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Uma garça incomoda muita gente. Vinte garças incomodam, incomodam...

Meu irmão leu o último texto e comentou por e-mail. Disse apenas: “deveríamos ter tirado mais fotos, principalmente das garças”. Tive que concordar. Essa é uma das histórias que mais arrancam gargalhadas quando a família se reúne.
Faz parte do rol de ideias total sem noção do meu pai. Um dia ele chegou em casa contando que teve uma visão. Viajava pela estrada e de repente enxergou. “Parecia uma miragem”, ele dizia. Uma árvore, solitária no meio da estrada deserta, muito semelhante ao grande ipê que tínhamos no quintal de casa. E meu pai contava, olhos marejados, que em todos os galhos havia garças, dezenas, ou centenas, quem sabe. E, sei lá por que, a árvore se tornava mágica por isso.
Ele comentou que queria que a nossa árvore também tivesse garças pousando em seus galhos. Ninguém deve ter escutado. Mas deveríamos.
Dias mais tarde ele carregou meu irmão e minha mãe. A tal da árvore ficava perto da nossa cidade. Ele queria compartilhar a visão com mais gente.
A partir daí segue o relato do meu irmão, na volta:
“Paramos o carro em frente à tal miragem. Ficamos ali uns minutos, contemplando. Quando pensei em abrir a boca para dizer: agora podemos ir? o pai virou para trás e ordenou apenas: Rodolfo, desce”.
E ele desceu. Atolou-se até os joelhos de lama e bosta, maldizendo tudo e qualquer outra coisa responsável por deixar aquela árvore às vistas do meu pai. E pegou. Aleatoriamente: garça macho, garça fêmea, filhotes de um, pai e mãe de outro. Catou umas vinte aves e colocou-as no porta-malas. “E o pai, te ajudou?”. “Pfff, só ficou olhando, sorrisão faceiro na cara”.
Quando eles chegaram, eu não acreditei. As aves, desesperadas pelo cativeiro forçado, gritavam (ou sei lá qual é a palavra que se refere ao som das garças). Os berros durante a viagem devem ter incomodado muito minha mãe, que chegou de cara amarrada. Mas elas incomodariam muito mais.
Primeiro de tudo, o óbvio. As garças jamais ficariam plácidas e comportadas no nosso jardim como ficavam na árvore que escolheram voluntariamente como morada. Desde o primeiro momento, fugiram, pularam para o quintal do vizinho, devoraram a grama e pisaram nas flores da minha mãe. Aí, entrou em ação a fúria nordestina, nossa conhecida já. Faça tudo, mas não mexa no jardim da minha mãe.
Meu pai achou, muito a contragosto, uma solução paliativa. Fez um cercado de arame em volta da árvore, um cubículo, e enfiou os pobres animaizinhos ali. “Até elas se acostumarem que aqui é a casa delas”, explicava ele. Eu não entendia como nenhum dos vizinhos ou transeuntes ainda não tinham denunciado a gente para o Ibama.
Eu nem chegava perto. Minha irmã mais nova ficou, contrariada, responsável por alimentar os animais. Não me lembro qual foi a solução paliativa que meu pai inventou para suprir as necessidades nutritivas das garças. Até hoje não descobri o que garça realmente come.
Fiquei de longe. Observava aquele caos que se tornou nosso jardim. Meu pai, aos poucos, e só aos poucos, foi percebendo que não havia sido uma boa ideia. Com o passar do tempo, as pobrezinhas foram morrendo, uma a uma. Não se sabe quais se foram por causa da fome, quais de tristeza. Só sei que algumas se enforcaram tentando fugir pelas frestas do arame. Confesso, tive dó.
Minha irmã também se encarregava de jogar de volta para a prisão as fujonas. E de tirar os cadáveres de dentro. Dessas atividades, sobrou-lhes umas cicatrizezinhas nos braços, devido aos aranhões no arame.
É a única lembrança visível que temos da existência das garças. Também é a única prova que não é uma história maluca inventada no inconsciente coletivo da família. Depois que a última ave morreu, meu pai deu um fim no arame e nunca mais se falou em semelhante ideia. Hoje ficaram apenas as risadas provocadas pela lembrança daqueles, talvez, quinze dias. Como meu irmão bem lembrou, não tiramos sequer uma foto. Talvez seja mais bonito guardar mais essa recordação como uma imagem congelada em um arquivo mental a que somente nós cinco temos acesso. Há lembranças que ultrapassam o propósito da recordação e servem para muito mais... Servem para unir, uma vez que partilham momentos entre as pessoas, não sendo necessário nenhuma fotografia para tal.

Comentários

MerasChorumelas disse…
Foi até bom não ter tirado fotos deste episódio... elas poderiam servir de provas em uma denúncia de crime ambiental!
Neto disse…
historias de familia sempre são assim boas divertidas, mas qnd aconteceram nao eram aquilo... a gente ainda vai rir disso, agente dizia
e depois juntando a familia na janta d natal, a gente ri msm
é bomm =D
Michele Matos disse…
Hauhauahuahuhaa
Ainda bem que eram garças, poderiam ser bichos mais perigosos.
bjuuus tati!
Gente!!! Eu fecho os olhos e sou capaz de imaginar a cena....hahahahaha..... Isso daria um curta metragem.... hahaha...Mas é muito legal a forma como o episódio foi visto e vivido...Certamente inesquecível! Isso é bom!
CINTIABLICIDADE disse…
Agora fala sério... é mentira isso né...
CARACAAA... eu fiquei com tanta pena das garças, poxa vida, que ideia a do seu pai tirar as pobrezinhas do seu habit, onde tinham suas possiveis "familias", ninhos... judiação!!!
pura maldade!!!

bjao =*
Graci Polak disse…
É ficção, não pode ser real!
Me acabei de rir... amei o texto!
GAL disse…
Gal disse...
Não conhecia o episódio...
Mas conhecendo o temperamento dessa nordestina(sua mãe), não sei quem sofreu mais, se as graças ou ela vendo seu jardim destruido.
Gostei da maneira que contou e só kkkkkkkkkkkkk
Parabéns! beijos no coração.
Tati, tá certo que eu sou sua fã... mas como não seria?!
E só na sua vida acontecem essas coisas, heim?!
hehehe
Sempre me divirto com suas encrencas mirabolantes!
Beijoo
A.V. disse…
Morriiii de rir! Pensei que não fosse fácil encontrar uma família mais louca que a minha! rss
Finito Carneiro disse…
Este post é muito 'engarçado'!
va_nessals disse…
HAHAHHAHAHAHHAHAHHAHA!

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