Comadre

Há um dia em que os sinais aparecem. Como um alerta. Pisca uma luzinha vermelha como se algo estivesse prestes a explodir na sua cabeça caso você não note o aviso. Um desses sinais me diz que estou envelhecendo.
Não há rugas, não tenho doenças que surgem com a velhice. Tenho apenas a incrível sensação de estar passando. Não há mais pique para fazer festa três dias seguidos. Algumas brincadeirinhas tornam-se inoportunas. Pago as próprias contas e pedir dinheiro em casa nem me passa pela cabeça, de tão ridículo. Venho me tornando amiga de pessoas mais velhas, casais, gente estável. Os papos são outros. As prioridades são outras.
Tudo isso são apenas pequenos sinais, melhores notados depois que um pisca-alerta mor me surgiu nas últimas semanas. Uma das minhas melhores amigas anunciou que vai casar. De repente, os amigos não mais ficam e namoram. Não se queixam de briguinhas, não estão à caça de alguém. Eles estão colocando alianças douradas nos dedos, planejando uma vida em comum e escolhendo móveis.
Ora, o casamento não é algo tão dramático assim. Todo mundo casa, é a lógica natural da vida. Não a da minha vida, mas isso é outro post. Casamento é um evento super corriqueiro, já fui a dezenas. É claro que a festa dispendiosa, o tom profético do padre e o vestido escalafobético da noiva, varrendo tudo com seus cinco quilos de pano branco, imprimem mais grandiosidade ao esquema. Mas, em geral, não me abalo. A não ser com a típica leitura de Coríntios, que faz meus olhos marejarem.
Tudo muda de figura quando a futura noiva fez parte da sua história. E demora um tempo para a ficha cair que aquela garota cujas histórias de adolescência se mesclam com as minhas memórias está prestes a ser uma senhora casada, com sua própria casa e sua própria família. Isso muda muita coisa. Até então, como eu, ela apenas era integrante de uma.
Aquela mesma menina que bebeu um garrafão de vinho comigo, enquanto uma terceira amiga beijava outro alguém lá fora, e depois de sorver os cinco litros tentou jogar uma partida de baralho, mesmo sem que a gente conseguisse diferenciar o copas do ouro. Ou aquela que me acompanhou ensimesmada para o velório de um parente de uma amiga nossa e, a uma quadra da capela, dividiu comigo um insuportável ataque de riso, que nos fez ficar paradas por horas até as gargalhadas de nervosismo terem fim.
A mesma menina a quem um dia perguntei se iria casar e, namorando pela segunda vez, disse que sentia que se iria se casar com o terceiro. O terceiro chegou. E esperará minha amiga no altar. E eu serei uma das que antecipará sua chegada. Com lágrimas nos olhos, talvez, antes mesmo da leitura do Coríntios. Pela alegria de constatar alegria da vida nova em um pedaço de partida, porque casar é sempre partir. E no partir sempre reside um bocadinho de tristeza e de saudade.

10 comentários:

{ Tiozaum } at: 10 de maio de 2009 17:25 disse...

Eu conheço essa sensação... dá uma tristeza ehehe

{ Mauricio Toczek } at: 11 de maio de 2009 08:12 disse...

Também conheço essa sensação. Uma parente minha que praticamente cresceu junto comigo tbm vai casar em janeiro. Tá, vai demorar ainda, mas mesmo assim é parecido. :)

Abrações

gingfinv

{ Klaus } at: 11 de maio de 2009 16:02 disse...

Bom, a única amiga que vi casar não era tão amiga assim, então dei até graças! Mas sobre a sensação de estar envelhecendo, tenha em mim um compartilhador desse mal. Na verdade sempre o teremos, mas parece que fomos acometidos pela crise dos 25, ou dos 24, 23... Basta olhar pra quem tem 30 e ver como somos jovens ainda, jovens ainda, e um dia velhos seremos, velhos seremos (como diria o Chaves)...hahahaha Como diria o poeta: você sempre estará subindo, então não olhe para baixo.

{ Paulinha Fernandes } at: 15 de maio de 2009 16:53 disse...

Tati, mto obrigada por ligar o meu pisca-alerta! humpf!
(lindo, pra variar!)

{ A.V. } at: 15 de maio de 2009 18:23 disse...

Lindo, como sempre...
Mas depois você descobre que as pessoas não partem porque se casam... Elas permanecem lá, bem perto, querendo trocar as mesmas confissões da adolescência, compartilhar alegrias e histórias... Elas criam famílias, mas continuam tão nossas...
A minha já está ficando beeem grande, mas os laços que eu atei pela vida nunca vou poder desfazer. Você já é um deles, uma amiga querida que me faz aprender e amadurecer sempre. Beijooo.

{ Diangela } at: 16 de maio de 2009 21:02 disse...

Que coisa ;~~

Vanessa at: 18 de maio de 2009 13:35 disse...

Oi, amor!
Faz tempo que li, mas não tinha comentado!
Nossa, não achei que isso tivesse te tocado tanto!
:)
Mas ainda não sei qdo vai ser mesmo o casório então... o convite fica em haver!
Hehehe.
Amo vc!
Beijos.

{ Michele Matos } at: 19 de maio de 2009 17:07 disse...

Eu não estou preparada pra ver uma amiga casar não, posso entrar em parafusos mesmo.
Mas deve ser emocionante, ver a amiga casar...ah, e casar tbem deve ser emocionante...hauhauahua

{ Vivi } at: 19 de maio de 2009 17:15 disse...

Nossaaaa...Tati vc me surpreende e emociona mtoooo!!! Achei lindoooooo o q vc escreveu!!!! Parabéns mesmooo...e q coisa a nossa amiga casandoooo, sinto a mesma sensação q vc!!!! Bjossss

.lucas at: 20 de maio de 2009 14:38 disse...

me manda um email, quero te chamar pra um blog coletivo. bjs. lucaspguedes@hotmail.com

 

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