125x125 Ads

Meu reino das palavras

0 comentários
"Alheias e nossas as palavras voam (...)"

(Cecília Meirelles, Vôo)

Antes mesmo de saber escrever
As palavras já formavam imagens
Em minha mente.
Tarde, por exemplo.
Ao ouvir Boa Tarde,
vinha-me à cabeça um velho
de barba branca e rala
e expressão plácida.
O velho da Tarde,
como o chamo hoje,
ficava na soleira de uma porta
sob um céu alaranjado
contemplando o entardecer.
Mais informações »

Elas sempre têm razão

0 comentários



(...) E se o mundo em ti principiava,
No teu mistério entre astros absortos,
Suavemente, ó mãe, tudo termina. (Natália Correia)


A gente tenta
No fundo a gente sempre tenta.
Ser diferentona
Parecer moderninha
Dispensar o amor da vida inteira
Pôr o pé para fora de casa
E não voltar antes das seis e meia
A gente não quer limpar
E cozinhar, só se for petit gateau
Mas no fundo, lá no fundo
Sabemos que ainda somos as mesmas
E vivemos
Como nossas mães.


P.S. Salve Dona Suelânia e Dona Maria!

Mais informações »

Quase-morta

0 comentários


“Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu”. (Álvaro de Campos)


Todo mundo vai morrer um dia. De acidente, do coração, assassinado, afogado, queimado. Tem mortes mais inevitáveis que as outras, mas na verdade, basta estar vivo para morrer. Quando se tem uma filha de 22 anos, formada, sem nenhuma dificuldade aparente, esse conformismo deixa de existir e você caga e anda para a história da morte inevitável. Se puder evitar, faz o que pode!

Foi o que aconteceu com meus pais na última semana. Na verdade, foi nessa semana. Mas meu pai briga comigo quando eu digo que a semana começa na segunda e não no domingo. Enfim, foi na última segunda. Tirei as amigdalas, já contei aqui.

Seis dias depois da cirurgia tive um sangramento na garganta. Acho que foi pequeno, mas o suficiente para me alarmar. Chorei horrores. Ao me ver desesperada, meus pais ficaram mais nervosos que eu e desataram a falar para eu ficar calma (no tom mais alto que suas cordas vocais alcançavam). Só sosseguei quando fomos ao pronto-socorro. Cheguei lá, o médico de plantão (que me olhava esperando vim uma luz na sua cabeça para saber o que fazia comigo), disse que era pra ficar engolindo o sangue e esperar passar. Ééé, simples assim. Meu pai ainda brincou: - Podemos ir tranqüilos, então? Ninguém morre disso? Risadinhas de todos. Menos as minhas, envergonhada pelo escândalo “sem propósito”.

Cinco dias depois, portanto, onze dias depois da cirurgia, outro sangramento. Começou mais ou menos no meio horário que o anterior, dez da noite. Nem falei nada pra ninguém. Fiquei lá, esperando a porcaria do sangramento passar. Não passou, nem diminuiu. Estava lívida, mas uma hora tive que avisar minha mãe. Acho que sangrei umas duas horas seguidas e fiquei engolindo o sangue. Aí comecei a vomitar. Primeiro uma coisa indefinível, meio sólida, meio esponjosa, que saiu junto com um jato de sangue. A partir daí minha mãe me proibiu de engolir o sangue e eu comecei o processo de jogá-lo na pia do banheiro.

Decidimos ir ao pronto-socorro. Eu já estava tonta. Primeiro sinal de que as coisas não iam bem. Cheguei lá e fui direto para o soro. Mais um vômito e a certeza de que era preciso fazer algo. Apesar do frio que começava a sentir, ainda estava incrivelmente lívida, ao contrário dos meus pais.

Fui encaminhada ao hospital. No caminho, dentro do carro, ouvi meu pai balbuciar suas orações. Segundo sinal de que as coisas não iam bem.

Estacionamos o carro, erramos a porta de emergência e ficamos em frente a uma porta trancada e com uma campainha que não funcionava. Diante da insistência do meu pai esmurrando a porta, desmaiei. Acordei lá dentro, caída no chão e com um vendaval de enfermeiras ao meu redor. Minha mãe segurava minha mão e meu pai gritava, como que me dando uma bronca, que eu deveria reagir. Terceiro sinal de que as coisas não iam bem.

Colocaram-me em uma cadeira de rodas e o atendimento foi ali mesmo. Ainda ouvi meu pai gritar perguntando pelo médico (que não estava no hospital, mas em casa) e mandando a enfermeira chamá-lo às pressas.

