De assalto

Oito horas da manhã de plena quinta-feira. Luz do dia, céu claro. Rua vazia. Apenas eu, com os sentimentos rodando a mente.

Nem tanto sozinha.

Senti de súbito uma intuição que nunca tive. Um medo concreto. Por mais que minha imaginação possa ser fértil, às vezes pessimista demais, nunca ela se mostrou tão forte. Talvez ela tenha ajudado a tomar a atitude precipitada.

Após um relance de olhos, o homem ao meu lado avançou sobre a bolsa. Eu não quis soltá-la. [Depois, quando perguntada, respondi que a reação se deu para que ele não pudesse levar coisas que eu tinha. Coisas caras demais, duramente conquistadas].

Agora vejo que realmente foi o instinto. A raiva de dar de graça. Não deixar barato.

Realmente não foi.

Dor que corta o cerne da razão. Dor que te angustia, que te dilacera. Dor de se sentir impotente, fraca, sozinha, mesmo com o olhar de outras pessoas sobre você, acompanhando seu sofrimento.

Nesse instante, não importava a quantidade de olhos. A dor era só minha.

A violência não é somente aquela que produz cadáveres, que mutila corpos e que destrói a materialidade, ela é também aterradora, quando se reveste de desrespeito à dignidade humana. (MP)

Incredulidade. Raiva. Ver os instantes seguintes passando e não querer vivê-los. Sentir vergonha de sentir dor na frente de estranhos. Não querer demonstrar a fraqueza que sentia, que rasgava por dentro. Pior do que a dor física é a dor moral. Nunca entendi isso com tanta clareza.

Ser forte é vencer suas loucuras e encarar tudo de frente. Ser forte é ter o olhar firme e não esmorecer frente às dificuldades.

É difícil ser forte.

Penso ainda hoje naquele homem. No escuro da noite quando fecho os olhos e revivo a cena. Quando vou pegar o ônibus e o vejo em qualquer um que se aproxima. Penso nele com raiva nos dias frios. Em outros momentos, penso mais nele e nos tantos outros, que se sujeitam a fazer coisas em nome de qualquer vício, qualquer dificuldade.

A violência é a loucura do mal e a sua banalidade, para lembrarmos Hannah Arendt, pode ser mais danosa do que todos os maus instintos juntos. Não podemos perder nossa capacidade de indignação. (Carlos Vogt - O mistério da impiedade)

Defendo as políticas humanitárias, que visam ao respeito de qualquer cidadão, independente do que ele tenha feito. Não sou favorável à pena de morte, redução da maioridade penal. Para mim, pedidos que retratam chagas de uma sociedade injusta e vingativa, cega de raiva, guiada pela lei de Talião. Crime e castigo.

Isso não mudou depois do episódio. Sei que ele foi mínimo perto da dor de tantas vítimas da violência. Pessoas que perdem outras pessoas, pessoas que perdem movimentos, pessoas que perdem tudo. Todas unidas na angústia da impotência, do medo aterrador. Todas incluídas na roda viva dos atos violentos. Daqueles que a gente vê na tv e espera ansiosamente que não nos encontre na próxima esquina. Mas ainda sim o ocorrido me fez pensar.

Não sei que espécie de assombro ainda pode existir quando se conta uma história de violência. Já parece que tudo é possível. No meu caso, o maior estranhamento foi ter acontecido à luz do sol. O outro foi o fato do agressor não estar munido de nenhum objeto cortante. Excluindo o fato de ser uma pessoa conhecida, da qual as pessoas têm alguma pena ou o dever de se comover, o resto é normal. Ninguém mais se espanta. “Veja como a cidade está violenta”.

Lamento por todas as vítimas que têm de percorrer hospitais e delegacias depois do choque. Minhas visitas ocorreram sem maiores problemas. Mas é incrível como as pessoas ainda olham com olhar desconfiado para a vítima, como se pudesse encontrar algum motivo para que ela tenha sido agredida.

Um fato a mais na biografia. Mais uma estatística nos arquivos. Um receio a mais. Um motivo a mais para olhar para os lados.

E a vida passa. Mesmo que não venha o ônibus eu não posso parar. Não há pontos de partida ou de chegada para certas experiências. Elas se incorporam ao seu dia-a-dia, permanecem gravadas e um dia serão apenas uma história que será contada e alguém irá duvidar.

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