Da província

Primeiro foi a cidade onde nasci, mas nunca morei. Eu cresci mesmo na outra, que apelidei carinhosamente de província. Cheguei nela aos três dias de vida, momento em que eu comecei a construir minha vida no pedaço de terra que aprendi a chamar de cidade natal. Fui à escola, brinquei, sozinha e com amigos, muitos dos quais permanecem aqui em corpo ou alma. Embora meus pais firmassem cada vez mais suas raízes na cidade, eu sempre soube que meu destino não seria o mesmo.

Uma vez li uma frase que dizia mais ou menos assim: A província é o lugar de onde você quer desesperadamente sair, e saindo, quer voltar. As pessoas sempre me perguntam se eu pretendo voltar. Não. Além dessa certeza, tenho outra. A de que preciso voltar para cá com frequência para abastecer minhas forças. Antigamente eu voltava para lavar a roupa, fazer compras. Hoje eu sei que eram só desculpas. Eu volto para a província porque aqui me sinto protegida, porque gosto de me sentir em casa, embora seja uma visita. Mas quando me refiro à província, digo minha casa. Vou para casa, lá na minha casa... Talvez porque eu não sinta verdadeiramente que minha casa é a outra, na atual cidade. Deve ser por isso o sentimento eterno de estrangeira.

Sempre soube que não passaria o resto da minha vida na cidade em que cresci, mas aproveitei tudo o que uma província tem a oferecer a uma criança. Uma infância cheia de brincadeiras nas noites quentes de calor, mate com as amigas nas tardes frias de inverno, caminhadas nas manhãs de flores caindo dos jardins das casas e enchendo as calçadas. E a cidade onde vivi por dezessete anos ficou gravada na minha alma, impressa pelas lembranças, pelas visitas constantes, pelo cheiro de biscoito que você sente ao chegar, pela árvore frondosa do jardim da minha casa...

Se dizem que a cidade cresceu em volta da igreja, como toda pequena comunidade, a união da nossa família se fortaleceu em torno da árvore grande. Uma espécie de ipê, da qual ninguém nunca ouviu falar, que floresce no verão e perde suas folhas no inverno. Como eu já tinha doze anos quando nos mudamos, nunca me interessei por subir nela. Eu e meu irmão não fizemos uma casa na árvore, ao contrário de um ou outro joão-de-barro que construiu sua moradia ali. Mas eu vi minha irmã ir e voltar em seus galhos, em um balanço no qual só ela cabia.

Meu pai reservou para a árvore inúmeros planos. O primeiro foi o de abarrotá-la de cima abaixo de pisca-piscas, que tornou minha casa um cartão postal e resultava em cifras absurdas nas contas de energia elétrica. Tirando a ideia das luzinhas, tudo que meu pai sonhou para a árvore furou. Ele queria uma jiboia, ele tentou colocar garças, ele até comprou um ovo de urubu. Tudo para deixar aquele espaço mais exótico e, quiçá, mais especial. Não precisou. Junto com a árvore que cresce em ritmo vertiginoso, aumenta a minha distância da cidade, mas fica gravado em mim o desejo de retornar sempre a ela.


A casa e a árvore...

10 comentários:

{ Elaine Crespo } at: 15 de março de 2009 12:18 disse...

Realmente a cidade onde crescemos vai ser sempre a nossa referência!
è igual a casa!!
Ainda hoje quando digo "lá em casa" estou me referindo a casa de meus pais.

Um belo domingo!

Beijos
Elaine

{ .lucas guedes } at: 15 de março de 2009 14:56 disse...

olha, eu também vim de uma cidade onde nunca morei. mas é tão perto que vou lá quase todos os dias, nem tem graça... bonita história!

{ Tiozaum } at: 15 de março de 2009 18:26 disse...

Acho que todo mundo q passa por essa situação sente o mesmo.

Eu ficava contando os dias pra poder vir aqui e rever minha familia e passar um tempo com os amigos.

Tanto que resolvi radicalizar e voltar a morar aqui ehehehe... vamos ver até quando né? :P

beijo!

{ Neto } at: 15 de março de 2009 19:06 disse...

eh, eu to na minha casa de volta, vamos ver ate qnd ...

{ Paulinha Fernandes } at: 16 de março de 2009 12:20 disse...

que bonito, Tati.
Eu realmente sempre tive muita inveja de quem passou a infância inteira em um único lugar, especialmente em cidades pequenas. Eu não. De Foz, para Curitiba e, então, Foz de novo.
Entretanto, quando fiz 15 anos, fui para Corbélia. Mas ainda deu pra aproveitar um pouquinho... Cidade pequena é tudo de bom... Mas realmente, pra lá não quero mais voltar.
ps. Na frente da minha casa, em Corbélia, também tinha uma árvore grande... cheia de mistério, ela!

{ Michele Matos } at: 16 de março de 2009 15:31 disse...

Aaaaa...mas a casa do Papai Noel deve ser boa de se morar mesmo.
às vezes eu falo que minha antiga casa é minha casa, mas nem é mais.

{ Cáh } at: 18 de março de 2009 20:22 disse...

Agora eu entendo o "por que"do titulo do blog..
Faz sentido..
Eterna Estrangeira...

=*

{ Renata Caleffi } at: 20 de março de 2009 12:36 disse...

E como eu me identifico com isso!
parece até que saiu de mim!
Ai ai, como que pode uma cidadezinha pode dar tanta saudade.. e pensar que eu não via a hora de sair de lá.

{ Scheyla Joanne Horst } at: 20 de março de 2009 18:57 disse...

Hehe. linda a ideia de árvore. sempre quis ter uma árvore que pudesse chamar de minha... mas nunca morei em lugares onde isso fosse possível. é mto bom ir, mas voltar para casa é o que há!

{ MerasChorumelas } at: 21 de março de 2009 05:52 disse...

Colocar pisca-piscas na árvore que fica em frente à casa do papai noel foi a ideia mais "com noção" que o seu pai teve... hehe

To te seguindo aqui =)
Beijo, eterna estrangeira!

 

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