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10 coisas sobre mim que nem todo mundo sabe

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Meu cabelo cresce rápido demais
É difícil deixá-lo no lugar, mas às vezes eu não o penteio. Deve ser um trauma de infância, quando minha mãe me fazia escová-lo 50 vezes de cada lado. Foi ela que me ensinou que quando o cabelo está embaraçado, você tem que pentear as pontas, depois ir subindo. “Senão o cabelo quebra, menina!”

Tenho três travesseiros
E eles têm hierarquias. Tem o the Best, o médio e o piorzinho. Para as fronhas também há hierarquias. Ou seja, o melhor travesseiro ganha a melhor fronha.

Reli um livro apenas uma vez
A ambição de querer ler todos os livros do mundo me faz desistir de reler um livro, mesmo que ele esteja na minha lista de 10 melhores. O único a receber minha segunda visita foi Cem anos de solidão, do Gabo.

Adoro listas
Para tudo. Lista de supermercado, lista de coisas que eu preciso levar em uma mala de viagem e até listas de coisas que eu não posso esquecer de falar em uma apresentação. E aí podem estar incluídos até a saudação inicial e meu nome. Adoro até listas de 10 coisas sobre mim que nem todo mundo sabe.

Quando eu era criança, tinha medo da lua
Principalmente da lua cheia. Eu achava que ela ia me engolir. Uma das lembranças mais remotas que eu tenho é estar sentada no sofá da sala, que tinha uma janela gigante sem cortinas, ao lado do meu pai, que ria muito ao me ver branca de medo diante da lua.

Eu quase excluí o blog uma vez
E teria me arrependido até a morte se tivesse feito. Não só pelo conteúdo perdido, mas por ter dado ouvidos a alguém que deu um sentido bem diferente a algo que escrevi e me cobrou por isso. Como dizia uma professora minha, quando o autor publica algo, aquilo passa a pertencer ao leitor e não mais a ele.

Eu procurava o Nick dos Backstreet Boys no Edward Mãos de Tesoura
Já explico. Eu e uma amiga de infância adorávamos os cinco garotos escolhidos a dedo para formar a boyband mais heterogênea e desconjuntada de todos os tempos. Um dia ela leu que o Nick, o loirinho estrelinha, fazia uma ponta no filme de Tim Burton. Resultado, era só aparecer a propaganda do filme na Sessão da Tarde que as duas corriam para assistir. Nunca encontramos, mas também nunca desistimos. O engraçado é que até hoje, quando passa a propaganda, lembro da minha amiga. E se não precisasse trabalhar e ainda morássemos perto, ainda iríamos procurar, certeza.

Eu odeio Paródias
E em época eleitoral elas se multiplicam de forma alastradora pelas ruas. Minha amiga publicitária diz que os candidatos, ao pensar que precisam de um jingle, automaticamnete acham que a paródia é a solução dos seus problemas, à la Organizações Tabajara. Meus dedos dos pés encolhem quando eu ouço uma voz feminina desafinada cantar que “ser vereador, não é brincadeiraaa”, parodiando Ivete Sangalo.

Quando eu era criança, achava que todas as pessoas do mundo moravam na Avenida Brasil
Egocêntrica nada. Só porque eu morava nessa rua, achava que todo mundo também morava. Afinal, era a Avenida Brasil!!

Eu sempre quis me fingir de louca
Sabe aqueles dias chuvosos, em que você está esperando a chuva passar em frente a algum lugar, aí um carro pára e demora até que alguém entre? Já pensei em sair correndo, entrar no carro feito uma alucinada e dizer: Estão me seguindo, por favor, saia daqui rápido! Ou sentar ao lado de uma pessoa desconhecida no cinema e dizer: Nossa, quanto tempo! Não acredito que você está aí, que coincidência! De preferência, o filme tem que já ter começado. Só para a pessoa não ter para onde correr. Queria ver se ela tem a cara de pau de fingir que me conhece.
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Num desses encontros casuais

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"Não são os grandes planos que dão certo; são os pequenos detalhes." (Stephen Kanitz)



Saindo de casa, despenteada (pra variar), atrasada (pra variar), com sacolinhas de lixo na mão, cruzei na entrada do prédio com uma garota que já vinha de longe olhando para mim com um sorrisinho.

(Ai... Pensei. Ela deve me conhecer de algum lugar e eu não estou a reconhecendo. Isso sempre acontece comigo, ainda escrevo um texto sobre isso).

