Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Fevereiro, 2009

Até logo

Peguei nas mãos duas flores que faziam parte da decoração sobre a mesa e despedacei-as entre os dedos. Olhei para as pétalas espalhadas na minha frente e naquele momento entendi o significado do meu gesto. Eu também estava despedaçada. Desfalecida, com maquiagem borrada, lembrei dos últimos acontecimentos daquela noite. Uma conversa que começou entrecortada e entrecortada permanecia na minha mente. Uma mescla de elogios sinceros e esbofeteadas recriminações. Palavras, encalacradas na garganta, saíram despejadas... No meio do som alto, sem cerimônias, encerradas com uma saída brusca. Aquela noite havia sido a das despedidas. Várias, ao longo da noite, que só serviram para mostrar o que, no fundo, eu já sabia. Não há razões para se dizer adeus. Estaremos próximos e talvez ligados, a fim de tentar descobrir o que será que há em mim e em você que mexe com a minha e com a sua alma.

Procura-se cara metade. Na falta dela, distração

Já tentei fingir que estava bem, muito bem, sozinha. Já tentei me enganar e pensar que sou ocupada demais para ter alguém. Já repeti a máxima de que "antes só do que mal acompanhada". Já quis me convencer que minha companhia me basta. Já pensei com meus botões "filhadumaégua" quando vi que aquela última das mortais arumou um amor e declara seu achado da agulha no palheiro aos quatro ventos. Já me perguntei o que eu tenho de errado. Já insisti com gente que não me dá a mínima bola. Já acreditei que só quem eu não quero me quer. Já me disseram que eu tenho medo de me relacionar. Já tentei preencher o vazio com livros. Já acreditei em elogios falsos e já duvidei de clichês sinceros.

Já sei o que você vai me dizer: Esquece isso, vê se pensa em outra coisa.

Festas de formatura

- Faço coreografias, com passos que traduzem literalmente cada palavra da música. Algumas pessoas imitam.
- Ao olhar as fotos no outro dia, reparo que meu cabelo reflete os graus da bebedeira, que vai do: saído do cabeleireiro, levemente suado, Maria Bethânia até o “Jesus, onde foram parar todos os grampos?”
- Um mesmo vestido pode ser visto em diferentes corpos no decorrer da temporada de formaturas.
- Eu posso perder todas as pessoas, mas o copo não se separa da minha mão.
- Eu sempre tenho assunto com toooooodo mundo. Do primo da amiga da minha colega de inglês, passando pelo garçom que eu confundi com um formando, até chegar ao tiozinho que vende cachorro-quente em frente ao clube.
- Eu reluto, mas as sandálias sempre acabam saindo dos meus pés.
- Fico olhando fixamente para a banda e, após alguns minutos, tento imitar os passinhos das integrantes, sem sucesso. Também canto todas as músicas junto, inclusive aquelas em espanhol, que eu não falo.
- Eu cumprimento as mães dos formandos e ar…

Ela

Não sabia se expressar muito bem oralmente. Falava, mas ao falar alguma coisa sempre terminava incompleta. Falava, falava, mas a sensação que tinha ao final é que havia deixado subentendidos demais e conclusões nada concretas. Ao contar uma história, falava, falava, falava e no meio do falar sentia que um detalhe ou outro havia se perdido no meio do caminho. Às vezes se desconcentrava com divagações que lhe invadiam a mente, sem possuir lugar certo no enredo.Preferia escrever. À escrita é permitida a edição. E como não é possível editar a fala, restringia-se às palavras desenhadas. Entretanto, o problema maior não estava no que declarava, mas no que recebia. O que lhe era direcionado, falado ou escrito, geralmente não vinha claro, com contornos definidos, mas uma mancha cinza e abstrata, que devia esconder, sim, um raciocínio lógico. Porém, não possuía a chave.Passou a recorrer a um dicionário de símbolos para decifrar os códigos que lhe chegavam. Percebeu aí a rede infinita de não-di…

O que aprendi com o calendário

Não precisa ser muito atento para notar. Se uma data desse ano cai numa segunda-feira, no próximo ela vai cair automaticamente na terça. Salvo os anos bissextos, quando as datas depois do dia 28 de fevereiro pulam dois dias além, é sempre assim. Uma data nunca retrocede, ou fica estática em um lugar da semana. Os dias sempre avançam.
Eu devo ter notado isso, sei lá, com uns 10 anos. Mas nunca tinha parado para pensar no que isso poderia me ensinar. Se os dias não param no tempo, por que haveríamos nós de parar? Por que haveríamos de contrariar a lógica natural do calendário e insistir em retroceder, como quem volta da quinta para a quarta, se é natural que a sexta venha depois?
Conversando com uma amiga, que se formou comigo e anda à procura de emprego, perguntei se ela aceitaria voltar para Guarapuava, onde se formou, se conseguisse um emprego aqui. “Ah, acho que não”, disse ela. “É um lugar onde já morei, agora é hora de buscar lugares novos”. Por outro lado, uma outra amiga, que rezo…

As mãos cheias de giz

Acordei três vezes durante essa noite. Em todas, certifiquei-me de que ainda não eram 6:50. Cheguei a sonhar que o despertador não tocava e que eu perdia o horário. A ideia de chegar atrasada ao compromisso me deixava maluca. Havia me preparado desde o dia anterior, lendo, relendo, procurando exemplos, simulando o que faria no dia seguinte. Ensaiei bem ensaiado.No caminho, andava com uma dose de receio. Tentava buscar na memória a ordem das coisas, o que vinha primeiro, o que vinha em seguida. Uma hora parei de pensar. Simplesmente fui me deixando levar. E me deixando levar cheguei ao destino. Falei com a pessoa responsável, que me indicou a sala onde eu deveria entrar. Respirei fundo, disse bom dia e encarei os olhos que me encaravam de volta curiosos. Fechei a porta e fui falando. As palavras fluíam com uma naturalidade que me espantava. Bem diferente do meu burocrático ensaio. Os olhos continuavam a me fitar, alguns balançavam a cabeça em sinal de aprovação ou de entendimento.- Pro…