A coisa que cutuca

“Há sempre algo de ausente que me atormenta” (Camille Claudel)

Nunca consegui defini-la bem. Só sei que vez ou outra ela aparece e sua presença me insiste que algo está errado. Pode ser diante de um lugar, uma pessoa, um trabalho ou uma situação. Quase sempre do mesmo jeito. Olho ao redor e parece que tudo está em perfeita ordem. Racionalmente falando, está tudo certo. Não há motivos para reclamar, pelo contrário, parece que tudo está sereno, correndo no curso certo. Mas aí ela aparece. A coisa que cutuca. Foi uma amiga que definiu assim o sentimento que ora quer nos impulsionar para longe, mesmo quando estamos acomodados em um canto tranquilo. E é justamente desse estado de dormência que a coisa que cutuca quer nos tirar. Afinal, se tudo está transcorrendo tão certo, algo deve estar errado. Porém, não são todos que sentem a presença da coisa. Nem são todos que a sentindo, ligam para ela. Eu a sinto, vez ou outra, quando jogo os pensamentos para o alto. Diante de um lugar, uma pessoa, um trabalho ou uma situação.
Uma vez sentida e notada, você sabe que a coisa que cutuca está certa. Ela quer te mostrar que não é isso que seus sonhos lhe fizeram buscar. Ela quer te mostrar que por mais que você fuja, por mais que você a ignore, ela estará ali, manchando de cinza seus dias, deixando sério o riso que você teima em dar para provar que está tudo bem. A coisa que cutuca não pode ser relevada. Ela quer mostrar que um dia ela pode te abandonar, quem sabe. Não sem a dor da partida, a dor da separação, a dor da desistência para buscar algo melhor. A coisa que cutuca, no fundo, é sincera e quer o seu bem. E está doidinha para te abandonar para que você possa viver sem ela.

Sinto que, em 2009, eu a deixarei para trás.

0 comentários:

 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine