As mãos cheias de giz

Acordei três vezes durante essa noite. Em todas, certifiquei-me de que ainda não eram 6:50. Cheguei a sonhar que o despertador não tocava e que eu perdia o horário. A ideia de chegar atrasada ao compromisso me deixava maluca. Havia me preparado desde o dia anterior, lendo, relendo, procurando exemplos, simulando o que faria no dia seguinte. Ensaiei bem ensaiado.

No caminho, andava com uma dose de receio. Tentava buscar na memória a ordem das coisas, o que vinha primeiro, o que vinha em seguida. Uma hora parei de pensar. Simplesmente fui me deixando levar.

E me deixando levar cheguei ao destino. Falei com a pessoa responsável, que me indicou a sala onde eu deveria entrar. Respirei fundo, disse bom dia e encarei os olhos que me encaravam de volta curiosos. Fechei a porta e fui falando. As palavras fluíam com uma naturalidade que me espantava. Bem diferente do meu burocrático ensaio. Os olhos continuavam a me fitar, alguns balançavam a cabeça em sinal de aprovação ou de entendimento.

- Professora, aqui está a caixinha de giz.

Oi? Professora? Não, deve haver algum engano. Eu não sou professora, estou professora. Só vim substituir uma amiga que não pôde dar aula e, sabe-se lá por que, resolveu me indicar. Se resolvi aceitar, foi pelo carinho que tenho por ela, não pelo amor à docência. Isso eu nunca tive.

Entretanto, não posso negar que me senti bem ali. Os alunos eram calmos, interessados, fazendo cursinho para conquistar uma vaga em algum concurso público. Na aula, procurei levar exemplos do dia-a-dia, não ficar presa ao material, fazer umas gracinhas, enfim, tornar a aula de domingo de manhã um pouco menos chata. Claro que a minha inexperiência pesou. Afora as aulinhas que eu dei para minhas bonecas na infância, só entrei na sala de aula na faculdade de Letras, que fiz junto com Jornalismo. E sempre deixei muito claro que seria jornalista e que a licenciatura ficaria em segundo plano na minha vida. Ou melhor, em nenhum plano, porque nunca pretendi exercê-la.

Na época do estágio obrigatório, o que me lembro bem é da angústia que me acompanhava em cada aula. E das noites anteriores, regadas a café, livros, apostilas, internet e vontade de mandar tudo para o espaço. Quando chegava à escola, tentava me manter calma, mas o pânico transparecia na minha face. E quando começava uma aula, dizia para mim mesma: são só 50 minutos, só 50 minutos, passa rápido. Nem sempre passava. E no final eu me sentia esgotada, por ter falado igual a uma matraca. As aulas e o desejo de morte me acompanharam nos dois últimos anos da graduação.

No último, acabei fazendo uma pós, cujas aulas batiam com o tempo que deveria ser dedicado ao estágio. No final das contas fiz a disciplina na turma da manhã e acabei ficando sozinha, enquanto todo mundo dava aulas em dupla. Graças às minhas súplicas, consegui fazer umas gambiarras e dar aulas em dois colégios diferentes, para adiantar o fim. Um era particular, considerado de elite, outro era público, voltado ao ensino profissionalizante. O contraste entre as duas escolas poderia ser considerado encantador para qualquer fera no ensino, mas, para mim, só significava dor de cabeça e esforço para me adequar a cada estabelecimento.

Sobrevivi, ao final. Consegui ainda cumprir o estágio com umas três aulas a menos. Tudo fazendo cara de dó e sem peso na consciência. Para mim, o estágio era uma mera formalidade para se conseguir o segundo canudo. Eu passava pelas aulas como quem cumpre uma tarefa obrigatória. Dava graças a Deus quando terminava uma aula.

Sempre acreditei piamente que não servia para ser professora. Me perdia na chamada, aspirava pó de giz, escrevia tudo torto no quadro, passava a mão suja de giz na minha roupa preta, não dizia em voz alta o número da página em que eu estava lendo, desandava a falar.... A didática não está no meu sangue e eu admiro quem a possui. Mesmo assim, consegui uns elogios da professora regente, que disse que eu tinha “perfil de professora”.

