Sugestões coloridas em uma tela branca

"Pintada e não vazia, pintada está a casa. A cor de todas as grandes paixões e desgraças" (Miguel Hernández)

Ausência... Metafórica e literal. A primeira, porque a vida se esvai de mim, levando qualquer gosto de fel ou mel que a gente pode sentir. A segunda, porque arranca o que ao mesmo tempo faz bem e mal. E se esvai de mim, da mesma forma.

Hoje li que as imagens são lidas segundo a vivência de quem as vê. É o que lhes dá sentido. Assim, como a escrita, de certa forma mais explícita, que esconde sentidos que talvez só o escritor desvende. Pensei nos meus textos. Talvez ninguém os entenda melhor do que eu. Mas a possibilidade de lhe darem sentidos outros me impulsiona a continuar escrevendo, mesmo que pareçam tolices...

Mas será mesmo que esse desvendamento só ocorre com a escrita ou com as imagens, que convencionamos a reduzir a literatura e obras de arte? Talvez ocorra também com sentimentos, permeado também por escritas e imagens. Escritas trocadas. Por vezes, escritas cifradas. Imagens de pessoas ali, presentes de carne e osso, que juntamente com palavras transformam dias frios em doces dias. E imagens construídas, sonhadas, imaginadas. Imagens que captamos e reformulamos, mas que não serão concretizadas.

E assim a vida, da mesma forma que a oportunidade e a doçura dos dias, se esvai. Se foi fruto da razão, decidida à luz da moral, ou se foi mero reflexo de sentimentos, não se sabe. Sabe-se que foi, seguiu adiante no rumo da gaveta das lembranças, que serão apagadas algum dia pela vida afora.

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