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Mostrando postagens de Janeiro, 2009

O sonho e a morte

Sempre ouvi dizer que a gente nunca morre em sonho. De fato, quando criança, jamais sonhei que dava adeus ao mundo. Um acidente de carro, uma queda, um tiro e no momento exato, pá, eu acordava. Aquilo sempre me intrigou.
Não sei se a exceção já havia acontecido antes, mas sei que essa, foi, com certeza, a mais marcante.
Eu havia morrido, não soube como. E o sonho começava com meu velório. Sombrio, né? Tenho arrepios, só de lembrar. Um clima pesado, com pessoas de expressões graves, próprias dos que velam os seus. O cenário era uma igreja que eu nunca vira antes. O interior era escuro, abafado. As imagens sacras erguiam-se suntuosas, ostentando a riqueza do ouro maciço, fitando a todos a sua volta com altivez.
E eu ali, na primeira fila. Ironicamente, assistia a tudo de camarote. Não me recordo de quem estava presente. As pessoas não me marcaram, mas sim a aura que envolvia meu próprio velório e o que aconteceu a partir daí.
Saí de súbito do lugar e me dirigi a uma sala contígua, ainda den…

Me despeço e vou...

Chega a hora de dizer adeus. Engraçado, sempre imaginei o meu último dia aqui. Sabia que um dia iria embora, mas não imaginava uma despedida súbita. E sempre acreditei que quando fosse embora, levaria a mudança toda para outra cidade.
Continuo na mesma cidade e, talvez por isso, a despedida seja menos dolorosa. Ou não. Ainda estarei ao alcance dos seus abraços, ainda os terei ao alcance da minha visão. Por um tempo talvez eu ainda me esforce para me fazer presente. Ainda devo um último abraço para algumas pessoas que não estão aqui.
Acompanharei os passos que vocês darão sem mim, verei o que de bom cada um irá fazer, mas com um sorriso no canto da boca por ter feito parte disso tudo. E vai chegar um dia em que serei apenas uma lembrança, alguém que protagonizará uma história que começa como: “aquela menina que trabalhava uma vez na imprensa...”.
Parto em busca de um sonho. E, juro, não quero parecer clichê. Um sonho mesmo, uma coisa que cutuca aqui dentro e que vez ou outra me lembra …

Poetinha

Dei para ser romântica nos últimos dias. E me dou esse direito. Os românticos carregam no peito um pouco da melancolia do amor não correspondido, mas vivem com mais ardor. Sofrem sim, mas você não encontra um romântico que seja sendo blasé diante da vida. E ultimamente ando muy romântica. De dar dó. Pelo menos para os mais racionais. Romântica do tipo que sente falta e tenta aplacar com fotos e recordações a ausência do amado. Do tipo que se pega boca aberta, pensando no infeliz e no que ele faz naquele momento. Do tipo que dispara o coração quando fala com a pessoa amada. Do tipo que mareja os olhos quando escreve as três últimas frases. Donde estás, ó feminismo retumbante? Cadê aquela guria que há pouco tempo enojava-se com versinhos de amor? Morreu seca, coitada. A que vive agora quer viver enlouquecidamente una pasión. E, para isso, fere e vibra e prefere ferir a fenecer. A que vive ahora quer um dia naquele corpo de repente, morrer de amar mais do que pôde. Essa doidivanas quer,

O novo

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades (...)"
(Camões)


Não adianta lutar, na hora certa ele vem. Não na hora que você quer, não na hora que você se contorce e se debulha em lágrimas, ansiando por algo que te arranque, sem dó nem piedade, do marasmo da rotina. O novo vem quando é hora.
E chega como uma tempestade, devastando a erva daninha que se apoderou do corpo marcado pela mesmice. O novo destroi, faz barulho, chega chegando.
Com a autoridade que lhe conferiu o universo, o novo te sopra na cara que agora é o momento. O novo vem coroado de brilhantes, como coroas de reis que a gente vê hoje intocadas em museus. O novo mostra que nunca é tarde para esperá-lo. Quem sabe nem seja preciso esperá-lo. Talvez, corrijo, não seja preciso ansiá-lo fa…