A garota abriu um sorrisão na boca pintada de vermelho e soltou:

- Você não é a Tati?

- Sim.

- Michele Matos, Parafusos e Nostalgias!

E quer apresentação melhor? Nome, sobrenome e blog, nosso ponto de encontro e motivo pelo qual sabemos que a outra existe.

Seguiu aí um abraço e (para mim) a emoção (seria isso?) de dar uma cara a um blog de uma parafusólica e nostálgica como eu.

Ela me reconheceu, (o que me surpreendeu) talvez por uma foto, ou por alguém ter comentado que me conhecia. Ela estava entrando no meu prédio, afinal.

- Muito bom conhecer gente assim! – disse ela.

Nem lembro o que respondi, porque estava pensando no seu último texto, no qual ela disse que era difícil se comportar como uma mocinha. E aquele batom vermelho? Ela era mais mocinha que eu! Ainda deu tempo pra pensar que ela era pequena mesmo para quebrar tantas coisas.

Depois do abraço e da empolgação do encontro súbito, ela entrou e eu segui trabalhar. Com a certeza que a vida não é feita só de encontros casuais, mas é por causa de um punhado de coisinhas simples assim, que mudam uma rotina despenteada e atrasada, que vale a pena escrever meus textos.

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Judite

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"Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra." (Bernardo Soares - Fernando Pessoa)

Judite abriu os olhos na manhã de domingo e percebeu que se encontrava sozinha. Não apenas sozinha na cama, sozinha no quarto ou sozinha no apartamento. Percebeu que em todos os anos da sua vida jamais havia sentido a solidão naquela dura forma.
Tão sozinha que o quarto já pequeno a sufocava e não deixava espaço para ela respirar qualquer mágoa. No segundo seguinte ela sentia como o mural de fotos à sua frente: vazia. Como se nada no mundo pudesse preencher sua dor, sua solidão.
E Judite chorou. Chorou para extirpar seus demônios, chorou por um tempo, mas logo parou. Nem as lágrimas nem os demônios a acompanhavam mais e ela se encontrava inteiramente só.
O silêncio das lágrimas secas do seu rosto misturou-se com a solidão de seu quarto e com o vazio de sua existência. E Judite quis chorar, como quando era criança e o irmão mais velho lhe batia quando a mãe não estava em casa. Primeiro ela chorava de dor, depois de raiva e, mais tarde, quando as lágrimas não lhe vinham, ela forçava o choro para que a mãe chegasse e lhe visse chorando. Em vão. A dor era passageira, a raiva se dissipava e ninguém vinha lhe salvar ou se comover com seu sofrimento. Estendida na cama, agora ela se encontrava como se encontrava escondida atrás do sofá anos atrás: sozinha.
Tentou imaginar a morte de um amigo, a falência total e todas as dores possíveis para continuar chorando. Mas ela sabia que todas as dores possíveis seriam minimizadas e seriam misturadas em um misto de dor e silêncio, enquanto a solidão dominaria tudo. Judite saberia que depois de todas as coisas só lhe restaria ela mesma. E não gostava de sua companhia.
Tinha medo de ter depressão. A sensação de impotência diante de uma tristeza infinita lhe causava espanto. Mas quando pensava nela mesma e no que havia feito até ali, sentia-se apenas vazia. Vazia e sozinha.
Perdida em seus pensamentos, Judite percebia que não era boa o suficiente para pessoas que não eram nada. Ela sabia que usava m´scaras infinitas, quando se aproximava de algumas pessoas, na tentativa de chamar-lhes a atenção ou conquistar-lhes. em vão. No fundo ela tentava preencher o vazio de sua existência com poses, gestos e gostos que não eram os seus. Nenhuma delas era Judite, porque Judite era vazia.
pensou se alguém a invejaria. A mãe insistia-lhe em dizer para tomar cuidado com pessoas carregadas de más intenções e maus olhados. E Judite pensava nesse momento que ninguém haveria de fazer mal a uma pessoa oca, vazia, incapaz de lutar contra o quarto que a sufocava.
Naquele domingo judite dormiu e acordou diversas vezes. Depois de anos de obrigações cumpridas, prazos duramente vencidos, ela não sabia o que a impedia de sentir o sol e o vento lá fora. Simplesmente porque depois de tudo, Judite encontrava-se sozinha e não enxergava utilidade para ela mesma. Era somente uma menina sozinha. Sozinha e vazia.
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Rocambole

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"(...)Um bicho igual à mim, simples e humano

Sabendo se mover e comover

E a disfarçar com meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica

Que só se vai ao ver outro nascer

E o espelho de minha alma multiplica..."

