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Judite

"Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra." (Bernardo Soares - Fernando Pessoa)

Judite abriu os olhos na manhã de domingo e percebeu que se encontrava sozinha. Não apenas sozinha na cama, sozinha no quarto ou sozinha no apartamento. Percebeu que em todos os anos da sua vida jamais havia sentido a solidão naquela dura forma.
Tão sozinha que o quarto já pequeno a sufocava e não deixava espaço para ela respirar qualquer mágoa. No segundo seguinte ela sentia como o mural de fotos à sua frente: vazia. Como se nada no mundo pudesse preencher sua dor, sua solidão.
E Judite chorou. Chorou para extirpar seus demônios, chorou por um tempo, mas logo parou. Nem as lágrimas nem os demônios a acompanhavam mais e ela se encontrava inteiramente só.
O silêncio das lágrimas secas do seu rosto misturou-se com a solidão de seu quarto e com o vazio de sua existência. E Judite quis chorar, como quando era criança e o irmão mais velho lhe batia quando a mãe não estava em casa. Primeiro ela chorava de dor, depois de raiva e, mais tarde, quando as lágrimas não lhe vinham, ela forçava o choro para que a mãe chegasse e lhe visse chorando. Em vão. A dor era passageira, a raiva se dissipava e ninguém vinha lhe salvar ou se comover com seu sofrimento. Estendida na cama, agora ela se encontrava como se encontrava escondida atrás do sofá anos atrás: sozinha.
Tentou imaginar a morte de um amigo, a falência total e todas as dores possíveis para continuar chorando. Mas ela sabia que todas as dores possíveis seriam minimizadas e seriam misturadas em um misto de dor e silêncio, enquanto a solidão dominaria tudo. Judite saberia que depois de todas as coisas só lhe restaria ela mesma. E não gostava de sua companhia.
Tinha medo de ter depressão. A sensação de impotência diante de uma tristeza infinita lhe causava espanto. Mas quando pensava nela mesma e no que havia feito até ali, sentia-se apenas vazia. Vazia e sozinha.
Perdida em seus pensamentos, Judite percebia que não era boa o suficiente para pessoas que não eram nada. Ela sabia que usava m´scaras infinitas, quando se aproximava de algumas pessoas, na tentativa de chamar-lhes a atenção ou conquistar-lhes. em vão. No fundo ela tentava preencher o vazio de sua existência com poses, gestos e gostos que não eram os seus. Nenhuma delas era Judite, porque Judite era vazia.
pensou se alguém a invejaria. A mãe insistia-lhe em dizer para tomar cuidado com pessoas carregadas de más intenções e maus olhados. E Judite pensava nesse momento que ninguém haveria de fazer mal a uma pessoa oca, vazia, incapaz de lutar contra o quarto que a sufocava.
Naquele domingo judite dormiu e acordou diversas vezes. Depois de anos de obrigações cumpridas, prazos duramente vencidos, ela não sabia o que a impedia de sentir o sol e o vento lá fora. Simplesmente porque depois de tudo, Judite encontrava-se sozinha e não enxergava utilidade para ela mesma. Era somente uma menina sozinha. Sozinha e vazia.

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