125x125 Ads

Herança

9 comentários
No último encontro, lembramos do quanto nunca tivemos um pai típico, daqueles que assistem ao futebol, levam para dirigir, gostam de fórmula 1. Tirando a Copa do Mundo, não me lembro do meu pai parando na frente da televisão para assistir a um jogo, tomando uma cerveja. Ele nem bebe.
Talvez, por essa falta de influência, não aprendemos certas coisas. Não nos apegamos a certas coisas. Na infância, a imagem que eu tenho do meu pai é trabalhando. Saindo de viagem ou chegando de viagem. Indo dormir. Brigando, algumas vezes. Passando a mão na cabeça, outras.
O pai faltando na feira de ciências porque tinha que atender gente em casa. O pai se desculpando por não ter embrulhado o presente. Não importava, sempre tínhamos os melhores.
Não aprendemos a torcer pelo futebol ou pela fórmula 1, mas aprendemos coisas que outras crianças não sabiam da existência. Fomos filhos de um comerciante que vendia tudo em casa, que viajava três vezes por semana. Aprendi, desde criança, a ouvir notícias sobre fiscalização na Ponte da Amizade com o coração na mão. No final de semana ele queria dormir ou tinha que separar mercadorias, não dava para ver futebol.
Época de Natal era o período do caos, como sempre foi, ao longo da nossa vida, pois de viajante ele passou a ser Papai Noel. Assim, desde pequenos eu e meu irmão aspirávamos aquele pó de terras paraguaias e convivíamos com gente estranha em casa. Desde pequenos a gente sabe fazer troco, contar mercadorias, embrulhar presente, calcular porcentagem, fazer mercado. A gente aprendeu a fazer depósito, recuperar cheque devolvido, pedir e dar desconto.
Teve uma vez que ele comprou cinco lojas. Ninguém entendeu. Cada um pegou uma chave e ficou responsável por cuidar de uma. Enquanto todo mundo aproveitava as férias, eu acordava cedo para abrir a loja. Enquanto todo mundo estava de férias, a gente respondia cartinhas (milhares), de crianças do país todo.
Não guardamos nada de ruim desse tempo. No nosso último encontro, lembramos dessas coisas e rimos de outras. Sempre soubemos que o pai ensinou o que pôde.
Mais informações »

A derrota

13 comentários
O despertador. A noite comprida. Medo de perder a hora.
- Vamos lá?
Fui, nem tava tão nervosa. Testei a ré, consegui.
- Agora só esperar.
Duas longas horas de espera. Ansiedade batendo já.
Ouvi as regras, entendi as regras. O primeiro do trio foi, voltou todo torto.
- Ih, tenho certeza de que reprovei – disse ele quando voltou.
- Ah, passou sim – respondi eu distraída, olhando para o segundo.
Ele ainda puxou assunto. Não respondi direito, nervosismo martelando no peito.
Fui chamada. Entrei no carro, fiz tudo certinho. Terminei como tinham me ensinado, mas aí achei que tinha errado, que podia ser melhor (mania). Tentei arrumar o que não precisava de conserto, caguei tudo. Já vi que tava errado. A mulher veio.
- Tava certo antes, agora você errou, vai ter que fazer de novo.
Aí o coração na boca querendo saltar. Só ouvi o barulho do carro batendo no protótipo da frente.
Falta eliminatória.
- Desliga o carro e pode sair. Amanhã remarca.
Se houvesse uma imagem para a palavra derrota, seria eu. Pequenininha, percorrendo o pátio. Chorar não dava, nem tinha vontade. Demorou pra cair a ficha, precisava falar com alguém.
- Reprovou?
- É. Baliza.
- É a terceira vez que estou fazendo. Da primeira deixei morrer, da segunda...
Nem ouvi mais, porque as três moças do ponto de ônibus começaram a ficar alvoroçadas, cada uma querendo contar sua melhor/pior história. Precisava falar com alguém longe de tudo aquilo.
- Mãe...
- Tudo bem?
- Nem. Reprovei no teste de direção.
- Ah, mas é assim mesmo. Depois você faz e passa. Mas o quê? Ficou nervosa? Por que a psicóloga não te aprovou?
- Que psicóloga, mãe?
- Não era assim o teste?
- Não, esse eu já fiz. (Há muito desisti de fazer meus pais lembrarem o que eu já falei. Meu pai, quando contei a nota do TCC da pós, me perguntou se era o de Letras. “Pai, você não foi na minha formatura de Letras há meses? Como é que ia ser de Letras?” “Ah, Tatiana, você sabe que teu pai é esclerosado” ). Hoje foi com o carro, mãe. Me atrapalhei e bati no carrinho da frente. Mãe, para de rir. Mãe, não é pra rir, é pra me consolar. Mãe, fala comigo. Ai, meu Deus do céu.
- Ai, Tatiana, não consigo. Fala aqui com sua irmã.
Ela passou o telefone ainda gargalhando. Minha irmã ouviu a história toda e imaginou que eu tinha batido em todos os carros no estacionamento, de tanto que minha mãe ainda ria. Não, foi no carrinho de mentira.
Meu irmão nem riu. Só me falou que reprovou também, igualzinho, da primeira vez, na baliza. Hoje foi o dia de me contarem histórias trágicas de testes de direção. De todas as tentativas de consolo, a única que conseguiu tal feito foi de um amigo de um amigo que reprovou duas vezes, DUAS VEZES, porque esqueceu de colocar o cinto. Tá, me ganhou. Até consegui dar uma risadinha.
Amanhã remarco, vou tentar mais uma vez. E mais uma, mais uma, quantas vezes forem necessárias. E espero que não sejam muitas. Acontece, você tava nervosa, da próxima você vai bem, você verá. É só isso que eu escuto. Pode até ser. Mas enquanto esse dia, o da certeza não vem, eu quero é curtir minha fossa. Quero é ficar quietinha, sem ter que responder o porquê da tristeza. Fracassar é para poucos, fracassar com dignidade para bem menos ainda.