(Vinícius de Moraes)


Tem uma amiga minha que vive dizendo que vai montar um caderninho com pessoas divertidas que passam pela vida dela. Não conheço tanta gente assim, mas tenho certeza de que teria um caderninho recheado, se me propusesse a fazer um.

A dona da idéia me renderia um ótimo texto, não há dúvidas. Mas falarei hoje de outra, uma que entrou há pouco tempo na minha vida, mas de uma forma tão intensa que... nem sei. Se fosse pela cara de brava que ela tem e pela máxima que a primeira impressão é a que fica, teria um par de amigas a menos nesse mundo. Mas nem foi difícil se aproximar da mulher com pose de publicitária renomada, mais velha e que parecia confiar totalmente no seu taco.

Descobri que ela estava apenas começando faculdade de comunicação, na particular. E que era a segunda, porque a primeira, de Economia, na pública, ela largou faltando um ano para terminar. Viu que não era aquilo que era queria fazer pelo resto da vida. Simples assim. Um tapão na cara de quem gosta de correr atrás de títulos, não? Com um pouco mais de tempo descobri que ela também faz cagada (véio) de adolescente. E a confiança? Nem tudo é tão elementar, meu caro Watson, depois que você vê a fortaleza se desmoronar à sua frente bem na hora do almoço.

E por falar nisso, foi num almoço que ela me proporcionou a cena mais engraçada dos últimos tempos. Almoçávamos juntas na casa dela, às segundas. E o que mais a irritava é que na marmita desse dia sempre tinha bife. – Você não gosta de bife? – Gosto, mas o que me dá raiva é que nunca muda. O que me irrita é saber que na segunda-feira sempre tem e sempre terá bife.

Uma segunda, contando toda prosa uma história, na cozinha, ela fez a famosa brincadeirinha: - Ahh, o que será tem hoje? Que surpresa! Bife! E ao levar a marmita da mesa para a pia, eis que sabe-se lá como cai tudo de uma vez no azulejo: spagueti, molho sugo e os bifes, diante da cara incrédula e depois esborrachada de rir dessa que vos fala. É, Deus castiga. Tanta gente querendo bife pelo mundo e a outra vai encrencar com a falta de criatividade dos marmiteiros? Imperdoável.

Companheiras de trabalho, de bar, de festas com cara de cu, de tentativas frustradas de RPM às seis e meia da manhã, de sessões de filmes nostálgicos, de atolamentos... Ahn? E com quem mais aconteceria passar pelo primeiro atolamento com uma estátua viva toda dourada dentro do carro? E agora a melhor parte. Quem desatolou? A motorista desesperada e a caroneira embasbacada é que não iam ser. Tchanam! A estátua! É, eu sei. Não dá pra explicar.

É com ela que eu me sinto em um seriado norte-americano. Daqueles que os pseudo-intelectuais consideram enlatados bobos norte-americanos. E nós lá temos culpa de passar por situações e nos deparar com pessoas participantes do concurso Retardadices Cotidianas? Diante das nossas caras de “Meu pai do céu” só falta mesmo aquelas risadinhas gravadas.

Inventamos até prêmios: “Diarréia na ponte da amizade” (quando a pessoa é um porre, fala merda e você não tem para onde correr) “Calcinha atochada na missa” (quando a pessoa é um porre, te irrita, mas você tem que agüentar). E alguns outros impublicáveis.

Poderia passar horas falando da sua cara de boba quando conta uma piada, da sua gargalhada sem som, das suas tiradas de mestre. Depois de um tempo comparei-a com um rocambole: tem que dar algumas voltas para descobrir o doce que é por dentro. Você vai achar que é um texto meloso, mas não é. Até porque ela também tem seus defeitos. Afinal de contas todo amigo tem, por mais que não os escrevamos nos depoimentos do Orkut. Um deles é que ela inventou a história sobre uma tal de queda da bicicleta que me irrita e que por nada ela desiste de continuar contando. Tudo mentira. Até certo ponto me faz rir a safada, mas que irrita, ah, isso irrita.

