Pular para o conteúdo principal

Meu tempo meu



Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.
(Soneto XII, Shakespeare)


Esse poema já representou para mim, claramente, o que é a passagem do tempo. Ouvi em um filme e a cadência das frases me soou tão bela, mais até que seu conteúdo, em um primeiro momento, que procurei-o e acabei até usando-o em pesquisa científica na faculdade. O resultado é que fiquei uns dois meses como doida errante, tentando explicar o inexplicável, dar um foco objetivo ao que é demasiado subjetivo.
Vi que o tempo era como um rio, principalmente para a geração de escritores adeptos do fluxo de consciência, como Woolf ou Joyce. Soube que alguns se referiram ao tempo como algo que escorre entre as mãos. Além das comparações, estudos se debruçaram sobre a introdução da marcação do tempo na sociedade moderna, antes tomada pelo bucolismo, depois pela profusão das máquinas e do trem, modelo máximo da civilização e da importância do tempo a partir de seu surgimento. O que concluí mesmo, com as dez páginas em punho, é que cada um tem a imagem do tempo da maneira que lhe convém. Cada um tem o tempo que merece. Cada um faz do seu tempo o que quer.
Quando acordo atrasada, evito olhar no relógio, que fica no alto da cozinha, o que, segundo minha companheira de apartamento, é sinal de opressão. O fato é que diante do atraso, prefiro não olhar, porque não olhando parece que o tempo vai passar mais devagar. Já funcionou, pelo menos na minha percepção.
Quando eu preciso ir a pé a algum lugar, que se localiza em uma distância que se situa entre: não muito perto e não muito longe, calculo sempre quinze minutos. Tenho que ir a tal loja do Centro, quinze minutos. Até aquela pizzaria, quinze minutos. À casa de fulana, quinze minutos. Claro que sempre calculo mal. Ou chego atrasada, ou adiantada. No fim das contas, acho que nunca chegarei em nenhum lugar em cravados quinze minutos.
O tempo ou a marcação dele podem ser traiçoeiros. Já fui enganada pela mesma colega de apartamento, que imaginou que o horário de verão começava uma semana antes. Cheguei uma hora mais cedo no trabalho e dei com a cara na porta. Não foi por querer, lógico, mas o castigo dela veio a cavalo. Ou melhor, de ônibus. Ficou uma hora na rodoviária ao Deus dará por ter se esquecido de consertar a falha no seu celular.
Cada coisa tem seu determinado tempo, como diz o Eclesiastes. Tempo de colher, amar, chorar, sorrir, etecétera, etecétera. Eu, no atual momento, nem preciso de tempo para tudo isso. O tempo das mil atividades em um dia já passou.
Quero só um tempo que corra macio, como na música do Pato Fu. Quero rebater com taco de golfe o tempo que se arrasta lentamente nas situações chatas e quero uma ampulheta quebrada quando eu estiver me divertindo. Quero um tempo que escorra por entre os dedos sim, mas que o que passou fique lá embaixo para eu revisitá-lo quando sentir vontade. Um tempo que me permita olhar para a frente tendo a possibilidade de voltar meus olhos para ele se assim desejar. Sem nostalgias. Só para catar reminiscências, como se recolhe conchinhas na praia. Elas podem ser guardadas, admiradas, ou jogadas de volta na areia. Quero ter o poder de fazer o que quiser com as minhas recordações. Quero um tempo de lembranças perenes e dores voláteis. Quero um tempo que mereço, para chamar de meu.

(Texto publicado no Portal Comunique-se)



Comentários

Alyne disse…
hoje mesmo aconteceu uma coisa engraçada com meu tempo - nada tão profundo como o que vc escreveu - mas meu celular deu pau e tava adiantado umas duas horas, acordei pensando que já era meio-dia, p. da vida, lógico. só depois fui ver que ainda eram 10h30, fiquei tão feliz com isso.
Alyne disse…
hoje mesmo aconteceu uma coisa engraçada com meu tempo - nada tão profundo como o que vc escreveu - mas meu celular deu pau e tava adiantado umas duas horas, acordei pensando que já era meio-dia, p. da vida, lógico. só depois fui ver que ainda eram 10h30, fiquei tão feliz com isso.
Tati de cara nova!
Não tinha visto ainda, mas tá aí, gostei.
Inclusive do nome!
E do texto, só pra variar.
Saudade, Tati.
Rita disse…
Continua apavorando no endereço novo e deixando nossos momentos nostálgicos em frente ao computador, soarem como não sendo os únicos e de certa forma, relevantes.

Valeus, adoro!
Diangela disse…
A-M-E-I, Tati!! Sem palavras (e vc sabe que eu digo isso pq tô sem mesmo, senão eu diria).
Sempre fantástica. beijo.
Elaine disse…
Adorei a soneto de Shakespeare! Mas quem não ama!??
Teu texto maravilhoso!
Mas o tempo também pode ser implacável! Passa e agente não acompanha! Como em o "Menino Maluquinho" de Ziraldo ele passou e apesar de tudo ele teve que crescer!:(
Mas também pode ser nosso aliado! É só saber respeita-lo!
Belo texto !Adorei o BLOG! Te add....!:)

Beijos
Elaine
Michele Matos disse…
Isso...existe um tempo pra cada coisa.
Vou parar de calcular 5 minutos da pensão até a rádio.
=**

Postagens mais visitadas deste blog

Das esperanças

Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó. Vai passar. E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento. Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia. Diria isso mesmo depois de ter perdido um ou…

O reinado dos Castelões

Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente n…

Prece de inverno

Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão. Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis. O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.
Desejei aquele cuid…