É, Raulzito. Nada acabou.
Mais informações »

Das pessoas

15 comentários
O alfaiate aqui da minha rua me cumprimenta todo dia. Nunca conversamos de verdade. Uma vez acho que fui lá, pedir uma costura, mas nem ele e nem a esposa tinham tempo. A mulher também costura. Eles trabalham noite e dia, vez ou outra eu vejo eles de papo com alguém, mas quase sempre estão curvados sobre réguas, lápis, tesouras, linhas e agulhas. No sábado, não. No sétimo dia não se vê as fuças de ninguém, garagem fechada. Deve ser coisa da religião.
A mulher nem sempre me vê, mas o homem sempre me dá bom dia quando eu passo por ele a caminho do trabalho. Às vezes é um oi, outras um meneio com a cabeça. Mas sempre um sorriso no rosto. E eu penso que ele poderia vez ou outra me ignorar, afinal, a gente nem se conhece. Ele nem sabe meu nome. O nome deles eu sei: João e Zélia, está escrito na placa.
Mas o que me intriga é que tem gente que lida com gente todo dia e acha que simpatia não pode ser dada de graça. Pensa que faz mal ser cordial. Não precisa hipócrita, não precisa perguntar pela família, mas um sorriso ameniza o dia. Um dia de frio polar ou de calor do Piauí, tanto faz. A mulher do laboratório que eu fui deve atender umas 40 pessoas por dia, contando por baixo. E ela atende todas com cara de quem tomou a amostra de urina para exames.
Na fila de espera, pessoas e mais pessoas. Gente ansiosa, porque coletar sangue ou entregar potinhos de urina e fezes não é normal, não é normal mesmo. Tem criança, tem criança que chora. Tem velho, tem mulher querendo saber se está grávida. Tem gente como eu, que acorda cedo e vai picotar o braço para ver se está tudo bem.
E a vaca, na sua posesinha detrás do balcão, só sabe apertar o botão das senhas e agir no piloto automático. Atende como se fosse um favor. Desconfio que ela cerra os dentes por dentro da boca fechada enquanto trabalha. Se você é atendente, colega, o mínimo que se espera é que você esteja disposta a ATENDER. No balcão, você querendo ou não, você lida com gente, se não quer, mude de emprego. Porque gente gosta de sorriso.
Eu fui aprendendo a gostar de simpatia gratuita grande já. Quando eu era criança, irritava-me minha mãe fazer amizade com a caixa do supermercado. “Você nem conhece a moça, mãe, para quê puxar papo, me diz? A gente vai se atrasar”. No fundo era ciúme, acho. Queria minha mãe só pra mim. Ainda bem que eu cresci e hoje mesmo estava de papo com a caixa do mercado.
Uma amiga que dividia apartamento confessava que sorria para as pessoas na rua. Eu ria muito disso e ela devolvia tirando sarro dos meus desafetos gratuitos e laços rompidos (sempre tive). Mas aprendi com ela um pouco da arte da leveza. Não só sorrir para as pessoas na rua (sem medo de parecer uma desequilibrada), mas levar a vida assim, com esse ar de que ainda há muito por vir, mas tem o tempo certo, há tem sim. Enquanto isso, a gente vai levando. E vai sorrindo.

Mais informações »

Desaniversário

8 comentários
- Ah, essa coisa de fazer aniversário é muito chata. A gente envelhece. Melhor seria um desaniversário – disse meu pai, depois de receber meus parabéns.
- Para, pai. Isso não se diz num dia como esse.
- Pensa bem. A gente poderia rejuvenescer a cada ano e voltar a ser jovem. Até terminar na barriga da mãe.
- Não me decepciona, pai. A vida é boa, eu só tenho 24.
- É. Mas tá. Obrigada por ligar.

Meu pai não leu aquele texto na Internet que todo mundo diz que é do Chaplin, de a gente nascer velho e morrer num orgasmo, nem deve se lembrar da história da Alice, dos 364 desaniversários do ano, mas assistiu ao caso do Benjamin. E gostou muito.
Na ligação, eu não disse, mas deveria. Deveria dizer que sim, pai, eu quero que você rejuvenesça, porque talvez seja mais fácil você viver nesse mundo bandido e lidar com esse bando de gente capenga de quem você muitas vezes depende para ganhar o pão. Uma pessoa que faz malabarismos cotidianos todo dia para sobreviver, que consegue fazer todo mundo acreditar na fantasia com a qual você sobrevive, uma pessoa assim não deveria envelhecer mesmo. É um disparate.
Mais lógico seria você ir voltando no tempo, e, enquanto a gente vai embranquecendo os cabelos e sentindo curvar as costas, você ao nosso lado vai inflando o peito cada vez mais forte e jovem. Cuidando sempre da gente.
Deveria ser assim. Porque quando eu vejo você envelhecendo, me dá um certo medo. Medo não, cagaço mesmo. Como daquela vez que você pediu para eu carregar umas coisas pesadas do carro até em casa, porque você não conseguia. Meus ouvidos pareciam me enganar. Fiquei paralisada diante do homem que nunca me deixava carregar peso, que levava minha mochila e mais tarde minhas malas para eu não precisar me esforçar. E agora estava aí, prostrado pela rasteira passada pelo tempo, pela pressão, pela glicemia e pelo coração. Coração que aperta no peito, que pede folga, pede descanso.
Eu quero pai que você rejuvenesça, embora meu querer não queira dizer nada. Eu não queria ir depois de você, embora o meu querer não queira dizer nada. Eu queria te dizer tanta coisa, pai, mas querer não adianta. Talvez nem falar adianta.

