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Quase-morta



“Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu”. (Álvaro de Campos)


Todo mundo vai morrer um dia. De acidente, do coração, assassinado, afogado, queimado. Tem mortes mais inevitáveis que as outras, mas na verdade, basta estar vivo para morrer. Quando se tem uma filha de 22 anos, formada, sem nenhuma dificuldade aparente, esse conformismo deixa de existir e você caga e anda para a história da morte inevitável. Se puder evitar, faz o que pode!

Foi o que aconteceu com meus pais na última semana. Na verdade, foi nessa semana. Mas meu pai briga comigo quando eu digo que a semana começa na segunda e não no domingo. Enfim, foi na última segunda. Tirei as amigdalas, já contei aqui.

Seis dias depois da cirurgia tive um sangramento na garganta. Acho que foi pequeno, mas o suficiente para me alarmar. Chorei horrores. Ao me ver desesperada, meus pais ficaram mais nervosos que eu e desataram a falar para eu ficar calma (no tom mais alto que suas cordas vocais alcançavam). Só sosseguei quando fomos ao pronto-socorro. Cheguei lá, o médico de plantão (que me olhava esperando vim uma luz na sua cabeça para saber o que fazia comigo), disse que era pra ficar engolindo o sangue e esperar passar. Ééé, simples assim. Meu pai ainda brincou: - Podemos ir tranqüilos, então? Ninguém morre disso? Risadinhas de todos. Menos as minhas, envergonhada pelo escândalo “sem propósito”.

Cinco dias depois, portanto, onze dias depois da cirurgia, outro sangramento. Começou mais ou menos no meio horário que o anterior, dez da noite. Nem falei nada pra ninguém. Fiquei lá, esperando a porcaria do sangramento passar. Não passou, nem diminuiu. Estava lívida, mas uma hora tive que avisar minha mãe. Acho que sangrei umas duas horas seguidas e fiquei engolindo o sangue. Aí comecei a vomitar. Primeiro uma coisa indefinível, meio sólida, meio esponjosa, que saiu junto com um jato de sangue. A partir daí minha mãe me proibiu de engolir o sangue e eu comecei o processo de jogá-lo na pia do banheiro.

Decidimos ir ao pronto-socorro. Eu já estava tonta. Primeiro sinal de que as coisas não iam bem. Cheguei lá e fui direto para o soro. Mais um vômito e a certeza de que era preciso fazer algo. Apesar do frio que começava a sentir, ainda estava incrivelmente lívida, ao contrário dos meus pais.

Fui encaminhada ao hospital. No caminho, dentro do carro, ouvi meu pai balbuciar suas orações. Segundo sinal de que as coisas não iam bem.

Estacionamos o carro, erramos a porta de emergência e ficamos em frente a uma porta trancada e com uma campainha que não funcionava. Diante da insistência do meu pai esmurrando a porta, desmaiei. Acordei lá dentro, caída no chão e com um vendaval de enfermeiras ao meu redor. Minha mãe segurava minha mão e meu pai gritava, como que me dando uma bronca, que eu deveria reagir. Terceiro sinal de que as coisas não iam bem.

Colocaram-me em uma cadeira de rodas e o atendimento foi ali mesmo. Ainda ouvi meu pai gritar perguntando pelo médico (que não estava no hospital, mas em casa) e mandando a enfermeira chamá-lo às pressas.

A partir daí lembro-me de muito pouco, ou pelo menos com pouca linearidade. Duas enfermeiras empenhadas em achar uma veia no meu braço esquerdo, outras duas no direito, mais uma colocando-me o oxigênio, minha mãe segurando minha mão, com uma voz longínqua e insistente: - Como você está? E a do meu pai, alta e desesperada, que alternava entre: - Não dorme! e Reage! - quando eu não conseguia responder à pergunta da minha mãe.

Definitivamente, as coisas não iam bem. As veias não apareceram, em nenhuma das tentativas. Não sentia as inúmeras picadas, nem mais a mão da minha mãe, sentia somente um leve desespero. Nessa hora as imagens, que já estavam turvas, começaram a sumir por completo. E além das imagens, eu senti que estava sumindo de mim. Sem a visão, sem a percepção tátil, a última coisa a sumir por completo foi a audição. Ainda ouvia as perguntas da minha mãe (que buscavam saber até que ponto ia minha consciência) e as ordens do meu pai (para não desistir). Num breve instante tudo sumiu. E voltou. Conseguiram enfim, achar duas veias, que não dilataram e ali puderam colocar um soro em cada braço. Minha mãe disse que nessa hora eu gritei, dizendo que não queria morrer. Mas tudo estava se estabilizando. Ainda fui para o quarto meio delirando, com muito frio, com dois assombrados pais ao meu lado.

A primeira providência era a transfusão de sangue. Mas para isso teriam de ser feitos alguns exames. A bioquímica chegou assustada, tirada da cama. Ficou mais assustada ainda quando foi retirar o sangue e não saía nada na seringa. Voou para o laboratório e constatou que meu hematócrito (uma espécie de índice que tem a ver com a quantidade de sangue no corpo) estava em 17. Os níveis normais vão de 38 a 40. Segundo ela, para mim, abaixo de 36 já seria preocupante.

A ficha de tudo o que eu tinha passado foi caindo aos poucos. Quando recebi a primeira bolsa de sangue e de hemogel, já estava voltando a mim por completo. Aí pude ver mesmo o medo dos meus pais (de todas as vezes que eles viram um filho quase morrer, aquela tinha sido a mais assustadora). O médico veio ao quarto umas doze vezes durante a madrugada. Na primeira, respirou aliviado quando sentiu meu pulso. “Quando vi a primeira vez, quando você chegou, não sentia nada”. As enfermeiras vinham e comemoravam minha pressão: 9 por 6. Eu nunca tinha tido pressão tão baixa assim e fiquei me perguntando quanto tinha ao chegar. A temperatura também foi comemorada: 35º. O normal não é 36?

Minha mãe é a pessoa menos dramática para problemas de saúde que eu conheço. É daquelas que acreditam que quase tudo se resolve com uma aspirina, uma pomadinha ou uma mistura natureba. Ela é do tipo que faz uma cirurgia super complicada, chega em casa e já está fazendo faxina. Depois que ela me falou que eu cheguei no hospital cadavérica, com o olho fundo, mais branca que a parede e que ela achou mesmo que eu fosse morrer, eu passei a acreditar que tinha sido sério.

Ela passou comigo todas as três noites que fiquei no hospital. Não teve coragem de deitar na cama do acompanhante. Dormiu em um sofá duro, pronta para pular se me acontecesse algo. Não aconteceu. Durante o dia eu ficava praticamente sozinha, a não ser pelas ligações constantes do meu pai. Também vinha um monte de enfermeiras e até um povo da administração do hospital, curiosos pela história da menina “que fez uma cirurgia na garganta e chegou quase morta no hospital”. Eu sabia que meu pai estava por trás disso. Quando ele foi me buscar para irmos embora, fez eu dar tchau para um monte de gente. Na certa, conhecidos ou mesmo pessoas que ele conheceu nos corredores, para quem ele contou sobre o susto. Pessoas que estavam felizes de me ver bem.

No final de tudo, posso dizer apenas que aquele dia não vi não vi a luz no fim do túnel. E que depois não acordei para a gratuidade da vida, nem a vi com outros olhos, nem percebi que ela é curta e que eu deveria pular de bungee jump, pintar o cabelo de vermelho e fazer uma tatuagem, tudo ao mesmo tempo. Não. Tal qual resultei, o que vi mesmo é que meus pais me amam e que os meus amigos se importam... Ah, também vi que terei que agüentar a Diangela me chamando de quase-morta por um bom tempo.

P.S. A Diangela não só me proporcionou um pouco do humour desse texto. Eu roubei dela o poema que o precede. Digo, “roubei” porque foi através dela que o conheci. Hoje é seu aniversário. E eu desejo que nessa nossa vida quase-manca, a gente ainda tenha muito tempo para dizer a nós mesmas que somos fodas. Parabéns, loca véia.

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