Ela

Não sabia se expressar muito bem oralmente. Falava, mas ao falar alguma coisa sempre terminava incompleta. Falava, falava, mas a sensação que tinha ao final é que havia deixado subentendidos demais e conclusões nada concretas. Ao contar uma história, falava, falava, falava e no meio do falar sentia que um detalhe ou outro havia se perdido no meio do caminho. Às vezes se desconcentrava com divagações que lhe invadiam a mente, sem possuir lugar certo no enredo.

Preferia escrever. À escrita é permitida a edição. E como não é possível editar a fala, restringia-se às palavras desenhadas. Entretanto, o problema maior não estava no que declarava, mas no que recebia. O que lhe era direcionado, falado ou escrito, geralmente não vinha claro, com contornos definidos, mas uma mancha cinza e abstrata, que devia esconder, sim, um raciocínio lógico. Porém, não possuía a chave.

Passou a recorrer a um dicionário de símbolos para decifrar os códigos que lhe chegavam. Percebeu aí a rede infinita de não-ditos que pode haver em uma palavra ou falta de. Descobriu que faz parte do ser humano recorrer às entrelinhas.

Enveredou-se por todas. Procurou, até mesmo em vãos que nem lhe eram de direito, o significado de palavras faladas e escritas. Nem os gestos lhe escaparam.

Mas o hobbie, embora fosse empolgante, não lhe despertava emoções maiores. Não havia graça em desvendar a amiga ou a família, que deixara de tentar compreender há muito tempo. Foi então, que apareceu. Ele. Veio como o vislumbre de um novo projeto de estudo. Carregava em si inúmeros sinais passíveis de páginas e páginas de significações. Encontrar a chave lhe interessava, não apenas pela mania de decifrar, mas porque se deixou envolver emocionalmente. Começou então a desvendá-lo, um longo caminho, que demandou tempo. Analisou-o milimetricamente. Guardou na memória tudo - idiossincrasias, as palavras que lhe dirigia, os silêncios, o aparecimento, o sumiço, as lembranças, os esquecimentos – e enfiou a cabeça no livro, empenhada em encontrar respostas. E nas tentativas de investigar, decifrar e revelar, chegou, enfim. A lugar algum.

Desistiu. Aprendeu a diferença fundamental dos subentendidos. Há alguns que necessitam ser ininteligíveis e uma hora outra acabam por ser compreendidos, no momento certo. Outros são meros devaneios de mente insana e desocupada, disposta a brincar com sentimentos alheios.


13 comentários:

{ Bruno Bastos } at: 9 de fevereiro de 2009 13:05 disse...

adoro essa música *.*
desculpa nao ter lido o post :X
tenho preguiça danada com esses posts longos

{ Michele Matos } at: 9 de fevereiro de 2009 14:12 disse...

hehe...olha a sinceridade do moço aí em cima...rsrsrsrs...
a clareza das pessoas deixam elas sem graça, prefiro o subentendido.
bjuu

{ Paulinha Fernandes } at: 9 de fevereiro de 2009 18:11 disse...

Tati, eu geralmente me identifico com os seus textos. Amo o jeito com que você domina as palavras e as torna muito mais bonitas do que são. Entretanto, em nenhum outro texto me senti tão eu quanto neste.
E, olha, eu também não gosto de posts longos. Depende do dia e de quem escreve. Os seus sempre valem a pena. E mesmo que eu não tivesse lido, não teria te dito. É meio brochante, né?! Bom, eu gosto de escrever muito (nem dá para perceber, com um cometário tão sucinto!) e também gosto de ler coisas desse tipo.
Enfim, amei.

{ Paulinha Fernandes } at: 9 de fevereiro de 2009 18:16 disse...

A propósito, não conhecia a música. Amei também!
=)

{ .lucas guedes } at: 9 de fevereiro de 2009 20:13 disse...

sempre quis usar a palavra 'isiossincrasia' num texto, mas ainda não consegui... rs. gosto muito dessa música, apesar de achar a voz do camelo muito feia.

{ .lucas guedes } at: 9 de fevereiro de 2009 20:14 disse...

ops. idiossincrasia!

{ Neto } at: 10 de fevereiro de 2009 02:11 disse...

massa o texto, palavras são coisas espetaculares né, faladas ou escritas, eu adoroo ^^

{ Scheyla Joanne Horst } at: 10 de fevereiro de 2009 06:22 disse...

eu gosto da parte em inglês da música :)
mas o silêncio continua falando, ah, e como fala.

{ Dai } at: 10 de fevereiro de 2009 11:18 disse...

precisa ser mais explícita???

as entrelinhas falaram mutio desta vez

{ CINTIABLICIDADE } at: 13 de fevereiro de 2009 05:44 disse...

Oi Tati, adorei aqui!!
muito bom o texto...
eu sou o oposto, não sei me expressar bem escrevendo.. eu ainda falo falo falo!!!
Como vai guarapuava!?
bjao =**

{ siguilita } at: 13 de fevereiro de 2009 09:50 disse...

eu acho que ela cuma maconha..hahaha... brincadeirinha...
bjus

{ siguilita } at: 13 de fevereiro de 2009 09:51 disse...

bah Fuma...

{ Peripécias da Cáh. } at: 17 de fevereiro de 2009 13:17 disse...

Ando meio descuidada com os amigos blogueiros. Hoje resolvendo fazer um post no meu, resolvi passar para comentar o dos amigos.
Gostei do post Tati!!!
E desculpe pela falta de frequencia nos comentários.
Não será mais de praxe.

Beijos

 

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