Podemos ser personagens de seriados americanos sim, mas embora a gente lute muito, não há muito glamour. Tem até uns jantares de gala no script, uns fogs londrinos, mas também tem muito salgado emborrachado, muita fossa e muito álcool em copo e mesa de plástico. Somos parceiras na arte de NÃO ser estonteante, de NÃO ser fotogênica, de NÃO fazer aquele sucesso unânime, mas somos inteligentes, independentes (é...), temos bom papo e nos vangloriamos pela majestade em alguns feitos.

Às vezes, quando estou para baixo e faço uma afirmação daquelas que você quer ouvir a outra pessoa te dizendo o contrário e te animando, ela vem com um balde d’água fria. – Poxa, eu acho que nunca mais vou ter um namorado. – É, pois é.

Mas sabe do que mais? É dessas pessoas que a gente precisa. Sinceridade e parceria até na fossa. Porque um dia haveremos de ter uma cena de novela. E para falar bem a verdade, gente muito perfeita me cansa.

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De assalto

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Oito horas da manhã de plena quinta-feira. Luz do dia, céu claro. Rua vazia. Apenas eu, com os sentimentos rodando a mente.

Nem tanto sozinha.

Senti de súbito uma intuição que nunca tive. Um medo concreto. Por mais que minha imaginação possa ser fértil, às vezes pessimista demais, nunca ela se mostrou tão forte. Talvez ela tenha ajudado a tomar a atitude precipitada.

Após um relance de olhos, o homem ao meu lado avançou sobre a bolsa. Eu não quis soltá-la. [Depois, quando perguntada, respondi que a reação se deu para que ele não pudesse levar coisas que eu tinha. Coisas caras demais, duramente conquistadas].

Agora vejo que realmente foi o instinto. A raiva de dar de graça. Não deixar barato.

Realmente não foi.

Dor que corta o cerne da razão. Dor que te angustia, que te dilacera. Dor de se sentir impotente, fraca, sozinha, mesmo com o olhar de outras pessoas sobre você, acompanhando seu sofrimento.

Nesse instante, não importava a quantidade de olhos. A dor era só minha.

A violência não é somente aquela que produz cadáveres, que mutila corpos e que destrói a materialidade, ela é também aterradora, quando se reveste de desrespeito à dignidade humana. (MP)

Incredulidade. Raiva. Ver os instantes seguintes passando e não querer vivê-los. Sentir vergonha de sentir dor na frente de estranhos. Não querer demonstrar a fraqueza que sentia, que rasgava por dentro. Pior do que a dor física é a dor moral. Nunca entendi isso com tanta clareza.

Ser forte é vencer suas loucuras e encarar tudo de frente. Ser forte é ter o olhar firme e não esmorecer frente às dificuldades.

É difícil ser forte.

Penso ainda hoje naquele homem. No escuro da noite quando fecho os olhos e revivo a cena. Quando vou pegar o ônibus e o vejo em qualquer um que se aproxima. Penso nele com raiva nos dias frios. Em outros momentos, penso mais nele e nos tantos outros, que se sujeitam a fazer coisas em nome de qualquer vício, qualquer dificuldade.

A violência é a loucura do mal e a sua banalidade, para lembrarmos Hannah Arendt, pode ser mais danosa do que todos os maus instintos juntos. Não podemos perder nossa capacidade de indignação. (Carlos Vogt - O mistério da impiedade)

Defendo as políticas humanitárias, que visam ao respeito de qualquer cidadão, independente do que ele tenha feito. Não sou favorável à pena de morte, redução da maioridade penal. Para mim, pedidos que retratam chagas de uma sociedade injusta e vingativa, cega de raiva, guiada pela lei de Talião. Crime e castigo.

Isso não mudou depois do episódio. Sei que ele foi mínimo perto da dor de tantas vítimas da violência. Pessoas que perdem outras pessoas, pessoas que perdem movimentos, pessoas que perdem tudo. Todas unidas na angústia da impotência, do medo aterrador. Todas incluídas na roda viva dos atos violentos. Daqueles que a gente vê na tv e espera ansiosamente que não nos encontre na próxima esquina. Mas ainda sim o ocorrido me fez pensar.

Não sei que espécie de assombro ainda pode existir quando se conta uma história de violência. Já parece que tudo é possível. No meu caso, o maior estranhamento foi ter acontecido à luz do sol. O outro foi o fato do agressor não estar munido de nenhum objeto cortante. Excluindo o fato de ser uma pessoa conhecida, da qual as pessoas têm alguma pena ou o dever de se comover, o resto é normal. Ninguém mais se espanta. “Veja como a cidade está violenta”.

