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Desabafo interior

"Da estátua de areia
nada restará
depois da maré cheia"

(Helena Kolody – genial)


Estou ficando impressionada com a quantidade de textos lidos nesses últimos tempos sobre perdas irreversíveis. Essas coisas que mexem com nossa vida porque nos fazem dar conta de que estamos realmente tomando decisões que nos afetarão pelo resto de nossas vidas... Nunca imaginei ao longo da minha infância e adolescência que um dia eu fosse tão responsável pelo meu futuro... Lembro-me vagamente de quando ouvia na televisão que o Brasil poderia sediar a Copa de 2006... 2006, 2006, aquele ano parecia tão distante! E agora 2006 passou, levando sonhos, lembranças e convivências.. Começa um novo ano e a cada dia sinto nos ombros o peso de decidir bem mais do que a cor da minha mochila, o que vou fazer no meu aniversário ou o que quero de presente... Estou escolhendo a cor do meu vestido de formatura (e por mais que isso pareça banal, nunca pensei q um dia essa faculdade fosse acabar, que eu ia precisar um dia procurar emprego, porque, naturalmente, ele estaria a minha espera na porta de saída da universidade). Estou decidindo o que vou fazer da minha vida (e não no sentido metafórico. Tenho que decidir para onde vou, como irei me virar, que rumo tomar). E decido ainda o que eu quero para minha vida, tomando decisões que podem mudar todo o sentido das coisas... Não há como eu não pensar em Lei de Murphy ou Teoria do Caos nessas situações. A primeira pelo pessimismo que eu ínsito em sentir. E por sempre desconfiar que outra opção poderia ter sido melhor (mas aí já é tarde). A segunda por me dar arrepios acreditar que tudo o que fazemos pode mudar drasticamente o que virá depois. Castigo dos céus? Eu sempre imagino o pior mesmo... Mas o que mais dói é estar em uma batalha constante entre o que eu julgo estar condizente com as minhas reais necessidades e o medo de me decepcionar. O que fazer quando você acredita que realmente precisa fazer algo, interromper ou retomar o que estava indo em um caminho natural porque simplesmente sua mente diz que chegou o momento? E se quando você toma tais decisões depois se arrepende e julga que pode não ter sido o melhor? Parece puro ressentimento e arrependimento, né? Mas não. É simplesmente pensar na vida quando ainda dá tempo, quando ainda se pode lutar contra o que parece ser irreversível. Li um texto em uma revista de uma mulher que procurava um apartamento para morar e o primeiro que encontrou foi justamente o que ela se apaixonou. Ela conseguiu descrever com sensibilidade tudo o que a tocou no lugar, desde a pintura, a vista, a calmaria do bairro. Porém, ela decidiu que seria cedo para escolher justo o primeiro e decidiu por procurar outras opções.. Ela esperava encontrar algo melhor, não tão antigo e sem infiltrações.. Na verdade, esses defeitos eram só desculpas esfarrapadas para seu inconformismo. Em toda a procura, o primeiro apartamento não saía de sua cabeça. Então ela decidiu voltar até o lugar. Foi então que se deu a surpresa: a placa de “aluga-se” não estava mais lá. O que se segue em seu relato é uma impressionante retomada de sua vida e de todas as coisas que ela decidiu renunciar e interromper por achar que poderia encontrar algo melhor. Isso incluía empregos, amores, moradias. Como disse ela, acabou chorando por todas as portas entreabertas que ela deixou pela vida... Outras pessoas quiseram fazer dessas coisas perdidas moradias... E mais uma vez, ela perdeu a plaquinha de “aluga-se”.. Aí é tarde demais... E eu me identifiquei demais com essa história de portas entreabertas. Deixadas por puro medo de a gente decidir de vez pelas coisas. Por acharmos que somos novos demais, inexperientes demais ou que simplesmente ainda não é o momento. Às vezes as opções não voltam mais. Mas nem tudo está perdido. Insatisfação é mesmo o que nos impulsiona a seguir em frente e não apenas se conformar com regras prontas, frases feitas, sinas traçadas, relacionamentos esfriados. É lutar pelo que se sonha, por ganhar o que deseja, por mais que se perca e se sofra um pouco... Nunca saberemos o que poderia ter sido e se não estaríamos também hoje insatisfeitos se tomássemos aquela decisão perdida. Nunca saberemos. O que sabemos é o que vivemos agora, nesse momento, porque até o ontem já era. Mas a preocupação não deixa de me atormentar, senão não seria eu. E penso hoje em 2030, já pressentindo o medo que estarei sentindo nesse futuro distante...

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