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Luzia

"Escrevo sobre isolamento e ternura, a perturbadora ambivalência nossa, frivolidade e covardia, às vezes a graça e o riso." (Lya Luft)

Luzia tinha esse nome por causa da santa, padroeira da visão. Não que sua mãe fosse beata de igreja. Pelo contrário. A tia era prostituta e a mãe engravidou do caixa do supermercado em uma tarde nublada de outono, entre um turno e outro de trabalho. O pai nunca assumiu a filha e foi a tia, com a renda de um mês, que pagou todas as despesas do hospital e lhe comprou um enxoval cor-de-rosa. Disse apenas à irmã que colocasse um nome de santa na menina, para tentar evitar que ela tivesse um futuro sórdido. A tia riu quando foi convidada para ser madrinha, dizendo que o que ela poderia ensinar à sobrinha não poderia ser dito em voz alta na igreja. A menina terminou por não ser batizada e recebeu o nome semanas depois de nascer, quando então a mãe lembrou da medalha de Santa Luzia que seu pai carregava sempre com ele, desde que passou a sofrer com a visão. O avô havia sido da Marinha e sempre contava histórias mirabolantes, que mais pareciam delírios da imaginação de um pobre senil. Luzia ouvia tudo, sempre muito quieta. O avô lhe contou histórias até quase à beira da morte, quando a neta lhe guiava os passos, pois era a única que parecia enxergar o velho moribundo.

Desde cedo aprendeu mais a ver e ouvir do que falar e agir. Havia dias inteiros que a mãe passava sem notar sua presença, de tão apagada que se tornava sua existência. Luzia, calada, percebia detalhes que ninguém mais enxergava. Desde a tinta da parede da sala que começava a descascar, lá do alto, até as armações do filho do vizinho, que contrabandeava coisas no quintal.

Luzia ficou um bom tempo sem ir à escola, mas quando foi viu que a professora não suportava mais trabalhar e que sua letra na lousa era mais torta que as linhas do seu caderno. A garota perdeu o interesse pelos estudos e preferia olhar todos os detalhes escondidos na sala de aula e fora dela, como quando a professora esperava os alunos sair para o intervalo para ficar na sala chorando sem parar.

Mais tarde viu o avô morrer, desgostoso por não ter casado as filhas e bebendo garrafas e mais garrafas que empilhava atrás da cômoda.

Na paisagem múltipla que desfilava diante dos seus olhos, Luzia via o tronco desalinhado das árvores, as manchas na Lua, a revoada de pássaros negros e fotografava tudo na memória.

Ela cresceu assistindo à televisão, mas sabia que os programas mais emocionantes passavam além da sua janela, embora ninguém notasse.

Luzia via crianças que brincavam na piscina azul, tão azul que parecia o céu e assistia enquanto elas brigavam por um brinquedo qualquer.

Ela via o caseiro que varria com ar triste as flores e folhas que caíam das árvores e acompanhava o balé que elas faziam no ar, dispersando-se antes de serem recolhidas. A menina via a tia chegar batendo os dentes de frio, com a maquiagem borrada e as roupas curtas demais, trazendo consigo o raiar do dia.

Luzia via a mãe com o nariz vermelho de tanto coçar, reclamando da alergia que o pólen das flores lhe provocava. Mas o que Luzia mais gostava de ver era a paisagem proporcionada quando ela deitava de barriga para cima debaixo de uma grande árvore florida, e nessa posição via o galho das árvores e as flores impressos no firmamento.

E Luzia via as luzes de Natal, os fogos de artifício e recomeçava mais um ano a ver e rever todas as coisas. Tinha como um estigma a capacidade e a condenação de observar tudo à sua volta, sem conseguir transmitir com fidelidade tudo o que via. Seu olhar era diferente, porque seus olhos e ela própria pareciam diferentes do restante do mundo.

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