Constantemente de partida

- Odeio despedidas.
- E o pior, Tati, é que a gente tá sempre nessa de estar partindo.

Isso dizia muito. Ainda mais porque a frase era proferida em uma rodoviária, ponto de partida, em todo sentido dúbio dessa palavra. Nos nossos reencontros sempre recomeça um pedacinho do mosaico da nossa amizade. Ao partirmos, separadas, sempre fica um nó na garganta, pela falta que sobra, sem saber quanto tempo vai demorar para que um novo encontro aconteça. É assim que tudo parte da rodoviária e como num círculo sempre termina nas plataformas dos ônibus, com as passagens na mão. Há dois anos nos conhecemos, mas nunca moramos no mesmo lugar. Nossa amizade sempre foi assim, de passagem.
É na rodoviária que geralmente vem o abraço apertado, do reencontro após tempos sem vê-la. Mesmo assim, é como se compartilhássemos toda uma vida. É como se ela soubesse dos meus temores de criança, como se ela tivesse impressa em mim, muito mais que a mescla de lembranças que guardamos no nosso álbum comum de fotografias.
No desespero do que é para ontem, no vazio de uma imensidão de vida pela frente, a qual a gente não sabe ao certo como manejar. Na vontade de ter um surto psicótico, no querer ao outro sem se doar, na tentativa de decifrar as mensagens cifradas que nos chegam, no papel desempenhado por nós mesmas que não queremos mais sustentar diante dos outros.
Tudo isso é muito comum, em se tratando de nós duas. Arrisco. Pode ser que, acima da amizade pingada, tudo em nossas vidas também carregue um quê de efemeridade. Tudo é meio suspenso, meio incompleto, meio, diria até, superficial.
A convivência nunca foi intensa e deve ser por isso que eu tenho medo de perder minha grande amiga, porque dela eu não sei tudo, mas nem é preciso. Porque sempre um pedaço dela irá me faltar. Mas encontrá-la de passagem é remédio homeopático para minhas dores, para aquela alegria abafada, para me ver refletida nela como a gente se reconhece em um espelho, mas um reflexo multifacetado, um caleidoscópio, porque são muitos retalhos e muitos os recortes misturados. São eles que juntos fazem sentido. São eles que fazem de nós duas uma dupla inseparável.
Tenho certeza, amiga, de que é para a vida toda.

Comentários

Tiozaum disse…
Ninguém gosta de despedidas né?

Sempre parece q um pedaço da gente vai embora junto... e de fato vai (ou fica, conforme a ocasião hehe).

Não é fácil, mas a gente tem q lidar com isso de alguma forma.
Espero q pra vc nao seja tao dolorido assim, e q vc possa voltar a ver sua amiga o mais breve possivel. :)

E lembre q pode contar comigo se precisar de algo :)

Beijo!
Não Enviadas disse…
Odeio despedidas, sobretudo aquelas que eu sei que são pra sempre.
Minha mãe sempre me dizia que se eu chegasse à idade dela apenas com um amigo verdadeiro, eu já poderia me considerar uma pessoa rica.
Então comemore sua fortuna, milionária! ;)

CamilaRufine
Jenny disse…
Lindo! Minha vida ultimamente se resume nessas indas e vindas, e toda vez um pedaco de mim vai embora junto, bom seria se fosse só na rodoviária e não no aeroporto....:)
Finito Carneiro disse…
Por mais sofrível que pareça, saudade é um bem enorme, que nos faz perceber o quanto somos amados e podemos amar.
O millôr fernandes disse "como são admiráveis as pessoas a quem não conhecemos bem". hehe. E o bom é que não conhecemos bem nem a nós mesmos. Gostei do texto. Ah, eu tenho orkut sim, mas nem uso mto não. Vou tentar achar vc lá! :D
Joyce disse…
Minha madrinha mora em outro estado. Toda vez que ela vem nos visitar é aquela festa. Mas quando ela vai embora é um chororo!
Odeio despedidas!!!
Obrigada pela visita!
Beijos
Michele Matos disse…
Dizem que uma amizade não dura mais de 5 anos... a maioria não dura mesmo, mas há excessões...
despedidas podem ser evitadas...
eu evito...
=**

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