A partir daí lembro-me de muito pouco, ou pelo menos com pouca linearidade. Duas enfermeiras empenhadas em achar uma veia no meu braço esquerdo, outras duas no direito, mais uma colocando-me o oxigênio, minha mãe segurando minha mão, com uma voz longínqua e insistente: - Como você está? E a do meu pai, alta e desesperada, que alternava entre: - Não dorme! e Reage! - quando eu não conseguia responder à pergunta da minha mãe.

Definitivamente, as coisas não iam bem. As veias não apareceram, em nenhuma das tentativas. Não sentia as inúmeras picadas, nem mais a mão da minha mãe, sentia somente um leve desespero. Nessa hora as imagens, que já estavam turvas, começaram a sumir por completo. E além das imagens, eu senti que estava sumindo de mim. Sem a visão, sem a percepção tátil, a última coisa a sumir por completo foi a audição. Ainda ouvia as perguntas da minha mãe (que buscavam saber até que ponto ia minha consciência) e as ordens do meu pai (para não desistir). Num breve instante tudo sumiu. E voltou. Conseguiram enfim, achar duas veias, que não dilataram e ali puderam colocar um soro em cada braço. Minha mãe disse que nessa hora eu gritei, dizendo que não queria morrer. Mas tudo estava se estabilizando. Ainda fui para o quarto meio delirando, com muito frio, com dois assombrados pais ao meu lado.

A primeira providência era a transfusão de sangue. Mas para isso teriam de ser feitos alguns exames. A bioquímica chegou assustada, tirada da cama. Ficou mais assustada ainda quando foi retirar o sangue e não saía nada na seringa. Voou para o laboratório e constatou que meu hematócrito (uma espécie de índice que tem a ver com a quantidade de sangue no corpo) estava em 17. Os níveis normais vão de 38 a 40. Segundo ela, para mim, abaixo de 36 já seria preocupante.

A ficha de tudo o que eu tinha passado foi caindo aos poucos. Quando recebi a primeira bolsa de sangue e de hemogel, já estava voltando a mim por completo. Aí pude ver mesmo o medo dos meus pais (de todas as vezes que eles viram um filho quase morrer, aquela tinha sido a mais assustadora). O médico veio ao quarto umas doze vezes durante a madrugada. Na primeira, respirou aliviado quando sentiu meu pulso. “Quando vi a primeira vez, quando você chegou, não sentia nada”. As enfermeiras vinham e comemoravam minha pressão: 9 por 6. Eu nunca tinha tido pressão tão baixa assim e fiquei me perguntando quanto tinha ao chegar. A temperatura também foi comemorada: 35º. O normal não é 36?

Minha mãe é a pessoa menos dramática para problemas de saúde que eu conheço. É daquelas que acreditam que quase tudo se resolve com uma aspirina, uma pomadinha ou uma mistura natureba. Ela é do tipo que faz uma cirurgia super complicada, chega em casa e já está fazendo faxina. Depois que ela me falou que eu cheguei no hospital cadavérica, com o olho fundo, mais branca que a parede e que ela achou mesmo que eu fosse morrer, eu passei a acreditar que tinha sido sério.

Ela passou comigo todas as três noites que fiquei no hospital. Não teve coragem de deitar na cama do acompanhante. Dormiu em um sofá duro, pronta para pular se me acontecesse algo. Não aconteceu. Durante o dia eu ficava praticamente sozinha, a não ser pelas ligações constantes do meu pai. Também vinha um monte de enfermeiras e até um povo da administração do hospital, curiosos pela história da menina “que fez uma cirurgia na garganta e chegou quase morta no hospital”. Eu sabia que meu pai estava por trás disso. Quando ele foi me buscar para irmos embora, fez eu dar tchau para um monte de gente. Na certa, conhecidos ou mesmo pessoas que ele conheceu nos corredores, para quem ele contou sobre o susto. Pessoas que estavam felizes de me ver bem.

No final de tudo, posso dizer apenas que aquele dia não vi não vi a luz no fim do túnel. E que depois não acordei para a gratuidade da vida, nem a vi com outros olhos, nem percebi que ela é curta e que eu deveria pular de bungee jump, pintar o cabelo de vermelho e fazer uma tatuagem, tudo ao mesmo tempo. Não. Tal qual resultei, o que vi mesmo é que meus pais me amam e que os meus amigos se importam... Ah, também vi que terei que agüentar a Diangela me chamando de quase-morta por um bom tempo.

P.S. A Diangela não só me proporcionou um pouco do humour desse texto. Eu roubei dela o poema que o precede. Digo, “roubei” porque foi através dela que o conheci. Hoje é seu aniversário. E eu desejo que nessa nossa vida quase-manca, a gente ainda tenha muito tempo para dizer a nós mesmas que somos fodas. Parabéns, loca véia.

Mais informações »

Quem sou eu, mesmo?