Um feliz desaniversário, pai. Porque o aniversário mesmo foi ontem.

Mais informações »

Zéu e Laia

8 comentários
Defina em uma palavra Zéu e Laia: desembestados. Desembestam-se a correr com os ponteiros, desembestados a estudar, viver, gozar, tragar, sorver, comer, sair, voltar, andar e nadar. Nadar, nadar, nadar e nadar. Até morrer na praia.
Quem dera fosse praia. É um pedaço de chão que congela e depois ferve, alternadamente, que alguns insistem em chamar de terra. Zéu e Laia não são dali, mas insistem. Porque é mais barato, é cômodo. É fácil, sobretudo.
Laia e Zéu perderam o trem uma vez e agora sabe Deus quando ele passa de novo. Aí eles continuam existir na terra que ninguém mais escolheu voluntariamente como morada. Eles existem não existindo. Não firmam nada, Zéu e Laia têm sonhos de pó e casas desmontáveis. Laia e Zéu não trazem mais nada para casa, porque quanto menos peso mais fácil será pegar o trem, que passa rápido.
Mas o trem não passa. E eles não escrevem ao maquinista. Aí o maquinista nem sabe que eles querem pegar o trem, mas Zéu e Laia, ainda sim, esperam.
Laia e Zéu têm a bagagem certa para ir, nem grande nem pequena demais. Eles têm a roupa certa para viajar, o dinheiro contado, uma caravana de alegorias montada para vestir quando chegarem do lado de lá. Mas o trem desesperadamente não passa.
Desembestadamente, Zéu e Laia correm em círculos, caçando qualquer parte da terra ainda não habitada. É preciso viver enquanto se espera. É preciso esperar, enquanto se vive.

O final de Zéu e Laia você decide. Mas eu sei, não. Eu tenho certeza de que eles não vão seguir seu conselho.

Mais informações »

Sinais

13 comentários

O gato me esperava pela manhã. Sentado na cadeira, seguindo com o olhar meus gestos, ele miou. Um miado chato, comprido. Olhei para ele e perguntei o quê? Ele continuou miando. Miando e me desafiando por trás dos olhos estrábicos.

Fui lá e olhei. Tinha comida, o pote de água estava cheio, a areia limpa. Perguntei de novo o que foi? Queria dar uma volta, decerto, apesar de nunca sair de casa.

Abri a porta, ele foi, cheirou os cantos, subiu uns degraus, olhou para mim, subiu mais um pouco. Aí, sem eu dizer nada, voltou. Calmamente, cabeça baixa, como se obedecesse uma ordem. Uma ordem tácita: você deve voltar.

Fiquei me perguntando o que queria o gato. Há dias reparo que ele anda triste, melancólico mesmo. Acho que ele tem depressão.

Ou está inconformado, apesar de eu duvidar da capacidade de inconformismo dos irracionais. Sempre achei que ele tivesse espírito de gente [mal dos donos pensar isso dos seus animais, usando expressões como “forte personalidade”, “vontade própria” ou coisas do gênero]. Se ele fosse gente, seria um serial killer, um psicopata, pensei. Mas não. O gato encarnava agora a personificação do gênio depressivo. Sabe que precisa de mais. Tem comida, tem água. Tem o que lhe supre o corpo, mas falta algo. Uma coisa que cutuca e não se sabe ao certo o que é. Às vezes se quer liberdade, mas quando se abre a porta vem o medo de sair. Ou a liberdade possível é pouca, restrita. Melhor seria desbravar o mundo.

Às vezes não é nada. Às vezes, simplesmente, o gato cresceu.

Mais informações »

A farinha de mandioca

6 comentários
Se um dia eu escrever um livro sobre minha família, cada capítulo terá o nome de algo que nos uniu. A árvore do quintal nos renderá um capítulo, as viagens outro, os aniversários mais um e ganhará espaço tudo o mais que significou a cumplicidade do pai, da mãe e dos três irmãos.
A farinha de mandioca, por exemplo. Não conheço outra família do Sul do Brasil que come tudo com farinha, branca ou torrada. A influência, com certeza, é da matriarca nordestina. Quando ainda morávamos juntos, nos almoços e jantares, lá estavam os potinhos dispostos pela mesa carregando o produto. Os pratos não precisavam, necessariamente, ter molho para o acompanhamento. Comíamos farinha no seco, mesmo, tal qual aquelas famílias do sertão. Só faltava o calango.
Quando vinha visitas, nos contínhamos. Não era tão fácil entender gente que comia tudo, tudo com farinha. Às vezes eu contava e perguntavam se não servia farofa. Não, não servia. Sem farinha chuviscada nos pratos, faltava algo. Colocar os potinhos na mesa era tão indispensável como talheres e copos.
O fato é que o costume, aos poucos, foi sendo deixado de lado. Como dois integrantes debandaram, nenhuma das três casas tem mais seus potinhos. Por isso, repito, a farinha é um pedaço da nossa biografia coletiva. A farinha nos unia.
Hoje, achei um pacote que sobrou de uma farofa que fiz. Ao almoçar, recolhi-a do armário e, num gesto quase de reflexão, despejei os grãozinhos minúsculos no prato. Uma homenagem silenciosa as minhas quatro pessoas que naquele momento almoçavam unidas, enquanto eu, na solidão, absorvia minhas lembranças.
Mais informações »

Ismália

6 comentários

Percebeu que estava entrando em depressão quando notou que todo mundo, ou todo o mundo, era mais contente que ela. Por que toda a gente, uma vez dividindo o mesmo cenário e as mesmas possibilidades de angústias, sorria? Por que se saber contente se Ismália sofria? Lembrou-se de uma professora de Literatura que dizia que o depressivo era o ser mais egocêntrico, porque achava que o universo girava em torno dele. E Ismália, de repente, se encaixou nessa definição.

