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Prosa presa à poesia

"O passado é uma roupa que não nos serve mais" (Velha roupa colorida, Belchior)

O mundo dos sonhos é confuso, arredio e impenetrável.

Eu mesmo, que tão longe de ti estou,

Sonhei essa noite que aninhava a cabeça no teu peito

E tu me colocavas para dormir.

A cabeça colada ao peito, o ouvido acompanhando o compasso do coração.

E pensar que acordada não sei mais o ritmo que ele bate.

Não sei o que sentes, por mim ou coisa alguma.

Não sei com quem se deitas, se é a mesma da noite anterior.

Ignoro-o porque há muito não aninho minha cabeça no teu peito.

Será que o fiz, algum dia?

Quem sabe foi um dia antes de lançarmos os dados para escolher o vencedor.

A ponta das flechas lançadas penetrou certeira, no meu peito e no teu.

No mundo de Morfeu, teu peito bate compassado e me põe para dormir.

Tampouco o meu coração parece estar ferido, no sonho.

Repousar a cabeça no teu peito é gesto corriqueiro.

Como a conseqüência inevitável de dois corpos vulneráveis à presença e ao toque do outro.

O sonho é o reverso da vida.

Depois de abrir os olhos, o que se vê são dois corpos tensos, impenetráveis.

Distantes, no tempo, no espaço e nas formas de sentir.

Distantes pela escolha das flechas, pela direção do vento ou pelo sonho que não se penetra, enfim.

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