Sobre o que arrefeceu

No sentido restrito do dicionário, arrefecer é tornar-se frio; perder a energia; acabar o vigor. Olhando para trás na minha vida, vejo que o que arrefeceu é aquilo que, simplesmente, deixei morrer em mim. Como aquela vontade de levar os planos adiante, que, como uma senhora idosa saindo da missa, andava tranquila na rua certa de que chegaria em casa e, de repente, deu dois passos e pá, caiu dura e lesa ali mesmo. Nada de tão fatídico, mas é quase isso. Meus arrefecimentos se dão de uma hora para outra, assim como um assoprão em uma vela, e não como o novelo que se desmancha aos poucos.
Entre as pessoas que conheço, sou a que mais faz planos. Culpa do meu Marte em Virgem, diz uma amiga minha. Minha mãe conta que eu nasci quase um mês depois do que previra o médico. Eu digo que é impossível, mas ela jura de pés juntos. Vai ver que meu desejo de nascer arrefeceu em mim, antes mesmo de se concretizar. Da mesma forma que eu me vejo arrefecendo diante dos planos de viajar para o exterior, dar cabo em todos os meus projetos de leitura, conquistar aquele carinha, tirar fotos no parque no domingo de manhã, entrar na academia, fazer de uma vez os exames de rotina, visitar os velhinhos no asilo, dizer eu te amo aos meus pais...
Na tentativa de escolher o melhor momento, na tentação de deixar para depois porque há tempo, na besteira de priorizar outras coisas relativamente sem importância, tudo conspira para que eu diga: Ah, nem era tão importante assim mesmo. E a vontade morre, da mesma forma que quem nasce está fadado a morrer.
E foi assim que eu descobri, ao longo da vida, que essa minha pontinha de obsessão por fazer planos revelou-se em uma consequência que viria a ser o reverso da medalha. Não concretizá-los. Porque não é tão simples realizar planos bem arquitetados. Para quem nasceu predestinado a traçar metas, deixar a vida levar é o pior conselho que se pode dar. Pelo menos acredito que seja o mais difícil.
Os que habitam o reino da vida planejada e do consequente arrefecer sabem do que eu estou falando. Fazer planos significa que você vive paixões arrebatadoras de uma semana, que esfriam em seguida, deixando um acre sabor na boca. A energia do sentimento morre como surgiu. De súbito, de rompante, no incauto desejo de se viver coisas que planejadas dariam tão certo... Mas na prática podem se transformam em mais um jazigo na alma. E assim arrefecem, porque é mais fácil enterrar o que morreu que deixar o caixão na sala, convivendo com o que vive e personificando a condição do fim inevitável.
Sempre reservei para mim objetivos fortes, que envolvem inquietações ardentes, sentimentos transbordantes, emoções desenfreadas. Tudo que é exagerado, mas nada irracional. Cada meta tem um motivo, um porquê, um plano cumprido na minha cabeça. Mas justamente por me deixar levar pelo que é apaixonante, os passos se perdem descompassados e na hora que a cagada está toda feita, as coisas se deixam, sem escolha, serem conduzidas para o ralo. No bueiro das paixões que tive, percebo que eu já optei em deixar de amar olhos doces, abandonei pessoas que me cansaram, joguei fora papéis que me levariam a outros rumos. Simplesmente porque aprendi, como Cecília, a me deixar cortar. E a voltar inteira. Porque quem arrefece, também sabe arrefecer com paixão, embora carregue nos olhos o rio de mortos que habitam as águas da retina. Porque quem deixa morrer coisas em si, sabe que sempre há espaço para que novas nasçam no mesmo lugar.

9 comentários:

{ Tarini } at: 10 de março de 2009 20:01 disse...

Nossa Tati vc mando mto bem nesse hem...
Adorei mto bom msm..

{ Raquel Farias } at: 10 de março de 2009 21:25 disse...

Acho que eu nunca disse isso, se disse ratifico, lendo o que você escreve vejo em teus sentimentos o o reflexo dos meus.
Eis aí veracidade do que li um dia: nada que sentimos ou vivemos é novo, alguém em algum lugar já sentiu um dia.

{ Neto } at: 11 de março de 2009 08:11 disse...

wow
texto mto bom
mesmo
noss, sem palavras
deixar arrefecer não é bom, mas a gente acaba agindo assim
como as estações temos momentos de calor e frio
...
to pensativo agora
bjo tatii

{ Michele Matos } at: 11 de março de 2009 21:02 disse...

Eita Tatianaaaa!
Que lua que te inspirou de tal maneira??
Não consigo ser como meu pai que planeja só as próximas horas dele...eu planejo minha aposentadoria...e o que vier pela frente.

{ Elaine Crespo } at: 12 de março de 2009 11:29 disse...

Estava me sentindo assim até ontem. Mas melhorei muito e posso dizer que to bem!

Mas eu tenho medo real, tenho Cãncer e dois filhos ainda para acabar de criar!
Você tem seus motivos e só vc sabe aonde eles doem. Mas não te preocupa , logo passa. Como diz minha mãe " quando casar sara" !(risos)!

Fica bem !!

Beijos
Elaine

{ siguilita } at: 13 de março de 2009 21:13 disse...

muito bom Taty... apavoro...
bjos

{ Allan Sinimbú } at: 13 de março de 2009 22:21 disse...

você me conhece? Si não soube definir-me muito bem.

Parabéns peloS TEXTOS

{ Graci Polak } at: 19 de março de 2009 11:31 disse...

Nem falo nada. As mesmas sensações. Os mesmos desejos que passam de uma hora para outra sem motivo para ir ou chegar.

Eu não escreveria um texto melhor sobre essas minhas sensações, iguais as suas. Amei o texto!

{ va_nessals } at: 31 de março de 2009 06:54 disse...

Esse tem que ir pro livro!

 

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