Começou a chorar todo dia. Terminava o filme e ela chorava. Assistia à televisão e ela chorava. O debulho das lágrimas era insuportável, porque a angustiava de uma forma inexplicável. Era como se tentase conter com as mãos a água toda querendo sair das comportas de uma hidrelétrica. Sem água falta luz. Mas o choro, inexplicável, não conseguia libertar Ismália das amarras da alma.

A angústia parecia ter dia certo para se tornar mais intensa. No domingo. No domingo à noite. Ela não sabia se era pela programação da tevê, pela iminência da segunda ou pela confusão mental instalada. A tristeza de se sentir só, mesmo acompanhada. Paradoxal. Ismália tinha vontade de sumir, de buscar o porto.

O porto nunca foi bonito, ela sabia, mas o considerava atraente. O porto é a intermediação do passado e do futuro. O presente. No porto só se deixa o que passou e só se busca o que há de vir. Nada mais. Haveria no mundo um porto infinito? Somente um porto absurdamente grande poderia abarcar os sonhos de Ismália.

Seu sonho, naturalmente, era ir. Como era difícil a dor da partida e as despedidas lhe agrediam a alma, Ismália planejava explodir para que suas partículas se reencontrassem longe dali. A mágica do seu sonho a libertava de uma mutação de si. Seu sonho era perfeito, mas Ismália, querendo ir, no fundo era ciente que seu desejo era aquela velha tentativa. Tentativa de fugir.

Deixar o porto, abandonar o presente. Como no porto só é possível um trajeto – é impossível comprar um bilhete em direção ao passado – Ismália concluiu que seu sonho era o futuro. Mas ela chorava porque aonde quer que fosse a mancha do presente a acompanhava. Estava presente, a insígnia, sempre com ela. Encalacrada, a marca do agora encobria Ismália como um véu. Por baixo do véu ela era só saudade e sonho. Por cima, o presente, encobrindo o caminho. Por dentro, a vontade de ser só ela. Ismália quis chorar mais uma vez. Ismália, confusa, dormiu.

Mais informações »

Palhaçada

10 comentários
- Tatiana, lembra do Beto?
- Que Beto?
- Aquele que te acertava com machado inflável na minha festinha de 3 anos!

Lembrei na hora. Tudo o mais se tornou irrelevante perto da massacrante lembrança daquela tarde. Inclusive o que minha irmã queria falar sobre o tal Beto, que hoje deve estar gigante. Eles se reencontraram num show esses dias, 12 anos depois do episódio do machado. “Legal”, comentei. “Nossa, tinha uma multidão e a gente se encontrou!”. “Hmm, legal”.
Para comemorar os três anos da caçula, minha mãe retomou sua veia de promotora de eventos perdida depois da minha última grande festa, de 7 anos. Com 8 a caçula nasceu, as vacas emagreceram e fazer festa ficou mais difícil. Entretanto, houve uma sobra e deu para organizar uma festinha em sala de aula para celebrar o terceiro ano da minha irmã. O que era para ser simples, um bolinho com refrigerante, tornou-se um megalomaníaco evento. Com direito a vestido vermelho de veludo para a aniversariante, distribuição de brinquedos infláveis para os convidados, decoração montada com papel crepom, isopor... e um palhaço. Sim, era imprescindível ter um palhaço, para alegrar (?) a festa.

- Mãe, eu não vou.
- Tatiana, por favor. Você coloca a roupa, fica um pouquinho e depois se veste normal. Só para ficar mais divertido.

Ela, como sempre, me convenceu. Diz meu pai que numa festa do meu irmão sobrou para ele ser o palhaço. Como ele não pôde comparecer à festa de 3 anos da caçula, eu não podia alegar que ele tinha mais experiência e deveria encarnar o papel. Meu irmão arrumou uma desculpa para não ir porque imaginou que iria sobrar para ele.
Lembro-me que a parte mais divertida foi se arumar. As professoras se mobilizaram, vieram com maquiagem, prenderam meu cabelo, deram dicas. Prontinha estava eu em sala de aula quando trouxeram a tropinha de pestes.
O primeiro que entrou me viu, começou a chorar copiosamente, agarrou-se na professora e assim permaneceu até o final da festa. E não pensem vocês que era um chorinho. Era um choro de pânico, o mesmo pânico da minha cara olhando para minha mãe. “O que eu faço, mãe?” “Fica longe dele”.
Os outros agiram normalmente. Ou seja, nem deram bola para a palhacinha que tentava, em vão, chamar-lhes a atenção. A professora ajudava e estimulava brincadeiras. Galinha que põe, cabra cega, roda cotia e o que mais a imaginação lhe ajudava a inventar. O garotinho chorão continuava afastado dos demais.
Uma hora as brincadeiras se esgotaram e Beto, o infernal (foi esse o apelido que lhe dei) teve a ideia de malhar o palhaço. Durante as rodas eu já tinha notado que ele me olhava de soslaio, com um risinho maroto. Mas achei que era a maquiagem. Não. Beto começou a implicar comigo e (lembra dos brinquedos infláveis?) começou a martelar a porcaria de um machado inflável em mim. No começo era de leve, depois começou a ficar pesado. Eu olhava com desespero para minha mãe, que achava bonito, chamava os outros para ver.
Outros pestinhas gostaram da brincadeira. No começo eu gritava “aiai” escandalosamente, a la “Os Trapalhões”. Eles se divertiam. Depois os gemidos eram de verdade, porque eles começaram a apelar para beliscões e tapas. O espaço da sala de aula ficou pequeno. Uma hora me escondi embaixo da mesa da festa, tamanha a insistência. Eles me encurralavam e Beto, o líder, ficava do outro lado me esperando, machado em punho. Muito da minha maquiagem ficou no brinquedo. O cabelo se soltou, a peruca caiu. No final eu parecia mais uma assombração que um palhaço. O garotinho do começo já devia ter desmaiado ao se deparar comigo daquele jeito, não me lembro mais.
Depois que terminou a festa, minha mãe tratou de recolher os restos. Docinhos, refrigerante, o que sobrou do bolo e o que sobrou de mim, que estava só o pó. Acabada, destruída por um bando de endiabrados que mal tinham saído das fraldas. Jurei para mim mesma que minha mãe não me pegaria de novo nessa. E que iria venerar todos os palhaços que cruzariam meu caminho.

