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Mostrando postagens de Dezembro, 2008

Voei

"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim." (Ausência, Drummond)Ninguém entende muito a minha família. É um apego que beira ao excesso. Eu e meu irmão somos capazes de deixar uma noite de balada para ficar em casa assistindo a retrospectiva do ano da Globo, um pouco pela falta de dinheiro, mas muito porque isso faz bem ao meu pai.
Meu irmão vive dizendo que meu pai faz questão das crias debaixo das asas e se pudesse, nos teria assim protegidos 365 dias do ano. Mas as crias maiores cresceram e alçaram vôos. Meu irmão saiu de casa há 8 anos e eu há 6. Mesmo assim, há finais de semana que eu largo tudo para viajar para a casa dos meus pais, se meu irmão estiver lá. Mas isso nem sempre é possível.
O …

A casa vazia

"As casas são construídas para serem habitadas e não para serem contempladas" (Francis Bacon)Se eu tivesse que resumir em uma palavra o que significa a ausência, diria que é uma casa vazia. A minha, quer dizer, a dos meus pais, me recebeu assim quando voltei de viagem. Não a lembrava dessa forma. Nunca a encontrei vazia. Na hora que descobri que haveria um desencontro, que minha família estaria viajando quando eu chegasse, não imaginei as múltiplas sensações que a casa vazia me proporcionaria. Logo de cara, penei para abrir a porta principal, que necessita de sacudidelas e muita força de vontade para destravar. Sempre encontrei a casa aberta e alguém me esperando na sacada. Sempre encontrei também a televisão, o aparelho de som e a máquina de lavar ligados, todos ao mesmo tempo. As janelas constantemente abertas, assim como as portas internas. Uma corrente de ar é capaz de atravessar a varanda, a sala principal, a outra sala e atingir o quintal em poucos segundos, porque tudo…

A urgência do fim

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a
funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar que
daqui para frente tudo vai ser diferente."

(Carlos Drummond de Andrade)Noto que nessa época do ano, dos pisca-piscas e das compras esbaforidas, os ponteiros andam um tiquinho, pouca coisa só, mais devagar, pelo menos para mim. Paradoxalmente, o mundo todo parece sentir a ânsia de que tudo se acabe. Em dezembro ninguém começa nada de muito grandioso, mas só espera, quase que fatalmente, o fim chegar.Cada dia a mais é um dia a menos. Cada folha que se arranca do calendário é a certeza de que o fim está iminente. Eu adquiri nos últimos anos a mania de contar nas folhas da agenda, e depois nos dedos, os dias que faltam para terminar o ano. Também me …

No quarto sem papoulas

"Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo"
(Trecho de Motivo, Cecília Meireles) Minha cômoda tem gavetas que caem a toda hora. Conserto-as, vez ou outra, mas elas insistem em cair novamente. As gavetas me vencem. Meu mural tem fotos que voam com o vento. Uma corrente de ar e lá se vão recordações e ímãs, espalhados pelo chão. Ou fica a janela fechada ou tenho mural vazio. Fecho a janela. Uso o computador 10 horas por dia, conectada com as janelas que piscam. Frases entrecortadas, despedidas bruscas, mal entendidos. Fecho as janelas e deleto pessoas. É mais fácil não vê-las. Finjo não ver os projetos de leitura que me espreitam à noite, esperando urgentes que eu os leia. Pilhas de livros, coleção de revistas e até o folheto da igreja que carreguei solene, para ler a mensagem final. Na varredura periódica os projetos só terão três destinos: descartados, devolvidos, empilhados. Sempre sem serem folheados.As roupas que não …

Querido Papai (Noel)

Primeiro de tudo vamos fingir que você é aquele personagem que habita os sonhos das crianças e não o cara que vai cansado me buscar na rodoviária. Vamos ignorar o fato de que conversamos, no mínimo, três vezes por semana, o ano todo, e não apenas um pouco antes do Natal, o que é comum para a grande maioria que só pensa em você nessa época. Vamos esquecer, durante a leitura dessa cartinha, que você é meu pai. Faremos isso porque o pessoal do trabalho pediu para que escrevessemos uma cartinha para o Papai Noel e se eu escrevesse como sua filha mesmo, poderia levar vantagem.O intuito dessa carta é contar o que eu fiz nesse ano e por que mereço ganhar presentes. E dizer também o que eu quero para o ano que vem. Então lá vai.Em 2008 eu comecei em um emprego novo, peguei mais um canudo, mudei de casa, adotei um gato de rua, terminei uma pós, quase morri depois de uma cirurgia, entrei no Movimento de Cursilho, fiz dois cursos de idiomas, viajei muito e escrevi mais um tanto.Fui poucas vezes …

As pessoas de 2008

Sobre quem encontrei ou em quem me esbarrei no ano que passou O ano de 2008 serviu para me mostrar muitas coisas, mas, principalmente, que amigos vão e vêm. Os que vão permanecem vivos na lembrança e nos reencontros, casuais ou marcados. Os que vêm mostram que novas amizades continuarão vindo e, como o sol, trarão a promessa de dias (e anos!) mais felizes.Costumo dizer que os anos ímpares me trazem novidades e os anos pares mantêm as coisas nos seus devidos lugares. É sempre assim, talvez com raras exceções. Algumas delas vou listar aqui.Em ordem mais ou menos cronológica, os indicados na categoria "Amigos Revelação 2008":Mary StelaEla surgiu na minha vida antes de 2008, mas foi nesse ano que nos tornamos cúmplices, tanto na arte de cuidar de um gato, como para guardar segredos sobre utensílios domésticos. Eu nunca pensei que fosse encontrar outra "Cris" e quando a Maristela chegou, quietinha trazendo sua geladeira e seu fogão, eu jamais imaginaria o quanto a ausên…

Dicionarizando

"O ser humano inventou a linguagem para satisfazer a sua profunda necessidade de se queixar". (Lily Tomlin)Uma vez, que pode ser entre 1996 e 2000, não sei ao certo, uma professora de Português nos propôs um exercício diferente. Deveríamos dicionarizar uma palavra, ou seja, dar um significado literal para ela como se fosse um verbete de um "pai dos burros" (essa professora odiava que chamassem os "aurélios" assim). Ela confiou que não copiaríamos nada do dicionário e eu, realmente, não o fiz. Tratei de dicionarizar a palavra tesoura: sf 1. Objeto que serve para cortar coisas, formado por duas partes cortantes, unidas por um mecanismo de abre e fecha, por onde se colocam os dedos indicador e médio. Ou algo parecido. Lembrei disso hoje e tentei repetir mentalmente o exercício. Confesso que não foi fácil. Os poucos minutos que levei para concluir a tarefinha no Fundamental, arrancou-me momentos de aflição. Cadê o meu raciocínio lógico, que rendeu uma definiçã…

Ah, essas crianças...

Em uma mesma quadra, no mesmo lado da rua, ao mesmo momento, caminhava eu em direção a minha casa e do lado oposto duas meninas de seus oito anos, indo para sabe-se lá onde. Saltitando, como é comum na sua idade. Ah, não posso esquecer que no meio do caminho em que eu e as duas meninas percorríamos também havia um rapaz parado no ponto de ônibus. As meninas foram vindo e eu indo. O rapaz parado. Nisso, as duas soltam uma estrondosa gargalhada. Foi tão espontânea e de tão longa duração, que arrancou o sossego da minha caminhada. Eu e o rapaz nos olhamos depressa, compartilhando uma dúvida comum: Foi de mim ou de você? Mas eu pensei com meus botões: "Ah, Tatiana, pára. Criança ri por qualquer coisa!" Na dúvida, tratei de conferir se o meu zíper não estava aberto.