No quarto sem papoulas

"Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo"
(Trecho de Motivo, Cecília Meireles)

Minha cômoda tem gavetas que caem a toda hora. Conserto-as, vez ou outra, mas elas insistem em cair novamente. As gavetas me vencem. Meu mural tem fotos que voam com o vento. Uma corrente de ar e lá se vão recordações e ímãs, espalhados pelo chão. Ou fica a janela fechada ou tenho mural vazio. Fecho a janela. Uso o computador 10 horas por dia, conectada com as janelas que piscam. Frases entrecortadas, despedidas bruscas, mal entendidos. Fecho as janelas e deleto pessoas. É mais fácil não vê-las. Finjo não ver os projetos de leitura que me espreitam à noite, esperando urgentes que eu os leia. Pilhas de livros, coleção de revistas e até o folheto da igreja que carreguei solene, para ler a mensagem final. Na varredura periódica os projetos só terão três destinos: descartados, devolvidos, empilhados. Sempre sem serem folheados.

As roupas que não uso mais poderiam ser doadas. Resolveria o problema das gavetas. As mesmas fotos estão no mural, desde que ele foi pregado ali. Não quero trocar as pessoas da minha vida, talvez só trocar a paisagem do meu mosaico. Ou olhar mais para além da minha janela aberta. E além da janela virtual poderia viver mais minha própria vida. Se eu saísse do meu quarto, deixaria de ser dublada e falaria, caminharia e faria caretas de verdade, não de forma mediada. Carregaria comigo meus projetos e os leria sem pressa, conforme a minha vontade. Fora da pilha e do quarto intimidadores eles não me pressionariam.

O quarto é pequeno, mas fácil de varrer. Varro sempre que posso, para limpar e pôr as coisas em ordem. Mas varrer é paliativo, demasiadamente efêmero e rotineiro, como arrumar a cama. Sei que vou desarrumá-la novamente. Assim, varro para esconder dos meus olhos a sujeira. E o quarto limpo e sem mácula descortina diante de mim a verdade: é quem habita ali que precisa, urgente, de uma varredura.

Sim, tudo verdade...

0 comentários:

 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine