Sobre o tempo

(...) Quando se vê, já são seis horas…
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, já é Natal…
Quando se vê, já terminou o ano…(...)
(Mário Quintana)

Sofro da síndrome não do medo do fim, mas do início.
Pânico de começar, medo de decepcionar, teimosia de evitar o inevitável.
Como agora.
Em que o que escrevo aqui agora é apenas um subterfúgio para não fazer aquilo outro.
Porque eu sei que estaria fazendo aquilo outro, se precisasse escrever o que aqui agora escrevo.
E assim, substituindo o que deve ser feito com o que se faz subitamente, as horas e os dias passam.
A chuva cai e vem a estiagem.
O mês acaba e recomeça.
Há começos mais atrativos que outros.
É tão fácil comer um chocolate quando a gente tem que preencher folhas em branco.
É tão fácil descobrir músicas novas quando a gente tem que cumprir as obrigações.
Limpar a casa fica até fácil quando se tem que começar um tratado.
Se tenho tempo, não faço. Se não tenho, lamento.
Vou adiando o começo, sem saber que tudo para existir, começa do começo.
Vivo inconformada com essa falta de tempo e conto os dias no calendário para o dia em que terei todo o tempo do relógio.
E saber que nesse dia, não farei o que planejo, porque não irei começar.
Ignorando que nesse medo, o tempo vai se acabar.

0 comentários:

 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine