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Poetinha


Dei para ser romântica nos últimos dias. E me dou esse direito. Os românticos carregam no peito um pouco da melancolia do amor não correspondido, mas vivem com mais ardor. Sofrem sim, mas você não encontra um romântico que seja sendo blasé diante da vida. E ultimamente ando muy romântica. De dar dó. Pelo menos para os mais racionais.

Romântica do tipo que sente falta e tenta aplacar com fotos e recordações a ausência do amado. Do tipo que se pega boca aberta, pensando no infeliz e no que ele faz naquele momento. Do tipo que dispara o coração quando fala com a pessoa amada. Do tipo que mareja os olhos quando escreve as três últimas frases.

Donde estás, ó feminismo retumbante? Cadê aquela guria que há pouco tempo enojava-se com versinhos de amor? Morreu seca, coitada.

A que vive agora quer viver enlouquecidamente una pasión. E, para isso, fere e vibra e prefere ferir a fenecer. A que vive ahora quer um dia naquele corpo de repente, morrer de amar mais do que pôde. Essa doidivanas quer, diante do maior encanto, se encantar mais com seu amor em pensamento. E lhe pede desculpas, por amá-lo de repente, mas no fundo quer que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar estático da aurora. Quer forma mais linda de dizer que você quer anoitecer e amanhecer ao lado de alguém? Esse Vinicius de Moraes me inspira, rapá.

Conheci Vinicius na adolescência, na biblioteca municipal. Pegava os livros de sonetos, lia tudo. Os que eu mais gostava lia de novo e na terceira vez, já os sabia de cor. Lembro que quase caí dura quando li a sua Tatiografia e Redondilhas para Tati, que eu até decorei uma vez. Ficava pensando quem era a tal Tati por quem ele era apaixonado. Mulher de sorte aquela. Descobri mais tarde que de Tatiana não tinha nada, pois se chamava Beatriz. Era aristocrata e foi a única com quem ele se casou no civil, casamento que resultou em dois filhos. Era namorador demais o tal do Vinicius. Nove casamentos. Depois de Tati, a primeira, casou-se escondido, o que a primeira esposa não conseguiu perdoar. Nunca mais se reaproximaram. Puro orgulho, admitiu ela quando ele morreu.

Não sei se os sonetos que eu decorei e ainda guardo na memória foram para ela. Para quem tivesse sido, tomo-os emprestado, para recitar baixinho, para mim mesma, enquanto o meu próprio poetinha não vem. E vem, um dia? Não sei. Na dúvida, continuo tonta de amor, lendo e relendo entrelinhas, tomando doses diárias de hipérboles e pensando, vez ou outra, se caso mesmo ou se compro uma bicicleta.

Comentários

Tiozaum disse…
Estava mesmo esperando pelo seu texto, já que ontem vc disse q estava escrevendo... tava na expectativa, ehehe

Gostei muito do seu texto. Muito bonito... Fez eu me conectar com meu lado romântico também hehe ;)

Muito bom!

Beijo!
Não é muito bom comprar bicicleta em Guarapuava, acredite. Tem muita descida, que na volta transforma-se em subida, haha. Ah, vai com calma, que um dia o tal poetinha vem, pois eles existem... Vez ou outra estão fingindo não ser, ou ainda estão numa fase sombria, haha.
Bom, talvez a menina do meu texto seja uma espécie de Amélie, acho que existem aos montes por aí esses tipinhos, ;)
Até mais!
Prazer em ler.
Michele Matos disse…
Ah...Uma bicicleta eu posso encostar em algum lugar se não quiser mais, já um casamneto eu teria que levar mais a serio...me vê uma bicicleta.
Muito bom moça românticaaa!
Mauricio Toczek disse…
Ei! Bicicleta em Guarapuava é legal. Fortalece as panturrilhas e as coxas. Estou pensando em comprar uma. Se bem que no seu caso o marido poderia comprar uma bicicleta. Ou não. Ou sei lá. Ou sei. Não sei.

Ótimo texto :)
literomaniaca disse…
Nossa...quase nao consegui comentar essa vez. A barrinha do comentário não queria aparecer Tati..

Agora....esse Vinicius esse Vinicius..namorador...tsc tsc tsc..
eu também ando meio melancólica no blog ultimamente. Saudades de um ser ai...
Espero que esteja bem.

Beijos
Camila Reginato disse…
gostei de como escreve,dos textos das parafrases e tambem das entrelinhas, gostei tanto que agora me tornei uma seguidora ! Mesmo nao tendo minima ideia de quem é a autora, de tantos textos estremamente bem feitos!

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