Lamento por todas as vítimas que têm de percorrer hospitais e delegacias depois do choque. Minhas visitas ocorreram sem maiores problemas. Mas é incrível como as pessoas ainda olham com olhar desconfiado para a vítima, como se pudesse encontrar algum motivo para que ela tenha sido agredida.

Um fato a mais na biografia. Mais uma estatística nos arquivos. Um receio a mais. Um motivo a mais para olhar para os lados.

E a vida passa. Mesmo que não venha o ônibus eu não posso parar. Não há pontos de partida ou de chegada para certas experiências. Elas se incorporam ao seu dia-a-dia, permanecem gravadas e um dia serão apenas uma história que será contada e alguém irá duvidar.

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Sobre as coisas que eu quase perdi

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Não me canso de dizer que perco tudo. Minha distração sempre me faz esquecer a sombrinha na farmácia, perder a caneta preferida pela rua ou deixar a bolsa no guarda-volume.E é só horas depois , ao chegar em casa com a chave numerada na mão é que me dou conta de que minha distração ainda me levará à falência. O fato é que normalmente eu QUASE perco as coisas. Ou seja, eu as perco, mas acabo encontrando. Foi assim quando entraram na minha casa, levaram todas as roupas e eu as reencontrei horas depois no brechó. (É sério, juro. E não vá fazer a pergunta idiota: E aí, você teve que comprar tudo de novo? Sou distraída, não burra).

Lembrei de escrever um texto sobre minhas coisas quase perdidas depois de ter quase perdido o celular. Recuperá-lo (três dias depois de incomunicabilidade total) foi um momento sublime. Com direito a um halo de luz em volta dele quando a moça do supermercado me entregou o aparelho. Tive até a impressão de que tocou Carruagem de Fogo enquanto minha mão alcançava para pegá-lo, em câmera lenta.

Já perdi e reavi infinitas coisas. A mais desesperadora foi o gato, que se escondeu dentro da gaveta da cômoda por duas horas, deixando essa que vos fala em absoluto pânico. Até dentro do freezer eu procurei.

Costumo deixar as coisas em qualquer lugar. Uma vez peguei emprestado um livro de uma recém-amiga. O empréstimo, no caso de um livro, é um baita voto de confiança. Com o dito cujo na mão, passando em frente à Casa Lotérica, não resisti aos muitos zeros da na faixa da Mega Sena. Deixei no balcão o R$ 1 da aposta e o “Eva Luna”. Horas depois, refazendo o trajeto de volta, sem esperanças e já contabilizando os muitos reais que gastaria com o exemplar novo que teria que comprar, encontrei-o na mão de uma atendente sem graça. Ela já estava contando a obra como dela. Minha nova amiga nunca me perdoaria. Nem eu me perdoaria de deixar a Isabel Allende numa lotérica.

Esse deve ter sido o décimo-segundo livro que Quase perdi. O primeiro que eu eu tenho lembrança foi “Viagem pelo ombro de minha jaqueta”, sobre um garoto que encolhe, quando eu tinha uns oito anos. O livro era do acervo da Biblioteca Municipal e fazia parte da Coleção Vagalume, que eu, ratinha de biblioteca, devorei. O título não me atraiu de imediato, mas resolvi dar uma chance. Se era da Coleção, devia ser bom. Em três dias perdi a história do menino que se perdeu na jaqueta. Pânico na torre. Contei para minha mãe, levei uns pitos, me fiz de bocó e no dia da entrega liguei para a bibliotecária Marisa para renovar o empréstimo para mais uma semana.

- Tudo bem, Tati. Nessa você renova por telefone, mas na próxima você tem que trazer o livro aqui para renovar por mais uma semana.

Regra idiota. A semana passou voando e nada. Tomei coragem e liguei lá de novo, dessa vez para contar que tinha perdido. Muito simples, deveria comprar outro. Com o telefone de uma livraria que ficava longe à beça, calculei os gastos com o exemplar e o frete. Meu pai me mataria. Minha mãe sugeriu que apelássemos aos céus, literalmente. Pediremos a Santo Antônio.

Neta de uma devota, pedi à vó que rezasse o responsório pra mim. Contei a ela minuciosamente os detalhes do livro, capa e título e até um pedaço da história, que tinha começado a ler. Queria que ela passasse o recado pro Santo direitinho. Não podia correr o risco de receber as “Vinte mil léguas submarinas”, do Verne.