Não, minha querida, você deve estar enganada. Tudo, menos professora. E falava isso não somente pela minha escolha, mas por pensar no bem dos alunos.

E depois de um ano, voltei à sala de aula. Não foi traumatizante. Após as quatro aulas dadas, era hora de devolver a caixinha de giz. Entreguei-a ao coordenador, que me fez esperar.

- Preciso pegar seu telefone. Talvez uma professora desista e a gente precise chamar alguém.

“Não, obrigada”, pensei em dizer. E me deparei com uma das minhas “alunas” ao nosso lado.

- Você tem disponibilidade para assumir aulas? – perguntou ele, incisivo.

- Ela é uma ótima professora – disse ela, olhando para mim.

Pensei em dizer que ela também estava enganada. Mas por fim, dei o telefone.

10 comentários:

{ Michele Matos } at: 1 de fevereiro de 2009 11:16 disse...

Para que se enganar?
O futuro de muitos está em suas mãos.
Educação, a gente tem por aqui!

{ Michele Matos } at: 1 de fevereiro de 2009 11:17 disse...

Ou a gente vê por aqui?

{ KAKA } at: 1 de fevereiro de 2009 14:06 disse...

hahaha aconteceu comigo nas palestras que o Senac ADORAVA a dar como "provas", quem avaliava era o coordenador do curso, nada mais aterrorizante e como sua narração veio tudo na mente... noites sem dormir, relembrando cenas, cálculos, repassando repassando e no dia? que delícia ver o cooredenador e os alunos alí interessado fazendo aquelas perguntas que eu sabia responder sem ao menos ter dúvidas, receber o convite de dar palestras(sobre sistema digestório hahahah) dar um não como resposta e ainda de quebra receber o telefonema do tal pedindo suas imagens pra dar aulas e propostas de fazer trabalhos pra ele a pagamento... sabe o destino é uma coisa angustiante... conheço muita gente que jurou que jamais faria certas coisas mas... bjos e aquele abraço com o carinho de sempre da KK.

{ Neto } at: 1 de fevereiro de 2009 19:04 disse...

acredite em si assim como eles acreditaram, vai q vc eh msm professora ^^
ia ser bem carrossel ^^

...
e a aula acaba por aqui, entrem no meu blog, pensa q legal qnts comentarios
ashusahsauhua

{ Peripécias da Cáh. } at: 1 de fevereiro de 2009 22:42 disse...

Tava inspirada né??
O.O
Eu li..mas nao li inteiro...por que tava meio 'correndo'mas li.

bjo
=*

{ Scheyla Joanne Horst } at: 2 de fevereiro de 2009 07:28 disse...

Vai que numa dessas... haha.
Pois é, dizem que a única constante da vida é a mudança. E isso se reflete bem nos "blogs". Falando nisso, gostei da nova imagem do topo, lembrei da música "Eu vou tomar aquele velho navio". Vai dizer que esse ator não é bonitão, heim?

{ Estrela do Mar } at: 3 de fevereiro de 2009 13:07 disse...

Aquela foto no seu orkut não mente.... é o seu destino que estava sendo traçado!
Pq tirou a menininha? Eu gostava mais!

{ Camila Belini } at: 3 de fevereiro de 2009 15:01 disse...

Minha mãe é professora. Tomara que não esteja no sangue.
Como você disse, pelo bem dos alunos ( eu acrescento) e de toda a humanidade!

beijo tati!

{ Dom } at: 3 de fevereiro de 2009 17:09 disse...

Dom Quixote
(ventoonde.blogspot.com):

Se todos os professores pensassem se podem ou não dar aulas, primeiro pelo amor e depois pelo conhecimento, as pessoas se interessariam mais pelos estudos.

{ L. } at: 16 de fevereiro de 2009 13:36 disse...

Vc deve gostar mesmo dessa sua amiga que te mete em ciladas ahuahau. E ela confiar no teu potencial neh =P

Se se tem a vontade da aprenizagem mútua já é meio caminho andado. Acho que desse mato saí coelho hem =p

 

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