O gato na primeira infância

"Lutei para escapar da infância o mais cedo possível. E assim que consegui, voltei correndo pra ela". (Orson Welles)

Meu gato deve estar agora com uns nove meses, o que deve equivaler a cerca de três anos na escala humana. Digo isso porque é nessa idade que as crianças começam a querer fugir de casa. O gato cismou de achar que a casa do vizinho é melhor que a nossa. Volta e meia toca a campainha e quando vou atender é a vizinha segurando o bichano no colo. É, de novo. Dou meu sorriso amarelo, brigo com ele, mas de nada adianta. É só deixar a janela do meu quarto aberta que ele escapa para a janela ao lado, do vizinho, que se não tiver aberta ele dá um jeito de abrir com a patinha. Esperto ele é, não dá pra negar.

Contei para meu pai das costumeiras fugas do Polaco e ele rebateu dizendo que eu era igual a ele quando criança.

- Quando você tinha uns três anos, se a gente brigava com você, você pegava umas roupas na gaveta, enfiava numa sacola e saía de casa.

- Hahaha E eu ia para onde?

- Saía dizendo que ia para “patubanco” (Pato Branco, cidade a 30 km da minha casa).

- E ninguém ia atrás de mim?

- Não, você ficava na escada chorando e depois de alguns minutos voltava para casa como se nada tivesse acontecido.

Parei para pensar se eu ando tratando mal o gato para ele querer fugir de casa. E parei para pensar se ele voltaria, assim como eu fazia.

Antes de desligar o telefone, senti que remexer nesse passado acabou mexendo com o meu pai. Depois de dizer tchau, senti nele o silêncio, aquele silêncio conhecido já, da nostalgia. Acho que ele sentiu saudades do tempo em que eu saía de casa, mas acabava voltando. Hoje ele sabe que eu não volto mais.

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