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Duas mulheres modernas

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“Eu sou feita de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidos

amores mal resolvidos (....)


(Martha Medeiros)



Ansiosas, eram elas, por amar


Não acreditavam em príncipes


E casamento, nem pensar


Mas buscavam a felicidade


E, acima de tudo, amar.


Eram inteligentes, bom currículo e blá blá blá


O emprego ia bem e com vários amigos podiam contar


Tinham dinheiro, não muito, mas vá lá


Mesmo assim o amor estava latente a faltar


E na busca incessante, batiam a cabeça


Não uma ou duas vezes, mas sem parar


Pensavam como ser possível para os outros


Pois qualquer outra podia encontrar


Mas o amor que queriam


Era estranho e sem forma, impossível de achar


Os fins de semana passavam a conversar


Disputando qual das duas


Tinha a pior história para contar


Não chegavam a nenhuma conclusão


Porque só as próprias dores sabiam enxergar


Depois de cada encontro


Em um Nei Lisboa passavam a se afundar


Admiravam uma a outra


Mas faltavam-lhes a si próprias admirar


Precisariam estar abertas


E para os lados olhar


Mas se fechavam em seus mundinhos


Pois assim era mais fácil reclamar


“Será que o problema é comigo?”


Perdiam noites de sono a pensar


Diante de várias receitas milagrosas


Não sabiam em qual acreditar


Chegaram ao fim da vida


Sem suas vidas, de fato, aproveitar


E descobriram afinal a falha que cometeram


Colocar o amor sempre em primeiro lugar



*Protagonistas não reveladas

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A grande questão

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- Provocar emoções nas pessoas!
- Ahn, quê??
- É isso. É por isso que eu escrevo. Para provocar sensações em quem está lendo o que eu escrevo. Percebe como é profundo possibilitar às pessoas sentirem algo através de você?
- São duas da manhã, por que você ainda não foi dormir?
- Estou pensando nisso.
- Nas emoções?
- Nas pessoas. E nos meus textos.
- Tá e por que você não dorme agora?
- Por que você não pode ser um pouquinho mais sensível?
- Você me acordou a essa hora para me falar essas coisas em tom profético e quer que eu seja sensível? Quer que eu te faça um café também para parabenizar pela epifania?
- Eu não te acordei!
- Eu te senti acordada, acho que o inconsciente me alertou que algo poderia estar errado.
- Não há nada de errado.
- Você que pensa...
- O que você está querendo dizer com isso?
- Ah não. Não começa a interpretar o que eu digo. Você disse algo e está despertando uma emoção em mim. Profundo, né? Agora dorme.
- Você pode agir como se eu fosse um pouco mais suportável para você?
- Posso. Boa noite.
- Ah, vo...
-Já sei, amanhã você vai escrever um texto sobre isso.

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A lápis

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Texto inspirado no blog Não enviadas, de Camila Rufine e Graci Polak


Bom, (sempre achei que qualquer conversa séria que eu teria com você começaria com essa palavra) não posso negar que de algum modo você me encanta. Não sei te precisar o porquê, afinal, você não é o meu tipo, passa longe de Don Juan e só volta e meia resolve lembrar que eu existo.


Nosso relacionamento (se é que podemos chamar assim) foi zebra em todos os momentos. Os desencontros se sucederam, um a um, e os encontros pareceram tão certos como uma substância gelatinosa escorregando por entre os dedos.


Talvez você tenha algo que, contra tudo e qualquer outra coisa, puxa minha alma para perto de você. Algo mais forte que uma descrição vocabular. Um assim, sei lá... acorde tocado na hora certa. Uma marca invisível, que foge ao externo e se esconde em algum lugar ainda não descoberto, mas resolve se insinuar quando é hora. Ou vai ver que você me instiga simplesmente pelo fato de eu não ser alguém de grande importância para você. E o que eu quero no fundo, no fundo, é conquistar o inatingível. Em tudo.


Faz parte de mim achar que é preciso desafiar a condição do irreversível. Talvez por isso você me diga, na calada da noite, que eu sou corajosa. Não, o que eu sou é burra. E teimosa.


Não tenho dúvidas que sim, você tentou (ou tenta) gostar de mim. Sinto como se você tentasse listar minhas qualidades para si mesmo, de forma a condicionar seu coração a bater mais forte por mim. Mas não, não adianta. É como diz a música, você pode até estar querendo querer-me sem ter fim, mas esse querer não há em ti. Ou seja, você simplesmente não pode tentar cavar algo que não está escondido embaixo da terra, ou pode, mas será em vão. O fato é que você simplesmente não está a fim de mim e isso eu compreendo (ou tento compreender).


Porque quando eu penso assim eu lido melhor com esses conflitos na minha mente. É por isso que eu obrigo-me a pensar em você, atrás da pose de muralha impossível de se escalar, apenas como um menino. Um menino bobo, que não sabe o que quer, que não sabe se expressar e que não sabe que as oportunidades se esgotam.


Deixei de pensar no que há de errado comigo ou se alguma coisa por mim pode ser despertada em você um dia. Desisti do quebra-cabeça. Não sou eu, não é você. Dei-me conta, simplesmente, que existem peças que não podem ser encaixadas.
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O gato na primeira infância

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"Lutei para escapar da infância o mais cedo possível. E assim que consegui, voltei correndo pra ela". (Orson Welles)

Meu gato deve estar agora com uns nove meses, o que deve equivaler a cerca de três anos na escala humana. Digo isso porque é nessa idade que as crianças começam a querer fugir de casa. O gato cismou de achar que a casa do vizinho é melhor que a nossa. Volta e meia toca a campainha e quando vou atender é a vizinha segurando o bichano no colo. É, de novo. Dou meu sorriso amarelo, brigo com ele, mas de nada adianta. É só deixar a janela do meu quarto aberta que ele escapa para a janela ao lado, do vizinho, que se não tiver aberta ele dá um jeito de abrir com a patinha. Esperto ele é, não dá pra negar.

Contei para meu pai das costumeiras fugas do Polaco e ele rebateu dizendo que eu era igual a ele quando criança.

- Quando você tinha uns três anos, se a gente brigava com você, você pegava umas roupas na gaveta, enfiava numa sacola e saía de casa.

- Hahaha E eu ia para onde?

- Saía dizendo que ia para “patubanco” (Pato Branco, cidade a 30 km da minha casa).

- E ninguém ia atrás de mim?

- Não, você ficava na escada chorando e depois de alguns minutos voltava para casa como se nada tivesse acontecido.

Parei para pensar se eu ando tratando mal o gato para ele querer fugir de casa. E parei para pensar se ele voltaria, assim como eu fazia.

Antes de desligar o telefone, senti que remexer nesse passado acabou mexendo com o meu pai. Depois de dizer tchau, senti nele o silêncio, aquele silêncio conhecido já, da nostalgia. Acho que ele sentiu saudades do tempo em que eu saía de casa, mas acabava voltando. Hoje ele sabe que eu não volto mais.

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Classificados

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Jornalista, 23, procura:

alguém para lhe ajudar com as sacolas do supermercado.

um porto, não seguro, mas infinito.

uma forma de parar de roer unhas.

um telefone que dê para ligar de graça.

um emprego que lhe permita ficar o dia todo de pijama.

um calmante para o gato.

um antídoto para a preguiça.

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Estava vazio...

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Ontem, caminhando na volta para o trabalho, passei na calçada em frente a uma funerária. A poucos passos de cruzar a porta, dois homens saíram segurando um caixão para colocá-lo no carro, que já estava com a porta de trás aberta. Quase que automaticamente, concentrei-me para fazer cara de pêsames. Como acontece em todas as vezes que preciso de uma expressão assim, quase dei risada. “Calma, respira, fundo. Já já você passa por eles”. Não sei se um deles notou meu desespero, pois olhou pra mim e comentou com o outro. “Ihhh, não vamos assustar a moça não!”.

Sim, quer dizer que faço um esforço tremendo e sou enganada por um caixão vazio? Na próxima dou uma gargalhada.

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Se eu pudesse...

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“Não há coisa que não esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário” (Jorge Luis Borges)

Se eu pudesse nascer de novo, seria um pedreiro. Muitos divagaram sobre essa possibilidade, mas duvido que alguém tenha se apropriado da tranqüilidade de um pedreiro deitado na grama após o almoço. O sossego pousa ali e ali fica, unindo um bando de barbudos de camisas de time, sem a chave da obra para recomeçar a lida da tarde. Nem com as gostosas que passam na rua eles mexem. Uma pausa merecida, de tudo.

Se eu pudesse voltar no tempo, seria como o casal de adolescentes que vi hoje de manhã. Com agasalho do uniforme, há duas quadras da escola, na certa fugidos, eles não se encaravam. O porquê da briga deles, fiquei tentando imaginar comigo mesma. Olhavam para lados opostos, ela para baixo, ele para o horizonte. Queria voltar a ter essa expressão que só os adolescentes têm, de achar que o seu problema acabará com o mundo de uma vez por todas. Mal sabem que quando a gente é adulto os problemas crescem e podem durar a vida inteira.

Se eu pudesse parar o tempo, congelaria o seu olhar cruzando no meu, assim, sem mais nem por que. Guardaria o seu rubor em um potinho e levaria comigo para onde eu fosse. Pausaria em mim a ânsia de te querer sempre perto, buscando em qualquer gesto tua vontade de ficar também.

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Ensaio sobre o ensaio

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Uma vez eu li um artigo falando que os críticos de cinema deveriam se ater não somente ao que viram na tela, ao filme em si, mas também a situações que vivenciaram ao assisti-lo. Como estava o cinema, cheio ou vazio? Foi sozinho ou acompanhado? A namorada dormiu em alguma parte? Na concepção do articulista, esses e outros detalhes fariam a diferença na sua crítica. Bom, isso aqui está longe de ser uma resenha fílmica, mas roubei a idéia e resolvi contar um pouco do detrás da telona, na minha ida ao cinema para ver Ensaio sobre a Cegueira, da obra homônima do Saramago.

Portanto, não irei contar que os personagens não têm nome e que não há como saber direito em que cidade ou país se passa a história - uma das exigências do Saramago aos diretores para ceder os direitos para adaptação. Não vou divagar sobre essa tentativa de universalizar os personagens e seus sentimentos. Esse tipo de informação a gente descobre rapidinho na internet.

O que queria contar é que cheguei atrasada (poucos minutos só) e ao tentar encontrar um lugar, sem enxergar nada, pisei em falso e quase caí um tombo. Uma baita ironia ficar “cega” ao tentar sentar para ver Ensaio sobre a Cegueira.

Em alguns momentos, eu tive vontade de ser como a Amelie e espiar a expressão das pessoas que estavam no cinema diante de algumas cenas chocantes, especialmente para ver a reação de quem estava ao meu lado. Qual será a expressão do ser humano em frente ao absurdo?

Eu quis chorar, mas tive receio. Senti minha fraqueza, sendo um pouco voyeur diante de cenas tão grotescas e me perguntando o que eu faria naquele lugar, naquelas situações.

Aprendi que alegria e tristeza não são como óleo e água. Elas coexistem. E meu sorriso se abriu um pouco ao ouvir isso. Eu ri em algumas partes, mas fiquei a maior parte do tempo chocada. O choque frente à cegueira do outro resume muito do que senti.

Depois de terminada a sessão eu fiquei em silêncio, por um tempo. Engraçado, uma matraca calada. O que falar sobre o não enxergar, depois de enxergar tanto? Minha visão de mundo mudou depois de assistir ao filme, como anunciava a chamada no cartaz?

Soube que muitas das cenas foram cortadas. Será que meu estômago agüentaria mais, ou eu seria como uma das mulheres que saíram antes de terminar o filme, exibido sem cortes, em uma das pré-estréias?

A primeira coisa que pensei quando vi o nome de Julianne Moore na tela, anunciando que o filme havia terminado, era na reação de Saramago sentado igual a mim, diante dos créditos (?) passando. Não importa a qual versão ele assistiu, se foi a mesma que eu acabava de ver. Qual deve ser a emoção de ver a sua obra adaptada, muitas vezes cortada, reescrita, transformada?

