A um passo da perfeição

Sou uma revisora. Tentei explicar isso para minha companheira de apartamento, 18, não muito adepta a leituras. “É assim. A matéria vem, eu leio no computador. Aí mando para a diagramação. A página volta diagramada para mim, impressa, e eu corrijo-a novamente. Entendeu?” “Ai, que chato. Então você tem que ler o jornal inteiro duas vezes?”. Respondi que sim. Fiquei com vontade de acrescentar: Não é chato, mas é uma profissão meio ingrata. A uma revisora é exigida a perfeição. Embora todo mundo seja passível de erros, embora errar seja humano, embora ninguém seja perfeito – como a gente escuta à boca miúda – uma revisora não pode errar. Ela é a última chance. Ela confere. Ela revisa. Ela descobre que os olhos são traiçoeiros. E a gramática mais ainda.
Já engoli broncas a seco porque deixei passar coisas escabrosas. Pior que qualquer bronca, é a raiva de si mesma, pelo erro escroto. Mas Senhor dos Passos, não estava assim a hora que eu vi, tenho certeza que não. Contudo, está lá, a prévia, a prova irrefutável da sua derrota, com aquela palavrinha bandida escrita erroneamente.
Não era ronking, filha de Deus. Era ranking. E no título ainda. Como que pode? Um w intrometido que apareceu grudado em uma palavra, sem nenhuma razão de estar ali. Olhos, olhos, por que me abandonaram? Crases sem sentido, créditos trocados, erros, erros, infinitas falhas. Algumas consegui captar antes que a página fosse embora, antes do irremediável Ok. E respirei aliviada: Cristo, graças que eu vi. Já achei “empresas locas” ao invés de locais. Quem ia explicar que não se tratava de uma insanidade coletiva do empresariado? Mesmo assim, revisora anta, faltaria um u.
Confesso, acho que melhorei. Meu coração ainda acelera quando eu entro na sala logo cedo. Se em cinco segundos lá dentro não ouço nada, ufa, deu tudo certo. Passei por mais essa prova. Um desafio diário. Literalmente. Mas confesso, ainda folheio o jornal com o coração disparado.
O pior é a chatice. Toda revisora é chata ou ainda vai ser. Leio um texto qualquer e se identifico um erro, aquilo me incomoda. Juro que tenho medo de virar neurótica. Não, não cheguei ao ponto de imaginar o acento do européia (que não existe mais, porque agora, com a reforma, é europeia) correndo atrás de mim. Mas ao ler alguns erros aquilo fica me cutucando, como se só fosse parar se eu canetiasse (neologismo) com a bic azul uma flechinha puxando para o termo correto, ou uma bolinha em cima do que está sobrando.
Tem muita gente que não imagina que haja revisores em jornais. Devem pressupor que os textos nascem por conta, sem nem mesmo repórteres e são teletransportados magicamente para as páginas, sem diagramadores, e estas são levadas magicamente para as máquinas e assim, tchanammm, o jornal nasce. Ou há os que sabem, dãr, da existência dos repórteres, dos editores, dos diagramadores, dos operadores das rotativas, mas esquecem dos pobres revisores. Uma corja mesmo relegada ao esquecimento. Se deu tudo certo, não fez mais que sua obrigação. Parece a minha mãe falando quando eu me gabava de ter tirado a maior nota da sala em Matemática. “Mas mãe, matemática é difícil”. “A única coisa que você faz é estudar, menina. Então que faça bem feito”. Bem feito rima com perfeito? Acrescente aí sem erros, sem gorduras, sem espaço sobrando, sem ambiguidades, com créditos, tudo padronizado, com nomes corretos, diagramação redondinha, interessante, texto gramaticalmente correto, esteticamente bem colocado. "Está ouvindo, revisora?" "Ah, estou anotando". Esqueci. Tem que ser ágil também.

*Se alguém encontrar erro de qualquer espécie, entre em contato. Revisar o próprio texto é desafiar a capacidade de detecção dos meus olhos miúdos.

12 comentários:

{ Tiozaum } at: 22 de abril de 2009 18:37 disse...

