Tem certeza de que deseja apagar definitivamente essas mensagens?

Eu hoje joguei tanta coisa fora e vi o meu passado passar por mim. Já ouvi trilhares de vezes a música do Paralamas, mas nunca, em nenhuma limpeza no armário, em nenhuma faxina nas gavetas, senti o passado correndo à minha frente como hoje. O que passou, percebi, uma vez que não havia sido descartado – da memória virtual e da real - continuava existindo, aguardando em um local desabitado, mas ainda pujante. Hoje mandei um passado comprido embora de mim.
É que resolvi limpar, pela primeira vez com rigor implacável, minha caixa de e-mails. Levei um tempo, mas ao final, foi-se embora uma leva de recordações e ficou uma certeza: não quero mais guardar em excesso.
Metaforicamente, sei que guardo rancores, conservo pessoas que não valem tanto a pena e preservo aversões no fundo do meu baú. Nunca percebi como, literalmente, também deixo arquivados nos armários, nas pastas, nas estantes, nas gavetas, nas caixas – virtuais ou reais – muitos pedaços que não são mais e não poderão mais voltar a ser.
Tanta palavra dita, tanto desdito, tanta retaliação, tanta prestação de contas, tantas risadas, tantas conversas fora de hora. Tanto e-mail que li, reli e decidi guardar, por ter, de alguma forma, me tocado naquele instante. E hoje que diabos representa aquilo? Quem são mesmo aquelas pessoas? Que sentido tem cada uma daquelas respostas?
Sem dó nem piedade, marquei e deletei. Limpei também a lixeira, para não correr o risco de voltar atrás. Mas não deixei de reler algumas coisas, antes do destino implacável. Nas revisitas, descobri como, depois de certo tempo, a gente minimiza. O desespero daquele trabalho nunca concluído, prestes à explosão dos prazos; aquele amor que você teve e que surpreendeu mandando um e-mail numa tarde quente de verão para falar do mormaço e como isso traz o cheiro dos seus cabelos; o bem que fazia aquela amiga com quem você nunca mais trocou uma palavra. O ser humano possui a incrível capacidade de se reformular a cada instante, delegar novas necessidades, eleger novas prioridades e, principalmente, esquecer.
Jogar fora o antigo faz parte, creio eu, de um incrível desejo de se sentir mais leve. Senti um prazer em descartar os mortos que, de alguma forma, ainda coexistiam com o que eu busco de renovação na vida. Extirpei-os, como se corta fora um tumor. Por que, afinal, o que seria um tumor que não algo inofensivo que existia dentro de nós, mas ao sofrer alterações causadas por fatores externos, sem querer, passa a fazer mal?
Deixei de lado os medicamentos homeopáticos para tratar dos meus guardados. Ao método conta-gotas, preferi alternativa mais radical. Cauterizei e mandei para o espaço cibernético um bolo do que já não é e, não sendo, me pesava como um fardo de tralhas inúteis que eu arrastava por aí.

12 comentários:

{ Alyne } at: 28 de março de 2009 06:02 disse...

Tati, eu fiz exatamente isso nos guardados reais, tava pensando num texto sobre isso ontem à noite, mas tava tão cansada de encaixotar e jogar coisas fora - decisão difícil - que deixei pra depois. Mas seu texto diz muito do que eu diria. Tenho que tomar coragem e acabar com guardados virtuais.
beijoss

{ Tiozaum } at: 28 de março de 2009 10:23 disse...

Muito tocante seu texto :)
Eu já fiz isso também.
É incrível como vc se sente aliviado, apesar de parecer que vai se sentir triste por mandar embora tantas lembranças.

Mas é bom, abre o espaço agora para novas experiências e lembranças :)

Beijo!

{ ♪ Lorena } at: 28 de março de 2009 11:39 disse...

"O ser humano possui a incrível capacidade de se reformular a cada instante, delegar novas necessidades, eleger novas prioridades e, principalmente, esquecer."


graças a deus. e que venham caminhos novos sempre... os meus também andaram se renovando.

saudades daqui! está linda de eterna estrangeira!

{ Paulinha Fernandes } at: 28 de março de 2009 16:00 disse...

Tati, pra variar senti minhas as suas palavras... sério, aaaamo ler seus textos!
parabéns!

{ Chris } at: 29 de março de 2009 13:32 disse...

Nossa amei o blog!!!!!
Amei o post tbm!!
=**

{ Neto } at: 30 de março de 2009 04:57 disse...

meus email guardados só sao os q realmente valem, amigos q ainda continuam cada vez mais fortes, familia, e coisinhas engracadinhas ^^

{ Michele Matos } at: 30 de março de 2009 08:17 disse...

Preciso apagar as mensagens de celular. de algum tempo atrás...tenho um certo apego. Os e-mails eu tenho preguiça mesmo.
ótimo taticaaaa! bjuuuu

{ Renata Caleffi } at: 30 de março de 2009 13:54 disse...

Senti uma inspiração gigantesca, e uma vontade de ter dito tudo isso!
;)

{ Klaus } at: 30 de março de 2009 18:24 disse...

Bom, primeiramente: você escreve bem pacas! Quer ser a coautora (já são dois) do livro "A cor do sagu, uma saga gastronômica"?
Segundamente: nos últimos dias também descartei trilhões de antiguidades. São coisas que você gosta de guardar, mas se jogar, não sentirá a mínima falta. Acho que é assim mesmo que tem de ser!
Parabéns pelo blog!
Beijos

{ va_nessals } at: 31 de março de 2009 06:40 disse...

Isso aí! Tb me sinto leve quando faço faxinas. Nada como ter tudo limpo para enfim receber, viver e saborear coisas novas!
Beijos!
Vanessa.

{ Scheyla Joanne Horst } at: 31 de março de 2009 16:31 disse...

Se existisse uma verificação de palavras para para confirmar a exclusão dos seus arquivos, seria: "adeus". hehe. É. O que passou nunca mais vai ser como era, não há motivo para chororô. Se bem que às vezes me perco lendo umas mensagens de lá de antes, tentando trazer à memória os cheiros, os ventos.

{ MerasChorumelas } at: 1 de abril de 2009 05:47 disse...

Eu não consigo jogar fora as coisas do passado. Sou saudosista ao extremo. Me apego em rotina, não consigo terminar, nem começar hábitos diferentes.
Meus e-mails passam de 1000 em um dos meus endereços, mas lá é por preguiça de jogar fora, só tem span! aiehaieh

Beejo Tati

 

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