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Enfim...

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Acho bonito falar alemão.

Por isso, talvez, eu não queira aprender a falar alemão.

Se eu falasse alemão

as pessoas iriam dizer, simplesmente, “ele fala alemão”

e aí perderia toda a graça.

A graça está em achar bonito falar alemão.

Por isso, às vezes,

eu deixo de fazer algumas coisas.

Deixo de dizer que te amo

porque dizer que te amo soaria como uma banalidade a mais

nesse mundo cheio de banalidades.

e onde habito eu, um poeta das banalidades

E simplesmente me calo, deixo a barba crescer

escrevo poemas para depois apagá-los de minha lembrança

e esqueço coisas que seriam inesquecíveis

simplesmente porque perdi a capacidade

de reter as coisas boas em minha memória.

(Labirinto - Hermínio Bello de Carvalho)


Não, não gosto de alemão, nunca achei graça em falar alemão, aliás, acho feia a pronúncia carregada de chhrr finais que nunca conseguiram entrar na minha boca. Mas coloquei esse poema aqui porque lembrei dele enquanto lembrava de palavras que gosto tanto que costumo não usar. “Enfim” é uma delas.

Acho lindo falar “enfim” em uma conversa, para iniciar uma conclusão. E quase sempre para iniciar uma conclusão boa. Para começar com “enfim”, a frase tem que carregar, de preferência, um tom de esperança e deve ser antecedida de um longo desabafo.

- ...acho que minha vida está toda errada. Não faço o que gosto, não gosto daqui, não sei do que gosto, não sei para onde posso ir.

(e aqui, quando tudo parece ser um verdadeiro caminhão de bosta, eis que ela surge, sublime)

Enfim, menina, tá tudo um caminhão de bosta, mas tenho que parar de reclamar. É melhor tomar uma atitude logo, antes que eu me acostume.

“Enfim” resume tudo, mas só tudo que foi dito anteriormente, porque nunca termina aí. “Enfim” não é apenas o fim. Mesmo quando se termina com uma frase ou pensamento com essa palavra, ela deve vim acompanhada de reticências, significando algo que está ali, mas não pode ou não deve, ou mesmo não precisa ser mencionado.

- Eu sei que fiz errado e blá blá blá. Sei que ele jamais faria isso de novo e que eu não deveria ter agido dessa forma. Mas enfim...

Sei que, nesse texto, estou indo contra o que eu disse acima, pois escrevi muitas vezes “enfim". Mas é que assim como tem coisas que em hipótese alguma podem ser substituídas, de tanto gostar da palavra “enfim”, não poderia trocá-la por outra de valor semelhante. Até porque, se você for parar para procurar nos dicionários, o significado de “enfim” é: finalmente. Ah, por favor. “Enfim” só pode ser igual a “finalmente” em artigo científico. Em uma conversa, “enfim” não tem equivalência. Alguns preferem trocá-la por “sei lá”, dependendo do grau de intimidade e informalidade do papo.

- Eu acho que dessa vez o negócio tá andando. Só se vier outra crise, daí chuto o balde de vez. Sei lá.

Mesmo assim, não fica bom. Não tem a mesma grandeza. Ou tem? Sei lá. Enfim....

* Colaborou com esse texto, mesmo sem saber, Vanessa Scheeren.

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Perdendo a personalidade

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“- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... A alma exterior pode ser um espírito, um fluído, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação”

(Machado de Assis)

Para mim, as situações abaixo são mais comuns do que se imagina...

- Eu já não te conheço?
- Acho que não.
- Então acho que te confundi com outra pessoa...

- Nossa, tenho uma prima/irmã/conhecida/vizinha/aluna que é a sua cara!
- Ah, é? Hum, legal.

- Você não é neta do João Lacerda?
- Nunca ouvi falar.
-Mas é tão parecida com ele...

(ao telefone)
- Alô...
- Camila/Sandra/Berenice!
- É a Tatiana.
- Desculpa, confundi.A sua voz é igual a dela!

- É você ou sua irmã??


É por isso que, com certa freqüência, eu paro diante do espelho e digo de uma forma bem articulada:
-Você é Tatiana Lazzarotto, não deixe nada te fazer acreditar no contrário.

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A maldição da bisteca

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Reza que acaba logo. (popular)


Aconteceu há pouco mais de um mês, na fila do açougue. Dia de compra do mês.

- Que carne vamos comprar?

Entre as opções, bife, costela, frango...

Foi aí que surgiu a idéia infame.

- E se a gente comprasse bisteca de porco?

- Pode ser...

É isso que até hoje a gente não entende. Nenhuma das duas é fã de bisteca, a tal da bisteca não estava em promoção, por que raios comprar bisteca?

- Meio quilo, por favor. Estava feita a cagada.

Ao chegar em casa, dividimos a aquisição em pacotinhos. Até hoje, se as duas forem separada em salas diferentes para testemunharmos, vamos dizer o mesmo. Não eram muitos pacotinhos.

Mas aí vem a explicação.

As bistecas se reproduzem no congelador.

No primeiro dia, foi divertido.

- Nossa, porco, faz tanto tempo que eu não como. Bom, né?

No segundo dia de cardápio suíno, já estávamos meio chateadas com a idéia.

No terceiro, (semanas depois), torcíamos o nariz.

As possibilidades se esgotavam. Fritas, assadas, com limão, com molho... De todas as formas, deixava a desejar.

Depois do milagre da reprodução das bistecas, descongelá-las pela manhã era um pesar. Antes de ir para o trabalho, nós duas nos olhávamos e dizíamos amargamente.

- Até o almoço.

Daí surgiam as desculpas. Uma mensagem no celular, com uma desculpa para a outra de que não poderia almoçar em casa. Uma ligação...

