Mão abanando ou burocráticas sagas

Deixo bem claro a mim mesma que não sou daqui. Que aqui vivo só de passagem. Não pertenço a esse lugar e tudo que me faz fincar as raízes nesse chão me assusta. Decorei alguns caminhos, conheço muita gente, arrumei trabalho, mas ao menor sinal de que ficarei aqui, como tenho ficado, há seis anos, traz uma sensação de desespero. Não, essa estrada que passa rente dessa cidade é muito longa e ela me levará algum dia, sei que sim, para um lugar bem longe. E não apenas de passagem. E não apenas para voltar no inevitável domingo à noite.
O mau humor é explicado pelas últimas noites de (pouco) sono, por causa de confraternizações diversas madrugadas adentro. A última me deixou de lembrança duas horas de sono mal dormidas, um desejo de não ter fígado e a sensação de que tudo anda conspirando contra o meu ser.
Eu deveria ter desconfiado que o dia não poderia ter começado melhor quando levei fumo do cobrador de ônibus porque só tinha uma nota de R$ 50. O vivente teve a capacidade de me dizer que se não achasse troco no terminal, eu teria de ficar esperando até ele encontrar. Já me imaginei ligando para minha chefe e dizendo que não poderia sair do terminal por causa de R$ 47,80, numa versão pobre e nada glamourosa do filme O Terminal, com a diferença que eu compartilhava a mesma língua das pessoas em volta. Fiz uma cara de poucos amigos, olhei atravessado e o cobrador acabou me tratando como se ele tivesse cometido um erro grave.
Mais tarde, descobri que não se tratava de impressão a história do dia péssimo. Catei o suadinho dinheirinho que meu pai me mandou para dar entrada na carteira de motorista. Sim, porque ter 23 anos na cara sem poder pegar o carro do pai pra comprar pão é privilégio de poucos. Porque na real eu gosto de andar de ônibus e encarar cobrador fulo da vida sem troco logo cedo. É, bem isso.
Lá fui eu para a autoescola, torcendo para ter o CPF na carteira, porque eu sou campeã em ficar horas na fila para perceber, cabeça fervilhando, que esqueci o fundamental para dar cabo ao que fora fazer ali.
Resumo da ópera, estava com a identidade e o CPF bonitinhos até que ouvi o outro documento necessário. Aquele, que sempre me agarra, passa uma corda em volta das minhas mãos com nó de escoteiro grau de dificuldade nemomestresabedesamarrar e me deixa assim, de mãos atadas (e depois abanando).
- (leia-se em slow motion, voz idem) M-O-Ç-A, O C-O-M-P-R-O-V-A-N-T-E D-E E-N-D-E-R-E-Ç-O-O-O-O.
Isso sempre me destrói. Só Deus sabe o quanto eu já sofri por não conseguir dar entrada em papéis no banco, no trabalho, em setores diversos, porque eu sou praticamente uma clandestina aqui. Parece que sou imigrante em situação ilegal. Eu poderia ir embora que seria como se nunca tivesse existido sobre essa terra de lobos bravos.
- Sem o comprovante, não dá - Disse o cara, com uma cara de “que dó, perdi uma comissão”.
- Eu tenho uma conta de luz. Mas não está no meu nome, é da proprietária do apartamento. (Já vou logo adiantando a história porque conheço todos os entraves).
- Não, o Detran não aceita.
- E o contrato do aluguel? Está no meu nome (bradei como quem dá a cartada final).
- Está registrado em cartório? Porque o Detran só aceita... espera aí, eu tenho isso em algum lugar, ah sim. Só aceita contrato de aluguel para comprovar endereço devidamente re-gis-tra-do em car-tó-rio. (Sim, ele ia silabando e seguindo com o dedinho o que estava escrito em um papel encadernado.
- Quanto custa para registrar... (essa bosta, era minha vontade de completar)?
- Uns R$ 100. Não vale a pena.
- (Cara de serááá que não vale?)
- Nenhum banco te manda correspondência? Qualquer uma serve. O Detran autoriza com carta expedida por órgão oficial até 90 dias antes de você dar entrada na carteira. De banco, da prefeitura... Fatura do cartão, nada?
- Moço, minha conta é da minha cidade. Fiz quando vim morar para cá. E acabei de notar que não sou importante, porque a prefeitura nunca me mandou uma carta.
- Ah, mas você faz faculdade, né? Olha, aqui, o Detran aceita comprovante de matrícula.
- Já me formei.
- E pós?
- Ah, até pós eu já terminei.
- E título de eleitor, moça?
- Não é daqui. É da cidade onde eu morava antes.
- Há quanto tempo você disse que mora aqui?
- Não disse. Seis anos (tentei ignorar a cara de “por que você não transferiu essa porcaria de título então, criatura?”)
- Tente transferir. Título o Detran aceita.
- Nisso, entra um velhinho e se mete na conversa. “Porque não sei o quê, não sei que lá, é rapidinho para transferir. Você é de onde? Ihhh, Santa Catarina? Lá a carteira custa uns R$ 1.200, ihhh vai sofrer pra tirar lá”.
Minha vontade era perguntar se aquele ancião não tinha nada para fazer além de me importunar. “Olha, vô, fiquei sabendo que tem vacina da gripe de graça ali na esquina. Vai lá, vai”.
- Moço, me diz que o Detran pensou em pessoas como eu e tem outro jeito, diz?
- Carteira de trabalho? Se a empresa for daqui, tudo cierto.
- Não, a empresa está registrada em outra cidade.
- Ah, mas aí o Detran não aceita.
Nessa hora eu já estava com raiva de ele estar tratando o Detran como se fosse uma entidade. Uma entidade infernal, que não aceita nada. O Detran não tem uma face boa?
Quando o cara ameaçou pegar o papel para me mostrar o que era ne-ces-sá-rio eu falei:
- Então tá bom, moço. Vou tentar transferir o título. Se não der, transfiro a conta de luz para meu nome. Se ainda não der, vou lá na Caixa Econômica implorar para eles me mandarem um cartão de Dia das Mães pelo Correio.

Quem sabe o Detran não aceita se eu levar fotos minhas desde 2003, quando me mudei para essa cidade? Tenho umas no Lago, na Lagoa, em pontos turísticos diversos, enfim. Mas aí o Detran pode alegar que eu sou turista, né? Posso responder um questionário sobre conhecimentos gerais relativos a Guarapuava. Aposto que acerto tudo. Posso até procurar na polícia, tem um BO em meu nome de uma festa que eu dei e os vizinhos reclamaram. Será que o grande olho que tudo vê e quase nada aceita do Detran acredita que eu moro aqui há seis anos?
No próximo dia útil vou fazer tudo de uma vez. Vou transferir o título, passar a conta de luz para o meu nome, tentar fazer a Caixa Econômica me eleger a cliente do ano e me mandar uma cartinha de congratulações. Quem sabe um dia eu não ganho uma placa de cidadã honorária? Será que o Detran reconhece e me deixa dirigir em suas nobres ruas?

9 comentários:

Raquel Britzke at: 20 de abril de 2009 21:42 disse...

Tati muito bacana a maneira como você escreve, lembra a Tati Bernardi.
Parabéns!!

{ Não Enviadas } at: 21 de abril de 2009 06:46 disse...

Tati! Você também só tá tirando a carteira agora? Comecei as aulas práticas semana passada. Nunca dirigi. Pensa na tragédia. Acho que o instrutor pensa que sou uma agente secreta inspecionando a paciência dele. E não sou.
Eu ia tirar a carta aí em Gpva e não pude pelo mesmo motivo... Até aqui na minha cidade deu um monte de rolo. Espero que seu entrave durante o processo todo seja apenas esse ;)

Beijos!

{ Tiozaum } at: 21 de abril de 2009 06:59 disse...

Essa burocracia no Brasil é uma droga. Não basta vc mostrar que conhece as leis de trânsito e sabe dirigir. Vc precisa mostrar o documento que comprova o endereço do pai do padrinho do tio do irmão do seu vizinho.

Fazer oq né? ehehe

{ Mauricio Toczek } at: 21 de abril de 2009 12:54 disse...

hahah.. eterna estrangeira.

Muito bom :)

Klaus at: 21 de abril de 2009 20:56 disse...

Hahaha! Digo, não tem graça, né? Sabe o que eu acho de tudo isso: que o Detran está certo! Como pode uma entidade tão séria e disciplinada no atendimento aos seus interessados aceitar que alguém que não deixa os outros dormirem dirigir no trânsito?! Vc sabia que sono causa acidentes?hahaha
Como vc escreveu muito (bem), eis minha vingança em forma de comentário comprido! Beijos eterna estranjeira em Gorpa City!

{ Michele Matos } at: 22 de abril de 2009 06:43 disse...

Desculpa eu ter rido, mas ri da sua lastimável situação.
Faça um cartão de crédito que tudo se resolverá, a não ser os gastos, cartão gera impulsividade, não é de Deus.

{ Graci Polak } at: 22 de abril de 2009 08:35 disse...

Tati, eu consegui com a assinatura do meu colega e o comprovante de endereço dele. Foi só ir no cartório e autenticar a certidão que dizia que eu morava com ele. Falso, eu sei, mas válido. Vai que funciona contigo!

Sortes! vai precisar para fazer os papéis e para as aulas, hehe...

E desculpa, ri muito com o texto

=)

Marina at: 22 de abril de 2009 19:18 disse...

Por sorte a entidade infernal ainda aceita Atestado de Matrícula. eurimuito

{ Contos de Fada? } at: 25 de julho de 2009 19:57 disse...

Quando vim morar em Santa Catarina, pedi telefone para a BRT e tudo bem, instalaram e tals. Aí, um belo dia, kd a linha? Faltava o comprovante de residência... mas ai me explica: eles instalaram o telefone na minha residência ou numa árvore?ahahhaha... Grande abraço!

 

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