Eu revisor tb. Não é assim tão crítico qto o seu, mas sou bastante cobrado por isso. Eu não gosto mto. É chato e os caras ficam me chingando qdo começo a soltar as revisões ahahaha... fazer oq? Meu chefe fica exigindo q eu faça :P

Beijo

Kaluss at: 22 de abril de 2009 18:52 disse...

Naõ sei para que o exitsem os revizores se, tods escrverem tudo, serto cempre. Cem vigrulas e, lurgares erados ou letra sobranso. Coizas que qulquer un ve de lonje!!! mais memo assim fiqei com do de vosse! Deculpa a nosssa falia!

Marina at: 22 de abril de 2009 19:02 disse...

Poxa vida, eu queria ser SUPER original, mas a pessoa aqui de cima comentou do jeito que eu pretendia... =(
Enfim, bom saber do seu trabalho, nunca mais te escrevo nada, tenho medo, sempre tive!

{ João } at: 22 de abril de 2009 19:03 disse...

Muito bom o texto.
Realmente se esquecem desse operário (literalmente) das redações.
Após ler o texto do blog do Paulo Henrique Amorin citando os erros da Folha de S. Paulo, nada melhor do que ter a visão de um revisor propriamente dita.
P.S.: Vai o primeiro comentário de um leitor assíduo, Tati.
bjo

{ Peripécias da Cáh. } at: 22 de abril de 2009 20:30 disse...

Que triste Tati...você lê os jornais duas vezes!! heheh
Eu não sabia que era você que revisava as amareladas páginas dos jornais que chegam aqui em casa e que quase não dá tempo de eu ler..
=**

{ Michele Matos } at: 22 de abril de 2009 20:49 disse...

Mas afinal o que você faz lá?
hehe
Mentiraaaa!
Eu gosto de português corretinho, mas tenho problemas com crase e hífen.
Meus próprios erros me dão uma angústia sem tamanho!!! Dos outros também.

{ Graci Polak } at: 23 de abril de 2009 11:07 disse...

Eu acredito que ser revisora é ainda pior do que ser jornalista, hehe...

Adoro encontrar erros em jornais e confirmar que`ne sempre precisa estar certinho, sempre, rsrs...

Vou te levar uns presentes aqui do Planalto Norte catarinense quando for para Guarapuava, mas quero estar perto para ver os espamos.

Amei o texto, revisora. Ai, ai... Será que escrevi algo errado?

BjooO

{ siguilita } at: 23 de abril de 2009 12:15 disse...

Otimo texto... me condoeu..Entendo sua afliçao, mas saiba q agora sou aflita tambem aos aber de seus olhinhos miudos lendo o q escrevo... hahaha
bjaum

{ Não Enviadas } at: 24 de abril de 2009 05:58 disse...

Eu odeio revisar. No Ágora, famigerado Ágora, desempenhei essa função algumas vezes. Mas confesso que não uso virgulas certas, não sei explicar a regra da crase... é tudo meio instintivo... e o instinto erra também.
Admiro quem sabe as regrinhas - e excessões - da língua Portuguesa, uma das mais, se não a mais, difíceis linguas do cosmo. ;)

Adoro seus textos.

CamilaRufine

{ Raquel Farias } at: 24 de abril de 2009 13:32 disse...

Menina, nunca que daria certo como revisora. Não só pela falta de conhecimentos, como pela total ausência de atenção.

Realmente, ao menos eu, nunca pensei no revisor de um jornal.

{ Scheyla Joanne Horst } at: 24 de abril de 2009 16:32 disse...

Acho que a primeira leitura, no computador ainda, é meio inútil. Só quando está impresso é que eu consigo ver as falhas drásticas, hehe.
Ah, aliás, já viu esse livro? http://publifolha.folha.com.br/catalogo/livros/145210/

{ Green Womyn } at: 17 de janeiro de 2013 02:14 disse...

Já que você pediu, tem um "porque" junto no seu texto que deveria ser separado (rs).

Sim, revisores são chatos. E eu sou uma delas. Hahahahaha!

 

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