Pular para o conteúdo principal

A casa vazia




"As casas são construídas para serem habitadas e não para serem contempladas" (Francis Bacon)

Se eu tivesse que resumir em uma palavra o que significa a ausência, diria que é uma casa vazia. A minha, quer dizer, a dos meus pais, me recebeu assim quando voltei de viagem. Não a lembrava dessa forma. Nunca a encontrei vazia. Na hora que descobri que haveria um desencontro, que minha família estaria viajando quando eu chegasse, não imaginei as múltiplas sensações que a casa vazia me proporcionaria.

Logo de cara, penei para abrir a porta principal, que necessita de sacudidelas e muita força de vontade para destravar. Sempre encontrei a casa aberta e alguém me esperando na sacada. Sempre encontrei também a televisão, o aparelho de som e a máquina de lavar ligados, todos ao mesmo tempo. As janelas constantemente abertas, assim como as portas internas. Uma corrente de ar é capaz de atravessar a varanda, a sala principal, a outra sala e atingir o quintal em poucos segundos, porque tudo está sempre aberto e receptivo à brisa que chega.

Não sei se é coisa de mães, mas a presença da minha está sempre em todos os cômodos possíveis, além do jardim, que, embora esteja impecavelmente cuidado, parece-me abandonado sem ela por perto.

Mas eu encontrei a casa, a casa do final da minha infância e da minha adolescência, sozinha e hermeticamente fechada. Em um bilhete, encontrei recomendações de não abrir as janelas, senão poderia dar trabalho para fechá-las antes de ir embora. Segui as instruções, mesmo derretendo com o calor insuportável que faz nessa cidade.

A casa, como é comum nessa época do ano, está respirando Natal. Há luzes, guirlandas e enfeites por todos os lados. Ao abrir a porta da sala, a primeira visão é de um pinheirinho majestoso. Há ainda toucas de Papai Noel cobrindo a ponta das cadeiras em volta da mesa, que está cheia de candelabros com velas de Natal. Perfeitamente condizente, se não fosse o fato de a casa estar completamente vazia.

Desde o momento em que abri a porta, dei-me conta de que seria penoso estar ali, mesmo que por poucos dias. A casa foi limpa e arrumada, como que o vazio esperasse uma visita importante. É próprio da minha mãe fazer a faxina da despedida, deixando tudo em perfeito estado, para não haver trabalho na volta, mas esse excesso de cuidado me exasperou. Era como se eu fosse alguém que teve que voltar antes ou alguém que nem tivesse ido. E de repente me senti uma estranha, sujando uma louça e a lavando em seguida, varrendo os lugares por onde passei, tudo para não deixar marcas. Senti-me ainda esquecida, como o personagem do Macaulay Culkin em "Esqueceram de mim".

Minha casa nunca foi de grandes festas e não é reduto oficial para se reunir os amigos. Mas está sempre cheia de vida, talvez por causa da energia da minha mãe, que passa o maior tempo da sua vida aqui, transformando a casa em um palácio de vida própria, um lugar aconchegante. Por isso é triste para mim encontrá-la vazia. Achei-a um pouco parecida com a casa dos Buendía depois que Úrsula, sempre tão ativa para recepcionar forasteiros com seus banquetes, vai envelhecendo e a casa se perde no hermetismo e arrogância de Fernanda.

Daqui a algumas horas vou embora e levo apenas o que trouxe e alguns pertences que ficaram para trás. Vou, enfim, encontrar os meus. Das sensações da casa vazia, não sei bem quais levo. Talvez nenhuma, porque em todos os momentos não quis me deter em nenhum canto, não quis reparar nos detalhes da casa vazia. Quero levar na lembrança a imagem da casa cheia, da casa aberta, da casa cheia de vida. É assim que quero lembrar da casa onde vivi e da casa que vez ou outra me recebe de passagem.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O reinado dos Castelões

Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente n…

Das esperanças

Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó. Vai passar. E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento. Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia. Diria isso mesmo depois de ter perdido um ou…

Prece de inverno

Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão. Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis. O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.
Desejei aquele cuid…