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No meu quarto você encontra...

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"Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim" (Clarice Lispector).

Se você foi embora da casa dos seus pais há um tempo, você pode se identificar com esse texto.

No dia em que você pôs o pé pra fora de casa com suas malas, seu quarto deixou de ser propriedade sua. Aliás, se seu quarto não virou para sempre área de serviço, com uma tábua de passar no lugar da sua cama, dê graças aos céus.

A maioria dos casos é menos grave. O cômodo vira depósito de bugigangas ou o quarto de visitas, mas de qualquer forma um pedaço meio morto da casa, o qual ninguém habita.

Claro que você volta algumas vezes de passagem, na tentativa de recuperar seu reino perdido. E o que você encontra não é mais o seu quarto, onde antes reinava soberano. Mas apenas um lugar no qual há uma vaga lembrança de que você esteve por ali. Uma reunião de reminiscências, mortas, esquecidas em um canto. Fotos de pessoas antigas, manchadas e empoeiradas, compõem o mural. Pessoas com que você nunca mais conversou. Um ‘Eu te amo’ escrito por um ex-namorado, que manchou a parede do quarto e que você nunca mais conseguiu apagar e deixou ali mesmo, vencida pelo cansaço de apagar o passado do quarto e da memória.

O passado está à espreita em todos os lugares em um quarto não mais habitado. Nas roupas que não servem mais, mas não são jogadas fora, por apego ou preguiça, e resistem bravamente no fundo do armário. Nos presentes que pessoas te deram, acumulando poeira nas penteadeiras. Enfeites e bibelôs que você não carregou consigo, não porque não tenha gostado, mas porque não fazem mais parte da vida que você agora leva. Então você prefere deixá-los guardados naquele templo de saudades antigas.

Por mais que você tenha outros quartos, o quarto que você deixou na casa dos seus pais será sempre um pedaço seu. Talvez o mais presente, porque ainda é cultuado. Para a mãe talvez é uma parte do filho que respira dentro da casa, mesmo ele estando longe. Uma amiga que foi embora fazer faculdade me contava que a mãe costumava visitar seu quarto, mexer em suas coisas e chorar de saudade. Se ‘a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu’, a saudade sentida no quarto de um filho que vai embora deve ser semelhante.

No meu quarto minha mãe deve sentir pouca saudade, creio eu. Outra filha ficou para preencher o vazio. E, diga-se de passagem, preencheu bem. Ocupou sem dó nem piedade as oito portas do armário, as quatro gavetas da cômoda e as duas gavetas de sapatos. Só me deixou uma prateleira do armário, onde ficam duas calças velhas de moletom e uma blusa de lã, que me acode nos dias frios de visita à casa paterna.

Mesmo com um ser pulsando dentro do meu antigo quarto, para mim ele ainda é como um cemitério, recheado de coisas antigas, que caminham para o esfacelamento total, o destino de todas as memórias palpáveis. É ainda um pedaço amputado meu, que me desperta a saudade de não sei o quê, como um mausoléu que outros construíram e a gente sabe que existe para lembrar de alguém, mas não sabemos quem.

A saudade enterrada no meu antigo quarto costuma vir à mente num final de tarde, quando lembro da luz do sol se pondo entrando por através das cortinas salmão. Ali, onde ora me sinto como uma hóspede, estrangeira no próprio lar, deparo-me com o que fui e sei que sim, um dia já fui feliz.

*Para Vanessa, cujo antigo quarto me despertou a necessidade de escrever esse texto.

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Prosa presa à poesia

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"O passado é uma roupa que não nos serve mais" (Velha roupa colorida, Belchior)

O mundo dos sonhos é confuso, arredio e impenetrável.

Eu mesmo, que tão longe de ti estou,

Sonhei essa noite que aninhava a cabeça no teu peito

E tu me colocavas para dormir.

A cabeça colada ao peito, o ouvido acompanhando o compasso do coração.

E pensar que acordada não sei mais o ritmo que ele bate.

Não sei o que sentes, por mim ou coisa alguma.

Não sei com quem se deitas, se é a mesma da noite anterior.

Ignoro-o porque há muito não aninho minha cabeça no teu peito.

Será que o fiz, algum dia?

Quem sabe foi um dia antes de lançarmos os dados para escolher o vencedor.

A ponta das flechas lançadas penetrou certeira, no meu peito e no teu.

No mundo de Morfeu, teu peito bate compassado e me põe para dormir.

Tampouco o meu coração parece estar ferido, no sonho.

Repousar a cabeça no teu peito é gesto corriqueiro.

Como a conseqüência inevitável de dois corpos vulneráveis à presença e ao toque do outro.

O sonho é o reverso da vida.

Depois de abrir os olhos, o que se vê são dois corpos tensos, impenetráveis.

Distantes, no tempo, no espaço e nas formas de sentir.

Distantes pela escolha das flechas, pela direção do vento ou pelo sonho que não se penetra, enfim.
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