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Ensaio sobre o ensaio

Uma vez eu li um artigo falando que os críticos de cinema deveriam se ater não somente ao que viram na tela, ao filme em si, mas também a situações que vivenciaram ao assisti-lo. Como estava o cinema, cheio ou vazio? Foi sozinho ou acompanhado? A namorada dormiu em alguma parte? Na concepção do articulista, esses e outros detalhes fariam a diferença na sua crítica. Bom, isso aqui está longe de ser uma resenha fílmica, mas roubei a idéia e resolvi contar um pouco do detrás da telona, na minha ida ao cinema para ver Ensaio sobre a Cegueira, da obra homônima do Saramago.

Portanto, não irei contar que os personagens não têm nome e que não há como saber direito em que cidade ou país se passa a história - uma das exigências do Saramago aos diretores para ceder os direitos para adaptação. Não vou divagar sobre essa tentativa de universalizar os personagens e seus sentimentos. Esse tipo de informação a gente descobre rapidinho na internet.

O que queria contar é que cheguei atrasada (poucos minutos só) e ao tentar encontrar um lugar, sem enxergar nada, pisei em falso e quase caí um tombo. Uma baita ironia ficar “cega” ao tentar sentar para ver Ensaio sobre a Cegueira.

Em alguns momentos, eu tive vontade de ser como a Amelie e espiar a expressão das pessoas que estavam no cinema diante de algumas cenas chocantes, especialmente para ver a reação de quem estava ao meu lado. Qual será a expressão do ser humano em frente ao absurdo?

Eu quis chorar, mas tive receio. Senti minha fraqueza, sendo um pouco voyeur diante de cenas tão grotescas e me perguntando o que eu faria naquele lugar, naquelas situações.

Aprendi que alegria e tristeza não são como óleo e água. Elas coexistem. E meu sorriso se abriu um pouco ao ouvir isso. Eu ri em algumas partes, mas fiquei a maior parte do tempo chocada. O choque frente à cegueira do outro resume muito do que senti.

Depois de terminada a sessão eu fiquei em silêncio, por um tempo. Engraçado, uma matraca calada. O que falar sobre o não enxergar, depois de enxergar tanto? Minha visão de mundo mudou depois de assistir ao filme, como anunciava a chamada no cartaz?

Soube que muitas das cenas foram cortadas. Será que meu estômago agüentaria mais, ou eu seria como uma das mulheres que saíram antes de terminar o filme, exibido sem cortes, em uma das pré-estréias?

A primeira coisa que pensei quando vi o nome de Julianne Moore na tela, anunciando que o filme havia terminado, era na reação de Saramago sentado igual a mim, diante dos créditos (?) passando. Não importa a qual versão ele assistiu, se foi a mesma que eu acabava de ver. Qual deve ser a emoção de ver a sua obra adaptada, muitas vezes cortada, reescrita, transformada?

Saí da sessão com a sensação de um vazio, muito grande, dentro de mim. Um vazio por ter estado cega, junto com tanta gente. E banalizar os corpos nus, a condição animal, o estado primitivo do ser humano. E tive uma ânsia absurda de ver, ou melhor, de enxergar, muito, muito além do que está ao alcance dos meus olhos com astigmatismo.

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