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O que aprendi com o calendário

Não precisa ser muito atento para notar. Se uma data desse ano cai numa segunda-feira, no próximo ela vai cair automaticamente na terça. Salvo os anos bissextos, quando as datas depois do dia 28 de fevereiro pulam dois dias além, é sempre assim. Uma data nunca retrocede, ou fica estática em um lugar da semana. Os dias sempre avançam.
Eu devo ter notado isso, sei lá, com uns 10 anos. Mas nunca tinha parado para pensar no que isso poderia me ensinar. Se os dias não param no tempo, por que haveríamos nós de parar? Por que haveríamos de contrariar a lógica natural do calendário e insistir em retroceder, como quem volta da quinta para a quarta, se é natural que a sexta venha depois?
Conversando com uma amiga, que se formou comigo e anda à procura de emprego, perguntei se ela aceitaria voltar para Guarapuava, onde se formou, se conseguisse um emprego aqui. “Ah, acho que não”, disse ela. “É um lugar onde já morei, agora é hora de buscar lugares novos”. Por outro lado, uma outra amiga, que rezou para sair da cidade onde viveu praticamente a vida toda, quando conseguiu, continuou vivendo presa à cidade antiga.
É um estado de descontentamento constante e uma teimosia em olhar para trás da qual já fui vítima, mas hoje não mais me entrego. Não me refiro apenas a cidades, mas também casas, funções e, por que não?, pessoas. Na natureza, os animais saem de um lugar em determinadas estações e vão em busca de condições mais propícias. Eles não ficam parados. Um dia voltam, mas aí já conheceram muitos lugares, já viveram outras experiências. Não voltaram simplesmente os mesmos do que quando partiram. Passei o dia todo tentando me lembrar de uma espécie que nunca, em hipótese alguma, volta ao mesmo lugar de onde partiu. Devo ter assistido pouco à Discovery, pois até agora não consegui descobrir.
Seja lá de que espécie for, da terra, do mar ou do ar, meu sonho é que eu consiga ser como ela. Que passe pelos lugares deixando marcas, mas não com o intuito de voltar a fincar minhas raízes ali. Que eu aprenda a passar, com a certeza de que tenho outros mundos a desbravar. E que se eu precisar revivê-los, que eu volte mais evoluída, como o animal que retorna ao habitat natural ao final da estação ou como a data que completa uma volta de seis anos, considerando os bissextos, antes de voltar para o mesmo dia da semana. Em seis anos acontece muita coisa. Estou tão certa disso como tenho a certeza de que, depois de seis anos aqui, tudo pode mudar.


É tarde, é tarde, é tarde!

Comentários

Tiozaum disse…
Gostei do que vc escreveu e compreendo mto bem, apesar de estar vivendo um extremo oposto ehehe...

Fui para um lugar diferente, conheci bastante coisa nova, aprendi pra caramba, e agora voltei.

Voltei por causa de todas as coisas boas que ficaram aqui, que faziam muita falta. Voltei porque aqui eu me sinto em casa. Lá eu estava me sentindo totalmente sozinho. Bateu a saudade da família, dos amigos.

Quem sabe eu vá embora denovo daqui a algum tempo, conhecer outros lugares. Por enquanto quero curtir td que aqui tem de bom.

Beijo!
Tarini disse…
Ahh sem graça.. =/
Vc vai ver um dia saio daqui!!!
haha
Michele Matos disse…
E o tempo passa...e cá estaremos nós? paradas? não não...O mundo muda com a gente.
Outro dia quero fritar um ovo pra você, descobri que é minha especialidade.
Neto disse…
na verdade agente nunca deixou de ser nômade, o mundo é tão grande, agente tem q sempre seguir e nao retroceder ^^
curti mto o textoo
Alyne disse…
Mudar é bom. Eu também quero ser dessa espécie.
Estrela do Mar disse…
http://letras.terra.com.br/trio-parada-dura/178009/

Dessa tenho certeza q vc n lembrava!!!
Diangela disse…
Ok! A nota mental está feita: "não voltar, não choramingar, não voltar, não voltar..." Mas não pelo fato único de voltar, apenas pq há muito mundo nesse mundo, né! Seeei. Besos, tica. Foi massa!!
Legal :) Lembrei:
"Com seus pássaros, ou a lembrança de seus pássaros. Com seus filhos, ou a lembrança de seus filhos. Com o seu povo, ou a lembrança de seu povo. Todos emigram. De uma quadra a outra do tempo. De uma praia a outra do Atlântico. De uma serra a outra das Cordilheiras. Todos emigram. Para o corpo de Berenice ou o coração de Wall Street, para o último templo, ou a primeira dose de tóxico. Para dentro de si, ou para todos, dentro de si, ou para todos, dentro de si, ou para todos, dentro de si... Para sempre, todos emigram."
Canto dos Emigrantes - Cordel do Fogo Encantado.

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