Estrela da vida inteira

"Eu gosto tanto de você, que até prefiro esconder. Deixo assim ficar subentendido..."

A primeira evidência de que você apareceria na minha vida foi no natal de 92, quando a mãe não conseguiu fechar o zíper do vestido que tinha mandado fazer 15 dias antes. Não lembro do momento exato em que recebi a notícia, só lembro que, com o tempo, as lembranças foram se mesclando. A mãe vomitando dia e noite e no meio tempo atendendo pessoas na loja que mantínhamos na cozinha de casa. O pai me perguntando se eu queria menino ou menina e eu respondendo que menina seria melhor, porque aí eu teria com quem repartir todas as minhas bonecas. Lembro que ele me achou tão generosa naquela colocação que fiquei orgulhosa de mim mesma e a repetia isso com freqüência para toda e qualquer pessoa. É claro que as atenções em breve estariam voltadas para o novo bebê e eu já previa isso.

Quando a mãe engravidou de você, eu, a filha mais nova e detentora do título de princesinha do papai, já tinha sete anos, com um irmão de doze. Ninguém escondeu que você foi uma surpresa, que nada estava planejado. Mas não foi a falta de uma casa maior para cinco pessoas nem do que quer que fosse que haveria de ser problema. Era, afinal, uma nova vida que estava entrando, pela porta da frente.

A alegria do temporãozinho dividiu a família. Eu e meu pai esperávamos uma garota, já minha mãe e o irmão torciam por um menino, que se chamaria Jhonathan (sim, você escapou desse destino). No dia do veredicto, meu pai fez questão de levar todo mundo para ver a ultrassonografia. Os três ansiosos em volta da mãe acompanhavam cada gesto do médico e tentavam distinguir as manchas disformes na tela. Uma menina. Minhas bonecas teriam mais uma dona.

Como Jhonathan não nasceria, era preciso escolher outra alcunha. Rodolfo e eu decidimos por Sthephannie (estrangeiro e com vários encontros consonantais, a exemplo da primeira escolha). Você escapou mais uma vez, mas foi só porque a nossa empregada não conseguia pronunciar nada diferente de Fanê. Optamos ainda por Clara. (Não sei te precisar por que foi recusado, mas escapamos todos de uma grande ironia, já que você nasceu com a cor do verão).

Nessa época morávamos no terceiro andar de um prédio central na cidade. Você não deve lembrar disso, já que saiu de lá com 2 anos, mas a mãe costumava encostar na janela em frente à porta do nosso apartamento e ficar olhando lá fora. Um dia, nos últimos meses de gravidez, eu fiquei do lado dela e perguntei como iria ser seu nome. “Ah, podem ser vários” – ela disse, desfiando uma lista de opções. Lembro que um deles me chamou a atenção. Verônica me soou tão bonito, tão forte, que eu decidi que seria aquele. Sustento essa idéia até hoje, embora todo mundo diga que o nome já estava escolhido antes do episódio da janela.

A partir do momento em que você teve um nome definido, a espera tornava-se mais clara. E urgente. O pai comprava números de rifa e preenchia com o seu nome, da filha que ainda nem nascera. A mãe escolhia estampas de tecidos e mandava a costureira cortar em quadrados e fazer barrados, para que você tivesse várias fraldinhas iguais para cheirar depois que nascesse. Ela fazia isso para não correr o risco de você se apegar a um cobertor ou pano específico e carregar um trapo sujo e desfiado por aí. Um dia eu perguntei a ela o que iria acontecer se você não gostasse dos paninhos que ela havia destinado a esse fim. Lembro que ela parou, olhou pra mim, refletiu um pouco e respondeu brava: “É claro que ela vai gostar. Que coisa, menina!”

Na casa tínhamos dois escorpianos e dois virginianos. Como o médico avisou que você nasceria no final de agosto, eu e o pai vimos que perderíamos a maioridade no quesito nativos de um mesmo signo. Já tínhamos ganhado a aposta do sexo, então era melhor que o signo fosse o mesmo da mãe e do Rodolfo.

Você surpreendeu mais uma vez. Antecipou-se e nasceu dia 22 de agosto, último dia de Leão. E foi incrivelmente leonina, desde o primeiro choro. Ao contrário de mim, recusou todas as saias e vestidos que te pinicavam as pernas. Lacinhos no cabelo, nem pensar. Era uma menina e não uma boneca.

Eu lembro que na maternidade, depois que a enfermeira saía do quarto com você nos braços, eu ia de fininho para o andar de cima e ficava bisbilhotando você na janela do berçário. Achava perigoso alguém te confundir com os outros bebês, todos iguais. Devia imaginar, do alto dos meus oito anos, que como você tinha acabado de entrar na minha vida, eu poderia te perder a qualquer momento.

Quando você tinha quatro meses quase morreu, por incompetência de uma farmacêutica. Mas nada aconteceu, graças ao bom Deus. Com uns quatro anos você se perdeu no meio de um ginásio lotado, durante uma apresentação de patinação, em outra cidade. O Rodolfo era o astro de um dos números, em que cada patinador ia saltando sobre os anteriores e deitando no chão. Ele era o último e deveria saltar por cima de outros dez patinadores. Em um segundo de fôlegos suspensos e olhares atentos da família para o feito, você sumiu. E foi naquele momento que eu senti que você poderia não mais voltar. No silêncio e no desespero da procura, seus dois irmãos mais velhos se tornaram cúmplices, unidos pelo medo de ficarem só os dois. No final de algumas horas você foi encontrada pela minha mãe, que sempre sabia onde você estava, brincando com uma criança da sua idade.

Sua personalidade sempre foi forte, mas depois das primeiras palavras isso se tornou mais aparente. Para você as coisas não tinham os nomes que as pessoas as chamavam. Era por isso que água era ati. No seu primeiro dia de aula, a mãe fez eu aparecer na escola na metade da tarde para saber se você estava bem. “Está ótima” - disse a professora. “Depois que eu descobri o que era ati, tudo ficou ainda mais fácil”. As pessoas ao seu redor também ganharam apelidos. O Rodolfo, por exemplo, era Papo e você se apresentava como Pipi. “Qual é seu nome?” – perguntavam. E você na lata: “Pipi!” “Não! É Verônica, Ve-rô-ni-ca” - a mãe insistia. “Pipi”.

Se eu fosse listar todas as lembranças que eu tenho de você, poderia falar por horas. Coisas boas e ruins. Engraçadas e chatas. Você já teve insolação na praia, porque não gostava de beber água toda hora. Já bateu a cabeça na persiana e ficou com olho roxo, em pleno réveillon. Já foi pega pulando o muro da escola para fugir, com incríveis três anos. Já trocou a chupeta por um teletubbie. Já levou mordida de cachorro e ficou chorando por horas.

Eu confesso que eu não gostava quando a mãe não me deixava sair de casa para cuidar de você. Que eu chorei de raiva quando você riscou minha apostila, meus diários e tudo mais com vários eeeeeeeeeee. Confesso que eu perdia a paciência quando você ficava pulando em frente à televisão, quando conseguia tudo o que queria porque era a mais nova.

Mas eu também confesso que sem você, minha vida não estaria completa. Sem as lembranças das vitaminas de abacate, das trocas de fraldas, do “Boa noite”, antes de dormir, acompanhado por “Não vá desligar o abajur ou fechar a porta!”, porque você tem medo de escuro. Confesso que fiquei emocionada quando você disse Tati pela primeira vez. E que ri muito porque você não conseguiu falar Rodolfo. Que quando eu ensinei as letras antes mesmo de você freqüentar a escola e você reconhecia na rua que o E era “a leta do pai” e S “era a leta da mãe”, eu pulava de alegria por dentro. Confesso que eu gosto quando dizem que somos parecidas, porque isso me torna um pouco mais bonita, como você. Confesso que é quando você diz o tão esquecido “eu te amo” lá em casa, é aí que eu lembro mesmo o quanto eu amo, você e a família inteira.

Eu me orgulho. Não só de você ter sido a escolhida para representar o colégio, porque isso eu já imaginava. Eu me orgulho por fazer parte de quem você é hoje. Por você estar crescendo, por estar sempre fazendo as escolhas certas...

E eu te amo justamente por você me amar, mesmo eu indo contra a um monte de coisas que você, com a maturidade inexplicável dos seus quinze anos, sabe que estão certas. Por você estar sempre presente, por mais que ausente. Por ter medo de te perder e, principalmente, por você ter nascido e me mostrado o que é o amor de uma irmã.

1 comentários:

{ Renata Frigeri } at: 22 de agosto de 2012 20:01 disse...

Texto lindo, Tati! Lindooooo!

 

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