Enjoadinho

“Ninguém pode ser dono de um gato, mas eles podem abençoá-los com sua companhia, se quiserem” (Frank Engram)


Sempre quis ter um gato, mas a animosidade da minha mãe contra esses pobres animaizinhos me fez desistir. Uma vez, o destino até ajudou e trouxe um gatinho sem dono para minha casa. Depois que minha mãe chutou-o para longe do alto da varanda no segundo andar, o bichano simplesmente desapareceu e com ele minha vontade de ter um outro.

Mais tarde, quando passei a morar sozinha, os apartamentos sempre eram minúsculos e eu costumava viajar para a casa dos meus pais nos feriados, o que excluía as hipóteses de abandonar o animal ou levá-lo para junto de minha mãe.

Enfim, depois de 22 anos, consegui realizar meu sonho. Não vou tanto para casa e moro em um apartamento grande, que tem uma área de serviço capaz de abrigá-lo. O gato, bebê ainda, não tinha lar e veio ao meu encontro, que não tinha gato ainda. Anunciei a novidade aos quatro ventos e todo mundo fez aquela cara (conhecida já) diante de alguma novidade minha. Cara de incredulidade e com vontade de apostar quanto tempo eu iria agüentar. Não posso dizer que é fácil.

Depois de um tempo, pouco tempo, (uma semana só, diga-se de passagem), descobri por que muita gente não tem um gato. O meu parece que está aceso na tomada 24 horas por dia. Pula, salta, arranha, sacoleja e mia. Mia muito. Tenho que admitir que nesse tempo eu não contribui para ser a melhor dona do mundo e passei a repensar a idéia de ter um filho, por pensar no bem-estar da criança, é claro. Mas deixá-lo um dia sem comida (esqueci da ração, foi só), secá-lo no secador (prevenção da gripe! Dizem que filhotes são muito vulneráveis) e umas chineladas (meu lado Pinochet falou mais alto que o Piaget) nem foram coisas tão graves assim.

Aprendi a reconhecer um dono de gato pelos arranhões que traz pelo corpo. Minhas mãos estão cheias deles. Minha casa já sofreu algumas mudanças, tal qual um lar que recebe um bebê. Meu gato tem predileção pelo alto dos móveis, por um compartimento da minha mesa de computador e pelo banheiro. A porta vive fechada, ou então o tapete aparece magicamente infestado pelas suas necessidades. Comecei a entender minha mãe, não na parte que ela chuta o gato, mas na parte que ela diz que quando você tem um filho pequeno você torce logo para que ele cresça. Às vezes eu me acho ridícula gritando para o gato que ele NÃO PODE SUBIR NA MESA E NÃO PODE FAZER COCÔ NO CANTO DA COZINHA! VOCÊ QUER APANHAR? E logo depois me pergunto se ele está entendendo bulhufas do que estou falando, enquanto aponto teatralmente para os lugares e faço mil gestos como se ele fosse surdo. Por vezes, acho que ele me entende, como quando ele faz a mesma cara quando eu fazia para minha mãe quando ela desandava a falar sobre algo que eu fiz de errado. Esses dias, me peguei repetindo o mesmo discurso que toda mãe faz:

VEJA, VOCÊ NÃO RECONHECE O QUE EU FAÇO PARA VOCÊ!! Só porque fiz uma cama confortável para ele e ele insistia em destruir minha área de serviço.

Tem vezes que eu rezo para meu filhote crescer e deixar de fazer certas coisas. Já levantei às duas da manhã com os miados e rezei para não acordar na manhã seguinte com um abaixo-assinado dos vizinhos. Esses dias encontrei-o dentro do fogão, embaixo de onde ficam as bocas. Aí entendi que o ditado “a curiosidade matou o gato” pode não ter surgido metaforicamente. (Pausa para descobrir o motivo do estrondo e avaliar os estragos). Nesse tempo, descobri também que, se Deus criou o gato para que pudéssemos acariciar o tigre, alguns animais são mais tigres do que gatos.

Mas nem tudo são cocôs e miados estridentes. Tem a parte boa também. Pelo menos você não está “all by myself”, porque tem alguém que goste de você e que quer estar sempre ao seu lado. (e no colo, e nós pés e em cima da cabeça quando você está no sofá...). Tem alguém para fazer coisas retardadas e para você se pegar dando risada. E tem alguém que depende de você e com quem você tem que se preocupar. Isso parece ser parte do lado negativo, mas não é. Faz um bem danado. Dá até para se sentir útil (você não tem só um umbigo para cuidar), além de ter desculpa para recusar programas chatos, afinal, você tem que ficar em casa para dar atenção para o gato que foi castrado/está com diarréia/ não pode ficar sozinho, senão destrói todos os móveis (aqui as possibilidades de desculpas são infinitas). O fato é que já não me imagino sem ele, e parodiando Vinícius, acho que: gatos, é melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-los?

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