Pular para o conteúdo principal

Histórias

Quando me perguntam por que quis ser jornalista, sempre respondo que me fascina contar histórias. Por que não foi ser escritora, então? Falta-me talento.
O fato é que, desde criança, as histórias sempre me rondaram. Não sei quem me ensinou a gostar delas. Dizem que as crianças leem quando são estimuladas e, claro, quando o exemplo vem de casa. O mais perto que tive de “uma casa de leitores” foi a livraria que meu pai abriu quando eu tinha uns dois anos. Mas, em uma cidade pequena, os livros não dão lucros. Constatado isso, meu pai, um mestre no mercado, transformou o local em uma livraria/loja de bugigangas e mais tarde em uma livraria/loja de bugigangas/mercearia. Meu irmão, com sete anos, era obrigado a vender alfaces, chuchus e outras leguminosas em frente do estabelecimento. Ele, que não herdou o tino comercial do meu pai, (como nenhum dos três filhos) vendia tudo a preço de banana e saía correndo brincar.
Não tenho lembranças dessa época, mas ganhei de herança da livraria (fechada tempos depois) uma vasta coleção de livros infantis. Sozinha, conheci a história dos três porquinhos, da pequena vendedora de fósforos e do príncipe que buscava uma princesa ao redor do mundo. Dessa história eu não lembro o título, mas guardo bem o encontro dele com a princesa, que se refugiou no castelo por causa de uma forte chuva. O rapaz descobriu que era ela a escolhida porque a moça tinha a pele tão delicada que foi capaz de sentir dois grãos de ervilha embaixo de dois colchões na cama onde passou a noite. Eu não acreditava que isso fosse possível, e duvidei que alguém escolhesse esposa assim, mas nesse momento, mal sabia eu, descobria do que é capaz a imaginação e tudo que faz parte dela.
Lendas são histórias contadas para explicar o inexplicável. Mitos são criados para dar conta de macroideias. Histórias são pedaços de vida imortalizados em palavras (faladas ou impressas), capazes de transpor barreiras. Já disse que na minha família a leitura nunca foi o forte. Vi meu pai lendo livros raramente. Mas os exemplos não foram necessários, porque, além dos livrinhos infantis, meus pais me deram de presente o hábito da contação de histórias. Meu pai não imaginava que, ao voltar do Paraguai, para onde ele ia três vezes por semana, seus relatos fervilhavam minha cabeça e, ao viajar para aquele país somente anos depois, eu já havia estado lá. Minha mãe não deve supor que foram as histórias contadas sobre sua infância em Pernambuco que incutiram em mim o desejo de conhecer outras realidades, de saber bem mais do que a pacata cidadezinha tinha a me oferecer. Não sei se os dois têm consciência disso, mas no fundo eles sabem que, criando-me com histórias, eles educaram uma pessoa que não pretende fincar raízes nem se fechar em um mundinho predestinado.
Como disse, a literatura, que nasceu da tradição oral, transporta. E das lembranças que trago, descubro que apenas em poucos momentos eu deixei de viver em outros mundos. Quase sempre, eu estava longe das minhas barreiras. Quando pequena, transpus as grades da vida pouco emocionante que me circundava e passei a construir eu mesma a realidade. Tive uma amiga imaginária, para quem tudo era possível. Deixei de brincar para ler livros, aos montes, e deixei de me prender tão somente ao real para imaginar o que outros imaginaram (e publicaram).
Minha vida de leitora era menos frustrante quando eu achava que só existia a Barsa e a Coleção Vagalume na face da terra. Como a primeira só servia para fazer trabalhos escolares, li o que pude da segunda. E, junto com as narrativas da borboleta Atíria, da Pimpa, dos meninos da barreira do inferno, eu ampliei não só minha percepção, mas a lista de projetos de leitura. Ainda guardo a pretensão de ler todos os livros do mundo.
Não tenho uma intimidade tão grande com imagens ou melodias do que com as palavras. Meu intelecto nunca foi capaz de apreciar decentemente um quadro, uma fotografia ou uma música como sou capaz de desfrutar um livro. As páginas me arrebatam, a história me domina. Antes de pegar um volume, sinto um certo receio. Temo gostar da história antes mesmo de começá-la e, antes mesmo de conhecê-la, sinto dor de ter que terminá-la. Quando a leitura começa, quase sempre paro em um determinado ponto e tenho de recomeçar. E aí tudo flui, pois eu absorvo aquelas palavras como se fosse um outro mundo fazendo parte de mim. Em algum momento, a distância entre o polegar e o indicador direitos fica menor e eu sinto que o livro está chegando ao fim. Arrasto a leitura, saboreio as palavras, porque comumente me sinto sozinha depois de terminada uma obra. É como se os personagens, os cenários, tudo, tudo morresse ali, abandonando-me sem dó nem piedade no espaço em branco da última página. E como recomeçar outro livro para mim é trair o anterior, minha fidelidade é mantida lendo vários livros do mesmo autor, para um dia discretamente partir para outro.
Para quem é leitor, as sensações diante de um livro e a relação com a literatura fazem parte de um mistério infindável. E eu não sei como definir bem ou defender porque a leitura me fascina tanto. Para explicar porque Cem Anos de Solidão é meu livro preferido, precisaria de mais tempo do que Marquez teve para escrevê-lo. Mas nisso está a noção de ciclo, presente em toda a narrativa. Para permanecer nessa ideia, termino dizendo apenas que sou jornalista porque gosto de contar histórias. Gosto de contar histórias porque me gusta conhecer histórias. E gosto de conhecer histórias porque há muitas delas esperando para serem contadas, apesar de quase ninguém perceber. Infelizmente, algumas narrativas não podem ser vividas. Mas contadas, imagino eu, cada uma daria um clássico, embora se fosse eu a autora da obra não saberia como terminá-la. E uma história inacabada é um drama para qualquer escritor, ainda que se trate de um amador.