Saí da sessão com a sensação de um vazio, muito grande, dentro de mim. Um vazio por ter estado cega, junto com tanta gente. E banalizar os corpos nus, a condição animal, o estado primitivo do ser humano. E tive uma ânsia absurda de ver, ou melhor, de enxergar, muito, muito além do que está ao alcance dos meus olhos com astigmatismo.

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Mais uma de trajeto

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Morrendo de sono, entrei no ônibus. Poltrona do corredor, um saco, como sempre.
Mas dessa vez quem dividiria comigo algumas horas era um velhinho simpático, um pouco careca, com uns fios grisalhos, de óculos. Praticamente meu avô.
Pensei: Enfim, vou dormir um pouco.
Sentei, cumprimentei e ele já veio me perguntando para onde eu ia e de onde vinha.
Respondi, mas não dei trela. Até porque meu olho começava a fechar.
Nisso, ele passa a mão no celular e liga.
- Alô (uma voz feminina, dava para ouvir tudo claramente)
- Estou saindo daqui agora.
- Ah, que bom. (e mais que depressa) Quem está do seu lado?
- (um grunhido)
- Ahn? Quem? É homem ou mulher?
- (entre os dentes) Mulher.
- Ahhhh, é bom você se cuidar!
- (dentes cerrados) O que, estou com sono, já vou dormir...
- Aham, sei. Te conheço!
- To saindo.
- Te amo.
- Também.

Pensa que dormi?
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Ele trama. Ela? Drama

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“não faz diferença

se você vem amanhã

ou não vem

desisti de esperar

por alguém

cuja ausência

me faz companhia”

(Martha Medeiros)


Ele era bipolar.

Ela era autêntica.

Vez por outra ele trazia rosas.

Ela se derretia.

Noutras ele a ignorava

“Deve ser minha culpa”, ela dizia.

Ela ficava a esperá-lo na praça

Ele nas rodas de cachaça.

Ela comprava um vestido

Esperava vê-lo tirando.

Ele fingia não ver

Quando ela surgia entrando.

Ela lia e relia tudo o que ele lhe escrevia.

Mal sabia que para outras ele também o fazia.

Diante do bem-me-quer e do mal-me-quer.

Não sabia ela o que sentir.

Até que um dia jogou as pétalas fora.

E escreveu em uma carta o seguinte apontamento:

De agora em diante, tal qual o pólo,

Tal qual o sentimento.

No pólo em que tu me gostas,

Serei a coisa amada.

No outro, em que me desprezas,

Serei o seu tormento.
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Receituário

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"No fundo, no fundo,

bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto (...)"

(Paulo Leminski)


Quero felicidade 5 mg para efeito imediato.
Cápsulas em frascos com 30, sem prazo de validade.
Usadas sem contra-indicação, para uso oral, três vezes ao dia.
Indicada para aquela mágoa aparentemente sem remédio,
que pesa fundo no coração.
Para o rancor constatado, indigesto e sobressalente.
Para a alergia ao sol e a vontade de dormir sem parar.
Para o choro compulsivo, que dilacera o peito.
Para a lágrima que rola escondida,
que não tem companhia por causa da gente em volta.
Para a vontade de sumir, diagnosticada urgente.
Para o desespero da falta de amor.
Para o mal-me-quer de todo dia.
Para resolver os problemas, com ou sem família grande.
Para engolir o que aflige, para pôr sorriso na cara.
Para animar dias mortos, para trazer doces dias.
Para ressucitar velhas idéias, que se enterram na tristeza.
Não quero alucinógenos, fluoxetina ou etanol.
Quero apenas felicidade. Nem que seja por efeito placebo.

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Estrela da vida inteira

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"Eu gosto tanto de você, que até prefiro esconder. Deixo assim ficar subentendido..."

