato cismou de achar que a casa do vizinho é melhor que a nossa. Volta e meia toca a campainha e quando vou atender é a vizinha segurando o bichano no colo. É, de novo. Dou meu sorriso amarelo, brigo com ele, mas de nada adianta. É só deixar a janela do meu quarto aberta que ele escapa para a janela ao lado, do vizinho, que se não tiver aberta ele dá um jeito de abrir com a patinha. Esperto ele é, não dá pra negar. Contei para meu pai das costumeiras fugas do Polaco e ele rebateu dizendo que eu era igual a ele quando criança. - Quando você tinha uns três anos, se a gente brigava com você, você pegava umas roupas na gaveta, enfiava numa sacola e saía de casa.- Hahaha E eu ia par…

Classificados

Jornalista, 23, procura: alguém para lhe ajudar com as sacolas do supermercado.um porto, não seguro, mas infinito. uma forma de parar de roer unhas. um telefone que dê para ligar de graça. um emprego que lhe permita ficar o dia todo de pijama. um calmante para o gato. um antídoto para a preguiça.

Estava vazio...

Ontem, caminhando na volta para o trabalho, passei na calçada em frente a uma funerária. A poucos passos de cruzar a porta, dois homens saíram segurando um caixão para colocá-lo no carro, que já estava com a porta de trás aberta. Quase que automaticamente, concentrei-me para fazer cara de pêsames. Como acontece em todas as vezes que preciso de uma expressão assim, quase dei risada. “Calma, respira, fundo. Já já você passa por eles”. Não sei se um deles notou meu desespero, pois olhou pra mim e comentou com o outro. “Ihhh, não vamos assustar a moça não!”. Sim, quer dizer que faço um esforço tremendo e sou enganada por um caixão vazio? Na próxima dou uma gargalhada.

Se eu pudesse...

“Não há coisa que não esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário” (Jorge Luis Borges)Se eu pudesse nascer de novo, seria um pedreiro. Muitos divagaram sobre essa possibilidade, mas duvido que alguém tenha se apropriado da tranqüilidade de um pedreiro deitado na grama após o almoço. O sossego pousa ali e ali fica, unindo um bando de barbudos de camisas de time, sem a chave da obra para recomeçar a lida da tarde. Nem com as gostosas que passam na rua eles mexem. Uma pausa merecida, de tudo.Se eu pudesse voltar no tempo, seria como o casal de adolescentes que vi hoje de manhã. Com agasalho do uniforme, há duas quadras da escola, na certa fugidos, eles não se encaravam. O porquê da briga deles, fiquei tentando imaginar comigo mesma. Olhavam para lados opostos, ela para baixo, ele para o horizonte. Queria voltar a ter essa expressão que só os adolescentes têm, de achar que o seu problema acabará com o mundo de umavez por…

Ensaio sobre o ensaio

Uma vez eu li um artigo falando que os críticos de cinema deveriam se ater não somente ao que viram na tela, ao filme em si, mas também a situações que vivenciaram ao assisti-lo. Como estava o cinema, cheio ou vazio? Foi sozinho ou acompanhado? A namorada dormiu em alguma parte? Na concepção do articulista, esses e outros detalhes fariam a diferença na sua crítica. Bom, isso aqui está longe de ser uma resenha fílmica, mas roubei a idéia e resolvi contar um pouco do detrás da telona, na minha ida ao cinema para ver Ensaio sobre a Cegueira, da obra homônima do Saramago. Portanto, não irei contar que os personagens não têm nome e que não há como saber direito em que cidade ou país se passa a história - uma das exigências do Saramago aos diretores para ceder os direitos para adaptação. Não vou divagar sobre essa tentativa de universalizar os personagens e seus sentimentos. Esse tipo de informação a gente descobre rapidinho na internet.O que queria contar é que cheguei atrasada (poucos min…

