Pular para o conteúdo principal

A vida é colorida, são os olhos que a vêem cinza

“Tenho a impressão de tudo aquilo que aprendi se tornou ineficaz. Hoje tenho que desaprender o que aprendi e começar de novo a cada manhã” (Fernando Sabino)

Toda crise leva a uma evolução, diz uma amiga minha. E o que se faz até a evolução chegar? Aprende-se a esperar, ousa-se tentar, para então cair e levantar, mas talvez ainda não se enxergue evolução nenhuma. Espera-se novamente, ocupa-se o tempo ocioso que parece não fazer sentido, que parece não levar a lugar algum. Tentativas apenas, de uma realidade aparentemente sombria, ou que pelo menos teima em não clarear. Ainda não encontrei o interruptor, deve ser apenas isso.

Lembrei-me dos versos de Pessoa, nos quais seu sonho é um porto infinito. È o da minha persona também, Pessoa. É a vontade de viajar sem rumo, sem norte, sem bússola, sem leme, porque isso combina com minha falta de norte, pelo menos o perceptível. As águas parecem tão transparentes e límpidas lá adiante que se quer chegar a elas, por mais que não se saiba quanto tempo demore. Espera que apenas confirmará que as águas de lá têm a mesma beleza que a paisagem daqui, o que muda são os olhos...

Então, nem sempre o essencial é invisível aos olhos, porque eles são as janelas para o restante do mundo, por isso importa se as janelas estão embaçadas (sujas, trincadas) ou não. Se assim não fosse, Bandeira não definiria dessa forma seu descontentamento: “O sol tão claro lá fora e minha alma anoitecendo”. O que anoitece a alma são esses olhos de ressaca (que arrasta tudo sem lógica), oblíquos e dissimulados... São ainda olhos frios, insossos, apáticos. A vida é como aqueles desenhos de colorir que a gente encontra em revistinhas de criança. Só me faltam os lápis de cor.

Uma das minhas máscaras é a que visto quando estou com quem, por projetar em si a realização, me mostra que não sou nada. Ou pelo menos muito pouco. É a máscara que visto quando me mostram que estou no fim, mas não vejo começo. A não ser o começo do meu desespero. Porém, não enxergo, como Adélia, apenas os caminhos de virar doida ou santa. Vejo-me apenas como viajante solitária, quixotesca, fugindo de moinhos de vento e à procura de cidades invisíveis.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O reinado dos Castelões

Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente n…

Das esperanças

Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó. Vai passar. E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento. Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia. Diria isso mesmo depois de ter perdido um ou…

Prece de inverno

Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão. Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis. O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.
Desejei aquele cuid…