No começo, sorridente
Mais informações »

Da arte de não ser estonteante

18 comentários
Pode ser que eu não me encaixe nas “muito feias” que devem perdoar Vinicius, mas definitivamente não tenho algo de flor, algo de dança ou algo de haute couture. Sou daquelas que se encaixam no grupo que ele denomina como coisa impossível: o meio-termo.
Daquelas que acordam cedo para dar um empurrão na natureza, mas que precisam de muita sorte para que o cabelo colabore, para que a roupa caia bem justamente naquele dia e para que a impaciência não as faça romper laços defitivamente com o espelho.
É difícil encontrar uma mulher estonteante, mas isso não quer dizer que seja coisa rara, muito menos impossível. Você não irá encontrá-la em qualquer esquina, mas, se reparar bem, em cada turma de amigos há de se ter uma, para desgraça das demais. Mulher estonteante chama a atenção, rouba olhares. É bela por si só, sem esforço. A bicha fica bonita fazendo careta em foto, não há fotogenia que explique. Passa xampu Palmolive e creme de pentear Neutrox, seca o cabelo ao vento e, ao final, parece só faltar uma moldura em volta. As estonteantes, ô racinha, costumam dizer: “o quê? Nem fiz nada, só bati o cabelo e saí”. Fica bela com cabelo preso com caneta Bic. É acordada no susto, lava o rosto e sai correndo e, quando chega, parece adentrar o recinto como um monumento. O âmbar de uma tarde.
O rosto da mulher estonteante de Vinicius parece um templo e as estonteantes que eu conheço não sofrem com espinhas, maquiagem borrada ou imperfeições no sorriso. Elas sabem da sua beleza e, por vezes, até se envergonham da vantagem que possuem. Um presente dos deuses, entregue de bandeja.
Não sou feia que não possa casar, como bradou Adélia Prado. Mas, após terminar de ler a receita de mulher de Vinicius, percebo que sou como um bolo embatumado, um arroz empapado ou uma carne tostada nas extremidades. Dá para encarar, mas... Algo deu errado na minha receita e não busco aqui um trocadilho infame com o verbo comer. Muito menos pretendo um tom de autodesprezo flagelante na minha colocação, entenda-se.
As mulheres cuja receita deu certo, cuja fôrma foi devidamente untada e enfarinhada, que o forno não foi aberto antes de 30 minutos e, claro, que o fermento não passou da data de vencimento, sim. Essas são estonteantes. E o pior. As desgraçadas não se esforçam para tal.
Tento imaginar qual é a desvantagem que uma mulher estonteante deve ter em sua vida. Todas as roupas provadas ficarem perfeitas no corpo? Até imagino a indecisão da coitadinha, diante de tantas peças, dentro do provador opressor. Ou ser alvo de intrigas por não-estonteantes invejosas? Um perigo.
A mulher estonteante, sendo um conjunto de virtudes, carrega em si não só a beleza do frescor da manhã, mas a elegância, a educação e a doçura. Uma lady.
“O que você prefere, ser chamada de linda ou de inteligente?” “Inteligente”, respondi sem pestanejar. Mas uma parte de mim gritava, sufocada, que linda é o elogio, aquele elogio capaz de preencher sorrisos, mesmo os tímidos, de canto de boca. Gostosa pode ser vulgar, dependendo da hora e do interlocutor. Bonitinha, valha-me Deus, é uma feia gente boa. Estonteante não consegue exprimir tudo o que seu significado expressa. É uma palavra tão grande e desengonçada que parece um origami sendo desmontado. Bela é tão pouco usado na nossa língua que o elogio nem é tão utilizado. Lembra mais nome de cadela poodle ou loja de cosméticos.
Já linda é como se fosse a expressão da beleza mais pura e singela, que diz tudo por si só, como no refrão do Caetano Veloso. Linda desliza por entre os lábios, como se a palavra dita fosse quase uma afronta. É muito pouco para toda a beleza escancarada na sua frente. São apenas cinco letras para definir a, palavras de Vinicius, coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Mas ela deve ter algum defeito, diga que tem. Não há imperfeição incalculável, dear Moraes.


Uma delas:
Mais informações »

Eu sou você ontem

20 comentários
Por muito tempo acreditei que essa história de que tem gente que “não nasceu pra isso” era a maior furada. Não botava fé em papinhos como “não sei escrever”, “cozinhar não é para mim”, “sou descoordenada para pintar”, porque sustentava de que tudo se conquista com treino. Treino e prática.
Isso até começarem minhas aulas práticas de direção. No mês que antecedou a primeira, a ansiedade da espera me consumia. “Vai estudando, minha filha”, recomendava meu pai. “Estudar como?” “Sei lá, vai olhando os motoristas, o que eles fazem”. Pobre papai. Mal sabe ele que eu refutei seus conselhos e nem sabia qual era o freio e qual era a embreagem na minha primeira aula.
Mas fiz uma pose tão convincente no começo que a mulher perguntou se eu realmente nunca tinha pegado um carro na vida. Depois do primeiro cruzamento, do primeiro sinal quase avançado (salve os pedais idênticos para o instrutor!), das apagadas seguidas do veículo (foram tantas que perdi as contas) ela retirou o que disse. Tadinha, levou tantos solavancos que, se não fosse o cinto, eu ia ter de aplicar meu aprendizado de primeiros socorros ali mesmo.
Já na primeira aula, voltei ao meu eu interior e refleti se eu estava disposta a continuar. “Tatiana, existem pessoas que não nasceram para dirigir”. Há coisas que nem com treino e prática. Quando eu perguntava para minha mãe como se cozinhava feijão, ela resmungava: duas faculdades e nem isso sabe. Não importa, mãe, tem coisas que não estão nos livros. É preciso dom, instinto. Com o fogão é assim. Acho que com a direção é a mesma coisa. É preciso muito mais que prudência, atenção e perícia.
Sob o volante, eu, muito doida, ficava ligada apenas nas tartaruguinhas e na sinalização horizontal (não fez autoescola? As indicações pintadas no asfalto. Rá) para parar. De repente, meu freio afundou sozinho. O carro brecou, olhei para a instrutora, que me apresentou o semáforo vermelho piscando na minha cara. Puta que pariu.
A pobre teve de avançar para o volante algumas vezes. Muitas, vá lá, porque eu me distrai com umas coisinhas na rua e ela se obrigou a desviar o carro de um cone, da traseira de um caminhão de lixo, de um pedestre, de um vira-latas. Os elementos não estavam muito dispostos a colaborar comigo. Muito diferente dos que apareciam nos videozinhos de simulação das aulas teóricas, que, como atores no teatro, aparecem só no momento certo.
Na segunda aula tive a impressão de ter progredido, porque até conversar com a instrutora eu consegui. E nem foi “o que eu faço agora?”. Ela perguntou onde eu trabalhava e isso foi o suficiente para eu desembestar a falar da minha vida. Conselho. Nunca vire amigo do instrutor. Você está lá para aprender a dirigir e não para ganhar terapia gratuita. Eu ainda me policio para não perguntar como é que funciona o trabalho dela. Outra nota mental: quando dirigir, não ligar o rádio.
Hoje completei cinco aulas. “Pai, não vai perguntar como eu estou indo de autoescola?” “Olha, se você está falando comigo agora, sinal de que está tudo bem. Pelo menos não teve de acionar o seguro”. Minha mãe falou que quando eu quiser comprar um carro é para eu ver se não fica muito caro adicionar um freio e uma embreagem do lado do carona. Como se vê, apoio moral e incentivo vêm de casa.
A instrutora disse hoje que talvez eu não precise de aulas adicionais. Mas não sei se posso confiar, por causa do vínculo emocional e tudo mais. Por isso, se você mora em Guarapuava, melhor redobrar a atenção. Diariamente, e até mesmo aos sábados, entre 9h e 10h, estou por aí. Num carro branco. Destemida.

Mais informações »

Dôdo

16 comentários
Ele me aconselhou a prestar muita, muita atenção, desde a 8ª série, às aulas de Química e Física. “Senão, mais tarde, você vai se ferrar”. Ouvi, mas nunca obedeci. Outro conselho foi nunca ficar com ninguém na sala da faculdade. “Senão, depois, você vai ter que ficar olhando o cara por 4 anos”. Ouvi, mas, foi mais forte. Dito e feito. Tive de aguentar. Na minha adolescência, simulando um episódio de preocupação com minha honra, ele me aconselhou a jamais entrar sozinha em um carro com um cara. “Entrou no carro, tá fudida”. Eu devo ter entrado em muitos carros na vida, mas consegui sobreviver.
Meu irmão é cinco anos mais velho que eu e, desde sempre, joga na minha cara que eu cheguei para ameaçar seu reinado. Entretanto, o título de líder sempre foi dele. E o de esperto. Eu passei no vestibular da universidade pública, mas quem morava na praia e curtia “sol até à noite”, como dizia umas das suas mensagens, era ele. Para mim sobrou o frio e a máquina de lavar roupa, presente que ele nunca engoliu não ter ganhado igual.
Não posso, jamais, vangloriar-me de ter sido uma boa irmã. Infernizei-o, desde as apostilas riscadas quando teimei em aprender a escrever, passando pelos constantes ataques de choro, pelas brincadeiras sempre estragadas, até as palavras ríspidas. A única coisa que não admito foi ter derrubado no chão o celular novo que ele ganhou no natal, acusação que me rendeu mais de um mês de desprezo por parte dele.
Mas há o que lembrar de bom. Jamais vou esquecer de como “trabalhávamos” na sorveteria que o meu pai tinha, que eu considero hoje muito mais um presente para os filhos do que propriamente uma fonte de renda. Tomei tanto suco Dellis aquela época (vinham em latas de cinco litros) que até hoje enjoo ao sentir cheiro de suco de uva. Quando era pequena, planejávamos ficar acordados até o sol nascer, porque um primo meu disse que, a certa altura da noite, as estrelas se juntavam, formando um cavaleiro montado em uma cobra. Todas as noites dormíamos antes, de modo que nunca encontramos o cavaleiro celeste. Mas na tentativa de ficarmos de pé, assistíamos muitos filmes, os quais eu sempre procurei deixar arraigados na minha memória, mas com o tempo ela foi falhando. Porém, impressionou-me que, há pouco tempo, eu comentei com meu irmão sobre as histórias transmitidas nas madrugadas e ele também lembrava.
Eu achava o máximo, aos sete anos, ter um canal de comunicação com meu irmão, uma gambiarra com walk-talkies que ele inventou, enchendo de fios o espaço entre as janelas dos nossos quartos. Toda noite, antes de dormir, na mesma casa, conversávamos e era sagrado eu dar boa noite a ele antes de pegar no sono. Um dia eu falei uma besteira na frente das visitas e, com raiva de mim, ele destruiu tudo.
Se me perguntarem qual foi o momento em que mais me senti próxima do meu irmão, direi que foi há uns quatro anos, férias de julho, quando fui visitá-lo. Voltávamos de um bar e, trôpegos, quase dançávamos na rua. Ele me abraçou, seguimos andando e meu irmão me confessou que gostava da menina com quem tínhamos acabado de beber. Perguntou o que eu achava dela. E, desde então, sempre pediu minha opinião sobre garotas. A dele eu não peço, porque nunca é séria. Quase sempre, ao lhe falar de alguém, vem a reprimenda: “não tá dando pra ele não, né?”.
Meu irmão sempre foi assim. Um babaca. Capaz de me arrancar gargalhadas com coisas ridículas e de me fazer arder de raiva por causa de rusguinhas igualmente ridículas. A infância passou, passsou a adolescência, chegamos à fase adulta e tenho a impressão que nossas brigas continuarão sendo de eternas crianças.
Se você leu até aqui, gostaria de pedir desculpas pelas vezes que te fiz acreditar que nunca seríamos amigos. Cada vez mais acredito que o que se vive na infância perdura para sempre. Então, quero o walk-talkie, os filmes de Spielberg, os sucos de uva, o abraço depois do bar. Quero o melhor de nós.

Quero que você seja feliz.

Mais informações »

My heroes

11 comentários

Ao telefone

Pai: Parabéééééns, minha filha!

Eu: Pelo quê?

Pai: Pelo dia do jornalista!

Eu: Ihh, pai, foi em abril!

Pai: [silêncio] Ah, eu inventei isso só para te ligar. E aí, como vão as coisas?


Chegando de viagem

Eu: Oi, mãe!!!!

Mãe: Oi, menina

Eu: Nossa, nem parece que faz três meses que a gente não se vê! Não está com saudade?

Mãe: Pois, é. Eu senti falta de um pintinho mesmo.

Eu: [...]

Mãe: Mas eu ouvi a Xuxa dizendo que ele estava na montanha. Sabia que ele ia voltar. [risos]

Pai: É patinho.

Mãe: Que seja.



Voltar a minha casa faz bem. É a casa dos meus pais, mas minha também. E nem é pelo peixe com leite de coco que minha mãe faz. Divino. E não só pelo arroz que eu nunca consigo fazer igual. Não é pelo meu pai esperando o momento certo de me pedir para corrigir “umas coisinhas”. Nem para matar a saudade da minha irmã, que até esses dias era uma menininha e agora passa esmalte nas minhas unhas e insiste para eu ensiná-la a se maquiar.

Para viajar, desafio até meu sono de pedra e decido encarar o ônibus que sai mais cedo. Mesmo com as cervejas da noite anterior, que me fazem chegar tarde e arrumar a mala mais sem lógica, trazendo coisas que nem sei como foram parar lá dentro. Não importa, aqui estou. Em casa.

Um dia antes recebi a mensagem: “amanhã quer que eu te acorde para não perder a hora papai”. Assim mesmo, sem ponto. A gente se entende. Disse que sim, mesmo sem saber se ele leria. Não podia perder esse ônibus, não dessa vez. No final das contas, tive quatro criaturas para me tirar da cama. Do outro lado da linha, gente que queria que eu não me atrasasse, mesmo que fatos anteriores mostrassem ser isso a lógica natural das coisas.

Mas consegui. Cinco minutos antes, lembrei de pegar um jornal no qual publiquei a foto da minha irmã. Precisava carregá-lo para que ela o guardasse. Carreguei-o na mão e viajei com ele no colo dentro do ônibus.

Com a cabeça na lua, esqueci o dito cujo. Lembrei da bolsa, ao menos. E fui me lembrar do jornal esquecido só tempos mais tarde, quando já estava no carro com meu pai, em direção a nossa casa. Voltamos. Nem insisti, ele que sugeriu. Parecia entender que aquilo era importante. Mesmo meneando a cabeça, na certa pensando: essa menina ainda vai perder os filhos pela rua. Nada do ônibus. Fomos à garagem. “O que você esqueceu, moça?”. Não tive coragem de dizer que era só um jornal do mês passado. “Uma pasta de documentos”. Mas o ônibus já estava sendo lavado, em um posto do outro lado da cidade.

Meu pai nem cogitou desistir da ideia. Tomamos rumo. Cheguei lá, ainda deu tempo. Recuperei as páginas amassadas e rasgadas, mas a que mais importava ainda estava lá. Inteira.

Chegamos em casa só mais tarde e nem quis sair debaixo da asa deles. Também nem precisei abrir a mala, aquela sem nada realmente necessário. Aqui, na minha casa, tem tudo o que eu preciso. A paciência da minha mãe, suas histórias divertidas de trocas de palavras e sua comida de lamber os beiços. A inquietude da minha irmã, sua ânsia de querer me falar tudo de uma só vez e o orgulho que eu me vejo sentindo por ela. Meu pai, as respostas certas para tudo o que eu pergunto e a vontade de me fazer lutar, pelo que quer que seja.

Minha irmã não consegue tirar direito o excesso de esmalte das minhas unhas. Minha mãe só gosta de filme dublado. Meu pai é mais cabeça dura que eu, e insiste em viajar de ônibus, mesmo que de carro seja mais rápido e barato. Mas eles são capazes de salvar meu final de semana. E de ser o que eu mais preciso nesse momento.