Nevofobia

Sempre desconfiei de pessoas que tivessem pintas perto da boca. Não daquelas charmosinhas, a la Marilyn Monroe. Pintas grandes, cabeludas, a la Roseanne Barr, em Ela é o Diabo. Pintas como a dela me provocam arrepios. E era justamente nisso que eu não parava de reparar na cara da mulher da assistência do celular enquanto ela falava comigo.
- Moça...
- Ahn?
- Perguntei se está com o RG aí.
- Sim.
- Ainda está com o aparelho que lhe emprestamos?
- Aham... (Sim, estou com ele há cinco meses)
- E... Você ocupa bastante?
- Sim, né. (Você quer que eu diga que: não, não ocupo, ninguém me liga, ninguém lembra que eu existo?)
- Seu celular fica pronto no sábado – disse ela, enquanto pegava a autorização que eu acabava de assinar – Aí você devolve o que nós lhe emprestamos.
- Mas já?
- ... (do tipo, não foi o suficiente os CINCO MESES que você deixou ele mofando aqui?)
- Sabe o que é? Eu estou sem o carregador do aparelho que vocês me emprestaram.
- Quê??
- Na verdade eu esqueci numa viagem, mas uma menina d…

Meu tempo meu

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.
(Soneto XII, Shakespeare)


Esse poema já representou para mim, claramente, o que é a passagem do tempo. Ouvi em um filme e a cadência das frases me soou tão bela, mais até que seu conteúdo, em um primeiro momento, que procurei-o e acabei até usando-o em pesquisa científica na faculdade. O resultado é que fiquei uns dois meses como doida errante, tentando explicar o inexplicável, dar um foco objetivo ao que é demasiado subjetivo.
Vi que o tempo era como um rio, principal…

As máquinas e o esquecimento

Tenho uma relação com as máquinas (e com coisas em geral) que passa pelo esquecimento e pela capacidade da distração. Digo capacidade não no sentido de habilidade, mas porque acredito que só eu sou capaz de umas façanhas provocadas pela falta de atenção.
2009 mal começou e duas máquinas pifaram. A de fotografar e a que me transporta para o mundo. Pior, as duas por erros meus. A fotográfica foi na praia. Levei a bendita. Tirei muitas fotos e entre uma e outra grãozinhos minúsculos desgraçados de areia adentraram seu mecanismo. A partir daquele dia ela passou a ter vida própria. Ligava e não fechava, ou não ligava, ou se recusava a bater fotos. Ainda não a levei na assistência. Enrolada como sou, temo terminar o ano com ela encostada.O computador recusou-se a me receber de braços abertos e luzinhas piscando na minha chegada, depois de um mês fora. Não liga mais. E poucas coisas me deixam mais irritadas que ficar sem computador. Só porque ele ficou um mês ligado na tomada, em uma cidade…

Sem sal, sem açúcar e sem afeto

Já me disseram que eu meto medo nos homens. Ultimamente não ando assustando nem meninos na tenra idade, que dirá homens feitos. Já me disseram que eu sou complexa. Ah, para (agora sem acento diferencial). Meu pai me entende.A verdade é que eu não creio mesmo que eu seja assim. Talvez, devo confessar, eu seja um pouquinho só imponente e incompreensível. Mas isso faz parte do que no fundo se traduz como insegurança. E faz parte de mim fechar minhas comportas quando elas não sabem para onde escoar.Sob um certo ângulo isso deve se chamar autocontrole. Visto-me, ou tento me vestir, com a capa do autocontrole, mas ela é tênue e vez ou outra costuma cair. Principalmente quando ele entra na minha casa como se fosse sua ou ousa aparecer nos meus pensamentos, como se fosse completamente normal pensar mais nele do que em mim. Então eu quebro a cabeça para lhe escrever, para que nas poucas linhas eu não pareça ousada demais.Eu mal lembro meu nome e CPF, que dirá que tenho autocontrole, quando el…

A coisa que cutuca

“Há sempre algo de ausente que me atormenta” (Camille Claudel)

Nunca consegui defini-la bem. Só sei que vez ou outra ela aparece e sua presença me insiste que algo está errado. Pode ser diante de um lugar, uma pessoa, um trabalho ou uma situação. Quase sempre do mesmo jeito. Olho ao redor e parece que tudo está em perfeita ordem. Racionalmente falando, está tudo certo. Não há motivos para reclamar, pelo contrário, parece que tudo está sereno, correndo no curso certo. Mas aí ela aparece. A coisa que cutuca. Foi uma amiga que definiu assim o sentimento que ora quer nos impulsionar para longe, mesmo quando estamos acomodados em um canto tranquilo. E é justamente desse estado de dormência que a coisa que cutuca quer nos tirar. Afinal, se tudo está transcorrendo tão certo, algo deve estar errado. Porém, não são todos que sentem a presença da coisa. Nem são todos que a sentindo, ligam para ela. Eu a sinto, vez ou outra, quando jogo os pensamentos para o alto. Diante de um lugar, uma pessoa, …