Tudo pode ser dito no silêncio

Dos cais do silêncio partem brancas barcas

Para remotas estrelas dentro de mim

(Fernando Botto Semedo, Poemas do silêncio)


Essa semana estou de férias. De pernas para o ar na casa de meus pais. Ô, coisa boa. Fazia tempo que eu não ouvia a musiquinha de abertura da sessão da tarde e a voz do locutor do Vídeo Show. Não estou preocupada com o horário que vou acordar (e isso em plena quarta-feira!).

Pode parecer ótimo, senão fosse o motivo das minhas repentinas férias setembrais. Tirei as amigdalas, que tanto me incomodavam e que provocavam o espanto dos otorrinolaringologistas a quem consultei.

“Vai doer”, já tinham me avisado. “Ah, mas não deve ser uma dor insuportável, afinal todo mundo faz”. Ledo engano. Nunca passei noites tão mal dormidas, tanto que tinha medo de dormir e acordar ainda pior. Já achei que meu ouvido fosse explodir. Já dobrei a dose dos analgésicos e já recusei muita comida.

Essa, aliás, é a pior parte. Você deixa de ter fome, para desespero da sua mãe que passou a manhã cozinhando batatas e amassando-as para que você comesse. Embora você viva como se tivesse na Terra do Nunca (muito sorvete, muita coca-cola, muito milk-shake), as coisas te enjoam e cada colherada de napolitano te dá calafrios.

Você passa a invejar aquele bando de criancinhas que você viu na sala do pré-operatório. Você sabe que dois dias depois da cirurgia, enquanto você se contorce para engolir saliva, elas estarão saltitantes, comendo pipoca.

Mas o que mais aprendi nesses dias de reclusão foi como ficar em silêncio. Forçada, é verdade. Como não poderia falar, concentrei-me nas mímicas e em um quadrinho de anotações, para pedir o que eu precisava ou estabelecer uma espécie de diálogo.

Aos poucos, fui deixando-os de lado. Muita gente não acredita, mas eu sou muito tagarela. Com vontade. E descobri como é difícil não poder falar um ai, quando você está com dor, expressar sua opinião quando um assunto está sendo discutido entre os seus e responder à pergunta da sua mãe, que parece esquecer que você não pode falar e fica parada na sua frente, impaciente, esperando uma resposta.

Mas, ao ficar sem falar, aprendi que muitas coisas não precisam ser ditas. Se o essencial é invisível aos olhos, o essencial a ser dito não ocupa um terço das tagarelices cotidianas. Sim, é difícil ficar sem falar quando você quer, mas quando o faço, paro para refletir a importância do que seria dito. Aprendi a deixar meu pai divagar, enquanto eu o escuto e apenas abano a cabeça. Escutei muitas vezes minha irmã contar pela qüinquagésima vez sobre sua festa de aniversário, sem interrompê-la com perguntas chatas ou mudar de assunto. Ouvi minha mãe repetir que eu deveria tomar água de madrugada e forçar sorver um pouco de caldo frio de feijão.

As palavras machucam e a falta delas pode aproximar as pessoas. Sim. Sem elas, um beijo na testa, um abraço e um cafuné equivalem a mil demonstrações de afeto. Sem poder falar, eu, que sou amante das palavras, aprendi que o silêncio vale mais que mil delas.

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