0 comentários
Nas vontades do meu pai e da minha mãe, Tatiana Carolina.
Mas hoje sou Tati, pra quase todo mundo.
Já para a Lis, eu sou a Tets
O Gil me chama de Tatislane
Quando a Pati fala, é Teits
A Carol inventou Tatismara
O Polaco não me chama de nada
Eu sou o cupim, segundo a Dai
A Diangela diz que eu sou Tatiêine
O Marti me chama de querida
Uma vez me chamavam de Tati Carol, mas passou.
Meu irmão dizia que eu era a cabeçuda
A Cris disse que eu era um tatu
Para as Marinas, ex-vizinha
Para o Flavinho, ainda sou
Eu já fui a princesinha do papai, mas há tempos foi-se meu reinado
Para a 2ª princesa, sou a chatinha
A Fabi me trata por Tatizinha
A Vanessa por meu amor
Sou filha do Papai Noel
Uma vez fui bacharel, da outra licenciada e uma vez especialista
Poucas vezes fui amor, nunca fui doutora, nem tia
Já me chamaram de Daniela, Carla e Ludmila
(mas esses não contam, foi engano)
Diante das várias alcunhas, prefiro a indagação de Shakespeare: “O que há num simples nome? O que chamamos de rosa, com outro nome, não teria igual perfume?”
Assim sou, se assim lhe parece. ;)
Mais informações »

Tudo pode ser dito no silêncio

0 comentários
Dos cais do silêncio partem brancas barcas

Para remotas estrelas dentro de mim

(Fernando Botto Semedo, Poemas do silêncio)


Essa semana estou de férias. De pernas para o ar na casa de meus pais. Ô, coisa boa. Fazia tempo que eu não ouvia a musiquinha de abertura da sessão da tarde e a voz do locutor do Vídeo Show. Não estou preocupada com o horário que vou acordar (e isso em plena quarta-feira!).

Pode parecer ótimo, senão fosse o motivo das minhas repentinas férias setembrais. Tirei as amigdalas, que tanto me incomodavam e que provocavam o espanto dos otorrinolaringologistas a quem consultei.

“Vai doer”, já tinham me avisado. “Ah, mas não deve ser uma dor insuportável, afinal todo mundo faz”. Ledo engano. Nunca passei noites tão mal dormidas, tanto que tinha medo de dormir e acordar ainda pior. Já achei que meu ouvido fosse explodir. Já dobrei a dose dos analgésicos e já recusei muita comida.

Essa, aliás, é a pior parte. Você deixa de ter fome, para desespero da sua mãe que passou a manhã cozinhando batatas e amassando-as para que você comesse. Embora você viva como se tivesse na Terra do Nunca (muito sorvete, muita coca-cola, muito milk-shake), as coisas te enjoam e cada colherada de napolitano te dá calafrios.

Você passa a invejar aquele bando de criancinhas que você viu na sala do pré-operatório. Você sabe que dois dias depois da cirurgia, enquanto você se contorce para engolir saliva, elas estarão saltitantes, comendo pipoca.

Mas o que mais aprendi nesses dias de reclusão foi como ficar em silêncio. Forçada, é verdade. Como não poderia falar, concentrei-me nas mímicas e em um quadrinho de anotações, para pedir o que eu precisava ou estabelecer uma espécie de diálogo.

Aos poucos, fui deixando-os de lado. Muita gente não acredita, mas eu sou muito tagarela. Com vontade. E descobri como é difícil não poder falar um ai, quando você está com dor, expressar sua opinião quando um assunto está sendo discutido entre os seus e responder à pergunta da sua mãe, que parece esquecer que você não pode falar e fica parada na sua frente, impaciente, esperando uma resposta.

Mas, ao ficar sem falar, aprendi que muitas coisas não precisam ser ditas. Se o essencial é invisível aos olhos, o essencial a ser dito não ocupa um terço das tagarelices cotidianas. Sim, é difícil ficar sem falar quando você quer, mas quando o faço, paro para refletir a importância do que seria dito. Aprendi a deixar meu pai divagar, enquanto eu o escuto e apenas abano a cabeça. Escutei muitas vezes minha irmã contar pela qüinquagésima vez sobre sua festa de aniversário, sem interrompê-la com perguntas chatas ou mudar de assunto. Ouvi minha mãe repetir que eu deveria tomar água de madrugada e forçar sorver um pouco de caldo frio de feijão.

As palavras machucam e a falta delas pode aproximar as pessoas. Sim. Sem elas, um beijo na testa, um abraço e um cafuné equivalem a mil demonstrações de afeto. Sem poder falar, eu, que sou amante das palavras, aprendi que o silêncio vale mais que mil delas.

Mais informações »
 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine