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A urgência do fim


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a
funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar que
daqui para frente tudo vai ser diferente."

(Carlos Drummond de Andrade)

Noto que nessa época do ano, dos pisca-piscas e das compras esbaforidas, os ponteiros andam um tiquinho, pouca coisa só, mais devagar, pelo menos para mim. Paradoxalmente, o mundo todo parece sentir a ânsia de que tudo se acabe. Em dezembro ninguém começa nada de muito grandioso, mas só espera, quase que fatalmente, o fim chegar.

Cada dia a mais é um dia a menos. Cada folha que se arranca do calendário é a certeza de que o fim está iminente. Eu adquiri nos últimos anos a mania de contar nas folhas da agenda, e depois nos dedos, os dias que faltam para terminar o ano. Também me pego contabilizando os dias que faltam para as tão esperadas férias, ou, na pior das hipóteses, para o recesso entre Natal e Ano Novo.

Até agora tive sorte de pegar folga nesse período. Não me imaginaria passando o Natal longe da família e não consigo me ver trabalhando no dia 29 de dezembro, por exemplo, a não ser com uma corda no pescoço.

O fato é que entre todos - os que amam, os que odeiam e os indiferentes às festas de fim de ano - parece reinar o clima de "acabou". Os projetos estão para serem concluídos, não iniciados. Isso, a gente "deixa para o ano que vem".

E o "ano que vem", que a gente quase sempre usa para expressar algo que está realmente longe, está logo ali, batendo a nossa porta. Alguns temem a visita incômoda, mas nada fazem. Talvez porque sabem que é inevitável. O ano novo está chegando, independente da minha, da sua, da nossa vontade. Então, mesmo se você estiver de braços cruzados, no meio da estrada ou em Paris, com champagne ou com cidra, de branco ou de preto, o ano também recomeça para você, meu caro.

Genial foi quem inventou essa idéia de dividir o tempo em anos de doze meses, já disse Drummond. Dessa maneira temos a chance de projetar nossos planos em um curto espaço de tempo, sabendo que no momento em que nos sentirmos cansados para prosseguir e frustrados por não termos cumprido nossas metas, ouviremos a voz de Simone bradando Hiroshima e Nagazaki. É nesse momento que eu me pego ansiando pelo momento mágico que flutua entre 23:59 do dia 31 e 00:00 do dia 1º. E entre o fim e o recomeço, com meu pé direito um passo à frente do esquerdo, olhos no céu para ver as luzes pipocando no céu, acredito que terei fôlego novo para dizer: Vá lá, que venha mais um ano. Mas por favor, que venha urgente.

(Publicado no jornal Diário de Guarapuava)

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