A primeira evidência de que você apareceria na minha vida foi no natal de 92, quando a mãe não conseguiu fechar o zíper do vestido que tinha mandado fazer 15 dias antes. Não lembro do momento exato em que recebi a notícia, só lembro que, com o tempo, as lembranças foram se mesclando. A mãe vomitando dia e noite e no meio tempo atendendo pessoas na loja que mantínhamos na cozinha de casa. O pai me perguntando se eu queria menino ou menina e eu respondendo que menina seria melhor, porque aí eu teria com quem repartir todas as minhas bonecas. Lembro que ele me achou tão generosa naquela colocação que fiquei orgulhosa de mim mesma e a repetia isso com freqüência para toda e qualquer pessoa. É claro que as atenções em breve estariam voltadas para o novo bebê e eu já previa isso.

Quando a mãe engravidou de você, eu, a filha mais nova e detentora do título de princesinha do papai, já tinha sete anos, com um irmão de doze. Ninguém escondeu que você foi uma surpresa, que nada estava planejado. Mas não foi a falta de uma casa maior para cinco pessoas nem do que quer que fosse que haveria de ser problema. Era, afinal, uma nova vida que estava entrando, pela porta da frente.

A alegria do temporãozinho dividiu a família. Eu e meu pai esperávamos uma garota, já minha mãe e o irmão torciam por um menino, que se chamaria Jhonathan (sim, você escapou desse destino). No dia do veredicto, meu pai fez questão de levar todo mundo para ver a ultrassonografia. Os três ansiosos em volta da mãe acompanhavam cada gesto do médico e tentavam distinguir as manchas disformes na tela. Uma menina. Minhas bonecas teriam mais uma dona.

Como Jhonathan não nasceria, era preciso escolher outra alcunha. Rodolfo e eu decidimos por Sthephannie (estrangeiro e com vários encontros consonantais, a exemplo da primeira escolha). Você escapou mais uma vez, mas foi só porque a nossa empregada não conseguia pronunciar nada diferente de Fanê. Optamos ainda por Clara. (Não sei te precisar por que foi recusado, mas escapamos todos de uma grande ironia, já que você nasceu com a cor do verão).

Nessa época morávamos no terceiro andar de um prédio central na cidade. Você não deve lembrar disso, já que saiu de lá com 2 anos, mas a mãe costumava encostar na janela em frente à porta do nosso apartamento e ficar olhando lá fora. Um dia, nos últimos meses de gravidez, eu fiquei do lado dela e perguntei como iria ser seu nome. “Ah, podem ser vários” – ela disse, desfiando uma lista de opções. Lembro que um deles me chamou a atenção. Verônica me soou tão bonito, tão forte, que eu decidi que seria aquele. Sustento essa idéia até hoje, embora todo mundo diga que o nome já estava escolhido antes do episódio da janela.

A partir do momento em que você teve um nome definido, a espera tornava-se mais clara. E urgente. O pai comprava números de rifa e preenchia com o seu nome, da filha que ainda nem nascera. A mãe escolhia estampas de tecidos e mandava a costureira cortar em quadrados e fazer barrados, para que você tivesse várias fraldinhas iguais para cheirar depois que nascesse. Ela fazia isso para não correr o risco de você se apegar a um cobertor ou pano específico e carregar um trapo sujo e desfiado por aí. Um dia eu perguntei a ela o que iria acontecer se você não gostasse dos paninhos que ela havia destinado a esse fim. Lembro que ela parou, olhou pra mim, refletiu um pouco e respondeu brava: “É claro que ela vai gostar. Que coisa, menina!”

Na casa tínhamos dois escorpianos e dois virginianos. Como o médico avisou que você nasceria no final de agosto, eu e o pai vimos que perderíamos a maioridade no quesito nativos de um mesmo signo. Já tínhamos ganhado a aposta do sexo, então era melhor que o signo fosse o mesmo da mãe e do Rodolfo.

Você surpreendeu mais uma vez. Antecipou-se e nasceu dia 22 de agosto, último dia de Leão. E foi incrivelmente leonina, desde o primeiro choro. Ao contrário de mim, recusou todas as saias e vestidos que te pinicavam as pernas. Lacinhos no cabelo, nem pensar. Era uma menina e não uma boneca.

