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Cara de pau

Tenho a mais absoluta certeza de que minha família me considera cara de pau. Longe de me envergonhar, também não considero isso uma insígnia. Às vezes penso que eu até os decepciono, quando não consigo certas coisas, ou me calo. Mas, em geral, prevalece a ideia que eu deveria passar óleo de peroba na cara.
Meu pai fica indignado quando eu ligo para o taxista a cobrar. “E olha aqui, na agenda do celular dela o telefone dele já tem 9090 na frente!”. “Mas pai, ele que pede para eu ligar a cobrar. Ele não se importa”. “Aham”. E fica aquela palavra meio suspensa na boca, que não é dita pela falta de coragem de admitir que a filha dele é, sim, uma sem noção.
Eu tenho um sério problema com pontualidade e minha família também sabe disso. Muitos dos horários de ônibus para viajar até minha cidade são de manhã cedo, cedíssimo. Quando eu consigo pegar o ônibus, eles consideram uma exceção, uma vitória, eu diria. Quase sempre a pergunta é:
- E aí, qual é o horário do ônibus que você vai perder amanhã?
Ou então meu pai, a 230 km de distância, diz que vai me acordar. Aí ele coloca o relógio para despertar e me liga 30 minutos antes de o ônibus sair.
Mas anteontem quis me superar. Planejei pegar, linda e graciosa, o busão das 6h30. Uma dormidinha que dei foi o suficiente para ser abduzida e acabar sendo acordada às 8h, pela minha colega de apartamento. Liguei para casa e todo mundo já sabia. O grande problema (e dessa vez eu os surpreendi) é que eu tinha comprado a passagem antes. Eu nunca compro a passagem e essa é a regra. Talvez por medo de perder o dinheiro, mas também porque eu nunca atento para esses detalhes. A história sempre se repete. O taxista amigo meu (o que eu ligo a cobrar), quando estamos a 7 minutos do horário de saída do ônibus e a muitos quilômetros de distância da rodoviária, esforça-se em encontrar a cada corrida um atalho novo para economizar tempo. A certa altura ele olha para mim e pergunta de testa franzida, antecedendo a resposta:
- Você não comprou a passagem, né?
Aí ele me joga o próprio celular para eu pedir ao cara da empresa de ônibus para adiantar o serviço e retirar uma passagem, além de segurar o ônibus.
Dessa vez eu quis garantir lugar. Comprei cinco dias antes, praticamente um desafio à lógica racional das coisas de Tatiana. Às 8h de sexta, diante da dura realidade do ônibus que se fora sem mim, tudo que eu pensava era: Lasqueira, perdi o dinheiro. Tentei argumentar, na cama ainda, pelo telefone, com o pessoal da empresa de ônibus, que me respondeu que eu deveria ligar depois, para falar com o gerente. Era contra as regras, mas vai que dava para transferir sem ônus? Só eu poderia saber, ligando mais tarde.
Resolvi checar se dava ao vivo. Cheguei uma hora antes do próximo ônibus que tinha vagas. Apareci na rodoviária com a malinha na mão e a cara mais lavada do mundo. O atendente olhou para mim e depois de duas palavras minhas ele apontou para um cara de camisa listrada. O gerente.
- Moça, já te explicaram hoje de manhã. Você explicou, né? - E o atendente balançou a cabeça positivamente – Não dá mesmo.
- Mas não tem como?
- A sua poltrona foi vazia hoje cedo – disse, rápido e rasteiro.
- Mas em muitas viagens, inúmeros lugares vão vazios.
- Eu sei, mas não no feriado. Alguém não pôde ir, porque você comprou uma passagem e não a utilizou.
Notei que ele queria me comover, apontar minha enorme culpa, tão grande culpa.
- Mas é injusto eu comprar outra passagem – tentei a cara de vítima, nível 5.
- Sim, mas é que a gente não tem culpa. O ônibus estava aqui no horário para o qual você comprou. Você que se atrasou.
- Não tem jeito mesmo? Nenhum? – e nessa hora, como diria meu pai: o truque da cabeça para o lado. Segundo ele, é só eu baixar a cabeça para o lado, em direção ao ombro, que eu consigo tudo o que quero. Tiro e queda.
O gerente me olhou e torceu a boca. Meu último argumento, na bala da agulha, era: Moço, veja bem... É Páscoa! Não precisou.
- Ta bom, vou quebrar essa.
- Muito obrigada, moço! Essa foi a primeira e última vez que vou perder um ônibus!

Talvez minha família tenha razão.

Comentários

Michele Matos disse…
Ai que bom! Fiquei com dó só de imaginar a cabeça para o lado...
Eu teria desistido, não sei argumentar muito nessas horas, se eu tivesse feito publicidade quem sabe eu conseguiria...
=)
Graci Polak disse…
Cara de pau! Muito cara de pau!

Hauahuaaha!!

Adorei!
O melhor argumento ainda seria: Moço, é páscoa!
Se fosse eu, seria o primeiro que teria usado!!!

Que bom que deu tudo certo!!!
Quando quiser ligar 9090 eu atendo também..
é de praxe!!!

Beijos flor e uma feliz e abençoada pascoa pra ti e pro papai noel!

P.s:
Lembrei de você agora pouco quando falei pra uma amigo brincando:

"Que o papai noel lhe traga muitos ovos!!"
hoho.
Não Enviadas disse…
Me ensina?

Eu sempre desisto na primeira negativa. Ou nem tento.

Beijos, Tati.
Rita disse…
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Acho que vc roubou essa história de mim...
Certo dia cheguei 10 min adiantada, ninguém acreditou, confesso que nem eu!
Tarini disse…
Acordo às 8 horas assustada com meu celular, levando correndo porque tenho que arrumar minhas malas. E fico indignada porque a Tati foi sem me dar tchau, mesmos combinando, que ela me acordaria. Só que quando olho em cima da mesa a bolsa dela...
Desloco-me ate o quarto quem esta dormindo?
Quem??
A própria...
Pergunto:
-Tati você num vai embora?
-Vo sim.
-Mais Tati já é 8h

hahaha
Mto bom...
Mas deu dozinha!!
.lucas guedes disse…
haha,

cara de pau nível 10 !

:-)
ola gostei de seu blog parabens quando der visite o meu www.palavrasarteblablabla.blogspot.com
Haha. Mas empresa de ônibus é sacana tbm. Quando o ônibus atrasa um tempão, tipo uns 30 minutos, eles não colocam um extra, para vc chegar ao destino no horário. Ficam falando que não é culpa deles o atraso, deve ter acontecido algo na estrada. Enfim, aconteceu algo com você tbm, um acidente de percurso, haha, nada mais justo.
:)
Tati, só você nessa vida. Tô aqui me acabando de rir!!!
E olha que eu sou perita em perder ônibus, heim?!
Aaah, se não fosse o tio Miro (no meu caso!)...
E eu tb nunca, em hipótese nenhuma, compro passagens antes...
hehehehe

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