Mais uma de trajeto

Morrendo de sono, entrei no ônibus. Poltrona do corredor, um saco, como sempre.
Mas dessa vez quem dividiria comigo algumas horas era um velhinho simpático, um pouco careca, com uns fios grisalhos, de óculos. Praticamente meu avô.
Pensei: Enfim, vou dormir um pouco.
Sentei, cumprimentei e ele já veio me perguntando para onde eu ia e de onde vinha.
Respondi, mas não dei trela. Até porque meu olho começava a fechar.
Nisso, ele passa a mão no celular e liga.
- Alô (uma voz feminina, dava para ouvir tudo claramente)
- Estou saindo daqui agora.
- Ah, que bom. (e mais que depressa) Quem está do seu lado?
- (um grunhido)
- Ahn? Quem? É homem ou mulher?
- (entre os dentes) Mulher.
- Ahhhh, é bom você se cuidar!
- (dentes cerrados) O que, estou com sono, já vou dormir...
- Aham, sei. Te conheço!
- To saindo.
- Te amo.
- Também.

Pensa que dormi?

Ele trama. Ela? Drama

“não faz diferença se você vem amanhãou não vemdesisti de esperarpor alguémcuja ausência me faz companhia”(Martha Medeiros)
Ele era bipolar.Ela era autêntica.Vez por outra ele trazia rosas.Ela se derretia.Noutras ele a ignorava“Deve ser minha culpa”, ela dizia.Ela ficava a esperá-lo na praçaEle nas rodas de cachaça.Ela comprava um vestidoEsperava vê-lo tirando.Ele fingia não verQuando ela surgia entrando.Ela lia e relia tudo o que ele lhe escrevia.Mal sabia que para outras ele também o fazia.Diante do bem-me-quer e do mal-me-quer.Não sabia ela o que sentir.Até que um dia jogou as pétalas fora.E escreveu em uma carta o seguinte apontamento:De agora em diante, tal qual o pólo,Tal qual o sentimento.No pólo em que tu me gostas,Serei a coisa amada.No outro, em que me desprezas,Serei o seu tormento.

Receituário

"No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto (...)"(Paulo Leminski)
Quero felicidade 5 mg para efeito imediato.
Cápsulas em frascos com 30, sem prazo de validade.
Usadas sem contra-indicação, para uso oral, três vezes ao dia.
Indicada para aquela mágoa aparentemente sem remédio,
que pesa fundo no coração.
Para o rancor constatado, indigesto e sobressalente.
Para a alergia ao sol e a vontade de dormir sem parar.
Para o choro compulsivo, que dilacera o peito.
Para a lágrima que rola escondida,
que não tem companhia por causa da gente em volta.
Para a vontade de sumir, diagnosticada urgente.
Para o desespero da falta de amor.
Para o mal-me-quer de todo dia.
Para resolver os problemas, com ou sem família grande.
Para engolir o que aflige, para pôr sorriso na cara.
Para animar dias mortos, para trazer doces dias.
Para ressucitar velhas idéias, que se enterram na tristeza.
Não quero alucinógenos, fluoxetina ou etanol.
Quero apenas felicidade. Nem …

Estrela da vida inteira

"Eu gosto tanto de você, que até prefiro esconder. Deixo assim ficar subentendido..."

A primeira evidência de que você apareceria na minha vida foi no natal de 92, quando a mãe não conseguiu fechar o zíper do vestido que tinha mandado fazer 15 dias antes. Não lembro do momento exato em que recebi a notícia, só lembro que, com o tempo, as lembranças foram se mesclando. A mãe vomitando dia e noite e no meio tempo atendendo pessoas na loja que mantínhamos na cozinha de casa. O pai me perguntando se eu queria menino ou menina e eu respondendo que menina seria melhor, porque aí eu teria com quem repartir todas as minhas bonecas. Lembro que ele me achou tão generosa naquela colocação que fiquei orgulhosa de mim mesma e a repetia isso com freqüência para toda e qualquer pessoa. É claro que as atenções em breve estariam voltadas para o novo bebê e eu já previa isso.Quando a mãe engravidou de você, eu, a filha mais nova e detentora do título de princesinha do papai, já tinha sete anos…