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Rocambole

"(...)Um bicho igual à mim, simples e humano

Sabendo se mover e comover

E a disfarçar com meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica

Que só se vai ao ver outro nascer

E o espelho de minha alma multiplica..."

(Vinícius de Moraes)


Tem uma amiga minha que vive dizendo que vai montar um caderninho com pessoas divertidas que passam pela vida dela. Não conheço tanta gente assim, mas tenho certeza de que teria um caderninho recheado, se me propusesse a fazer um.

A dona da idéia me renderia um ótimo texto, não há dúvidas. Mas falarei hoje de outra, uma que entrou há pouco tempo na minha vida, mas de uma forma tão intensa que... nem sei. Se fosse pela cara de brava que ela tem e pela máxima que a primeira impressão é a que fica, teria um par de amigas a menos nesse mundo. Mas nem foi difícil se aproximar da mulher com pose de publicitária renomada, mais velha e que parecia confiar totalmente no seu taco.

Descobri que ela estava apenas começando faculdade de comunicação, na particular. E que era a segunda, porque a primeira, de Economia, na pública, ela largou faltando um ano para terminar. Viu que não era aquilo que era queria fazer pelo resto da vida. Simples assim. Um tapão na cara de quem gosta de correr atrás de títulos, não? Com um pouco mais de tempo descobri que ela também faz cagada (véio) de adolescente. E a confiança? Nem tudo é tão elementar, meu caro Watson, depois que você vê a fortaleza se desmoronar à sua frente bem na hora do almoço.

E por falar nisso, foi num almoço que ela me proporcionou a cena mais engraçada dos últimos tempos. Almoçávamos juntas na casa dela, às segundas. E o que mais a irritava é que na marmita desse dia sempre tinha bife. – Você não gosta de bife? – Gosto, mas o que me dá raiva é que nunca muda. O que me irrita é saber que na segunda-feira sempre tem e sempre terá bife.

Uma segunda, contando toda prosa uma história, na cozinha, ela fez a famosa brincadeirinha: - Ahh, o que será tem hoje? Que surpresa! Bife! E ao levar a marmita da mesa para a pia, eis que sabe-se lá como cai tudo de uma vez no azulejo: spagueti, molho sugo e os bifes, diante da cara incrédula e depois esborrachada de rir dessa que vos fala. É, Deus castiga. Tanta gente querendo bife pelo mundo e a outra vai encrencar com a falta de criatividade dos marmiteiros? Imperdoável.

Companheiras de trabalho, de bar, de festas com cara de cu, de tentativas frustradas de RPM às seis e meia da manhã, de sessões de filmes nostálgicos, de atolamentos... Ahn? E com quem mais aconteceria passar pelo primeiro atolamento com uma estátua viva toda dourada dentro do carro? E agora a melhor parte. Quem desatolou? A motorista desesperada e a caroneira embasbacada é que não iam ser. Tchanam! A estátua! É, eu sei. Não dá pra explicar.

É com ela que eu me sinto em um seriado norte-americano. Daqueles que os pseudo-intelectuais consideram enlatados bobos norte-americanos. E nós lá temos culpa de passar por situações e nos deparar com pessoas participantes do concurso Retardadices Cotidianas? Diante das nossas caras de “Meu pai do céu” só falta mesmo aquelas risadinhas gravadas.

Inventamos até prêmios: “Diarréia na ponte da amizade” (quando a pessoa é um porre, fala merda e você não tem para onde correr) “Calcinha atochada na missa” (quando a pessoa é um porre, te irrita, mas você tem que agüentar). E alguns outros impublicáveis.

Poderia passar horas falando da sua cara de boba quando conta uma piada, da sua gargalhada sem som, das suas tiradas de mestre. Depois de um tempo comparei-a com um rocambole: tem que dar algumas voltas para descobrir o doce que é por dentro. Você vai achar que é um texto meloso, mas não é. Até porque ela também tem seus defeitos. Afinal de contas todo amigo tem, por mais que não os escrevamos nos depoimentos do Orkut. Um deles é que ela inventou a história sobre uma tal de queda da bicicleta que me irrita e que por nada ela desiste de continuar contando. Tudo mentira. Até certo ponto me faz rir a safada, mas que irrita, ah, isso irrita.

Podemos ser personagens de seriados americanos sim, mas embora a gente lute muito, não há muito glamour. Tem até uns jantares de gala no script, uns fogs londrinos, mas também tem muito salgado emborrachado, muita fossa e muito álcool em copo e mesa de plástico. Somos parceiras na arte de NÃO ser estonteante, de NÃO ser fotogênica, de NÃO fazer aquele sucesso unânime, mas somos inteligentes, independentes (é...), temos bom papo e nos vangloriamos pela majestade em alguns feitos.

Às vezes, quando estou para baixo e faço uma afirmação daquelas que você quer ouvir a outra pessoa te dizendo o contrário e te animando, ela vem com um balde d’água fria. – Poxa, eu acho que nunca mais vou ter um namorado. – É, pois é.

Mas sabe do que mais? É dessas pessoas que a gente precisa. Sinceridade e parceria até na fossa. Porque um dia haveremos de ter uma cena de novela. E para falar bem a verdade, gente muito perfeita me cansa.

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