- Ahm... Não vou poder ir comer em casa porque tenho que ... entrevistar o Alfredo.

- Que Alfredo?

- (tu tu tu)

E lá ia a outra, sozinha, degustar a iguaria. Queimada, normalmente, de raiva.

Até que um dia não teve mais desculpas. O último pacote, com três pedaços, foi retirado do congelador. Ansiedade de ambas as partes. Nossa e da bisteca. O último almoço em companhia merecia um ritual. A carne foi temperada um dia antes, e foi acompanhada de purê de batata, beterraba, arroz e feijão. Tudo para amenizar o gosto antes já tão conhecido.

Cada uma comeu um. O último restou solitário, no prato. Mas não poderíamos deixá-lo em vantagem. Deveríamos vencê-lo. Não tive dúvidas. Comi-o, sem fome, sem vontade. Afinal, ele poderia procriar-se, até o próximo almoço.
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Enjoadinho

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“Ninguém pode ser dono de um gato, mas eles podem abençoá-los com sua companhia, se quiserem” (Frank Engram)


Sempre quis ter um gato, mas a animosidade da minha mãe contra esses pobres animaizinhos me fez desistir. Uma vez, o destino até ajudou e trouxe um gatinho sem dono para minha casa. Depois que minha mãe chutou-o para longe do alto da varanda no segundo andar, o bichano simplesmente desapareceu e com ele minha vontade de ter um outro.

Mais tarde, quando passei a morar sozinha, os apartamentos sempre eram minúsculos e eu costumava viajar para a casa dos meus pais nos feriados, o que excluía as hipóteses de abandonar o animal ou levá-lo para junto de minha mãe.

Enfim, depois de 22 anos, consegui realizar meu sonho. Não vou tanto para casa e moro em um apartamento grande, que tem uma área de serviço capaz de abrigá-lo. O gato, bebê ainda, não tinha lar e veio ao meu encontro, que não tinha gato ainda. Anunciei a novidade aos quatro ventos e todo mundo fez aquela cara (conhecida já) diante de alguma novidade minha. Cara de incredulidade e com vontade de apostar quanto tempo eu iria agüentar. Não posso dizer que é fácil.

Depois de um tempo, pouco tempo, (uma semana só, diga-se de passagem), descobri por que muita gente não tem um gato. O meu parece que está aceso na tomada 24 horas por dia. Pula, salta, arranha, sacoleja e mia. Mia muito. Tenho que admitir que nesse tempo eu não contribui para ser a melhor dona do mundo e passei a repensar a idéia de ter um filho, por pensar no bem-estar da criança, é claro. Mas deixá-lo um dia sem comida (esqueci da ração, foi só), secá-lo no secador (prevenção da gripe! Dizem que filhotes são muito vulneráveis) e umas chineladas (meu lado Pinochet falou mais alto que o Piaget) nem foram coisas tão graves assim.

Aprendi a reconhecer um dono de gato pelos arranhões que traz pelo corpo. Minhas mãos estão cheias deles. Minha casa já sofreu algumas mudanças, tal qual um lar que recebe um bebê. Meu gato tem predileção pelo alto dos móveis, por um compartimento da minha mesa de computador e pelo banheiro. A porta vive fechada, ou então o tapete aparece magicamente infestado pelas suas necessidades. Comecei a entender minha mãe, não na parte que ela chuta o gato, mas na parte que ela diz que quando você tem um filho pequeno você torce logo para que ele cresça. Às vezes eu me acho ridícula gritando para o gato que ele NÃO PODE SUBIR NA MESA E NÃO PODE FAZER COCÔ NO CANTO DA COZINHA! VOCÊ QUER APANHAR? E logo depois me pergunto se ele está entendendo bulhufas do que estou falando, enquanto aponto teatralmente para os lugares e faço mil gestos como se ele fosse surdo. Por vezes, acho que ele me entende, como quando ele faz a mesma cara quando eu fazia para minha mãe quando ela desandava a falar sobre algo que eu fiz de errado. Esses dias, me peguei repetindo o mesmo discurso que toda mãe faz:

VEJA, VOCÊ NÃO RECONHECE O QUE EU FAÇO PARA VOCÊ!! Só porque fiz uma cama confortável para ele e ele insistia em destruir minha área de serviço.

Tem vezes que eu rezo para meu filhote crescer e deixar de fazer certas coisas. Já levantei às duas da manhã com os miados e rezei para não acordar na manhã seguinte com um abaixo-assinado dos vizinhos. Esses dias encontrei-o dentro do fogão, embaixo de onde ficam as bocas. Aí entendi que o ditado “a curiosidade matou o gato” pode não ter surgido metaforicamente. (Pausa para descobrir o motivo do estrondo e avaliar os estragos). Nesse tempo, descobri também que, se Deus criou o gato para que pudéssemos acariciar o tigre, alguns animais são mais tigres do que gatos.

Mas nem tudo são cocôs e miados estridentes. Tem a parte boa também. Pelo menos você não está “all by myself”, porque tem alguém que goste de você e que quer estar sempre ao seu lado. (e no colo, e nós pés e em cima da cabeça quando você está no sofá...). Tem alguém para fazer coisas retardadas e para você se pegar dando risada. E tem alguém que depende de você e com quem você tem que se preocupar. Isso parece ser parte do lado negativo, mas não é. Faz um bem danado. Dá até para se sentir útil (você não tem só um umbigo para cuidar), além de ter desculpa para recusar programas chatos, afinal, você tem que ficar em casa para dar atenção para o gato que foi castrado/está com diarréia/ não pode ficar sozinho, senão destrói todos os móveis (aqui as possibilidades de desculpas são infinitas). O fato é que já não me imagino sem ele, e parodiando Vinícius, acho que: gatos, é melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-los?
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