Imagina o que é o processo de mandar rezar um responsório para uma menina de oito anos desesperada. Vivi dois dias absolutamente tensos. Olhava para todos os lugares, buscando uma flechinha de neon escrito: “Seu livro está aqui. Ass: S.A.” Pensava tanto nisso que uma noite sonhei que o Santo vinha me entregar o livro em mãos.

No outro dia do sonho, minha mãe estava costurando no sofá da sala e deixou escorregar a tesoura para dentro do móvel. Obrigou-se a virar e rasgar o forro. Qual não foi sua surpresa quando viu em meio a moedas e alfinetes o livro da biblioteca. Fui entregar na mesma hora. A história nem era tão boa assim.

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Luzia

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"Escrevo sobre isolamento e ternura, a perturbadora ambivalência nossa, frivolidade e covardia, às vezes a graça e o riso." (Lya Luft)

Luzia tinha esse nome por causa da santa, padroeira da visão. Não que sua mãe fosse beata de igreja. Pelo contrário. A tia era prostituta e a mãe engravidou do caixa do supermercado em uma tarde nublada de outono, entre um turno e outro de trabalho. O pai nunca assumiu a filha e foi a tia, com a renda de um mês, que pagou todas as despesas do hospital e lhe comprou um enxoval cor-de-rosa. Disse apenas à irmã que colocasse um nome de santa na menina, para tentar evitar que ela tivesse um futuro sórdido. A tia riu quando foi convidada para ser madrinha, dizendo que o que ela poderia ensinar à sobrinha não poderia ser dito em voz alta na igreja. A menina terminou por não ser batizada e recebeu o nome semanas depois de nascer, quando então a mãe lembrou da medalha de Santa Luzia que seu pai carregava sempre com ele, desde que passou a sofrer com a visão. O avô havia sido da Marinha e sempre contava histórias mirabolantes, que mais pareciam delírios da imaginação de um pobre senil. Luzia ouvia tudo, sempre muito quieta. O avô lhe contou histórias até quase à beira da morte, quando a neta lhe guiava os passos, pois era a única que parecia enxergar o velho moribundo.

Desde cedo aprendeu mais a ver e ouvir do que falar e agir. Havia dias inteiros que a mãe passava sem notar sua presença, de tão apagada que se tornava sua existência. Luzia, calada, percebia detalhes que ninguém mais enxergava. Desde a tinta da parede da sala que começava a descascar, lá do alto, até as armações do filho do vizinho, que contrabandeava coisas no quintal.

Luzia ficou um bom tempo sem ir à escola, mas quando foi viu que a professora não suportava mais trabalhar e que sua letra na lousa era mais torta que as linhas do seu caderno. A garota perdeu o interesse pelos estudos e preferia olhar todos os detalhes escondidos na sala de aula e fora dela, como quando a professora esperava os alunos sair para o intervalo para ficar na sala chorando sem parar.

Mais tarde viu o avô morrer, desgostoso por não ter casado as filhas e bebendo garrafas e mais garrafas que empilhava atrás da cômoda.

Na paisagem múltipla que desfilava diante dos seus olhos, Luzia via o tronco desalinhado das árvores, as manchas na Lua, a revoada de pássaros negros e fotografava tudo na memória.

Ela cresceu assistindo à televisão, mas sabia que os programas mais emocionantes passavam além da sua janela, embora ninguém notasse.

Luzia via crianças que brincavam na piscina azul, tão azul que parecia o céu e assistia enquanto elas brigavam por um brinquedo qualquer.

Ela via o caseiro que varria com ar triste as flores e folhas que caíam das árvores e acompanhava o balé que elas faziam no ar, dispersando-se antes de serem recolhidas. A menina via a tia chegar batendo os dentes de frio, com a maquiagem borrada e as roupas curtas demais, trazendo consigo o raiar do dia.

Luzia via a mãe com o nariz vermelho de tanto coçar, reclamando da alergia que o pólen das flores lhe provocava. Mas o que Luzia mais gostava de ver era a paisagem proporcionada quando ela deitava de barriga para cima debaixo de uma grande árvore florida, e nessa posição via o galho das árvores e as flores impressos no firmamento.

E Luzia via as luzes de Natal, os fogos de artifício e recomeçava mais um ano a ver e rever todas as coisas. Tinha como um estigma a capacidade e a condenação de observar tudo à sua volta, sem conseguir transmitir com fidelidade tudo o que via. Seu olhar era diferente, porque seus olhos e ela própria pareciam diferentes do restante do mundo.

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