 Engenheiros do hawaii - O Exército de um homem só

Comentários

Ainda bem que não leva jeito pra coisa, porque, se levasse, eu ia ter que pagar pra ler os seus textos, né?!
Tati, vc é uma das melhores contadoras de história que eu conheço, sejam elas felizes, tragicas ou engraçadas.
Sério, adoro os dias em que tem texto fresquinho, aqui...
Beijoo
Não Enviadas disse…
É tati... e vai tomar banho... como você escreve bem... uma vez, eu li que se você não sabe o que escrever, é que não tem lido o bastante. Eu ando assim... sem ter o que escrever... mas só ao ter lido o que você escreveu, ganho um pouco de fôlego pra pensar em escrever. Mesmo que eu saiba que, no fundo, tenha sido um engano eu ter feito a faculdade de jornalismo.

;*

CamilaRufine
Cáh. disse…
Sempre tive um apego desenfreado pelos livros também Tati.

Adorei ler o Pequeno Principe.

=*

saudades.
Sempre me assusto com a identificação que crio com os seus textos!!!
Também vivo este caso de amor com as palavras, embora nem sempre as trate como deveria!
É tão bom ver o cuidado com o qual escreve seus textos, como brinca com as palavras...
Amei!
bjs,
Terezinha
João disse…
Lendo seu texto dá vontade de... ler, ler e ler!
Michele Matos disse…
Isso!
Eu vou começar a ler de novo um livro tão bom que parei na metade...
Fiquei com peso na consciência de deixar ele lá me esperando...
=**

É..o Polaco ta bem vivo e independente da educação que ele receba, sempre será assim, Completamente anormal.
hehe tadinho...ele é normalzinho sim.
(Eu sei que ele pode ler isso)
Vanessa disse…
Nossa, vc descreveu bem o que sinto. Estou lendo um livro agora (depois de um tempão sem ler) e estou apaixonadíssima. Com pena de terminar de ler. Exatamente como vc disse. Lembra como nós conversávamos sobre livros? Nossa, era uma febre! Um tempo muito bom. Ler é tudo de bom! E vc vai escrever um best seller um dia! Vc vai ver! E vai ter uma dedicatória pra mim!!!! :) Um beijo!
Eu lembro de uns da Vagalume. Sozinha no mundo, Barcos de papel, Um cadáver ouve rádio, O escaravelho do diabo.hehe.
Muito bom seu texto. :)
Ediane disse…
Isso, Tati, conta suas histórias... e nós lemos sem ter que pagar por elas, como disse a Paula (linda, saudade de você!!). Mas preferia pagar para ler a continuar com a presença de algo que me vem todas as vezes que leio meia dúzia de palavras suas: a sensação de que aqui, entre nós nessa cidade fria, seu talento não está sendo explorado. Vá explorar o mundo, mulher. Vejo grandes coisas perfeitas para você muito além de onde apenas alguns podem perceber. Bjos!! Sou sua fã!

Postagens mais visitadas deste blog

Das esperanças

Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó. Vai passar. E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento. Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia. Diria isso mesmo depois de ter perdido um ou…

O reinado dos Castelões

Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente n…

Prece de inverno

Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão. Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis. O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.
Desejei aquele cuid…