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Voei


"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."

(Ausência, Drummond)

Ninguém entende muito a minha família. É um apego que beira ao excesso. Eu e meu irmão somos capazes de deixar uma noite de balada para ficar em casa assistindo a retrospectiva do ano da Globo, um pouco pela falta de dinheiro, mas muito porque isso faz bem ao meu pai.
Meu irmão vive dizendo que meu pai faz questão das crias debaixo das asas e se pudesse, nos teria assim protegidos 365 dias do ano. Mas as crias maiores cresceram e alçaram vôos. Meu irmão saiu de casa há 8 anos e eu há 6. Mesmo assim, há finais de semana que eu largo tudo para viajar para a casa dos meus pais, se meu irmão estiver lá. Mas isso nem sempre é possível.
O que é regra, desde que me entendo por gente, é que Natal e Ano Novo todos devem passar juntos. E desde 1993, quando a mais nova nasceu, é assim. Meu irmão teve várias namoradas, é baladeiro de plantão, mas mesmo assim, as duas datas são sagradas. Ele já chegou a chamar uns dez amigos para passar a virada com a gente, só para não ter q deixar a família para trás.
Sei que todo mundo fala que Natal é com a família, Ano Novo com os amigos. Mas na minha casa, entenda, não é assim. Aqui todo mundo veste a mesma cor de calcinha e cueca, tamanha a união. Na minha casa todo mundo come lentilha para ter fartura o ano inteiro, põe o pé direito na frente e come doze uvas, uma para cada mês do ano, gritando o nome de cada mês e se vai ser doce ou amargo.
Superstições que só fazem sentido para a gente, eu sei. Mas não me recordo de um Ano Novo que não tenhamos feito exatamente assim.
Esse ano será a primeira vez que faltará alguém. Embarco hoje com meus amigos de faculdade para uma viagem de reencontro. E o reveillon está no meio da viagem.
Desde o princípio, eu sabia do transtorno que essa viagem me causaria. Choro e ranger de dentes por parte do meu pai. É, eu sei, todo mundo passa o Ano Novo fora, incluindo os dez amigos que vão dividir a casa comigo. Mas entenda, por favor, isso é coisa da minha família.
Contei a minha mãe, que fez cara feia, mas entendeu. Contei ao meu irmão, que balançou a cabeça e disse: Eu, que sou eu, nunca passei fora. Minha irmã deu risada da minha cara e esperou comigo o dia fatídico.
Há uns dois meses planejo como contar ao meu pai. Ensaiei mil vezes, pensei na melhor data, no melhor momento. Dividi a angústia com os amigos e até pedi conselhos. Pensei até em sair fugida e deixar um bilhete de despedida. Hoje, o grande dia, chegou. Como meus amigos vêm me buscar à tarde, decidi que contaria na hora do almoço, de preferência com as malas na mão.
Sofri à toa. Saí de casa para ir ao mercado e quando voltei minha mãe anunciou:"Já contei". Tá certo que minhas malas arrumadas no meio da sala, o fato de eu ter levantado às oito da manhã, tomado banho e ido ao mercado, já davam a entender que algo estava errado. "Ele perguntou e eu respondi", disse minha mãe. Tremi dos pés à cabeça. "E ele, meu Deus do céu? Bateu a cabeça na parede, chorou, teve um ataque?" Não, nada disso. Ele simplesmente disse: "Se ela quer ir, que vá".
Por um instante, meu pai parece ter se dado conta que crescemos, que seguimos nosso caminho e que ele também, de alguma forma, criou os seus filhos para o mundo. Eu sei que no dia 31 ainda vai faltar alguém aqui com eles e também vai faltar gente comigo lá. Mas ausência é, como diz, Drummond, um estar em mim.
E cada vez mais eu percebo que há muito de minha família em cada pedaço de mim.



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