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Desponta a ponta e tonta, conta a medronta

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...Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir...
(Florbela Espanca)


Pode ser que a imagem do teu ser assim, tão docemente

E reler os teus escritos, feitos assim, tão de repente

Tragam a mim o amor arrebatador

Como nunca houvera de ser chamado

Estranho amor

_ _

Talvez meu coração

Seja apenas a parte mais medronta da minha alma.

Medronta. Palavra inventada.

Porque não há medrosa nem medonha que defina ser medronta.

Aquela que é amendrontada.

O que foi passou, acabou-se e está feito.

Foi. Do verbo ir. Irregular.

Imperfeito.


O que há de ser, será.

Será, do verbo ser.

Como regular, absolutamente virá.

E o que foi... Bem, caminhou com as próprias pernas.

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Vem, pára e vai-se embora

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"Eu amo tudo o que foi

Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia".

(Fernando Pessoa)

É engraçado como antes de começar qualquer coisa, é imprescindível certa dose de medo da mesma forma como é preciso uma certa dose de coragem. Juntas e dosadas, as duas sensações nos impulsionam adiante. Somente a primeira finca nossos pés no chão, fundamental para evitar que a sede provocada pela segunda nos tornem desenfreados. E perigosos. Uma vez, ouvi Pedro Bial dizer que aprendeu em uma cobertura de guerra [não lembro exatamente qual, nem quando], que ao estar no meio dela era preciso ter medo para garantir sua sobrevivência. E arrematou com algo como: é o medo que te segura na trincheira e evita que você leve um tiro. Certa vez, a atriz Paloma Duarte falou que antes de iniciar qualquer novo trabalho, ela sentia medo de simplesmente não conseguir compor sua personagem. Algo parecido está escrito no incrível romance “A Louca da Casa”. A madrilenha Rosa Montero fala sobre o exercício de escrita e revela que às vezes a gente simplesmente evita de começar algo novo. Por preguiça? Não, por medo. “Por medo de concretizar a idéia, de deteriorá-la, de mutilá-la”. Ou seja, tudo parece ser tão lindo na sua imaginação, que ao se tornar real, pode perder o ar de genialidade. E o que seria inovador, estupendo e revolucionário, torna-se limitante, superficial, clichê. Frustrante. Talvez aí o medo tenha ganhado impulso maior que a coragem. As trincheiras tornam-se mais acolhedoras que a vontade de se ver o que se está mais adiante. E lá, mais adiante, pode estar esperando o recomeço de tudo. A vida é a arte do recomeço, li nesta manhã. “Recomeço”, palavrinha que carrega uma imagem clara, ofuscante, como se representasse o brilho majestoso de uma águia dourada sobrevoando o mar, desbravando o horizonte. Enquanto “fim” é dita tão rápido que parecesse o flash instantâneo captando uma imagem em preto e branco. A imagem do sofrimento, da morte, da dor. Recomeçar é abrir as janelas, terminar é escurecer o quarto. Mas nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Rosa Montero me ensinou que a vida tem uma certa porcentagem de escuridão com a qual precisamos aprender a conviver.
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