Eu lembro que na maternidade, depois que a enfermeira saía do quarto com você nos braços, eu ia de fininho para o andar de cima e ficava bisbilhotando você na janela do berçário. Achava perigoso alguém te confundir com os outros bebês, todos iguais. Devia imaginar, do alto dos meus oito anos, que como você tinha acabado de entrar na minha vida, eu poderia te perder a qualquer momento.

Quando você tinha quatro meses quase morreu, por incompetência de uma farmacêutica. Mas nada aconteceu, graças ao bom Deus. Com uns quatro anos você se perdeu no meio de um ginásio lotado, durante uma apresentação de patinação, em outra cidade. O Rodolfo era o astro de um dos números, em que cada patinador ia saltando sobre os anteriores e deitando no chão. Ele era o último e deveria saltar por cima de outros dez patinadores. Em um segundo de fôlegos suspensos e olhares atentos da família para o feito, você sumiu. E foi naquele momento que eu senti que você poderia não mais voltar. No silêncio e no desespero da procura, seus dois irmãos mais velhos se tornaram cúmplices, unidos pelo medo de ficarem só os dois. No final de algumas horas você foi encontrada pela minha mãe, que sempre sabia onde você estava, brincando com uma criança da sua idade.

Sua personalidade sempre foi forte, mas depois das primeiras palavras isso se tornou mais aparente. Para você as coisas não tinham os nomes que as pessoas as chamavam. Era por isso que água era ati. No seu primeiro dia de aula, a mãe fez eu aparecer na escola na metade da tarde para saber se você estava bem. “Está ótima” - disse a professora. “Depois que eu descobri o que era ati, tudo ficou ainda mais fácil”. As pessoas ao seu redor também ganharam apelidos. O Rodolfo, por exemplo, era Papo e você se apresentava como Pipi. “Qual é seu nome?” – perguntavam. E você na lata: “Pipi!” “Não! É Verônica, Ve-rô-ni-ca” - a mãe insistia. “Pipi”.

Se eu fosse listar todas as lembranças que eu tenho de você, poderia falar por horas. Coisas boas e ruins. Engraçadas e chatas. Você já teve insolação na praia, porque não gostava de beber água toda hora. Já bateu a cabeça na persiana e ficou com olho roxo, em pleno réveillon. Já foi pega pulando o muro da escola para fugir, com incríveis três anos. Já trocou a chupeta por um teletubbie. Já levou mordida de cachorro e ficou chorando por horas.

Eu confesso que eu não gostava quando a mãe não me deixava sair de casa para cuidar de você. Que eu chorei de raiva quando você riscou minha apostila, meus diários e tudo mais com vários eeeeeeeeeee. Confesso que eu perdia a paciência quando você ficava pulando em frente à televisão, quando conseguia tudo o que queria porque era a mais nova.

Mas eu também confesso que sem você, minha vida não estaria completa. Sem as lembranças das vitaminas de abacate, das trocas de fraldas, do “Boa noite”, antes de dormir, acompanhado por “Não vá desligar o abajur ou fechar a porta!”, porque você tem medo de escuro. Confesso que fiquei emocionada quando você disse Tati pela primeira vez. E que ri muito porque você não conseguiu falar Rodolfo. Que quando eu ensinei as letras antes mesmo de você freqüentar a escola e você reconhecia na rua que o E era “a leta do pai” e S “era a leta da mãe”, eu pulava de alegria por dentro. Confesso que eu gosto quando dizem que somos parecidas, porque isso me torna um pouco mais bonita, como você. Confesso que é quando você diz o tão esquecido “eu te amo” lá em casa, é aí que eu lembro mesmo o quanto eu amo, você e a família inteira.

Eu me orgulho. Não só de você ter sido a escolhida para representar o colégio, porque isso eu já imaginava. Eu me orgulho por fazer parte de quem você é hoje. Por você estar crescendo, por estar sempre fazendo as escolhas certas...

E eu te amo justamente por você me amar, mesmo eu indo contra a um monte de coisas que você, com a maturidade inexplicável dos seus quinze anos, sabe que estão certas. Por você estar sempre presente, por mais que ausente. Por ter medo de te perder e, principalmente, por você ter nascido e me mostrado o que é o amor de uma irmã.
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