Mais informações »

Dez

12 comentários
É o número que dá início a contagens regressivas. O primeiro que a gente grita no Ano Novo. É o tanto de dedos que a gente tem na mão. Mas só um deles, o indicador, eu uso para contar no calendário quantos dias faltam. Dez. As coisas que a mocinha detesta naquele cara, aquele que já morreu, no filme. Os negrinhos daquele livro, da Agatha Christie. Aquele que eu nunca li. As teclas do telefone, sem contar a estrelinha e o jogo da velha. Dez são os botões de números, que, teclados na ordem certa, transportam-me para a conversa de todo o dia. A conversa dá saudade. São dez os risquinhos, no relógio, entre um número e outro. O ponteiro tem passeado por eles devagar, o desgraçado. Dez mandamentos. Demorei um tanto para decorá-los. O número do mês do meu aniversário. Dez unhas, as do pé, para cortar. O total de letras do meu sobrenome gigante. A nota que a gente quer tirar, isso se o sistema não for sacana e considerar o máximo cem e não dez. Aí dez vira um. Mesmo sem a vírgula no meio, meu amigo, dez vira um. O número de linhas de cada número da tabuada para decorar na 3ª série. O total de minutos a mais de sono em cada apertada de soneca no celular. Dez era o tanto de aniversários que eu tinha quando a gente se mudou e quando a gente ganhou os cachorros. Dez era o número de vagas da casa de praia das últimas férias, mas a gente apertou e entraram onze. Se eu fosse paciente, dez eram os anos em que eu ia demorar para concluir as graduações e a pós, com um espaço de folga, porque ninguém é de ferro. Mas como eu queria ser de aço, decidi terminar tudo em metade disso. E hoje me sinto como se tivesse dez anos a mais. Um décimo, uma década, decágono. Pensei no dez porque faltam dez dias para te rever. Mas pensei tanto que já é dia dez. E agora só faltam nove. Ainda bem.
Mais informações »

Luto

12 comentários
Em quatro teclas, a palavra se configura na tela. E externa a palavra com uma letra a mais, a que costuma deixar tudo sem explicação. Acredito que luto tenha esse nome porque é palavra homônima do verbo lutar conjugado na primeira pessoa do singular. Eu luto. Porque enfrentar um luto é batalhar para aceitar, embora sua vontade seja não acreditar e escapar do que seus olhos lhe apresentam.
Eu sei que epistemologicamente luto não vem daí. Mas para mim faz sentido. Porque luto é singular. Quem está de luto, e luta, recebe o abraço, o apoio, a palavra amiga de gente disposta a mostrar que está ali. Mas o luto é só dele. Só ele poderá vivê-lo. Só ele é capaz de sentir completamente a dor que os milhares de cumprimentos desejam dividir. Dividir para distribuir o peso, para que se saiba que quem fica possui gente ao seu redor, disposta a ajudar a seguir em frente.
Mas a presença, a simples presença do outro, para quem luta no singular, conforta. Um abraço, um leve afago, um silêncio pronto a ouvir, um olhar para consolar. Estive disposta a tudo isso. Mas não é fácil presenciar a cena mais triste da sua vida e continuar com o propósito da fortaleza. Você desmorona, mas de preferência baixinho, para que ninguém veja. Porque é preciso. É necessário você ali.
Tentar viver o que sente alguém que sofre a morte do ente é atitude em vão. Porque você, você é o ser que fica. O que faz parte do mundo que fica. E segue, paralelamente, mas em vias muito próximas. E embora as palavras que você pensa em dizer escapem, embora tudo a ser dito pareça ser óbvio, você sabe do porquê de se estar ali.
A gente vê pessoas jovens morrendo sem sentido em todos os canais. A gente lê, fica horrorizado. Mas não imagina a dimensão quando se está lado a lado. A história dramática está passando diante de mim como um filme triste, tenso e com um final não definitivo, mas que se desenrola dia a dia, desolador.
O novelo da saudade e da dor que chega em diversas proporções não vão terminar. A lembrança fica. E fica mais. Mais de quem se foi permanece. Seja a vontade de conhecer o mar, o mundo, as letras. E o amor. Pouco tempo só, raros encontros, uma empatia espontânea. Tudo isso foi o suficiente. Para rasgar de tristeza. Para ensinar. Para deixar a dor melancólica, a dor por quem não vai voltar.

Mais informações »

Turbulência emocional

13 comentários

A semana nem acabou e eu já vivi aquelas gangorras emocionais que toda mulher louca transtornada e de hormônios à flor da pele conhece. Já fiquei muito triste, de não consegui esconder. Fechei a cara e questionei os sonhos, que viraram pó. Achei uma solução, quebrei a cabeça, desenhei esquemas. Me vi livre. Entreguei os betes, senti saudade, quis que uma catapulta me arremessasse para bem longe. Fiquei feliz, acordei não me cabendo em mim. Recebi notícias como quem recebe um presente de rei mago. Aí voltei, voltei a mim, voltei às páginas, desejei uma terapeuta, um banho de sais. Desejei você aqui. Senti cansaço, de quase fechar o olho. Tive de escrever, mesmo sem saber a mensagem. Soube a mensagem, mas não pude escrever, nem falar. Pedi uma trégua, mas tive de continuar, para terminar. Porque assim, desse jeito me veria livre. E a possibilidade de ter de novo a responsabilidade nas mãos fez os sonhos se esfacelarem entre os dedos. Tive ciúmes, senti o rosto arder, só de imaginar. Não tive forças para nada, engoli a comida. Acordei com o olho inchado, não senti fome. Deixei o impulso me levar, acabei com quatro passagens na mão. Duas de ida, duas de volta. Trocaria todas elas por um bilhete só de ida para qualquer lugar, lugar nenhum.


Mais informações »
 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine